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Reportagem

Pra cima com a viga, moçada

Um retrato da categoria social que denominamos juventude, que abarca pessoas na faixa entre 15 e 29 anos de idade com experiências de vida bastante diversas entre si

TEXTO LUCIANA VERAS
ILUSTRAÇÕES EDUARDO AZERÊDO

03 de Janeiro de 2022

Ilustração EDUARDO AZERÊDO

[conteúdo na íntegra até 14/01, às 13h | ed. 253 | janeiro de 2022]

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Maria escreveu um trabalho sobre Clarice Lispector e foi se vacinar contra Covid-19 envolta em uma bandeira com as cores do arco-íris. Otho é produtor cultural e preside o diretório de um partido político em Igarassu, no litoral norte pernambucano. Laís ensina inglês para alunos da rede privada – a primeira da sua família a se graduar em uma faculdade. Pedro gosta de tocar baixo e passou todo o ano de 2021 se preparando para o Exame Nacional do Ensino Médio – Enem. Ana Karoline é evangélica, estuda Direito e tem um filho pequeno. Paulo nasceu em Minas Gerais e hoje é voluntário na Gestos, uma ONG voltada para discutir gênero, soropositividade e comunicação sediada no Recife, onde conheceu Ana Vitória, que com ele atua no grupo de jovens ativistas. Matheus trabalha em um escritório de advocacia e repudia o racismo cotidiano que o ataca. Gabriela sonhava em ser cientista quando criança e hoje planeja atuar em Psicologia. E Jefferson está na coordenação nacional de um coletivo que tem saído às ruas para pedir o impeachment do atual presidente do Brasil.

O que tais cidadãs e cidadãos têm em comum? Apesar de ostentar idades distintas, variando dos 16 aos 29 anos, são da mesma categoria social: jovens. Integram o estrato abarcado pelo Estatuto da Juventude, instituído pela lei 12.852, de 5 de agosto de 2013. Assim informa o inciso 1º do artigo que abre o Capítulo I, Dos princípios e diretrizes das políticas públicas de juventude: “para efeitos desta Lei, são consideradas jovens as pessoas com idade entre 15 (quinze) e 29 (vinte e nove) anos de idade”.

Esta demarcação é mais larga do que a utilizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. Para o órgão responsável por compilar os dados acerca da nossa população, a faixa etária entre 14 e 24 anos, subdividida entre a adolescência (14-17) e a juventude propriamente dita (18-24), enquadra aqueles que se encontram entre a infância e a vida adulta. A última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do primeiro trimestre de 2020, aponta que o Brasil tem 12,345 milhões de jovens entre 14 e 17 anos e 22,058 milhões entre 18 e 24; a região Nordeste tem, respectivamente, 3,698 e 3,307 milhões; e Pernambuco abriga 608 mil e 1,056 milhão nesse espectro.

No final de agosto de 2021, o IBGE divulgou a nova estimativa populacional, ainda baseada no Censo Demográfico de 2010: temos 213,3 milhões de habitantes, 0,7% a mais do que os 211,8 milhões do ano passado. Os jovens representam cerca de 16,128%. Trata-se de um universo crucial, recortado pelo olhar das Ciências Humanas e Sociais e enquadrado pela contemporaneidade feérica e ainda mais dramática desde 2020, com a irrupção da pandemia do novo coronavírus.

Em entrevista à Revista de Psicologia da Universidade Federal do Ceará (julho/2021), a pesquisadora e professora carioca Lúcia Rabello de Castro, fundadora do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa na Infância e Adolescência Contemporâneas (Nipiac/UFRJ) e referência nos estudos da área, discorreu sobre alguns ângulos para se analisar o tema. “É claro que a concepção de juventude tem uma genealogia que corresponde a um campo que, de alguma maneira, está mais entrelaçado a uma tradição disciplinar da Sociologia e das Ciências Sociais. O conceito de adolescência não é diferente, estando mais ancorado a uma tradição do campo psicológico. Isso, porém, não quer dizer que o fenômeno adolescência seja igual em todas as partes. Essa concepção da adolescência como uma fase universal é uma coisa muito antiga, datada. Nesse sentido, é muito válida a ideia de que a juventude interesse – e com toda a razão – à Psicologia. Pensar a produção do sujeito jovem a partir de marcadores de raça, de classe, de território, de gênero, de nacionalidade, do rural e do urbano é extremamente importante para o estudo da juventude. As juventudes estão determinadas por essas condições de produção. A perspectiva descolonial nos ajuda a repensar os atravessamentos do fenômeno da juventude à luz também da nossa intelectualidade, e não apenas a partir de uma tradição marxiana ou norte-americana”.

