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Mirante

Revolução invisibilizada

TEXTO Débora Nascimento

14 de Janeiro de 2022

Sly & The Family Stone se apresentando no 'Harlem Cultural Festival', em 1969

Sly & The Family Stone se apresentando no 'Harlem Cultural Festival', em 1969

Foto Reprodução

Culturalmente, o ano de 1969 ficou marcado pela realização de Woodstock. Três dias de paz, amor, música, lama e falta de infraestrutura. As imagens do festival são amplamente conhecidas no mundo. As diversas efemérides em torno do evento (seus 10, 20, 30, 40, 50 anos...) vêm sendo marcadas por reportagens na TV, na imprensa, no rádio, em relançamentos audiovisuais. São incontáveis as menções à sua realização em livros, documentários, filmes, entrevistas... Integra parte incondicional do conhecimento acerca da história da cultura pop saber da existência de Woodstock, promovido nos dias 15, 16 e 17 de agosto. Mas, naquele ano, ele não foi o único festival historicamente importante para a música e a sociedade norte-americana. Antes, nos dias 29 de junho, 13, 20 e 27 de julho, e, depois, em 17 e 23 de agosto, foi realizado o Harlem Cultural Festival, do qual quase ninguém tinha ouvido falar até o lançamento do documentário Summer of soul (...ou, Quando a revolução não pôde ser televisionada), vencedor, em sua categoria, do Prêmio do Público e do Grande Prêmio do Júri no Sundance de 2021 e um dos 15 pré-selecionados ao Oscar 2022 (a lista oficial será divulgada no dia 8 de fevereiro).

O subtítulo provoca o questionamento de por que as filmagens de um evento gratuito que contou com 24 atrações, dentre elas, Nina Simone, Stevie Wonder, BB King, Sly & The Family Stone, e que reuniu um público de 50 mil pessoas ao ar livre, no Mount Morris Park, não tenha se transformado em um filme na sua época, a exemplo de Woodstock. Embora tenha esse subtítulo, o evento produzido por Tony Lawrence (que apresentou os shows esbanjando carisma) e Hal Tulchin (que realizou as filmagens em cores) foi exibido, sim, na TV, em dois programas de uma hora numa emissora local de Nova York. Mas depois sumiu do radar. Ninguém se interessou em transformá-lo em um documentário. A Biblioteca do Congresso recusou acolher o material em seu acervo. Durante mais de 50 anos, essas gravações ficaram engavetadas na casa de Tulchin até que, pouco antes de sua morte, em 2017, entregou os rolos aos cuidados de dois produtores de cinema, Robert Fyvolent e David Dinerstein, que os presentearam ao músico, ator e diretor Questlove, mais conhecido como baterista do The Roots.

“Dois senhores me abordaram sobre ter 40 horas de filmagem desse show incrível que aconteceu no Harlem, semelhante a Woodstock, que na época todo mundo chamava de ‘Black Woodstock’. Eu era facilmente cínico porque meu ego não me permitia acreditar que havia algo monumental que aconteceu na música que eu não sabia. Além disso, se não estiver no Google, nunca aconteceu. Essa é a parte triste do apagamento; antes do nosso filme, você quase não sabia nada sobre isso. Houve apenas rumores de que talvez isso tenha acontecido”, afirmou Questlove, em entrevista à Variety.

Assim como Peter Jackson, que assistiu várias vezes às 60 horas de filmagens disponíveis para fazer The Beatles: Get Back, outro grande documentário de 2021, Questlove também viu e reviu as 40 horas do registro do Harlem Cultural Festival. Além do material disponível que tinha dos shows, realizou entrevistas com artistas, espectadores, especialistas e acrescentou imagens para contextualizar o ambiente e a sociedade da época.

Naquele período, a palavra black começava a ser usada como substituta de negro, sendo a jornalista Charlayne Hunter-Gault pioneira no seu uso no New York Times. E não havia menções à África. “Até então, tínhamos vergonha de ser chamados de africanos. Se você realmente quisesse chamar alguém de um nome ofensivo na comunidade negra, você os chamava de africano, e então se preparava para uma briga. É assim que esse tipo de auto-ódio estava embutido em nós desde, você sabe, desde séculos atrás. E assim, o que acaba acontecendo é que, em 1969, há uma mudança de paradigma. Uma nova geração vem e eles simplesmente têm uma nova maneira de pensar e não é como a geração de Martin Luther King. Eles são a geração dos Panteras Negras e estão se abraçando, estão se chamando de negros. As sementes do Black Joy começam em 1969, com nossa expressão, nosso estilo, nossa moda, nossa música, nossa criatividade”, contou Questlove à BBC.

Se na programação de Woodstock, os únicos artistas negros foram Richie Havens, Sly & the Family Stone (a banda tocou nos dois eventos), Jimi Hendrix (que foi recusado como atração no festival do Harlem e virou a estrela de Woodstock) e um único integrante nas bandas de brancos Blood, Sweat & Tears, Sweetwater e Sha-Na-Na, no festival cultural of Harlem a escalação era totalmente de artistas negros, com exceção de alguns músicos brancos de Sly e do grupo de cubanos de Ray Barreto, pois o bairro também abrigava uma comunidade latina.

