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Ficção

Um esboço do passado

Trechos das memórias inacabadas da escritora inglesa, como uma homenagem a ela nos 80 anos de sua morte

TEXTO VIRGINIA WOOLF
ILUSTRAÇÕES JULIANA LAPA

01 de Março de 2021

Ilustração Juliana Lapa

[conteúdo na íntegra | ed. 243 | março de 2021]

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Em 28 de março de 1941, aos 59 anos, Virginia Woolf saiu de casa, encheu os bolsos do casaco de pedras e se afogou no Rio Ouse, que ficava perto de sua casa, em Lewes, Inglaterra. A Segunda Guerra estava em curso e sua casa em Londres havia sido bombardeada. Eram tempos de perspectivas sombrias. Naquele período, a escritora se dedicava à produção de uma biografia do seu amigo, pintor e crítico de arte Roger Fry, mas estava inquieta e insatisfeita com a tarefa. Por conta disso, sua irmã, a artista plástica Vanessa Bell, sugeriu que escrevesse as próprias memórias. E assim ela o fez.

O livro Um esboço do passado (2020), do qual reproduzimos alguns trechos nesta edição por uma cortesia da editora Nós, é um registro dessa escrita autobiográfica inacabada de VW e uma homenagem que fazemos a escritora, nos 80 de sua morte. Trata-se da mais recente obra da autora publicada no Brasil e um dos seus últimos escritos, visto que produzidos e datados até quatro meses antes de sua partida.


Capa do livro lançado pela editora Nós. Imagem: Divulgação

“O que se vê aqui é, como já diz o título, um debruçar sobre o próprio passado: porém de um modo peculiar. Como leitora de diários, memórias e biografias, Virginia aponta que o maior problema desse tipo de literatura era deixar de fora a pessoa de quem se fala, enfatizando apenas aquilo que lhe acontece. Almeja, portanto, encontrar uma forma em que ela consiga se justapor simultaneamente, ‘a eu de agora, a eu de antes’”, pontua a tradutora Ana Carolina Mesquita, na apresentação que faz ao volume. “Ela a encontra mesclando o estilo memorialista e o diarístico, passando a anotar as datas à medida que escreve. Incluir o presente no passado seria então, para Virginia, o equivalente a fazer do presente uma ‘plataforma onde se pôr de pé’, uma vez que ‘esse passado é muitíssimo afetado pelo presente. O que escrevo hoje não escreverei daqui a um ano’”, continua Mesquita.

Escolhemos trechos que, acreditamos, prenunciam as qualidades sensíveis e evocativas de toda a leitura, que nos conecta mais uma vez com o talento de Virginia Woolf.

(Uma observação: mantivemos a numeração das notas de acordo com a que se apresenta no livro.) 

***

Aqui chego a uma das dificuldades de quem escreve memórias – um dos motivos pelos quais, embora eu leia tantas, tantas sejam fiascos. Elas deixam de fora a pessoa com quem as coisas aconteceram. A razão é que é muito difícil descrever qualquer ser humano. Portanto, elas dizem: “Isto é o que aconteceu”; mas não dizem como era a pessoa com quem aquilo aconteceu. E os acontecimentos significam muito pouco, a menos que antes se conheça com quem eles aconteceram. Quem era eu, então? Adeline Virginia Stephen, a segunda filha de Leslie e Julia Prinsep Stephen, nascida em 25 de janeiro de 1882, descendente de um grande número de pessoas, algumas famosas, outras obscuras; nascida em uma família numerosa, de pais que não eram ricos, mas bem de vida, num mundo de fins do século XIX bastante comunicativo, culto, articulado, dado a cartas e visitas; de modo que eu poderia, se me desse ao trabalho, escrever longamente aqui não apenas sobre minha mãe e meu pai, mas sobre tios e tias, primos e primas, amigos e amigas. Mas ignoro quanto disso tudo, ou qual parte disso tudo, me fez sentir o que senti no quarto das crianças em St. Ives. Eu não sei até que ponto sou diferente das outras pessoas. Está aí outra dificuldade de quem escreve memórias. Até para descrever a si mesmo fielmente há que se possuir algum padrão de comparação: teria sido eu inteligente, estúpida, bonita, feia, arrebatada, fria…? Em parte porque nunca frequentei a escola, e jamais competi de nenhum modo com as crianças da minha idade, nunca tive a chance de comparar meus talentos e defeitos com os dos outros. Mas é claro que havia um motivo externo para a intensidade dessa primeira impressão – a impressão das ondas e do pingente da persiana; a sensação, como às vezes eu a descrevo para mim mesma, de estar deitada dentro de uma uva e de ver através de um filme amarelo semitransparente: ela se devia em parte aos muitos meses que passávamos em Londres. A mudança de ambiente era uma grande mudança. Sem falar na longa viagem de trem; e na empolgação. Eu me lembro do escuro; das luzes; da agitação do momento de irmos para a cama.

