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Reportagem

A força manifesta do coletivo

Ao se articular em redes e grupos, as mulheres se fortalecem para combater o machismo e a misoginia nos sets e festivais, na busca por reconfigurar as questões de gênero no audiovisual brasileiro

TEXTO Luciana Veras

01 de Março de 2021

Ilustração Hallina Beltrão

[conteúdo na íntegra | ed. 243 | março de 2021]

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Na tarde de uma quinta-feira de dezembro de 2019, a equipe do longa-metragem A salamandra se organizava em uma locação na orla marítima de Olinda. No enredo ficcional, aquele era o bar Mariscão, local onde a protagonista Catherine, vivida pela atriz francesa Marina Foïs, costumava se encontrar com Gil, personagem do carioca Maicon Rodrigues. Era uma das últimas diárias de cinco semanas de filmagem. Em uma sinopse disponível no site da Agência Nacional de Cinema – Ancine, a trama e seu arcabouço de produção, que incluíam companhias estrangeiras e sotaques distintos, são resumidos assim: “Paralisada por medo do futuro, burocrata francesa resolve visitar uma amiga no Recife. Entre o concreto e o mar, Catherine encontra Gil, um jovem brasileiro, que transforma seu corpo e identidade em uma metamorfose reveladora do seu lugar no mundo. Adaptação para o cinema do romance do autor francês Jean-Christophe Rufin, coproduzido pela N Filmes (Brasil), Cinenovo (França) e San Cinema (Alemanha), sob a direção do diretor pernambucano Alex Carvalho”.

A sequência a ser filmada era noturna. No site da N Filmes, o breve argumento se ampliava: “Catherine tenta fugir de sua rotina previsível na França, guiada pelos receios da meia-idade; Gil é um jovem ambicioso, que foi obrigado a aprender, desde cedo, a sobreviver a qualquer custo. A relação ganha desdobramentos inesperados e as escolhas de Catherine percorrem a linha tênue que separa o certo e o errado, a emoção da razão, o dominador do dominado. Uma história de renascimento e redenção, em que a superação de barreiras e a transformação de si mesmo levam a protagonista a encontrar seu lugar”.


Ação de mulheres no set do filme A salamandra, no Recife, em 2019.
Foto: Ludovicus Belgium/Divulgação

No roteiro distribuído entre a equipe, as cenas estavam delineadas a partir do momento em que Catherine “anda entre carrinhos de pipoca, engradados, isopores, espalhados no lugar”. É um depósito com “entulho para todos os lados: são garrafas, móveis velhos, placas....” . Ela vê Gil dormindo embriagado e deita ao seu lado. “Abre o vestido e encosta no corpo suado do rapaz. Sente seu cheiro. Fecha os olhos. Gil acorda assustado. Catherine tenta abraçá-lo. Ele a empurra.” A protagonista, então, “se aproxima e tenta beijá-lo”, mas ele pede para ela deixá-lo em paz. E diz: “Aqui, o que faremos agora!”. Na descrição, Gil “pega uma garrafa e joga querosene sobre a pintura”.

O que aconteceria no set era a representação do seguinte encadear das ideias escritas pelo realizador Alex Carvalho e por Thomas Bidgain e Alix Delaporte, que aparecem no site da N Filmes sob os créditos para roteiro:

Catherine avança e consegue pegar o vasilhame de sua mão. Gil tenta tomar de volta, ela derrama querosene sobre os dois.

Gil a empurra e num rompante ascende (sic) o isqueiro, ateia fogo na pintura. O fogo lentamente destorce (sic) a feição da imagem sacra.

Observam as labaredas destruírem a pintura. As chamas se espalham rapidamente. A roupa de Catherine começa a queimar. 

Em seus movimentos bruscos, ela tenta se libertar do que (sic) está sobre o corpo. O trancelim é atirado longe. Ela grita, geme como se tivesse prazer.

A fumaça toma conta do depósito. Gil corre desesperado. Catherine sai cambaleando no corredor com as roupas em chamas.

Como se tratava, portanto, de uma sequência com chamas, labaredas, fogo, a presença de dublês e a supervisão de bombeiros era compulsória. E como uma diária em um set de filmagens dura 12 horas, aquela começaria às 17h e se estenderia até 5h da sexta, 13.

 “Começaria”, no tempo verbal do futuro do pretérito, pois nada se deu conforme o previsto. Antes dos trabalhos começarem, na hora em que um lanche seria servido a todas as pessoas escaladas para aquela noturna, 40 mulheres da equipe surgiram vestindo uma camisa igual, branca com uma única frase – NENHUMA A MENOS – estampada em letras pretas e ladeada por um símbolo do feminismo. E pediram a palavra para ler uma Manifesta redigida em conjunto, cujos primeiros parágrafos assinalavam: “Nós, mulheres que compomos a equipe do longa-metragem A salamandra, temos a vontade, o dever e a obrigação de manifestar o nosso descontentamento e a nossa tristeza acerca da cena que filmaremos nesta quinta, 12 de dezembro de 2019. Estamos no Brasil, onde as estatísticas de feminicídio aumentam a cada dia. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública atestam que 1.206 mulheres foram assassinadas em 2019, em um aumento de 11,3% com relação ao ano anterior. Em 88,8% dos casos, o autor do crime foi o companheiro ou ex-companheiro”.

