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Curtas

O que há lá

Banda Mulungu estreia com álbum que mescla a música alternativa internacional com referências nordestinas

TEXTO Marina Pinheiro

17 de Junho de 2021

Os integrantes da banda: Ian Medeiros, Jáder e Guilherme Assis

Os integrantes da banda: Ian Medeiros, Jáder e Guilherme Assis

Foto Hannah Carvalho/Divulgação

[Conteúdo exclusivo Continente Online]

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Uma conexão instantânea. É assim que a banda Mulungu é descrita por Guilherme Assis, Ian Medeiros e Jáder, trio que dá voz, tom e alma ao projeto. O grupo, reunido por uma mistura de acaso e identificação, promove mergulho em si através de um canto atento – em troca constante com o que o mundo tem a oferecer. O disco de estreia, O que há lá, foi lançado em 21 de maio, com incentivo da Funcultura e conta com 11 músicas autorais. A faixa-título convida a uma experiência de escuta, que acolhe e provoca, pressagiando em verso: "quando chegar perto, que a calma se perca e se atrase".

A composição do disco aconteceu como em "mágica", concordam Jáder e Guilherme. A união dos integrantes foi imaginada por um conhecido, que arriscou sugerir que os olhares de cada um, interessados pela experimentação e novos formatos criativos, combinariam. E acabou adivinhando a compatibilidade, que depois se transformaria em muitos encontros em estúdio, de maio de 2019 a fevereiro de 2021. "Parecia que a gente tinha muitos anos de amizade. Na primeira vez que encontrei Guilherme, foram horas e horas de conversa", conta Ian em entrevista à Continente.

Os três, já vindos de trajetórias musicais nos estúdios Zelo, Cantilena e de bandas como Projeto Sal e Kung Fu Johnny, trouxeram suas referências para o projeto. Cada um marcando forte sua identidade, combinando-as em um projeto que reflete todos através de um trabalho aprofundado de pré-produção, além da introspecção das letras e da forma orgânica de gravar – priorizando a voz e a forma como os instrumentos são usados em apresentações ao vivo. Segundo Jáder, vocalista, "é uma coisa realmente muito bonita de irmandade, parceria. A banda vem de um lugar de muito carinho, afeto e amizade uns pelos outros".


A capa do álbum recebeu ilustração de Furmiga. Imagem: Divulgação

As características do mulungu, planta de propriedades tranquilizantes natural de biomas de várias partes do Brasil, expressa um aspecto da identidade interligada do grupo. A árvore também nomeia um município do interior da Paraíba, onde moram familiares de Jáder, que relembra momentos da infância vividos lá. Por isso, os dois recifenses planejavam "se internar" nela para produzir o disco. Isso até decidirem ir antes ao encontro de Ian, que conta a história rindo: "como se aqui fosse caminho!". O baterista mora em Natal, e por isso o projeto foi produzido entre as duas capitais, carregando e transbordando a atmosfera livre das viagens para a sonoridade do álbum.

"Como tem essa distância física, quando a gente se encontra, algumas partes estão viajando. A magia acontece um pouco por aí", diz Guilherme, multi-instrumentista. "Muitas vezes, quando a gente viajou, não era pandemia ainda. Então a gente conhecia lugares, pessoas, trocava muito com a cidade e com novas sensações e experiências. É tudo muito leve, e isso refletia na hora que a gente estava no estúdio".

Nessa mistura complementar, as inspirações vão do alternativo internacional à nordestinidade. Sobre isso, Jáder completa: "eu sou muito da letra e Guilherme é muito da música. Os meninos têm uma referência até muito mais internacional, de rock, música alternativa, enquanto as minhas vêm de um lugar mais brasileiro. Isso também foi uma coisa interessante no desenho do disco, porque ao mesmo tempo em que se interpreta como uma música nordestina, traz também essa referência universal".