Mas para fixar meu pensamento no quarto das crianças: havia uma varanda; mesmo com uma separação, ela era unida à varanda do quarto do meu pai e da minha mãe. Minha mãe saía na varanda com um roupão branco. Pela parede subiam flores de maracujá; eram grandes flores estreladas, com raias roxas e grandes botões verdes, alguns cheios, outros vazios.

Se eu fosse pintora, pintaria essas primeiras impressões em amarelo pálido, prata e verde. Havia a persiana amarela; o mar verde; e o prateado das flores de maracujá. Eu pintaria um quadro esférico; semitransparente. Pintaria um quadro com pétalas curvas; com conchas; com coisas semitransparentes; pintaria formas curvas, transpassadas pela luz, mas sem contorno definido. Tudo seria amplo e vago; e tudo o que fosse visto seria também ouvido; sons atravessariam esta pétala ou folha – sons indistinguíveis das imagens. Som e imagem parecem ser partes iguais dessas primeiras impressões. Quando penso na manhãzinha na cama também ouço o grasnar das gralhas vindo de uma grande altura. O som parece cair por um ar elástico, pegajoso; que o apara; que o impede de ser claro e distinto. A qualidade do ar acima de Talland House parecia deixar o som suspenso, e ele afundava lentamente, como se preso em um véu azul pegajoso. O grasnar das gralhas faz parte das ondas quebrando – uma, duas, uma, duas – e do som da água quando as ondas recuavam e depois se reuniam, e eu deitada ali, meio acordada, meio adormecida, arrebatada por um êxtase tamanho que sou incapaz de descrever.

***

Essas, portanto, são algumas das minhas primeiras lembranças. Porém, é óbvio que como relato da minha vida são enganosas, porque as coisas de que não nos lembramos são tão importantes quanto; talvez até mais. Se eu pudesse recordar um único dia inteiro seria capaz de descrever, ao menos superficialmente, como era a vida quando criança. Infelizmente, só nos lembramos do que é excepcional. E não parece haver razão para uma coisa ser excepcional e outra não. Por que esqueci tantas coisas que, é algo a se pensar, devem ter sido mais memoráveis do que aquilo que de fato recordo? Por que recordar o zumbido das abelhas no pomar a caminho da praia e esquecer completamente que papai me atirava nua no mar? (Mrs. Swanwick disse ter visto isso.)

