Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Extra

O tempero do histórico Hotel Central

Como a culinária afetiva foi capaz de manter o funcionamento do mais antigo hotel pernambucano de grande porte

TEXTO Eliza Brito

14 de Janeiro de 2021

Vista para o Hotel Central

Vista para o Hotel Central

Foto Booking.com/Divulgação

[conteúdo extra ao Artigo | ed. 241 | janeiro 2021]

A história dos restaurantes no Recife começa vinculada à abertura dos hotéis. É que com a vinda da Família Real Portuguesa para o Brasil, em 1808, os portos do país, entre eles o do Recife – que era um dos mais movimentados da então colônia portuguesa –, foram abertos para o mundo e a chegada de viajantes exigiu o surgimento de novos espaços nos quais os visitantes pudessem se hospedar e comer bem. Atualmente, o Recife figura como um dos polos gastronômicos mais importantes do país e foi exatamente a comida que salvou uma das mais emblemáticas hospedarias da cidade. O Hotel Central, inaugurado em 1928, recebeu hóspedes como o ex-presidente da República Getúlio Vargas, a artista Carmen Miranda e o cineasta norte-americano Orson Welles, sendo o primeiro hotel de grande porte de Pernambuco.

“Os nossos visitantes mais ilustres se hospedavam ali. Ele era o Hotel Central, tanto por estar localizado no centro, como pela centralidade que ele desfrutava em relação a todas as atividades em funcionamento na cidade, que era culturalmente bastante efervescente nos anos de 1920”, explica a arquiteta e professora da Unicap Amélia Reynaldo. Mas, com a chegada da pandemia do novo coronavírus, por muito pouco o tradicional espaço não fechou as portas. A chefe de cozinha Rosa Maria Nascimento, 55 anos, vendo a crise se agravar, precisou juntar a fome com a vontade de comer: comandante desde 2016 do restaurante Tempero da Rosa, que funciona nas dependências do histórico prédio, resolveu encarar o desafio de manter todo o complexo em funcionamento.

“Quando os antigos donos resolveram fechar as portas durante a quarentena, eu fiquei desesperada. Eles me perguntaram se eu queria ficar com o hotel e apenas respondi: 'quero!' Sem pensar em mais nada”, comentou a cozinheira, que agora é responsável pela manutenção de um dos patrimônios arquitetônicos e afetivos da capital pernambucana. A tradição que Rosa Maria Nascimento ajuda a manter viva faz parte da sua própria trajetória. “Comecei a trabalhar como auxiliar de cozinha, no hotel, quando tinha 18 anos. Foi meu primeiro trabalho com carteira assinada. Mas minha relação vem desde pequena, porque vinha escondida para o hotel com minha mãe, que trabalhava como cozinheira”, relata.

O prédio de cor salmão e estilo eclético, localizado no coração do bairro da Boa Vista, região central do Recife, foi o primeiro arranha-céu da cidade. O uso de concreto armado e o elevador de manivela, provavelmente o primeiro instalado na cidade e que pode ser acionado ainda nos dias de hoje, possibilitaram a construção do edifício com 35,74 metros de altura, que na década de 1920 foi o mais importante hotel de luxo do Recife. Além dos seis apartamentos exclusivos, possuía 80 quartos, bar, restaurante, barbearia, perfumaria, salão para senhoras e um terraço na cobertura, com vista privilegiada.

HISTÓRICO
Os restaurantes faziam parte da demanda do público que frequentava os hotéis da cidade e apareciam como importantes atrativos para os viajantes e para as famílias abastadas da capital pernambucana, que se aburguesavam seguindo os padrões franceses e ingleses de vestuário, gastronomia e costumes. Como as antigas tabernas e casas de pasto eram locais promíscuos em que as bebidas eram o principal atrativo, os restaurantes, com mesas individuais e um ambiente mais moderno, surgiam como espaços “adequados” para a elite recifense de meados do século XIX, ainda bastante vinculada à lógica patriarcal de uma sociedade dominada por senhores de engenho.


EXTRA: Confira artigo Comer fora no recife do século XIX


A cidade era bem diferente da que temos hoje e ficava concentrada nos bairros do Recife, de Santo Antônio, de São José e da Boa Vista, que juntos, atualmente, formam apenas a região central da capital pernambucana. Os atuais bairros da Madalena, de Casa Forte, do Poço da Panela, por exemplo, eram antigos engenhos que começavam a formar os arrabaldes da cidade. A Boa Vista era o bairro das residências mais suntuosas do Recife, na virada do século XIX para o XX, onde vivia a maior parte da elite, por isso que nos anos de 1920 foi o local escolhido para a construção do imponente Hotel Central. Antes dele, ainda na década de 1910, o Hotel do Parque já figurava no mesmo bairro, com sua arquitetura de características ecléticas e neoclássicas. O prédio tinha como anexo o icônico Teatro do Parque e o conjunto fazia parte do plano do comendador português Bento Luís de Aguiar de criar, no centro da cidade, um parque de diversões nos moldes lusitanos. O empreendedor morreu antes de ter seu sonho concretizado, mas os estabelecimentos seguiram com grande relevância, no século XX. E o Teatro, mesmo depois do fechamento do hotel, continuou existindo como um dos mais importantes equipamentos culturais do Recife. Passou por obras, nos últimos anos, ficando fechado desde 2010 e sendo reinaugurado no último dia 11 de dezembro.

O Hotel Central veio na década de 1920 reafirmar a importância do bairro da Boa Vista para a cidade. Nos anos seguintes, outros importantes instrumentos como o Grande Hotel e o Nassau marcaram a história da cidade. Mas, junto com a decadência do centro urbano, veio a decadência dos negócios, que a partir de 1950 começaram a sofrer com a falta de hóspedes.