Como em um jogral, a leitura foi sendo conduzida por várias vozes. O texto coligava dados – “Vivemos em um país onde acontecem mais de 263 mil casos de lesão corporal contra as mulheres. Isso em apenas um único ano. Um país onde são registrados 180 estupros por dia. Onde quatro meninas de até 13 anos são violentadas por hora” – a posturas políticas – “no Brasil, e os números não mentem, é como se o corpo feminino não pertencesse às mulheres. Como se fosse um espaço que qualquer um pudesse atacar, corromper, violar. E até incendiar”. E prosseguia: “Um filme é uma obra de arte, e como tal fruto da liberdade criativa e artística de seus autores, mas também é um documento de uma época. E assim está sujeito aos debates contemporâneos. Qualquer produção que referende a violência gratuita contra a mulher deve ser questionada”.

A carta terminava de modo incisivo: “Como trabalhadoras do audiovisual, é nossa obrigação lutar para que se interrompa a exploração irresponsável de nossos corpos nas telas. Portanto, embora sejamos contratadas para trabalhar neste set, queremos dizer que nós não compactuamos com a objetificação do corpo feminino. Não reiteramos essa maneira de nos representar. Os filmes devem combater a normatização da violência contra a mulher e contribuir para a construção de um imaginário propositivo sobre nossas existências. E nunca o contrário. Temos a obrigação de assumir a responsabilidade pela construção do olhar coletivo sobre as mulheres nas obras audiovisuais que produzimos. E também naquelas para as quais emprestamos nossa competência, nosso talento e nossa capacidade produtiva. Basta de violência. Hoje nos posicionamos contra uma visão misógina e machista da mulher, do Brasil e do próprio mundo. Contra uma cena em que a mulher será queimada como se estivesse sentindo prazer. Como se o fogo fosse gozo. Isso nos entristece e nos enoja. Mas também nos dá força para nos posicionar. Foram muitas que construíram o caminho para que estivéssemos aqui e agora. Nada será feito sobre nós, sem nós”.

A Continente ouviu várias participantes do levante feminino e feminista no set de A salamandra. Algumas delas falaram em on, outras preferiram o anonimato, mas todas, sem exceção, ressaltaram a importância do episódio e se dispuseram a partilhar suas lembranças para a confecção desta reportagem, que, à luz das questões de gênero no audiovisual brasileiro, entrevê como, ao se articular em grupos e redes, as mulheres estão mais fortalecidas para enfrentar situações de machismo e misoginia nos estúdios e locações de filmagens, nos festivais e em espaços afins.

“Não seria a mesma coisa se eu tivesse chegado lá e dito tudo isso sozinha, para o diretor. O set era muitas vezes um ambiente tóxico e machista. O diretor não escutava as mulheres, era como se nós tivéssemos uma opinião inferior que ele não deveria nem considerar. Todo mundo estava ali levando, aguentando, até pela necessidade de trabalhar. Mas esse sentimento foi crescendo e, quando chegou a vez de rodar essa cena, chegamos à conclusão de que não dava para nos calar. A leitura foi coletiva por essa razão principal: todas estavam muito incomodadas. Tanto que foram mais de 40 camisas produzidas, todas queriam, até mesmo o pessoal do catering. Uma das estrangeiras, a diretora de fotografia Josée Deshaies, que era francesa, pediu para vestir a camisa também”, relembra a produtora Camila Valença, que era coordenadora de produção do longa.

“Que bom que tomamos essa decisão. Se não fosse por essa leitura no set, acho que teria um ressentimento, uma dor muito grande, por ter engolido tanto machismo. Naquele ano, estávamos vivendo um momento bem difícil do mercado e muitas mulheres, como eu, estavam incomodadas com o roteiro, mas havia uma conversa de que o processo seria modificado durante o desenvolvimento criativo do plano de filmagem. Era isso que todo mundo entendia. Era a esperança. Mas toda vez que ele falava dessa cena, a instigação era para que fosse filmada como se a mulher estivesse gozando pegando fogo. Isso começou a deixar todo mundo chocado. Essa cena do fogo foi o estopim”, pontua Juliana Calles, paulistana radicada em Maceió que respondia pela função de diretora de produção.

“Essa era uma cena que incomodava a equipe desde a leitura do roteiro. À medida que foi chegando o momento de filmá-la, já que era uma cena mais arriscada e tinha que trazer uma equipe de fora, e por isso terminou ficando para o final, a esse incômodo se juntaram os incômodos da equipe pela forma como o diretor tratava mal as mulheres”, recorda Amanda Menelau, de equipe de platô.

