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Curtas

Coquetel Molotov 2021: no ar e presencial

Em sua 18ª edição, o festival retorna a uma de suas primeiras casas, o Teatro Guararapes. Os shows, que apontam novidades da música brasileira, ocorrem dias 13 e 14 deste mês

TEXTO Thaís Schio

12 de Novembro de 2021

Imagem do público na última edição presencial do 'Molotov', em 2019, no Caxangá Golf Clube

Imagem do público na última edição presencial do 'Molotov', em 2019, no Caxangá Golf Clube

Foto Ashlley Melo/Divulgação

[conteúdo exclusivo Continente Online]

No embalo de um momento mais flexível, ainda que – importante destacar – pandêmico, estamos criando coragem para ir além dos bunkers digitais que construímos em nossas casas, (re)conhecendo, aos poucos, os rostos de antigos amigos e as sequelas estruturais, físicas e  psicológicas deixadas por uma mudança drástica na vida como conhecíamos. É neste momento também que lembramos com mais nitidez o motivo pelo qual insistimos tanto em nos comunicar através da arte: somos todos sujeitos coletivos.

Dentro deste tímido movimento de retorno, o No Ar Coquetel Molotov, seguindo as determinações dos órgãos sanitários de Pernambuco, retoma seu formato presencial e, nesta 18ª edição, abre as portas do Teatro Guararapes, no Recife, para receber artistas que, a partir das suas diferenças, apontam para os novos caminhos, diálogos, formatos, ritmos e possibilidades estéticas dentro do cenário da música brasileira – agora que há possibilidade de tornar a escutá-la em grupo e ao vivo.

No palco do Guararapes, mesmo lugar onde, edições atrás, foram dados os primeiros passos do festival, a presença do “mestre musical da afro-baianidade” Mateus Aleluia merece destaque. Baiano do Recôncavo, nascido na cidade de Cachoeira, em 1943, o músico nos ensina a sua paixão pelos caminhos da música afro-brasileira. Cantor, compositor e instrumentista, Mateus Aleluia fez parte do grupo Os Tincoãs, criado no início da década de 1960, em conjunto com os músicos Dadinho e Heraldo, que nos presentearam com Deixa a gira girar e Cordeiro de Nanã, composições até hoje descobertas e redescobertas diariamente por um público de admiradores impossível de catalogar.


Mateus Aleluia é uma das atrações mais aguardadas do sábado (13). Foto: Paola Alfamor/Tenille Bezerra/Divulgação

“Trazendo consigo no cromossoma memória, ou em sua memória Inter temporal, quiçá secular, o entrelaçamento das memórias: indígena, europeia, africana”, Mateus Aleluia, como relata em seu site, aprofundou a conexão que estabelecia com a África quando passou a residir na Angola, trabalhando como pesquisador cultural entre 1983 até 2002, momento de retorno ao Brasil. Essa experiência desemboca, anos depois, no lançamento dos álbuns solo Cinco sentidos, de 2010, Fogueira doce, de 2017, e o mais recente Olorum, de 2020.

Não por acaso, quem dá sequência à programação logo após o show de Mateus Aleluia é a paraibana Luana Flores, que conta com a participação da pernambucana Jéssica Caitano. Juntas, dão continuidade à experiência sonora de ancestralidade que Mateus Aleluia comunica através da música e dos anos de pesquisa, e acrescentam também a perspectiva e a narrativa de duas jovens mulheres lésbicas nordestinas, politicamente ativas e que, a partir dos ritmos e símbolos tradicionais, pensam em inovação e subversão através do rap com engajamento social, do discurso contemporâneo, da estética futurista e, principalmente, da música eletrônica.

“São símbolos de força que temos e eles têm muito potencial. O som que faço e as letras que componho partem de uma colcha de retalhos da minha infância, da minha família, dessas raízes que ficaram no passado, mas que tento trazer com outro olhar. Sou uma mulher da contemporaneidade que está pensando gênero e sexualidade, e só isso já subverte a expectativa do que era ser mulher na época de mainha e vovô. É uma demarcação de existência no mundo. Se eu não subverto isso, não sei o que posso fazer para existir do jeito que quero existir”, explica Luana Flores em entrevista à Continente.