“Repensar os atravessamentos do fenômeno da juventude à luz também da nossa intelectualidade” tem sido a proposta da Desidades, revista científica eletrônica quadrimestral do Nipiac, voltada a refletir sobre infância e juventude latino-americanas, e também do Núcleo de Estudo e Pesquisa sobre Juventudes/Nepej, braço da Universidade Católica de Pernambuco. É auspicioso constatar que, no Brasil, se ampliam os estudos ancorados não em concepções estanques e anacrônicas e, sim, no alicerce da pluralidade.Porque a juventude de Alice Pataxó, ativista e comunicadora indígena de 19 anos, da etnia Pataxó, do sul da Bahia, é diferente da Camilla de Lucas, 26, a influenciadora digital e youtuber brasileira que participou do último Big Brother Brasil; e a juventude de Rebeca Andrade, 22, primeira brasileira a ganhar duas medalhas numa mesma edição das Olimpíadas (e nossa primeira campeã olímpica), é diferente da de Mikael, centroavante do Sport Club do Recife, que tem a mesma idade, muito embora os dois sejam atletas; e a cantora Liniker, 26, e a atriz Anne Mota, 23, são duas jovens mulheres trans no campo das artes, mas de vivências bem-apartadas – como as experiências dos jovens entrevistados para esta reportagem.

“O jovem não é para ser aquele que está em transição, que virá a ser algo, que vai ser adulto, mas alguém que já é, uma categoria social que tem suas próprias necessidades e direitos. E sabemos que nunca foi fácil ser jovem no Brasil, com subemprego, dificuldade de inserção no mercado de trabalho e de acesso ao ensino superior, ainda mais agora, em meio a uma crise política e econômica. No Brasil de 14 milhões de desempregados, os jovens são os mais punidos. É a sociedade dos Nem/Nem: nem estuda e nem trabalha. Sem nenhuma perspectiva de inserção, abre-se uma porta maior para marginalização: os jovens veem na TV e nas redes um mundo com várias possibilidades, para consumo e viagens, mas em boa parte dos casos os pais estão desempregados. É uma situação complexa, quando pensamos nos recortes sociais e raciais. A realidade dos jovens periféricos é bem mais aguda”, afirma o professor João Elton de Jesus, assessor de extensão da Unicap e um dos coordenadores da recém-lançada especialização Juventudes: Experiência, Acompanhamento e Projeto de Vida.

Com duração de um ano, a pós-graduação lato sensu tem 19 disciplinas e direcionada a assistentes sociais, psicólogos e professores, iniciará sua primeira turma em março, com até 60 alunos e aulas às quintas-feiras e aos sábados. “Montamos o curso para que os alunos pudessem conhecer a realidade juvenil e pensar o jovem no mundo contemporâneo, em contexto de pandemia e de conexão a todo momento. Na realidade, não é ‘a realidade juvenil’, e, sim, as realidades juvenis, porque são várias. Queremos que os alunos, a partir do conhecimento adquirido na especialização, possam ter subsídios para fazer acomodamento dos jovens e ajudá-los na construção de um projeto para o futuro. Por isso temos esse conteúdo chamado Projeto de Vida: para que possamos ver uma forma de ajudar os jovens a desenhar um caminho a percorrer”, acrescenta o professor.

Uma das motivações para a Unicap oferecer a especialização foram as modificações anunciadas em julho passado pelo Ministério da Educação. “A Lei nº 13.415/2017 alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e estabeleceu uma mudança na estrutura do Ensino Médio. (…) Com carga horária maior e diferentes possibilidades de formação, o Novo Ensino Médio começa a ser implementado nas escolas públicas e privadas do país a partir de 2022”, diz a notícia no site do MEC. “A implementação do Novo Ensino Médio será iniciada no ano que vem de forma progressiva com as 1ª séries do Ensino Médio. Em 2023 com as 1ª e 2ª séries e completando o ciclo de implementação nas três séries do Ensino Médio em 2024. Esse modelo traz uma nova organização curricular e a ampliação da carga horária mínima das atuais 800 horas para 1.000 horas anuais”, prossegue o comunicado ministerial.