O que aconteceu em seguida pode ser costurado pelos relatos das três e das outras fontes, homens inclusive, que conversaram em off com a Continente. A atriz Marina Foïs teria se sensibilizado bastante, chorado até, com a leitura da carta e agradecido pela oportunidade de entender o contexto por trás daquela sequência – diversas pessoas me contaram que, no roteiro em francês (como A salamandra era uma coprodução internacional, havia versões em português, inglês e no idioma gálico), não havia essa pormenorização. Logo, Marina não sabia que sua personagem iria ser queimada para depois ser enquadrada com “detalhes de queimaduras profundas no corpo nu de Catherine – o rosto se contorce como num orgasmo”, no frasear do roteiro.

Após a leitura da carta, Alex Carvalho teria, em um primeiro momento, dito que as pessoas não estavam entendendo o que ele quis dizer. “Ele se exaltou, ficou dizendo que o personagem não estava queimando a mulher, e, sim, um quadro, um sofá velho… Queimando várias coisas ali. A gente não se aguentou e disse: ‘Coisas?’. Dezenas de nós lemos a carta e ele, quando foi se defender, saiu-se com uma dessas, que a mulher era só mais uma coisa”, diz Amanda.

Um integrante da equipe sinaliza para outros aspectos: “O roteiro se baseia em um livro escrito por um francês, sobre uma francesa que vem para o Brasil e se envolve com um negro que é mais pobre do que ela. Tem essa perspectiva colonial demais também. E o negro fica violento, para se encaixar no mito do homem periférico, fora do eixo europeu, descontrolado. Para além disso, a metáfora da salamandra, que é capaz de se regenerar, como se tudo isso justificasse a violência, o fogo queimando a pele daquela mulher”.

Quando as mulheres de sua equipe se insurgiram, o diretor teria, então, sofrido um pico de pressão alta e se retirado do local. “Era como uma panela de pressão prestes a estourar, em vários níveis, e não apenas por questões de misoginia. Quando houve o protesto, ele recebeu muito mal, se ausentou do set e ficou acordado que não seria mais filmado daquele jeito. Todo mundo continuou trabalhando e a grande questão foi mudada. Quem dirigiu a cena foi o diretor-assistente, Leo Lacca, e o que foi filmado era que ela colocava fogo, como se fosse um acidente, uma briga entre duas pessoas, um conflito que saía errado”, rememora uma outra pessoa que não quis se identificar.

Indago sobre A salamandra a Leonardo Lacca, cineasta pernambucano (do curta Décimo segundo e do longa Permanência) que havia feito a produção de elenco e depois assumira outras funções no longa. Ele confirma que, de fato, foi quem dirigiu a sequência e que houve tais mudanças, mas opta por não se pronunciar. Faz, contudo, uma ressalva: “O protesto foi legítimo, importante e emocionante. Transformador. Fez todo mundo pensar. Infelizmente, esse diálogo não aconteceu de outras formas. Elas tentaram, muitas tentaram conversar sobre essas questões e não foram ouvidas”.

Entro em contato com Alex Carvalho para entrevistá-lo. Radicado há muito em Londres, na Inglaterra, ele responde a uma mensagem por WhatsApp com meu pedido de entrevistas. “Acho uma ótima oportunidade jogar luz nas questões de gênero presentes no audiovisual pernambucano, e deixar mais claro o que aconteceu nas filmagens da A salamandra. Sinto que conseguirei adicionar algo mais relevante para a matéria, se o foco não for outro ataque contra minha pessoa. Vou pensar um pouco e respondo para você o mais rápido possível…”, retornou. Por e-mail, envio seis perguntas. Dois dias depois, ele me escreve novamente: “Acabei de ser informado que contratualmente não posso dar entrevistas a respeito do filme enquanto o mesmo não estiver finalizado. Qualquer dúvida a respeito do projeto, favor entrar em contato diretamente com Tiago Carneiro Lima, advogado e produtor associado do filme no Recife”.

Na página do Internet Movie Database – IMDB, La salamandre está previsto para estrear em 2021. Entre as mulheres que leram a Manifesta naquela tarde e foram ouvidas para esta edição #243, não há arrependimento ou desprezo pelo próprio trabalho. “Eu e tantas outras nos esforçamos muito. Quero ver o resultado final. Meu nome estará nos créditos, sou uma profissional, é lógico que não torço contra o filme. Mas me orgulho do que fizemos”, situa Camila Valença. “O protesto foi um desabafo de alma, sem conotação de vingança ou de prejudicar ninguém, mas para fazer as pessoas entenderem que existimos, que não somos objetos e que temos que ser respeitadas”, emenda Juliana Calles. “Uma voz só não é ouvida, mas uma equipe inteira, ao se juntar, foi. É essa a transformação. Ninguém solta a mão de ninguém”, acrescenta Amanda Menelau.

***

A Manifesta tinha nascido duas semanas antes, em novembro, durante o 52o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Um texto escrito por várias mãos, lido durante a cerimônia de premiação, no sábado, 30 de novembro daquele ano, foi o material que serviu de base para a redação da carta descortinada no set de A salamandra. A gênese remonta não apenas a um caso específico, porém a uma soma de fatores.