“Durante a Segunda Guerra Mundial, o tráfego aéreo do Recife foi otimizado. Nos anos de 1950, o aeroporto é fundado e isso de certa forma vai influenciar na concentração da rede hoteleira para a região sul. Somado a isso, tem uma questão nacional de replanejamento urbano das cidades. No período pós-golpe civil militar, vai haver um replanejamento, de certa forma uma expansão dos subúrbios, tudo isso vai fragilizar os centros das cidades”, conta o historiador e professor da Unicap Hélder Remígio.

Nas décadas finais do século XX, a Zona Sul do Recife já concentrava a maior parte dos hotéis da cidade. O empresário José Otávio de Meira Lins (67 anos), que já foi presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH) – Nacional e Pernambuco, além de presidente da Associação Interamericana de Hotéis (IHA), apontou um outro aspecto para essa migração da rede hoteleira recifense do centro para os bairros do Pina, de Boa Viagem e Piedade. “Os hotéis do centro foram definhando por conta da mudança do perfil do empresariado. Eles eram focados nos famosos caixeiros-viajantes, aquelas pessoas que viajavam, em nome de uma empresa, para fazer vendas numa praça. Com a Internet, essa realidade acabou, por isso houve uma mudança de perfil”, detalha.

A partir da década de 1950, com os estímulos para a verticalização da Zona Sul do Recife, Boa Viagem vai deixando de ser bairro de veraneio e passando a ser local de moradia da burguesia recifense. Além disso, os principais atrativos turísticos da cidade passam a ser as praias e o centro histórico perde importância, um fenômeno que se repetiu em outros locais do globo. Mas, com o processo de decadência dos centros urbanos, vieram a preocupação com o patrimônio arquitetônico e cultural e as tentativas de revitalização dessas áreas. No caso do Recife, os planos de preservação começam a ser realizados na década de 1980.

“As primeiras iniciativas de reabilitação do Bairro do Recife foram inciadas em 1986 e perpassa o ano de 1987, quando se muda o governo municipal e se tem o estancamento desse processo por um tempo. A retomada se dá em 1993”, lembra a professora Amélia Reynaldo. Ela explicou ainda que, no final da década de 1990, a tecnologia da informação passa a ser encarada como um fator de desenvolvimento do Estado de Pernambuco e foi por esta lógica que se iniciou a implantação do polo digital na área central da capital. Nos anos 2000, foi criado o Porto Digital, no Bairro do Recife, que vem transformando a cidade em um destacado polo tecnológico do país. Para o empresário José Otávio Meira Lins, este fato modifica o cenário hoteleiro local.

“Hoje já se nota uma ausência de leitos no centro do Recife, porque outros negócios surgiram, como os polos digital e médico. São novos negócios que, efetivamente, demandam hospedagem”, explicou José Otávio. E o Hotel Central pode se beneficiar desse novo perfil. O edifício, inclusive, foi tombado pelo governo de Pernambuco em 2018 pelo seu valor histórico. Mas, por se tratar de um empreendimento comercial, precisa de retorno financeiro e, como acontecia nos primórdios da hotelaria no Recife, a receita para o sucesso passa pela cozinha.

TEMPERO DA ROSA
“Quem está mantendo o hotel é realmente o restaurante. É ele que está conseguindo pagar as contas. Os hóspedes estão voltando aos poucos e a minha perspectiva para o futuro passa por manter o restaurante, já que foi a comida que trouxe o Central à evidência novamente”, afirma a atual proprietária do Hotel Central, Rosa Maria Nascimento. Ela explica que o carro-chefe do restaurante Tempero da Rosa é a culinária nordestina, procurada pelos turistas que se hospedam no hotel e também por muitos recifenses.

O café da manhã custa R$ 20 por pessoa e conta com 32 itens, entre frutas, sucos, bolos, tapioca e a tradicional cartola. Quem deseja petiscar conta com opções como caldinhos (R$ 7), a porção com oito bolinhos de bacalhau (R$ 20) e a muito generosa porção de filé com fritas (R$ 30). Para o almoço, os pratos com maior pedida são a charque desfiada com queijo coalho e farofa de cuscuz (R$ 30 para duas pessoas) e o peixe ao coco com arroz e pirão (R$ 25 o prato individual). Para sobremesa, os doces regionais são as opções mais procuradas, como o de mamão com coco (R$ 5). O restaurante funciona de segunda a sábado, das 7h às 15h e, aos domingos, apenas para o café da manhã, das 7h às 10h. 

O engenheiro civil Stenberg Lima (61 anos) é um dos frequentadores antigos do Tempero da Rosa. Criador do grupo Caminhadas Culturais, que realiza passeios históricos como forma de incentivar a preservação da memória e do patrimônio histórico de Pernambuco, Stenberg é um entusiasta do hotel e do restaurante. “O grupo Caminhadas Culturais promove passeios e eventos e, quando eles terminam, nós vamos degustar as delícias feitas pelas mãos de dona Rosa. O Tempero da Rosa difere dos demais restaurantes por oferecer uma comida caseira, nordestina, feita com muito amor”, comentou.

E é com muito amor e coragem que dona Rosa trabalha para manter viva a história do hotel que foi o primeiro arranha-céu da cidade, albergava famosas noites de réveillon com queimas de fogos na sua cobertura, grandes eventos da elite pernambucana e recebia hóspedes famosos. Hoje, quase um século depois de sua abertura, oferece o aconchego do cuidado com o patrimônio e uma culinária que é um verdadeiro luxo para o paladar.

ELIZA BRITO, jornalista, mestre e doutoranda em História.

Publicidade

veja também

Poemas de Pereléchin

O lado verde de Brumadinho

Direito de Resposta