Amigos e companheiros de bancas escolares, Gabriela Duarte e Pedro Figueiredo, 18 anos, conversaram com a Continente por vias remotas, em seus quartos, respectivamente, na Madalena e na Iputinga, na capital pernambucana. Mirando as provas do Enem, que seriam realizadas nos dias 21 e 28 de novembro, não falaram das alterações por vir, e, sim, de como percebiam aquele “agora” – quando dividiam seis horas de aula presencial e ainda cobriam outras tantas de estudo em casa. Ela e ele pertencem ao contingente de 4 milhões de inscritos no Enem 2021 – cerca de 226 mil somente em Pernambuco. Coincidência, ou não, os dois prospectam os mesmos cursos – Psicologia ou Terapia Ocupacional – e demonstram interesse em atentar para o(s) outro(s).

“No começo do ano passado, fiquei bem preocupada, porque sabia que aquele era o Enem mais desigual da história. Pra mim, que sou da classe média, era tranquilo, pois tenho um computador e pude adquirir os livros e assistir aula online. Mesmo sem conseguir me adaptar muito às aulas online, reconheço que eu tinha todas as condições: celular, internet rápida. Muitos estudantes não tinham nada disso. Tem gente que diz que assim a concorrência era menor, mas não consigo ver dessa forma. E não tenho me cobrado muito, justamente pelo momento atual. É muito difícil se concentrar só nisso, ainda mais durante a pandemia. Porque, com tantos cortes enormes que o governo tem feito na educação, às vezes me sentia estudando para uma coisa que nem sabia se iria continuar existindo para mim. E se fecharem a UFPE? Isso me deixou bem nervosa e tive o privilégio dos meus pais poderem me colocar numa terapia. Mas e quem não tem nem a chance de poder conversar sobre isso tudo com uma psicóloga?”, indaga Gabriela.

“Minha psicóloga diz que, se eu não pensar no presente, não adianta pensar no futuro. Então eu quis fazer as minhas provas da escola bem, terminar o colégio aprendendo tudo bem e fazer o Enem sem pressão”, situa Pedro. “Porque fazer o Enem nessas condições já é complicado e intenso. Tem uma pressão imposta pela sociedade, que força essa coisa da velocidade. A pausa para respirar é necessária. Sei que parte importante da minha formação acadêmica, no segundo e no terceiro anos do Ensino Médio, foi extremamente louca por causa da pandemia. Estou fazendo simulado e prova toda semana, uma loucura para quem consegue manter a métrica, mas eu estou tranquilo para concluir a escola e ir para o Enem de boa. Se não passar, no ano que vem poderei me dedicar mais, pois quero entrar em Psicologia na Federal, universidade pública e gratuita que fica do lado da minha casa. E quero fazer o curso para trabalhar em ONGs, participar do Médico Sem Fronteiras e trabalhar ajudando as pessoas que mais necessitam”, detalha ele.

Vislumbrar para além do umbigo e das suas próprias vicissitudes é algo a ser valorizado, na opinião da psicanalista e psicóloga Laura Bechara. “O jovem que consegue olhar para fora, e pensar que tem muito a ser feito em um momento como esse, é um jovem que, em alguma medida, está lidando bem com sua parte interna. Se formos pensar, esses jovens estão fazendo muitos lutos: dos ideais, das ideias familiares, o luto parental, porque de uma certa forma olham para os pais e já acham que não são tudo aquilo que pensavam. Alguns também já fazem o luto pelo corpo, que passou por transformações na adolescência. E isso tudo em um momento no qual a perspectiva da vida lá fora não está fácil, em que existe desproteção sob um governo como esse. Muitos jovens não conseguem ver uma luz no fim do túnel e estão deprimidos, mas há os que encontram uma boa saída no laço social e no coletivo”, pontua ela, que é mestre e doutoranda no Instituto de Psicologia da USP, onde pesquisa o fim da adolescência, e integrante do LabPsi (Laboratório de Pesquisa Psicanálise, Saúde e Instituição).