Isso leva a uma digressão que talvez explique um pouco da minha própria psicologia, e até mesmo a dos outros. Muitas vezes, enquanto eu escrevia um dos meus assim chamados romances, esse mesmo problema me desconcertou; ou seja, como descrever aquilo que na minha taquigrafia particular chamo de “não ser”. Cada dia inclui muito mais momentos de não ser do que de ser. Ontem, por exemplo, terça-feira, dia 18 de abril, por acaso foi um dia bom, acima da média em termos de “ser”. O tempo estava bonito; gostei de escrever estas primeiras páginas; minha cabeça aliviou-se da pressão de escrever sobre Roger; caminhei até Mount Misery e ao longo do rio; e exceto pelo fato de que a maré estava alta, o campo, que sempre observo com grande atenção, exibia as nuances e as cores de que eu gosto – lá estavam os salgueiros, eu lembro, todos cor de ameixa e verde suave e roxo contra o azul. Também li Chaucer com grande prazer; e comecei um livro – as memórias de Madame de La Fayette – que me interessou. Entretanto, esses momentos de ser isolados se emaranhavam em um número muito maior de momentos de não ser. Já esqueci sobre o que eu e Leonard conversamos no almoço, e no chá; embora tenha sido um dia bom, sua bondade estava enredada em uma espécie de algodão desinteressante. Sempre é assim. Uma enorme parte de cada dia não é vivida conscientemente. Caminhamos, comemos, vemos coisas, resolvemos o que precisa ser resolvido, o aspirador de pó quebrado, ordenar o jantar, escrever as tarefas para Mabel, lavar a roupa, preparar o jantar, encadernar livros. Quando o dia é ruim a proporção de não ser é muito maior. Tive uma febre leve semana passada; praticamente o dia inteiro foi de não ser. Aquele que de fato pode afirmar que escreve romances consegue de alguma maneira transmitir ambos os tipos de ser. Creio que Jane Austen consegue fazê-lo; e Trollope; talvez Thackeray e Dickens e Tolstói. Eu nunca fui capaz de expressar as duas coisas. Eu tentei – em Noite e dia, e em Os anos. Mas deixo de lado o aspecto literário por um instante.

Quando criança, então, meus dias, tal como hoje, continham uma grande proporção desse algodão, desse não ser. Semana após semana passava-se em St. Ives sem que nada causasse a menor impressão em mim. Então, sem nenhum motivo de meu conhecimento, vinha um choque violento e repentino; alguma coisa acontecia tão violentamente que dela me recordo por toda a vida. Darei alguns exemplos. O primeiro: eu estava brigando com Thoby no gramado. Dávamos socos um no outro. No momento em que levantei o punho para acertá-lo, pensei: por que machucar outra pessoa? Abaixei a mão instantaneamente e fiquei ali, imóvel, deixando que ele me batesse. Eu me lembro da sensação. Era uma tristeza desesperançada. Como se eu tivesse tomado consciência de alguma coisa terrível, e da minha própria impotência. Eu me esgueirei para longe, sozinha, terrivelmente deprimida. O segundo exemplo também aconteceu no jardim em St. Ives. Eu olhava um canteiro de flores junto à porta de entrada da casa; “Isto é a totalidade”, eu disse. Olhava uma planta com folhas espalhadas; e de repente me pareceu óbvio que a própria flor fazia parte da terra; que um halo englobava aquilo que era a flor, e que era ele a verdadeira flor; parte terra, parte flor. Esse pensamento eu guardei por achar provável que me fosse útil mais tarde. O terceiro caso também aconteceu em St. Ives. Uma gente chamada Valpy, que se hospedara lá, havia partido. Certa noite, enquanto esperávamos o jantar, ouvi meu pai ou minha mãe dizer que Mr. Valpy havia se matado. A próxima coisa de que me lembro é de estar no jardim à noite, caminhando pela trilha junto à macieira. Pareceu-me que a macieira estava de alguma maneira relacionada com o horror do suicídio de Mr. Valpy. Não pude passar por ela. Fiquei imóvel olhando os sulcos verde-acinzentados da casca – era noite de luar – num transe de horror. Tinha a impressão de que eu era arrastada, inexoravelmente, para um poço de desespero absoluto de onde eu não poderia escapar. Meu corpo parecia paralisado.

***

O que, então, restou de interessante? Novamente, os momentos de ser. De dois deles eu sempre me recordo. Teve o momento da poça no meio do caminho; quando, por nenhum motivo que eu tenha sido capaz de descobrir, subitamente tudo se tornou irreal; fiquei em suspensão; não pude saltar a poça; tentei segurar algo… o mundo inteiro tornou-se irreal.