“Acredito que todo mundo que foi àquela edição já chegou imbuído de um sentimento de questionamento, de inconformismo com o momento político, e aproveitou o espaço de divulgação e a potência cultural e política do festival em si. O início foi tumultuado. Houve um questionamento da legitimidade do próprio secretário de Cultura do DF, Adão Cândido, teve um protesto, o festival impediu que houvesse outras falas, então teve gritos de censura e vaias. Os ânimos estavam exaltados”, comenta a jornalista, crítica e documentarista Flávia Guerra, que tinha sido chamada para atuar como mediadora dos debates.

Havia o inegável componente macropolítico: era a primeira edição a acontecer sob a presidência de Jair Bolsonaro. “Aquela eleição já havia sido um atentado à cultura, podemos falar assim, então chegou todo mundo meio magoado, ferido. Mesmo com o festival acontecendo, o que já era bom, sabíamos que existia um esquema anticultura em Brasília, no Distrito Federal, e os nervos estavam à flor da pele. Além disso, existia uma síndrome de pequeno poder, aliado a todo um machismo estrutural e explícito, por trás de correligionários bolsonaristas, que tinham uma postura muito acintosa e agressiva contra as mulheres no festival”, reconta Cecília Barroso, crítica do site Cenas de Cinema e integrante das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.

Três noites consecutivas foram cruciais para o surgimento da Manifesta. Na quarta, 27 de novembro, a programação da mostra competitiva incluía a exibição dos curtas-metragens Ângela, de Marília Nogueira, e , de Ana Flavia Cavalcanti e Julia Zakia, e do longa Loop, de Bruno Bini. Nos dois curtas, as mulheres como protagonistas absolutas em histórias arquitetadas ao redor da figura feminina – no primeiro, uma senhora (Teuda Bara) hipocondríaca que se abre para espantar a solidão com a visita de amigas; no segundo, um olhar para uma família periférica em São Paulo, com uma mãe zelosa (personagem de Ana Flavia, uma das diretoras) e uma carga misteriosa que desperta curiosidade nas suas duas filhas e na vizinhança. No longa, uma produção do Mato Grosso estrelada por Bruno Gagliasso, Daniel, personagem do ator, é um cientista que perde a namorada Maria Luiza (Bia Arantes) e tenta descobrir a fórmula para voltar no tempo a tempo de evitar sua morte. Alerta de spoiler: ao final da narrativa, formulada entre idas e vindas no tempo, com o timing de tantos inúmeros outros filmes estrangeiros que exploram essas borras entre passado, presente e futuro, descobrimos que o assassino era ele mesmo.

 
Cineasta mineira Marília Nogueira (Foto: Divulgação) e a realizadora
paulistana Julia Zakia, com a filha Luiza (Foto: Mayangdi Inzaulgarat/Divulgação)

“Acho que a ordem dos eventos seguiu uma série de incômodos em relação ao que estava sendo visto na tela e sendo dito nos debates também. Nessa mesma noite, passaram esses dois curtas, que falam de mulheres em lugares que não estamos acostumados a ver, pela chave do afeto, e depois vem esse filme em que há um feminicídio e que, no final, descobrimos que o próprio protagonista mata a namorada, a mulher que ele ama. Como assim? Se queremos moldar nossa visão de mundo para uma sociedade mais igualitária, precisamos mudar o que estamos colocando nas telas. Chega, não dá mais para apostar na fetichização da violência contra a mulher. É impressionante a facilidade com que colocam os nossos corpos como receptores da violência dessas histórias. Isso foi algo que nos mobilizou”, aponta a realizadora mineira Marília Nogueira, idealizadora do Cabíria, prêmio de roteiro e festival voltado para fomentar a criação audiovisual feminina.

Na quinta, 28, haveria a exibição do documentário O tempo que resta, filme de estreia da brasiliense Thais Borges. Suas personagens principais, Maria Ivete Bastos dos Santos e Orvalinda Marcelino Pereira, são agricultoras que tiveram que se evadir de Santarém, no Pará, Região Norte do Brasil, por causa de constantes e contínuas ameaças de morte. As duas, hoje desterritorializadas, morando longe de seu solo natal e sob proteção do Estado, subiram ao palco ao lado de membros da equipe. Em qualquer festival de cinema do planeta, seja em Brasília, na Berlinale, na Mostra de São Paulo ou em Cannes, ainda mais antes da exibição de um primeiro longa, é praxe que as pessoas se apresentem, ainda mais quando se trata de mulheres que, só por estarem ali, já ratificavam a condição de “sobreviventes” e ampliavam toda e qualquer acepção da palavra “resistência”.