Gabriela e Pedro concordam: é inevitável que o foco recaia nas 180 questões do Enem, contudo há outras urgências também. “Os jovens têm todas as ferramentas necessárias pra fazer grandes mudanças. Isso não é cringe, é importante para pensar. Só que, com a pandemia e tudo que vem acontecendo, muitos ficam nos seus próprios casulos, precisando se proteger. Nem sempre dá para suportar”, sublinha ela, usando a expressão cringe, que se tornou comum para indicar situações constrangedoras. “A esperança é um sentimento muito bom, mas a atrocidade desse governo roubou a palavra do meu vocabulário. Tenho dois lados, um desesperançoso com a crise, outro que sonha e trilha o caminho difícil que é aprender no mundo”, emenda Pedro.

Em 2017, com 21 anos, o baiano Diogo Moncorvo compôs o álbum Esú e cavou seu lugar no cenário da música brasileira contemporânea como o rapper Baco Exu do Blues. Na faixa-título, com alusão ao orixá que abre os caminhos e a quem homenageia em seu nome artístico, ele verseja: “Eu sou o canto do mundo/ E nesse canto do mundo, eu me refaço/ Dance com as musas entre os bosques e vinhedos/ Nesse sertão veredas e sentir é um mar profundo/ Nele me afundo até o fundo/ Insatisfeito com o tamanho do mundo/ Por isso o papel ficou pequeno/ Escrevo em paredes/ O mundo é fruto da nossa imaginação/ Será que somos deuses ou sua criação”.

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Maria Morim, Ana Karoline Sobral e Matheus Vieira não se conhecem, mas até poderiam já ter se esbarrado no Recife, pois circulam pela cidade. São, no entanto, exemplos bem distintos de experiências de juventude. Maria tem 16 anos, mora na Várzea, zona oeste, com seus pais e seu irmão mais novo, é aluna de uma escola da pedagogia Waldorf e pensa em estudar Artes Cênicas ou Letras; Ana Karoline, a Karol, tem 21 anos e todos os dias sai dos Coelhos, no Centro, para assistir às aulas de Direito, com uma bolsa patrocinada pelo Programa Universidade para Todos/ProUni. E Matheus, filho do meio de um casal do Guadalupe, em Olinda, tem 20 anos e sonha em aproveitar a expertise do seu atual emprego para emendar dois cursos técnicos antes de cursar Direito.

Em comum, os três apresentam pontos de correlação entre hábitos que poderiam ser atrelados à infância e aos costumes de quem pode e quer ser chamado de jovem. Matheus fala com a mesma empolgação sobre suas atribuições como auxiliar de serviço jurídico e as partidas de futebol de salão que joga com os amigos. Karol recorda a década que passou como aluna da Em Cena Arte e Cidadania, ONG voltada ao ensino de dança, teatro e música para crianças e adolescentes dos Coelhos, enquanto cuida de Felipe Luís, seu filho de um ano. E Maria tanto participa das conversas sobre Harry Potter e vê as lives de Felipe Neto sobre o game Among us como assiste a várias séries da Netflix, de tramas violentas como a sul-coreana Round 6, às temporadas de Grey’s Anatomy e Sex education.

“Às vezes, me sinto meio criança, até mesmo por nostalgia, como quando escolho ver desenhos infantis, tipo Charlie e Lola. Mas, na maioria das vezes, me sinto jovem, nem adolescente, jovem mesmo, indo para os protestos com minha família”, conta Maria. Em 29 de maio de 2021, no ato contra o presidente Jair Bolsonaro, ela estava com o pai e a mãe quando a Polícia Militar de Pernambuco começou a avançar para cima dos manifestantes na Avenida Guararapes, no centro do Recife, disparando balas de borracha em direção à multidão.

“Eu nunca tinha vivido uma situação daquela. Foi uma maneira não muito legal de descobrir o mundo”, recorda. Por outro lado, por ser da população LGBTQIA+, compreende que a descoberta das experimentações com sua sexualidade foi “supertranquila”. “Muita gente vive em famílias conservadoras e precisa se esconder. Meus pais são abertos e tranquilos. Não precisei de nenhum momento para, tipo, ‘vou contar para minha mãe que sou bi’. Foi gradual, natural e orgânico, até um dia em que estávamos almoçando e eu disse que ficaria com meninas e meninos. Hoje tem uma bandeira do arco-íris pendurada na entrada da nossa casa. É um privilégio”, reconhece.