Depois o outro momento, quando o menino demente saltou do nada com a mão estendida, miando, de olhos semicerrados, com bordas vermelhas; e sem dizer palavra, com uma sensação de horror por dentro, despejei na mão dele um saco de cara- melos russos. Mas a coisa não terminou nisso, pois naquela noite, na banheira, o mesmo horror mudo tomou conta de mim. Uma vez mais senti aquela tristeza desesperançada; o colapso que já descrevi; como se eu estivesse sem ação sob o golpe de uma marreta, exposta a toda uma avalanche de significados que tivesse se avolumado e tombado sobre mim, sem proteção, sem nada para me defender, de modo que eu me encolhi na ponta da banheira, imóvel. Não consegui explicar aquilo, não disse nada, nem mesmo para Nessa, que se limpava com a esponja na outra ponta.

Em retrospecto, então, em Kensington Gardens, embora eu consiga relembrar os incidentes, muitos mais do que tenho paciência para descrever, não consigo relembrar, salvo em arrancos, o foco, as proporções do mundo exterior. Tenho a impressão de que uma criança deve ter uma perspectiva curiosa, que vê um balão ou uma concha com clareza extrema; ainda enxergo os balões, azuis e roxos, e as nervuras das conchas; mas essas coisas estão englobadas por amplos espaços vazios. Como era imenso, por exemplo, o espaço embaixo da mesa do quarto das crianças! Eu ainda o vejo como um enorme espaço escuro, com a toalha de mesa caindo em dobras ao longe; e eu perambulando ali embaixo, e encontrando Nessa. “Os gatos pretos têm cauda?”, ela perguntou, e eu disse “não”, cheia de orgulho porque ela me fizera uma pergunta. Logo tornamos a perambular naquele espaço vasto. O quarto de dormir das crianças era vasto também. No inverno eu entrava escondida antes de ir para a cama para observar a lareira. Ficava muito ansiosa quando o fogo estava baixo, porque tinha medo de que continuasse aceso depois de nos deitarmos. Aquela pequena chama se agitando nas paredes me enchia de pavor; mas Adrian gostava dela; e numa tentativa de conciliação a babá dobrava uma toalha sobre o gradil de proteção da lareira; mas eu terminava abrindo os olhos e lá estava a chama se agitando; e eu olhava e olhava e não conseguia dormir; e para ter companhia, perguntava, “O que você disse, Nessa?”, embora ela já estivesse dormindo, apenas para acordá-la e ouvir a voz de outra pessoa. Esses foram os medos do princípio; porque depois, quando Thoby já estava no internato, deixando que Nessa dormisse com o macaco dele, Jacko, tão logo a porta era fechada começávamos a contar histórias. A história sempre começava assim: “Clémont, meu querido filho, disse Mrs. Dilke”, e depois contava peripécias malucas da família Dilke16 e de Miss Rosalba, a governanta; de como eles cavaram o chão e encontraram sacas de ouro; e deram banquetes imensos e comeram ovos fritos “com muito presunto frito”, pois a abastança dos Dilkes da vida real em comparação com nossas posses moderadas nos impressionava. Percebíamos quantas roupas novas Mrs. Dilke usava; e a raridade com que minha mãe comprava um vestido novo.