No que Ivete e Osvalinda discorriam, a plateia escutava atenta, à exceção de um homem sexagenário sentado em uma das poltronas da primeira fileira do Cine Brasília. “Um dos coordenadores do festival, o cineasta Pedro Lacerda, gritou ‘Filme!’. Jovens realizadoras, entre elas a fotógrafa e cineasta Julia Zakia, se indignaram com a atitude dele e protestaram. Ele discutiu com elas e o clima ficou tenso”, escreveria a posteriori a jornalista Maria do Rosário Caetano, em sua cobertura para a Revista de Cinema. Ele não apenas gritou ‘Filme’, como recordam Julia e as pessoas que estavam ao seu lado, a exemplo das cineastas Raissa Gregori e Sabrina Fidalgo; falando em tom alto, que se contrapunha às vozes oriundas do palco, ele esbravejou “Cala a boca, começa o filme”.


Cineasta carioca Sabrina Fidalgo. Foto: Divulgação

Quando Julia retrucou “Cala a boca você, moleque, respeito”, ele se levantou, dedo em riste, o punho como um soco, e veio chamando a realizadora paulistana de “filha da puta”. “Cala a boca você, sua merda. Vem aqui para você ver”, disse. Detalhe crucial: duas crianças, Luiza, filha de Julia, e Cecília, filha de Raissa, cada uma com sete anos de idade à época, presenciaram tudo.

“Era como se ele fosse um tipo de censor, uma pessoa que estava lá para dizer o que deveria ser o tempo de cada uma falar, sabe? Surreal: um macho branco e hetero agir como se fosse dono do festival. A cara do patriarcado. O fato de estar com as crianças me levou a seguir adiante, a não disfarçar e fingir que estava tudo satisfatório ali. Não, nós temos uma responsabilidade com as gerações futuras. O nosso exemplo para elas é de que não devemos nos calar, e, sim, lutar para defender o que achamos justo e certo”, opina Julia.

No dia seguinte, a Continente questionou Marcus Ligocki Jr., produtor e um dos curadores do 52o Fest Brasília, sobre o episódio, no debate realizado no hotel que servia de QG para o evento. Ligocki não ofereceu resposta oficial alguma. Até o fim do festival, tampouco houve um pedido de desculpas pela agressão verbal desferida por um dos seus coordenadores a uma realizadora que estava com filme na competição, bem como à cineasta e suas protagonistas que ele pretendeu silenciar. Como lembraria o portal Papo de Cinema, “o sujeito que principiou o bate-boca foi identificado como Pedro Lacerda, coordenador de relações institucionais do Instituto Alvorada Brasil, portanto parte da organização do evento”.

Na terceira noite, outro filme na competição, Volume morto, do diretor Kauê Telloli, mostrava um claustrofóbico confronto entre uma professora (Fernanda Vasconcellos) e o pai de um aluno, que culminava com o homem aplicando um golpe mata-leão na mulher.

“É também problemático que a figura de Roberto (Daniel Infantini) nunca sofra qualquer tipo de consequência por agredir fisicamente uma mulher, o que parece ser algo recorrente na trama. Isso, somado às cenas de luta corporal entre Roberto e Thamara embaladas por música pop, mostra que a violência é não só minimizada, mas naturalizada pelo filme. Além disso, ao adotar um super slow motion nos momentos de embate físico, Telloli abre a possibilidade de a agressão ser vista como um fetiche”, diria a crítica Sarah Lyra, em sua cobertura para o portal Adoro Cinema.

“Fora isso, o filme, que foi realizado em nove dias, mostra não ter conseguido aprofundar algumas situações envolvendo figuras femininas e masculinas, bullying e possibilidade de abuso infantil, tropeçando numa certa estetização. Assim como Loop, de Bruno Bini (MT), este foi um título que não pareceu caber muito bem na seleção competitiva, dadas as fragilidades de sua história, estilo e condução”, anotaria Neusa Barbosa, em sua crítica para o Cineweb.

***

A Manifesta, carta e grupo que hoje conecta mais de 100 mulheres ligadas ao audiovisual brasileiro, irrompeu no último dia do penúltimo mês de 2019. “Era uma resposta marcante à seleção de filmes machistas e misóginos e a um ataque violento de um membro da organização do festival a uma realizadora presente”, define Cecília, que cobre o Festival de Brasília desde 1996.

Enquanto várias redigiam o texto, Julia Zakia e Sabrina Fidalgo estavam na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher, não muitas quadras distantes do Cine Brasília, para reportar a agressão e a ameaça proferidas pelo então coordenador de relações institucionais do festival. A ocorrência 4621/2019 foi registrada tendo Julia como vítima e Sabrina como testemunha – as duas estavam também juntas em Alfazema, um dos curtas em competição, Sabrina como cineasta, Julia como diretora de fotografia.

Um ano e dois meses depois, a carioca Sabrina revisitaria esse momento em uma conversa por telefone com a Continente: “Na delegacia, enquanto a gente esperava para ser atendida e tantas outras escreviam o texto da Manifesta, me veio nitidamente a indignação de ter visto aqueles filmes e pensar: estamos em pleno século XXI e você ainda tem esses homens reproduzindo o patriarcado, sem sair de cima do cofre forte, roubando nossas narrativas, não só na questão racial, mas na questão de gênero também, sobretudo homens que passaram a vida inteira sendo beneficiados com dinheiro público e tendo privilégios, mesmo sendo ricos, de catar dinheiro para fazer seus filmes em que as mulheres estão sempre em papéis submissos e estigmatizantes. Eles percebem que o mercado está querendo essas narrativas, se abrindo de fato para questões de gênero e raça, e o que eles fazem? Apropriam-se dessas narrativas de uma forma equivocada, colocando mulheres em um protagonismo equivocado, tóxico, que reproduz o seu olhar machista. Ou seja, não estão à altura do espírito atual, de todas as discussões que estão sendo tocadas no mundo inteiro”.