Karol se sente privilegiada por estar na Primeira Igreja Baptista do Recife e ter sua devoção religiosa sem que sua liberdade seja cerceada ou suas escolhas, condenadas. “Sou evangélica e essa busca pela igreja foi uma coisa minha mesmo, porque eu passava pela frente e sentia vontade de participar. Já participava da igreja quando engravidei. E minha gravidez não foi planejada. Graças a Deus, lá tem essa abertura, sim, de viver o nosso dia a dia e dividir nossos anseios com relação a tudo – política, sexo, drogas, amizade e família. Ninguém é perfeito, a gente erra e julgar não cabe a ninguém. Fui muito acolhida durante a gestação. Conheço muitas pessoas que viveram essa realidade de serem exoneradas, excluídas das suas igrejas e de não quererem mais participar”, revela. “Hoje, participo do Resgate, que é um culto voltado para jovens com o objetivo de evangelizar usando a linguagem de hoje, e eu e o pai de Felipe Luís não estamos mais juntos, mas está tudo certo: meu filho é minha alegria, minha força e meu motivo para batalhar mais um dia”.

Quando ela fala em “batalhas”, é preciso deslindar o fato de que Karol é negra. Já sofreu preconceito em relação ao bairro onde vive, à pobreza e à cor da sua pele. Por isso, repete que um dos seus objetivos é “ajudar as pessoas lá de dentro a se enxergarem como gente de caráter, nobre, com conteúdo”: “A pandemia deixou tudo muito difícil, isso é verdade, mas a realidade já era de muita dificuldade. A gente sabe que, por ser de comunidade, recebe muito preconceito. As pessoas chegam a olhar estranho e fazem brincadeirinhas quando eu digo que moro nos Coelhos. E, às vezes, quando queremos voltar para casa, os motoristas de aplicativos não querem entrar. Mas eu sei que meu bairro não é só pobreza e criminalidade”.


EXTRA: Leia relato de Jackson Augusto, integrante do Movimento Negro Evangélico de Pernambuco, que saiu na Continente #245, de maio de 2021 


Disposta a difundir uma outra imagem da sua comunidade, ela se engajou na ação que a Em Cena Arte e Cidadania encabeçou para produzir, com recursos da Fundação Oswaldo Cruz/FioCruz, uma série de vídeos educativos sobre a pandemia, com assuntos como uso de máscaras e boatos sobre as vacinas. Porque sabe que o conhecimento é uma forma de “tornar o bairro melhor”, assim como a cultura consegue “mostrar muito mais do que as pessoas conseguem ver”. Uma argumentação perspicaz, sem dúvida. Para turbinar a divulgação, a campanha se concentrou no perfil que a ONG mantém no Instagram – afinal, se estar nas redes sociais é prerrogativa para quase todo mundo no planeta, que dirá de quem mais anseia por mergulhar na era da hiperconexão?

“Em 2019, 89% da população entre 9 e 17 anos era usuária de internet no Brasil, proporção que equivale a cerca de 24 milhões de crianças e adolescentes na faixa etária investigada”, sinaliza a 8ª edição da pesquisa TIC Kids Online Brasil, conduzida pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), por sua vez ligado ao Comitê Gestor da Internet do Brasil (CGI.br). Divulgada em novembro de 2020, e com dados coletados entre outubro/19 e março/20, a pesquisa tem o apoio da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), entre outras entidades.

Outra constatação relevante da pesquisa evidencia o alcance dos conteúdos gerados e postados em aplicativos como Instagram, Facebook e Twitter: “As atividades multimídia, de educação e de comunicação estão entre as mais realizadas por crianças e adolescentes no país. Considerando o total de usuários de 9 a 17 anos, 83% assistiram a vídeos, programas, filmes ou séries na Internet; 76% pesquisaram na Internet para trabalhos escolares; e 68% utilizaram redes sociais”.