***

Muitas cores vibrantes; muitos sons distintos; alguns seres humanos, caricatos, cômicos; diversos momentos de ser violentos, sempre em meio a um círculo de cenas de onde eram destacados – e tudo isso rodeado por uma vasta amplidão: eis aí uma descrição esboçada da infância. É assim que dou forma a ela; e é assim que me enxergo como criança, perambulando por aí, no espaço de tempo que durou de 1882 a 1895. A um grande corredor eu a compararia; com janelas que deixam entrar luzes estranhas; e murmúrios e hiatos de profundo silêncio. Mas nesse quadro de alguma maneira é preciso incluir, também, a sensação de movimento e mudança. Nada permanecia estável por muito tempo. É preciso transmitir a sensação de tudo se aproximando e em seguida sumindo, aumentando, diminuindo, passando a diferentes velocidades pela criaturinha; é preciso transmitir a sensação que a fazia seguir em frente, a criaturinha, impelida como era pelo crescimento de suas pernas e braços, impelida sem ser capaz de fazer com que aquilo parasse, ou mudasse, impelida como uma planta é impelida para fora da terra, para o alto, até que cresça o caule, que cresça a folha, que os brotos intumesçam. Isso é o que é indescritível, é o que torna as imagens por demais estáticas, pois tão logo dizemos “foi assim”, já se tornou passado e se alterou. Como deve ser imensa a força da vida que transforma um bebê, que mal consegue distinguir uma grande mancha de azul ou de roxo em um fundo preto, na criança que 13 anos depois é capaz de sentir tudo o que senti no dia 5 de maio de 1895 – há 44 anos hoje, com a diferença de um dia –, quando minha mãe morreu.

Isso mostra que dentre as inúmeras coisas excluídas neste esboço, eu excluí o mais importante – os instintos, afetos, paixões, vínculos, não existe uma única palavra para eles, pois se transformavam mês a mês – que me conectavam, creio, às outras pessoas desde o meu primeiro instante de consciência. Se fosse verdade, como eu disse acima, que as coisas que se encerram na infância são fáceis de descrever porque são completas, então seria fácil dizer o que eu sentia por minha mãe, que morreu quando eu tinha 13 anos. Desse modo, eu deveria ser capaz de vê-la de modo completamente inalterado por impressões posteriores, tal como eu via Mr. Gibbs e C. B. Clarke. Mas a teoria, embora com eles seja verdadeira, no caso dela rui completamente. Rui de maneira curiosa, que explicarei, pois talvez ajude a explicar por que considero tão estranhamente difícil descrever tanto o meu sentimento por ela quanto ela mesma.

Até os meus 40 anos – eu poderia determinar a data exata conferindo quando escrevi Ao farol, mas aqui sou casual demais para me dar a esse trabalho –,17 a presença da minha mãe me obcecava. Eu ouvia a sua voz, eu a enxergava, imaginava o que ela diria ou faria enquanto eu ia tocando meus dias. Ela era uma dessas presenças invisíveis que ao fim desempenham um papel tão importante na vida de uma pessoa. Essa influência, e com isso me refiro à consciência de outros grupos impondo-se sobre nós, à opinião pública, ao que os outros dizem e pensam, todos esses ímãs que nos atraem para cá para ser desse jeito, ou nos repelem para lá para sermos de outro, nunca foi analisada em nenhuma das biografias que tanto gosto de ler, ou o foi muito superficialmente.

Entretanto, é por tais presenças invisíveis que o “tema destas memórias” é arrastado para cá ou para lá a cada dia da vida dele; é isso o que o mantém em posição. Considere as forças imensas que a sociedade impõe sobre cada um de nós, como essa sociedade se transforma de década para década, e também de classe para classe; ora, se não pudermos analisar essas presenças invisíveis, saberemos muito pouco sobre o tema das memórias em questão; e, nesse caso, que fútil se torna escrever sobre uma vida. Eu me vejo como um peixe numa correnteza; retido; imobilizado; porém incapaz de descrever a correnteza.

Mas voltando à esfera específica, que é certamente mais definida e passível de ser descrita do que, digamos, a influência dos Apóstolos de Cambridge sobre mim, ou a influência da escola de ficção de Galsworthy, de Bennett e de Wells, ou a influência do voto, ou da guerra – isto é, a influência da minha mãe. É perfeitamente verdadeiro que ela me obcecou até os meus 44 anos, apesar de ter morrido quando eu tinha treze. Até que, certo dia, enquanto caminhava ao redor de Tavistock Square, eu concebi, tal como às vezes concebo meus livros, Ao farol; numa urgência torrencial e aparentemente involuntária. Uma coisa detonava outra. Soprar bolhas de um canudo dá a noção da massa veloz de ideias e cenas que foram sopradas de meu espírito, de tal modo que meus lábios pareciam estar soletrando por iniciativa própria à medida que eu caminhava. O que soprou essas bolhas? Por que naquele momento? Não tenho ideia. Mas escrevi o livro com grande rapidez; e depois de escrito, deixei de me sentir obcecada pela minha mãe. Já não mais escuto a sua voz; já não a sinto.