“Essa Manifesta foi escrita por mulheres e mulheres feministas de diversas áreas de atuação no 52º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro”, começava a carta apresentada no palco do Cine Brasília, durante a premiação. “Reconhecemos as, os e es trabalhadoras e trabalhadores que construíram e realizaram esse festival. Há aqui obras que nos contemplam e abrem caminhos para o futuro do cinema e da sociedade que acreditamos. No entanto, temos ressalvas. À curadoria: a curadoria de um festival: 1– Deve pensar a multiplicidade de gênero, raça, sexualidade e territorialidade; 2 – Não deve validar discursos feminicidas, racistas, lgbtqifóbicos e gordofóbicos.”

Entre as ressalvas destinadas ao mercado audiovisual, estava que as produções audiovisuais “devem interromper a exploração irresponsável de nossos corpos nas telas. Não precisamos mais de imagens de mulheres violentadas” e ainda “atores e atrizes cisgênero não devem representar pessoas trans e travestis”. Por fim, a Manifesta conclamava que a comissão organizadora de um festival “não deve assediar, interromper, silenciar ou censurar trabalhadoras e trabalhadores do audiovisual”.

Todo o texto era um recado direto, incisivo. “Sentíamos a importância de nos posicionar. Como evitar que esses homens, muito à vontade em seus comportamentos machistas, se safem? Para isso acabar, precisamos nos unir. O grupo nos deu fortaleza. Tínhamos uma diversidade de experiências, era um conjunto heterogêneo, que aconteceu de estar ali, naquele momento, em Brasília: mulheres brancas, mulheres negras, lésbicas, fora do eixo Rio-São Paulo, de diferentes cidades, idades e profissões, como cineastas, jornalistas, atrizes, produtoras, fotógrafas. E tínhamos a Anne Mota entre nós! Será que se Anne não estivesse ali teríamos atentado para a importância de acrescentar a fala sobre permitir que pessoas trans se representem no audiovisual? Talvez sim, talvez não, mas ela estar ali nos deu a certeza de incluir esse aspecto no nosso documento”, evoca Marília.


Atriz pernambucana Anne Mota. Foto: Thaís Mallon/Divulgação

Jovem, pernambucana, em seu primeiro trabalho no cinema como a protagonista de Alice Júnior, o primeiro longa do cineasta paranaense Gil Baroni, Anne estava na reunião da Manifesta horas antes de fazer história no festival.

“Foi muito poderosa pela presença de todas aquelas mulheres e por todas as falas e demandas que colocamos na carta. Eram demandas necessárias, inclusivas, para que as histórias sobre nós pudessem ser contadas por nós mesmas, ou sem violência, independente da cor dos nossos corpos ou de sermos cis ou trans. Um dos pontos que eu trouxe, enquanto única mulher trans presente, foi a representatividade trans. Apesar de estarmos ganhando mais espaço, o que é muito bom, desde que se fala de obras sobre transgeneridade quem faz, quem está presente, são as pessoas cisgênero, e não trans. Não estou falando de obras feitas em 2010 ou em 2015, e, sim, desde os anos 1950, 1960, pois se fala sobre pessoas trans nas artes há muito tempo – no cinema, música, teatro. Era importante ser falado na carta que é preciso mais espaço, que é preciso um equilíbrio entre pessoas trans e cis na arte, que ainda não existe”, vaticina a atriz.

Lida no palco pelas vozes de Anne, Julia, Marília, Sabrina e tantas outras, a Manifesta tornou-se a senha para uma noite de rupturas. Pela primeira vez em mais de cinco décadas de um dos principais e mais politizados eventos cinematográficos do Brasil, e decerto também do continente, uma manifestação (manifesta), no feminino, havia sido lida no palco do Festival de Brasília por um coletivo de mulheres. Pela primeira vez, uma mulher trans recebeu o prêmio de melhor atriz na competição – ela, a jovem pernambucana que estrelava Alice Júnior. “Uma onda avassaladora de mulheres fez história no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em sua noite de premiação, neste sábado (30/11), no Cine Brasília. Nunca, na história do festival, tantas mulheres foram premiadas, como também nunca tantas exigiram novas posturas tanto do evento quanto dos realizadores, nas histórias em que elas são vítimas de feminicídio e falta de protagonismo”, destacaria o crítico pernambucano Ernesto Barros, em sua cobertura no Jornal do Commercio.