E há diferenças “nas proporções de meninas (31%) e meninos (24%) que reportaram terem sido tratados(as) de forma ofensiva e que declararam ter testemunhado situações de discriminação na rede (48% entre meninas e 39% entre meninos). Quando questionados sobre os motivos pelos quais viram alguém ser discriminado, 33% das meninas se referiram à cor ou raça e 26% à aparência física. As proporções entre os meninos foram de 20% e 15%, respectivamente. Diferenças entre os sexos também foram observadas no contato com conteúdos sensíveis. A proporção de meninas (27%) que tiveram contato com cenas de violência na Internet foi superior à de meninos (17%)”.

“A impressão que vem da clínica, e que me chama atenção, é a angústia da postagem. Como vou postar, como vou ser visto, que comentários vou receber? É algo do conteúdo que se coloca, daquela exposição, e da possibilidade de alguém entender errado e desaprovar… Tudo isso produz muito sofrimento”, crê a psicóloga recifense Emília Miranda.

Em agosto passado, um jovem de 16 anos se suicidou em Natal, no Rio Grande do Norte, após a repercussão de um vídeo no qual aparecia simulando um beijo na boca de um amigo. Lucas Santos, filho da cantora de forró Walkyria Santos, chegou a gravar outro vídeo, enfatizando que ele e o amigo eram heterossexuais, porém sucumbiu ante o violento rebote nas redes. “Ele postou um vídeo no TikTok, uma brincadeira de adolescente com os amigos, e achou que as pessoas iriam achar engraçado, mas as pessoas não acharam; como sempre, as pessoas destilando ódio na internet. Como sempre, as pessoas deixando comentários maldosos. Meu filho acabou tirando a vida. Eu estou desolada, eu estou acabada, eu estou sem chão”, lamentou Walkyria. No mês seguinte, o TikTok, aplicativo de edição e compartilhamento de vídeos curtos inventado na China, divulgou que atingira 1 bilhão de usuários na Terra.

Para a psicóloga Laura Bechara, crescer em um “ambiente de selfies e filtros”, na era do eu editado, pode potencializar os sintomas de crise de ansiedade e ataque de pânico. “Como é que os jovens vão lidar com o imperativo exigente das redes sociais? Por um lado, com o governo destruidor que temos agora, e no contexto da pandemia, as redes são um campo que os jovens buscam, até para trabalhar a dimensão do corpo. Por outro, uma frustração pode gerar uma tamanha crise disruptiva”, atenta. “Não é que não houvesse fofocas lá atrás, quando nós éramos adolescentes, mas os mecanismos eram outros. Agora, tudo fica ali, registrado e passa a ter outra magnitude”, ressalta Emília Miranda.

Se existe o risco do impacto negativo nas ondas dos comentários preconceituosos e da agressividade dos haters nas redes sociais, há também a amplitude de oportunidades que o acesso à internet propicia. É por isso que comprar um telefone celular “rochedo” é uma das metas de Matheus, pactuadas nos acordos que ele teceu consigo mesmo, com a ajuda da terapeuta. “Estou buscando o que é melhor para mim e, agora, quanto mais aprendizado e conhecimento, melhor”, explica, “até porque se é bem complicado ser jovem no Brasil, é mais ainda ser um jovem negro. Até meus avós vivem falando para eu não usar um corte de cabelo que todo mundo usa, mas que, quando está na cabeça do jovem negro, faz as pessoas nos confundirem com ‘zé droguinha’. Sou sempre julgado pela aparência”.

Entre maio de 2019 e dezembro de 2020, Matheus foi jovem aprendiz no mesmo escritório onde trabalha atualmente, agora já em prestação de serviço enquanto aguarda ser efetivado. Ele pegava um ônibus de Olinda até o Pina, mas como ia vestido de “roupa social”, não atraía olhares apreensivos. “Eu fiz esse teste até mesmo com minha irmã, que se encontrou comigo e não me reconheceu. Se eu estou com roupa normal, bermuda e camisa, as pessoas me olham de um jeito. Mas, quando eu me visto com roupa social, vejo logo a diferença”, situa.

Ele recorda um episódio bastante emblemático de racismo, quando voltava com sua mãe e seu irmão de um shopping na divisa entre Recife e Olinda: “Quando o ônibus passou pelo Memorial Arcoverde, um carro de polícia parou e me mandou descer. A polícia meteu a arma na minha cara, em uma atitude constrangedora, que pela lei ela não pode fazer, e disse que tinha dois meninos que estavam roubando no shopping e que ela tinha pego um com a descrição. Me mandou descer. Graças a Deus minha mãe estava lá e disse ‘eles não vão descer, nós estávamos juntos, comprando roupa, eles estavam o tempo todo comigo’”.

