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Edição #156

Dezembro 13

Nesta edição

Luxo

Conta-se que, quando o novo shopping center do Recife estava para inaugurar, os ricos da cidade respiraram aliviados. Ali, eles teriam um lugar “só seu”, em que poderiam circular com garbo, sem ter que dividir espaço com os periféricos, que se tornaram uma “praga” em centros de compras mais populares. Ali, era a promessa, os menos favorecidos se sentiriam constrangidos com todo o fausto, com as marcas internacionais, com os preços inacessíveis. Não seria um lugar para “eles”.

Os ricos foram frustrados. Logo na primeira semana, o shopping foi tomado por um público heterogêneo, “mestiço”, que também estava ávido pelo novo templo, louco por sorver aquela maravilha em concreto, vidro, vitrine e ar-condicionado central – frio, muito frio, para simular melhor a oposição com o calor grudento do espaço externo, por extensão, todo o Recife “natural”.

O luxo agora é de todos, e não adianta bater pezinho. Os itens que serviam à distinção de classe, que erguiam nobres e burgueses (estes, já uns remediados históricos), foram parcelados em 10 vezes, sem juros. E, se o pobre não pode comprar os mesmos itens, ele pode satisfazer seu desejo de ostentação com genéricos e piratas. Ou ninguém por aqui usou um Falsier e um Ching Ling na vida? O desejo de consumo não é exclusivo dos ricos e, isso, a sociedade atual exacerba, escancara. O supérfluo nos redime.

É nesse clima que navega a nossa matéria de capa: na observação desse fenômeno avassalador que é a sociedade de consumo. A reportagem realizada por Carol Leão reúne dados e análises extraordinários. Sim, trata-se de um fenômeno econômico, sobretudo com a estabilização da moeda, os programas sociais, o crescimento do salário mínimo e do emprego formal, que trouxeram melhorias na vida de muitos. Entretanto, o mais perturbador desse fato é que ele não transforma essencialmente os indivíduos, tampouco os aproxima. “Do ponto de vista da relação entre as classes, continuamos vivendo em um dos países mais desiguais do mundo, e não somente em termos de renda, mas de status e de direitos garantidos”, diz à reportagem Maria Eduarda Rocha, especialista em cultura de consumo.

Isso significa que os abismos entre ricos e pobres se mantêm, apesar das aparências, apesar de todos poderem ingressar no mesmo shopping, ainda que em termos bem distintos. Contra os estratagemas de aproximação, os ricos dão um jeitinho: eles compram iates, porque, no alto mar, ainda conseguem a tão ansiada exclusividade.

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