Se na plateia de Woodstock já vimos o que ocorre hoje em diversos festivais, apenas espectadores brancos, no Harlem Cultural Festival dá para contar nos dedos os brancos na plateia, incluindo alguns policiais presentes (talvez pela audácia de o festival ter contratado como seguranças os Panteras Negras) e o então prefeito de Nova York, John Lindsay, que era benquisto na comunidade – o idealizador Tony Lawrence faz questão de levá-lo ao palco para uma breve fala e demonstrar que, numa época de extrema violência contra os cidadãos negros, podiam contar com um político (branco) na defesa dos direitos civis dos negros, já que também haviam sido assassinados John e Bob Kennedy.

Se a temática marcante de Woodstock foi de liberdade, paz, amor e protestos contra a Guerra do Vietnã, no evento do Harlem falar sobre aquela guerra, que alistava mais negros que brancos, era fundamental. Mas obviamente o tema-chave era o racismo, que vitimava milhões de afro-americanos e assassinava líderes, como o ativista Malcolm X, criado no Harlem, e o pastor Martin Luther King Jr, que havia sido morto a tiros em Memphis, em abril de 1968. A homenagem ao líder ativista é um dos momentos mais emocionantes do documentário, com discurso do pastor Jesse Jackson, seguido de um dueto entre Mavis Staples e a rainha da música gospel Mahalia Jackson. Elas cantaram Precious Lord, take my hand, a música preferida de King, numa interpretação veemente que representa toda a súplica de um povo por uma redenção de seu sofrimento.

Embora fosse formado inteiramente por negros, o público do Harlem Cultural Festival era visivelmente heterogêneo. Enquanto em Woodstock, a maioria era de jovens estudantes brancos hippies, no Harlem, havia estudantes com roupas ripongas ou afro, trabalhadores em geral, famílias inteiras, com mães, pais, avós, adolescentes e crianças. Uma delas, na época, era Musa Jackson, que dá o seu depoimento emocionado como espectador cujo testemunho finalmente ganhou confirmação através da prova imagética: “Eu não sou louco!”. Ele e outros espectadores, ao longo de todos esses anos, eram sempre questionados por amigos se não estariam mentindo sobre a realização de um evento que, por não haver comprovação (nem ingresso existia, pois foi gratuito), mais parecia ser uma história inventada.

Enquanto os depoentes assistem às imagens do festival no próprio documentário, é visível a emoção que sentem ao ver o registro desse tesouro escondido pura e simplesmente pela invisibilidade imposta a um povo por racismo. Por causa disso, o mundo, por exemplo, ficou 50 anos sem ver as imagens em cores de uma perfomance incrível de um jovem genial chamado Stevie Wonder. O artista foi um dos cedidos pela Motown Records. A presença da gravadora destinada a cantores negros, que era criticada por torná-los aparentemente “palatáveis” ao público branco, contrasta com outros artistas de aparência mais ousada, como Sly & The Family Stone, com um visual e formação de banda que, no futuro, influenciaria a estética de Prince.

Essa diversidade da programação acabou por fazer um panorama amplo da música negra da época e mostrar essa revolução que ocorreu na comunidade negra, bem explicitada nos costumes e nas roupas usadas por muitos espectadores, usando túnicas africanas e cabelos black power. O discurso de Nina Simone, que surgiu majestosamente em um lindo vestido amarelo de estampa afro, convocando os negros para uma luta contra o racismo, é um dos momentos memoráveis do evento.

Summer of soul ganha vida para se tornar, desde seu lançamento, um clássico instantâneo, podendo figurar dentre os documentários imprescindíveis da história da música, como o próprio Woodstock. É um tesouro com valor suficiente para também vencer o tempo. Cada frame desse documentário deve ser entendido como uma prova da vergonhosa tentativa de apagamento da história dos negros no mundo. Felizmente, a força de sua existência venceu. Seu surgimento é a reparação histórica de um erro que nunca mais deve ser repetido – após o lançamento de seu filme, Questlove soube de cinco outros grandes eventos envolvendo artistas negros que também foram invisibilizados. Podem vir mais bons resgates por aí...

No dia 20 de julho de 1969, enquanto Neil Armstrong dava, na Lua, um pequeno passo para um homem, no Harlem, uma pequena parte da humanidade estava nem um pouco interessada nisso, considerava que um grande passo para ela, seria poder viver dignamente. Todos os entrevistados da época afirmaram, no documentário, que o dinheiro aplicado na viagem espacial poderia facilmente resolver os problemas daquela população pobre que lutava para conseguir o básico, como uma escola decente para seus filhos, que não tinham o direito de sonhar em serem astronautas, apenas morrer em uma guerra que não lhes traria nenhuma honra, premiação ou vitória.

Naquele dia, havia um acontecimento muito maior para a humanidade do Harlem que o passo de Armstrong. Um jovem negro de apenas 19 anos, cego, contrariando todas as barreiras sociais e individuais, cantava e tocava virtuosamente bateria e teclados. Vencia, com muito talento e força de vontade, como um milagre e uma bênção, a “lei da gravidade” imposta aos negros pelos homens brancos.

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*As opiniões expressas pelos autores não representam
necessariamente a opinião da revista Continente.

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