Poucas semanas antes de conversar com a Continente, Matheus estava com dois amigos na Praça do Carmo, no Sítio Histórico de Olinda, quando os policiais chegaram. “Os meninos são brancos, têm o cabelo liso, as roupas mais caras, um outro patamar de vida. Eu sou o único negro, então por aí você tira quem foi que os PMs escolheram para dar um baculejo”, indica. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2021, divulgado em junho pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, das 50.033 vítimas de morte violenta intencional em 2020, 76,2% era pessoas negras, das quais 54,3% jovens (15 a 29 anos) e 91,3% do sexo masculino – Matheus se encaixaria nessa estatística.

Durante muito tempo, ele confessa que “não curtia o assunto de política e que tinha no pensamento que o voto seria nulo”. Entretanto, talvez como consequência direta do racismo que lhe ameaça, algo mudou. “Sou de classe média baixa, negro, sei o que é pobreza e sei que com Bolsonaro no poder todo mundo só está indo para baixo. Vou votar em quem já nos ajudou.”

Na semana em que ele, Karol e Maria falaram para esta reportagem, uma publicidade da Justiça Eleitoral era veiculada em horário nobre na TV aberta. Diversos rostos de jovens enunciavam, como em um jogral: “Eu voto porque eu posso/ Eu voto porque eu quero/ Eu voto porque eu me importo/ Esse país também é nosso/ A gente pode fazer/ E vai fazer a diferença”. Karol defende “novas pessoas com novas visões” e Maria e Matheus votarão em Lula, caso o ex-presidente seja de fato candidato pelo Partido dos Trabalhadores/PT. De um jeito ou de outro, os três entendem que em 2022 a hashtag é #BoraVotar.

***

Eu acredito é na rapaziada
Que segue em frente e segura o rojão
Eu ponho fé é na fé da moçada
Que não foge da fera e enfrenta o leão
Eu vou à luta com essa juventude
Que não corre da raia a troco de nada
Eu vou no bloco dessa mocidade
Que não tá na saudade e constrói
A manhã desejada

Gonzaguinha, em E vamos à luta, no álbum De volta ao começo (1980)

Em 2016, o campus central da Universidade Federal de Alfenas (Unifal), no interior de Minas Gerais, foi ocupado por centenas de jovens, alguns deles agrupados em coletivos de política estudantil (Juntos!, Levante Popular da Juventude e Quilombo), de defesa da educação popular (Emancipa), de cultura (Maracatu) e de religião (ABU). Aquela ação coletiva, transcorrida durante a presidência de Michel Temer, fecundou o solo para desabrochar, ao longo de dois anos, em uma pesquisa realizada pelo Grupo de Estudos sobre a Juventude da Unifal, com recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e por conseguinte no livro Coletivos juvenis na universidade e práticas formativas: política, educação, cultura e religião (Editora Pedro & João, 2020) [leia ebook aqui].

Na apresentação, o professor Luís Antonio Groppo, da área de Sociologia do Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL) da instituição de ensino superior e organizador da publicação, vaticina: “Na realidade observada, organizações e coletivos juvenis promoviam, com apoio da universidade (a Extensão e alguns docentes) ou sem apoio, de modo oficial, paralelo ou marginal em relação às rotinas oficiais da instituição universitária, uma formação política que mais se pode considerar uma autossocialização política e, até mesmo, uma coeducação política entre gerações, desafiando os limites tradicionalmente dados entre as funções dos agentes educacionais (docentes e estudantes), das categorias etárias (jovens e adultas e adultos) e dos espaços sociais (público e privado).

Essa tese de “coeducação” e “autossocialização política” há de ser respaldada pela atuação de jovens como Ana Vitória e Paulo Favaretto, que se conheceram na ONG Gestos, em um grupo de trabalho voltado para jovens ativistas; Jefferson Henrique, da Juventude Fogo no Pavio; e Otho Paiva, que fundou o Coletivo Catucá, em Igarassu. Poderiam cantar, juntos, os versos de Todos juntos, na adaptação que Chico Buarque fez para Os Saltimbancos – “todos juntos somos fortes/ somos flecha e somos arco/ todos nós no mesmo barco/ não há nada para temer” – ou mesmo as palavras de Gonzaguinha em E vamos à luta, pois não fogem da fera e enfrentam o leão.