***



20 de junho de 1939. Estive pensando em Stella enquanto atravessava o Canal ontem à noite; de modo bastante entrecortado desconexo, com gente discutindo em frente à porta; o trem com conexão ao vapor chegando; correntes tinindo; e o vapor soltando aqueles repentinos resfolegos ruidosos. E já que a primeira manhã após uma noite sobressaltada é uma manhã interrompida e perturbada, em vez de retomar Roger, como eu deveria, vou anotar alguns dos meus pensamentos distraídos e desconexos; para que, caso chegue a hora, sirvam de anotações.

Quantas pessoas ainda podem pensar em Stella em 20 de junho de 1939? Muito poucas. Jack morreu Natal passado; George e Gerald um ou dois anos atrás; Kitty Maxse e Margaret Massingberd agora já estão mortas há muitos anos. Susan Lushington e Lisa Stillman continuam vivas, mas onde moram e como, não sei. Talvez por esse motivo eu pense nela de modo menos desconexo e mais real do que qualquer outra pessoa viva, salvo Vanessa e Adrian; e quem sabe a velha Sophie Farrell. Da infância dela não sei praticamente nada. Era a única filha do belo advogado Herbert Duckworth, mas como ele morreu quando ela tinha três ou quatro anos, não se recordava dele, nem dos anos em que sua mãe foi tão feliz quanto se pode ser. Tenho para mim, por histórias soltas e pelo que eu mesma percebi, que quando ela tomou consciência de si quando criança os anos de infelicidade estavam no ápice. Isso explicaria algumas qualidades de Stella. Suas primeiras lembranças eram de uma mãe viúva muito triste, que “saía por aí fazendo o bem” – Stella desejava que isso tivesse sido inscrito na lápide –, visitando os bairros degradados, visitando também o Hospital do Câncer na Brompton Road. Nossa tia quacre me disse que esse era o hábito dela; explicando como um dos casos ali “a chocara”. Assim, Stella quando criança viveu sob a sombra dessa viuvez; viu aquela linda figura de véu e crepe diariamente; e talvez então tenha assumido o traço que lhe era tão distinto – a atitude de devoção, quase canina em sua adoração comovente, à sua mãe; a afeição passiva e sofredora; e também a dependência absoluta e incondicional.