"É interessante sair pra olhar pra dentro. Todos esses caminhos que a gente fez por aí mostram que a história do Nordeste é muito rica. A gente tenta explorar o máximo possível essas nossas raízes, nossa identidade. Beber dessas referências tão ricas, e misturar coisas antigas e atuais, fazer essa fusão", diz Ian. "Já teve um momento em que você precisava estar no Sudeste pra funcionar, mas não é mais assim. A gente tá com o mundo nas mãos!", completa.

O orgulho da região, assim como da arte produzida nela, é visto por todos como inspiração. Também é ponto de partida para questionar a expressão da masculinidade através da performance de Jáder nos palcos. A troca se dá em forma de aplausos e admiração, motivando e dando força, mas também dos olhares de julgamento. "É um campo que ainda está muito pouco expandido". Lembrando Getúlio Abelha, Pabllo Vittar e Johnny Hooker, afirma: "isso também foi uma abertura pra dizer: 'não! Eu também posso fazer isso'. Fazer a música nordestina queer é uma descoberta".


Primeiro videoclipe da banda foi lançado em maio de 2020 e conta com performance de Jáder.

Abrindo caminho para acesso da obra por todas as pessoas, o disco O que há lá teve, desde os estágios iniciais, planejamento de comunicação voltado para as pessoas com deficiência. As obras audiovisuais foram pensadas lado a lado com o intérprete de Libras e Liliana Tavares, produtora de acessibilidade da COM Acessibilidade Comunicacional, que conduziu o projeto.

Liliana lembra que a tradução para Libras, disponível para todas as faixas no YouTube, também é arte: uma parte essencial da produção, integrada ao fazer visual e musical. Para muito além de uma entrega técnica, envolve a transmissão das mensagens e sentimentos da obra. O uso de formatos acessíveis, chegando como força de lei, foi mais longe no projeto da Mulungu para uma inclusão completa. Dos mínimos detalhes, como o figurino do intérprete, às escolhas de intervenção visual, a equipe teve liberdade para fazer escolhas artísticas. "É importante pensar na acessibilidade na hora da criação. O intérprete faz parte da equipe, não é uma pós-produção, como muita gente entende. É criação também, é poiesis", diz a produtora.

A habilitação para projetos de editais do Funcultura, promovidos pela Secretaria Estadual de Cultura (Secult-PE) e Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), pede detalhamento dos recursos de acessibilidade presentes; assim, a inclusão foi pensada em múltiplos aspectos. O álbum também inclui, como última faixa, uma audiodescrição da capa para pessoas cegas (confira aqui). A iniciativa é defendida pelo movimento Encarte na Faixa, surgido em Curitiba, e ganha plataforma a cada obra artística comprometida com a responsabilidade de comunicar para todos.


Tradução em Libras da canção Ir/Vir.

Os encontros atravessam cada parte da produção do álbum. Para além da união potiguar-pernambucana, estão presentes em coro Una, Luna Vitrolira, Sofia Freire e Felipe Castro, além de Henrique Albino na flauta e saxofone. O disco se completa como uma experiência sensorial, incluindo criações visuais de Gabriel Furmiga. O processo foi feito em união constante com lugares afetivos, e já está no ar um show-entrevista de estreia gravado na Passadisco, loja de discos fundada pelo pai de Jáder, "fã número 1 da banda". A visita do espaço, consolidado como lugar de resistência, conta um pouco sobre o papel da ligação familiar ao projeto.

A dualidade entre abraçar o mundo e olhar para dentro, para a Mulungu, não é contraditória. Do contrário, são aspectos fortalecedores um do outro, permitindo aprofundar cada vez mais a abertura oferecida para o público. Em imagens, sentimentos e sensações, as músicas abrem caminho para uma jornada pelo inconsciente, na eterna busca de entender o que está no fundo, o que há lá.

MARINA PINHEIRO é jornalista em formação pela UFPE e estagiária da Continente.

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