Considerada como Novo Talento em 2020, no prêmio SIM São Paulo, Luana tem muita história para contar. Beatmaker, DJ, percussionista, cantora, compositora, a artista acabou de lançar o EP Nordeste futurista, trabalho que ganha, dentro dos palcos do Coquetel Molotov, a primeira apresentação presencial. Ela conta que a alcunha do disco surgiu como uma forma de demarcar território, uma estratégia para furar a bolha de produção musical concentrada nos eixos Sul e Sudeste do Brasil.

“O Nordeste, no meu trabalho, é um momento de retomada de saberes, cultura e ancestralidade. Eu falo sobre o futuro, entendendo que o futuro é ancestral. É sobre entender de onde você veio para saber para onde vai. O Nordeste futurista está aí para semear novas possibilidades de existência neste mundo, neste Nordeste, neste fazer artístico contemporâneo e nordestino. Algumas pessoas me perguntam se é um movimento e por quê não? Um movimento de mulheres lésbicas e nordestinas que estão se empoderando e trazendo discussões pertinentes para nossa sociedade”, Luana pontua. 

Diretamente de Triunfo, localizado no Sertão do Pajeú, a presença do “rap repente” de Jéssica Caitano, cantora, compositora, poeta, percussionista e ativista, fortalece a ideia desses possíveis Nordestes e de como “a tecnologia rural pode nos ajudar nesse processo de composição, de criação, de proteção mesmo”, afirma em entrevista. Ela também integra o trio de eletrococo moderno Radiola Serra Alta. Em conjunto com Luísa e os Alquimistas, Saskia e Negrita Mc, a dupla lançou Guerreira de lança, single de 2019. Mas a parceria é bem anterior, conta Jéssica: “Nos conhecemos numa de minhas andanças na Paraíba, lá na Casa Laranja. Conheci o projeto Coco das Manas, idealizado por ela, e fomos compartilhando sons e 'mudernagens' sonoras até 2019, quando recebi o convite para ser curadora do Red Bull Music Pulso e convidei a Luana pra compor meu time”.


Jéssica Caitano traz o rap-repente para o palco. Foto: Divulgação

Como se não bastasse a honra de ocupar o mesmo palco de Mateus Aleluia, a apresentação de Luana Flores, com participação especial de Jéssica Caitano, é seguida por Lia de Itamaracá. Já familiarizada com o Coquetel Molotov, a rainha da ciranda pernambucana traz o clássico da ciranda, do coco, do maracatu e apresenta o single, ainda inédito, Mar de fogo. No palco, Lia convida ainda Luciene Loyce, Viola Luz e Lucas dos Prazeres.

“Vou começar e finalizar o show com muita reverência. Porque, para entrar, a gente precisa primeiro da bênção dos mais velhos e, para sair, a gente precisa estar sendo abençoada por uma força ancestral. Deixo minha energia no palco para que Lia chegue e coloque toda a energia das águas e da ciranda”, finaliza Luana quando pergunto o que significa voltar aos palcos rodeada por Mateus Aleluia e Lia de Itamaracá. 

O festival, que acontece até 19 de novembro, com shows dias 13 e 14, ainda vai contar com a presença da mineira Marina Sena, artista que vem despontando na cena musical, com o lançamento de seu primeiro disco; dos goianos do Boogarins, dessa vez dividindo palco com a paulistana Céu; do trio pernambucano que forma Mulungu, além dos artistas Pierre Tenório, Luiz Lins e Romero Ferro.

Programação completa e outras informações ficam disponíveis no site do festival: www.coquetelmolotov.com.br. Acompanhe a cobertura da Continente no Instagram @revistacontinente, nos dias 13 e 14.

THAÍS SCHIO é jornalista.e

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