O principal longa premiado foi A febre, de Maya Da-Rin; O tempo que resta, de Thais Borges, recebeu o troféu de roteiro. Por Piedade, do pernambucano Cláudio Assis, a diretora de arte Carla Sarmento foi agraciada. Entre os curtas-metragens, , de Ana Flávia Cavalcanti e Julia Zakia, e Alfazema, de Sabrina Fidalgo, foram laureados, respectivamente, como melhor filme e direção; Teuda Bara foi escolhida a melhor atriz por Ângela. Os discursos foram acalorados, emocionados, aplaudidos. “É muito importante eu, uma mulher negra, estar aqui recebendo esse prêmio, pois sempre sonhei em fazer cinema e nunca tive um espelho, uma mulher em que eu pudesse me espelhar”, comoveu-se Sabrina.

Ana Flávia gritou “Laroyê”, a saudação a Exu, o orixá que abre caminhos, e foi firme: “Quero dizer para as mulheres que estão aqui que as mulheres não serão mortas por serem mulheres, elas não serão enforcadas, elas serão reverenciadas do jeito que tem que ser”. E Julia completou, também destinando sua fala para as mulheres: “Não podemos ter medo, não podemos ficar caladas, se nós formos xingadas, temos que ir atrás dos nossos direitos. Sem medo, sem nenhum tipo de medo. Estamos juntas, ninguém vai nos oprimir, ninguém vai nos mandar calar a boca, ninguém vai nos ofender, nem xingar a nossa mãe em público, na frente das crianças”. Quando ela imitou um rugido e exprimiu “eu não tenho medo de homem bravo”, vibraram ruidosamente as centenas de pessoas que lotavam o templo do cinema brasiliense, ali na entrequadra EQS 106/107.

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Em fevereiro de 2021, procuro Carmen Luz, curadora, cineasta e ativista carioca, que esteve em Brasília em 2019 e está no MANIFESTA FEMINISTA, que Flávia Guerra descreve, com acuidade, como um “hub de distribuição, de desenvolver as coisas, um grupo de discussão, de fazer pensar e difundir ideias” e que, como a maciça maioria dos grupos de mensagens do planeta, concretiza-se no aplicativo WhatsApp, no qual abriga mais de cem diretoras, atrizes, produtoras, jornalistas, fotógrafas, montadoras, críticas, entre outras. A ideia é ouvi-la sobre as redes femininas e feministas forjadas como um espaço de fortalecimento. “Me inspiro em Angela Davis e acho que nosso lema deve ser lembrar, sempre, que a liberdade é uma luta constante”, me responde. “Nós, artistas, mulheres de todas as valorizações sexuais, temos que trabalhar com a ideia de resistência o tempo todo, porque sabemos e temos visto que, a cada conquista, existem três ou quatro mil retrocessos. Infelizmente, não descansamos”, alinhava.


Curadora, cineasta e ativista Carmen Luz. Foto: Cláudia Ferreira/Divulgação

A Manifesta, ela continua, foi fundamental para “tudo que está acontecendo no cinemão, na indústria, porque as pequenas produções já estavam sendo agulhadas pela nossa resistência, pelo nosso ativismo constante, mas, a partir de Brasília, os incômodos se generalizaram, chegaram ao Festival do Rio e se espalharam”.

Trata-se, entretanto, de almejar a liberdade como a tal luta constante a que a filósofa e feminista norte-americana se refere. “A pandemia é uma tragédia e nós, artistas e ativistas, temos o velho hábito de buscar, como água, passagem em qualquer pedra. Nossas ações do passado se sedimentaram, digamos assim, e encontraram muita passagem na pandemia. A janela da internet fez com que muita gente se conhecesse e pudesse colocar a boca no trombone. As mulheres, as travecas, as pessoas trans, as indígenas, as negras, as LGBTQIA+… Não dá mais para invisibilizá-las. Avançamos, mas precisamos espalhar nossa atuação até ter uma posição equânime de direitos. O cinema narrativo clássico ainda reproduz o arcaísmo da sociedade mundial. Nele, ainda somos menores. Ainda somos a costela”, observa Carmen.

No Brasil, a esse contexto se somam as consequências da escravização, como sustenta a socióloga pernambucana Ana Paula Portella, que estuda violência de gênero há mais de duas décadas. Sua tese de doutorado, Como morre uma mulher?, premiada como a melhor da América Latina em um concurso de 2016, foi publicada no ano passado pela Editora UFPE. “Somos o fruto direto do processo escravocrata. Durante quase 400 anos, a maior parte da população era, por lei, propriedade de outros, então essa maior parte poderia ser disposta de diferentes maneiras – morta, vendida, maltratada, torturada, usada sexualmente. Nós nos tornamos uma nação graças a isso. Eu e você somos fruto desse sexo forçado entre os senhores e as mulheres negras. Nesse contexto, a apropriação da vida da mulher por outro grupo social mais privilegiado termina por se legitimar como um valor da sociedade. Todas as mulheres brasileiras viviam e ainda vivem sob regime de intensa desigualdade do poder do homem branco. Nós somos dispensáveis, disponíveis”, situa.