Elas eram como o sol e a lua uma para a outra; minha mãe a positiva e definida; Stella o satélite refletor. Minha mãe era rígida com ela. Toda sua devoção era dedicada a George, que parecia o pai, e seus cuidados a Gerald, nascido postumamente e muito delicado. Stella ela tratava severamente; tanto que antes do casamento deles, meu pai arriscou um protesto. Ela respondeu que aquilo podia até ser verdade; ela era dura com Stella porque sentia que Stella “era uma parte de mim mesma”. Uma menina pálida e silenciosa é como eu a imagino; sensível; modesta; resignada; com adoração pela sua mãe, pensando apenas em como pode- ria ajudá-la, e sem nenhuma ambição ou mesmo personalidade própria. E, no entanto, tinha personalidade. Muito gentil, muito honesta, e de certa maneira individual – de maneira que causava a sua própria impressão nas pessoas. Amigos, como Kitty Maxse, a brilhante, a efervescente, a adoravam com uma ternura verdadeiramente risonha pelo que ela era em si mesma. Seu encanto era imenso; vinha em parte dessa modéstia, dessa honestidade, dessa abnegação perfeitamente simples e não ostensiva; vinha também da sua falta de pose, da sua falta de esnobismo; e da autenticidade; de algo que era – caso eu fosse capaz de indicar com exatidão – perfeitamente ela mesma, individual. Essa qualidade sem nome – a sensibilidade às coisas reais – era estranha de se ver na irmã de George e Gerald, que eram tão opacos e convencionais; que tinham tanto respeito inato pelas convenções e respeitabilidades. Por algum estranho lance em seu nascimento, ela passou ao largo de toda a nódoa do filistinismo dos Duckworth; não tinha nada de sua complacência arguta de classe média. Em vez dos seus olhinhos castanhos tão gananciosos e cintilantes, os dela eram muito grandes e de um tom azul claro. Eram olhos cândidos, sonhadores. Ela nada tinha do mundanismo instintivo deles. Era linda, também, de maneira um tanto mais vaga e menos perfeita do que minha mãe. Sempre me lembrava aquelas flores brancas grandes – flor de sabugueiro, erva-cicutária, que se vê nos campos em junho. Talvez o apelido engraçado que minha mãe lhe deu – “Vaca Velha” – venha da erva-cicutária. Ou, ainda, ela lembre uma lua branca desbotada num céu azul. Ou aquelas grandes rosas brancas que têm muitas pétalas e são semitransparentes. Tinha lindos cabelos claros, que caíam como dois chifres sobre sua testa; e absolutamente nenhuma cor no rosto. Quanto à sua formação – talvez ela tenha tido uma governanta; recebeu aulas; aprendeu violino com Arnold Dolmetsch e tocou na orquestra de Mrs. Marshall. Porém existia um bloqueio em sua mente, uma suave impassibilidade em relação a livros e ensino. Tal como me disse Jack depois da morte dela, ela se considerava tão estúpida que beirava a deficiência; e dizia que a febre reumática que ti- vera quando criança a havia (eu me lembro da palavra) “tocado”. Mas, de novo, o mais admirável, considerando o sangue dos Duckworth – tão grosseiros, tão rústicos, tão filisteus – é que, por mais simples que ela tenha sido intelectualmente, nunca foi, como uma irmã de George poderia muito bem ter sido, uma garota inglesa comum e alegre de faces coradas e olhos castanhos brilhantes. Ela era ela. Continuo vendo-a com grande clareza em minha mente. O estranho é que eu não consiga compará-la com nenhuma outra pessoa, nem em personalidade nem em feição. Que aspecto ela teria hoje em uma sala repleta de gente é algo que não consigo imaginar; nem como ela falaria. Nunca encontrei ninguém que me lembrasse dela, e isso vale também para a minha mãe. De nenhum modo consigo misturá-las ao mundo dos vivos.

Ela tinha 19 anos quando eu contava seis ou sete; e como uma garota não podia então sair por Londres desacompanhada, eu costumava ser mandada com ela, como dama de companhia. Entre as minhas lembranças mais antigas está a de sair com ela, quiçá para fazer compras ou uma visita qualquer; e, tarefa cumprida, ela me levava a uma confeitaria e me dava um copo de leite e pãezinhos polvilhados com açúcar sobre uma mesa de mármore. E às vezes saíamos em cabriolés. Mas ela vivia, obviamente, lá embaixo, na sala de estar, servindo o chá; e havia muitos rapazes ao seu redor, ou assim parecia quando por um segundo ali disparávamos correndo. Sabíamos vagamente que Arthur Studd estava apaixonado por ela; e Ted Sanderson; e creio que Richard Norton; e Jim Stephen. Aquela figura enorme de voz grave e olhos ensandecidos vinha em casa à procura dela, tomado por sua loucura; e irrompia no quarto das crianças e com sua bengala-espada lancetava o pão, e certa vez nos disseram para sair pela porta dos fundos e que se víssemos Jim era para dizer que Stella não estava.

VIRGINIA WOOLF (1882-1941), escritora, ensaísta e editora inglesa, autora de livros como Mrs. Dalloway, Orlando, Ao farol, Três guinéus e O leitor comum.

JULIANA LAPA, artista plástica pernambucana, nasceu e vive atualmente em Carpina.

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