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Curtas

Povo de Xambá em livro que recupera sua resistência

A obra reconta a história de repressão aos terreiros pernambucanos

TEXTO Paula Mascarenhas

01 de Fevereiro de 2019

Foto ELYSANGELA FREITAS/DIVULGAÇÃO

[conteúdo na íntegra | ed. 218 | fevereiro de 2019]

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"Descobriu-se que, na Região dos Montes Adamawa, onde passa o Rio Benué, afluente do Rio Niger (rio de Oyá), onde, atualmente fica Camarões, vizinho da Nigéria, habita um povo com essa denominação, Tchamba." A origem e a perseverança do povo Xambá é uma das valorosas histórias contadas no recém-lançado livro Povo Xambá resiste: 80 anos da repressão aos terreiros em Pernambuco (Cepe Editora, 2018), da jornalista e pesquisadora Marileide Alves.

Tchamba, grafia africana da palavra Xambá, dá nome a um dos povos que fincaram suas raízes e ritos em terras pernambucanas, lutando historicamente para que suas tradições continuassem vivas até hoje. Fundado em 1930, no Recife, o Terreiro Xambá do Portão de Gelo tornou-se o terceiro maior quilombo urbano do Brasil e o único remanescente desse povo na América Latina. Em 2018, recebeu o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco.

Apesar da sua magnitude religiosa, que transformou socialmente o Bairro de São Benedito, subúrbio de Olinda, o povo Xambá sofreu a criminalização das religiões de matriz africana em Pernambuco, repressão intensificada durante o Estado Novo (1937-1945).

A perseguição que impediu o povo negro de exercer sua liberdade religiosa é amplamente documentada no livro Povo Xambá resiste, assim como a reação dos xambazeiros ao fechamento dos terreiros de candomblé e às ações truculentas da polícia. Como estratégia para manter suas tradições e união após a diáspora que os espalhou pelo estado, surgiram diversos movimentos de resistência, como a prática do "xangô rezado baixo", o culto aos orixás às escondidas.

Assim, a partir de depoimentos e pesquisas em registros documentais, a obra consegue recuperar detalhes da história de resistência da Nação Xambá. A origem do terreiro, seus membros e suas conquistas recentes, como o Memorial Severina Paraíso da Silva e o grupo musical Bongar, se entrelaçam à trajetória de luta, fé e liderança de mulheres importantes, como a ialorixá Maria Oyá, fundadora do terreiro, Mãe Biu, que o dirigiu por 54 anos, e Mãe Tila.

Marileide Alves, que é membro do terreiro e convive há quase 15 anos com a comunidade, diz que o livro foi lançado em 2018 para marcar os 80 anos do fechamento dos terreiros em Pernambuco, em 1938. Em entrevista à Continente, a autora destaca que, embora não seja uma data celebrativa, ela não pode ser esquecida: "É uma data histórica que marca o Xambá até hoje, pela luta contra a intolerância religiosa. Deve ser lembrada para que políticas públicas e de reparação ao povo de santo possam ser cobradas".

PAULA MASCARENHAS é graduada em Letras pela UFBA, estudante de Jornalismo pela UFPE e estagiária da Continente.




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