Mudar tal panorama passa por uma reeducação audiovisual, no tocante à produção e ao consumo de imagens. “Se, por um lado, a televisão tem dificuldade de incorporar uma discussão legítima e introduz personagens superficiais, neutralizada pela manutenção dos valores conservadores e objetificantes; do outro, o cinema e as séries trazem uma mudança grande, com muita coisa sendo feita por mulheres, pessoas negras, jovens que estudam e mudam o foco, criando personagens femininas interessadas em uma enormidade de coisas para além de trabalho e maternidade”, coloca Ana Paula. É a travessia da passagem da água pelas pedras: cavando novos caminhos em meio à adversidade.

Nos dias que antecederam o fechamento desta reportagem, chegaram várias narrativas de mulheres de bagagens diversas sobre casos de violência no ambiente da produção audiovisual. 1) Um cineasta enciumado, que agride a sua assistente de direção depois que ela é acionada para rodar um VT para o qual ele, de ressaca, se atrasara e que, tempos depois, diz que é doido para chupar os peitinhos dela; 2) Um produtor que diz a uma diretora de fotografia que não é possível conciliar a maternidade com o trabalho – ou ela é fotógrafa, ou é mãe e vai trabalhar em um birô; 3) O diretor que ofende a crítica que não gostou do seu filme; 4) O preparador de elenco que molestava as alunas durante as oficinas…


Socióloga pernambucana Ana Paula Portella. Foto: Divulgação

No entanto, sobram evidências de que, embora articulações como a Manifesta ou o protesto no set de A salamandra não impeçam que atos de abuso e assédio sexual ainda aconteçam, sem dúvida a força do coletivo protege e impulsiona quem vocaliza as violências, sexuais, físicas ou psicológicas. Em 28 de agosto de 2020, o The Intercept Brasil divulgou o especial “As mordidas foram profundas”, compilando histórias de vítimas do curador brasileiro de festivais internacionais e produtor Gustavo Beck. De autoria de Nayara Felizardo e Schirlei Alves, o resultado de três meses de apuração começou com uma denúncia recebida por e-mail. Ou seja, nem sempre as mulheres se calam; lado a lado, agigantam-se na luta.

“Eu tenho certeza de que, juntas, as mulheres são mais fortes. Saber que existe um espaço coletivo, em que você pode ser entendida e acolhida e fortalecida é essencial. Nenhuma mulher consegue vencer um trauma tão grande, como o de um abuso, sozinha. Certamente, o fato de serem vítimas de um mesmo homem as motivou a seguir em frente. Não era apenas uma mulher falando, o que já seria grave, mas sabemos que, na nossa sociedade, a voz da vítima tende a ser descredibilizada. Múltiplas vítimas são menos contestáveis, principalmente quando todas elas dizem a mesma verdade”, pondera Nayara. “O mais importante da repercussão foi levantar o debate dentro dos festivais, entre as pessoas com poder de decisão nesses espaços. O comprometimento público do Festival de Rotterdam, de rever seus processos internos visando proteger as mulheres, é o melhor exemplo.”


Grupo de mulheres que se manifestou no Festival de Brasília, em 2019.
Foto: Thaís Mallon/Divulgação

Neste mês de março, o coletivo Respeito em Cena lança, em parceria com o #MeTooBrasil, as Justiceiras e o Instituto Dona de Si, uma campanha latino-americana de combate à violência psicológica no meio artístico. “Quando fomos chamadas para o lançamento do #MeTooBrasil, em agosto de 2020, percebi uma lacuna muito grande no Brasil, e agora vejo praticamente em todos os países da América Latina, no enfrentamento da violência psicológica, que é a mais realizada contra as mulheres, por ser a mais difícil de ser percebida e, consequentemente, combatida. Quase invisível, não deixa marca física, mas, sim, psíquicas muito profundas, às vezes danos irreparáveis, e é um vírus cada vez maior no meio artístico. Decidi criar um coletivo para focar especificamente nesse tipo de violência”, situa Luciana Sérvulo da Cunha, documentarista, ativista e coordenadora geral do Respeito em Cena. Por enquanto, são 10 países envolvidos – Brasil, México, Chile, Argentina, Uruguai, Bolívia, Colômbia, Costa Rica, Venezuela e Nicarágua.

Quantas milhares de mulheres já não foram vítimas de violência psicológica nas coxias, nos sets, nos estúdios? Quantas deixarão de sê-lo, quando esse debate se tornar perene na sociedade? Ao longo dos últimos cinco anos, publicamos três matérias sobre as questões de gênero no audiovisual – na edição #186, de junho/2016, e na #219, de março/2019, e neste número da Continente. Com dados, estatísticas e histórias de mulheres que suplantaram preconceitos e ambientes hostis, violentos, opressores. E foram além. “Foram muitas que construíram o caminho para que estivéssemos aqui e agora”, diz a Manifesta. Honrando a memória e mirando o futuro, uma certeza: nada será feito sobre nós, sem nós.

LUCIANA VERAS, repórter especial da Continente e crítica de cinema.

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