Ou os leões, posto que são diversos. Para Ana e Paulo, a fera a ser combatida são o estigma e o preconceito ainda direcionados a quem vive com HIV/aids e também o reacionarismo conservador de quem defende que não se converse sobre educação e direitos sexuais. “Quero poder ajudar outras famílias para que não precisem passar pelo nós passamos. Meu tio adoeceu, a gente não fazia ideia do que ele tinha, mas ele estava muito fraco, sem nem conseguir andar. Depois de muito tempo, um médico pediu o exame de HIV e descobrimos que ele, na verdade, já estava com um quadro de AIDS. Hoje ele está se tratando, há mais de dois anos, e está bem, mas essa situação me deu vontade de participar, de ir para os lugares para falar com os jovens sobre HIV e AIDS, porque estamos vivendo um momento difícil no Brasil, de muito retrocesso, e eu sinto que os jovens muitas vezes não têm conhecimento algum sobre isso”, coloca Ana, 18 anos.


EXTRA: Leia dossiê A vida com HIV, publicado na Continente #204, dezembro de 2017


Ela e Paulo foram do programa Viva Melhor Sabendo, uma iniciativa do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento/Pnud, em parceria com o Ministério da Saúde, para aumentar a incidência de testagem para HIV – a Gestos foi uma das organizações da sociedade civil agraciadas com recursos para implementar essa ação. “Precisamos falar sobre HIV e a discussão precisa ir além do que já é feito, como a distribuição de preservativos. Temos que conversar sobre a PEP, a profilaxia pós-exposição, e a PrEP, que é a profilaxia pré-exposição, que é uma medicação que você pode tomar continuamente, principalmente se tiver uma vida de maior exposição à possibilidade de infecção. E falar dos testes como uma estratégia de prevenção também”, instiga Paulo, 29 anos.

“Estou no meu último ano de juventude”, brinca o mineiro que há cinco anos se mudou para o Recife. Paulo participa do podcast Papo jovem: os direitos que ninguém te contou, apresentado pelos integrantes do grupo de trabalho Ativismo Jovem da Gestos. Entrevistados pela Continente em setembro, tanto ele como Ana Vitória se entusiasmaram ao discorrer sobre a sensação de “fazer diferença”, porém reconhecem que o horizonte está turvo – ainda mais quando se tem um presidente como Jair Bolsonaro, que em fevereiro de 2020 declarou que “uma pessoa com HIV, além do problema sério para ela, é uma despesa para todos aqui no Brasil”.

“Temos que mudar essa visão de que a pessoa vivendo com HIV é um problema, um vetor, um risco. Até porque, se a pessoa toma sua medicação, sua carga viral fica indetectável e ela, consequentemente, não transmite mais o vírus”, comenta Paulo. “Precisamos falar sobre sexo, sobre direitos sexuais, sobre estratégias de prevenção não apenas para o HIV, mas para as outras infecções sexualmente transmissíveis. Tem muita gente jovem que adoece. Então, quanto mais cedo começarmos a falar disso com os adolescentes, melhor”, ratifica Ana.

Nesse caso, como em tantos outros, ativismo se alia à alteridade. Em Entre políticas de adesão e políticas de transformação: Construções e expressões de subjetividade política em jovens militantes (Edupe, 2018), a professora Érika Mendonça, com graduação, mestrado e doutorado em Psicologia e docente no campus da UPE em Garanhuns, chama a atenção para o lugar da participação política “para além da institucionalização e do partidário”. “Trago isso logo no título do livro, que é resultado da minha tese de doutorado”, explica Érika, integrante do Grupo de Estudos em Poder e Práticas Políticas/GPCol, idealizado no âmbito do Departamento de Psicologia da UFPE. 
“Porque tem a política de adesão, seja a um movimento institucional ou a partidos, quando os jovens querem se tornar vereadores, por exemplo, ou seguir o caminho da participação política formal; e a política de transformação, quando se trabalha a ideia de subjetivação política. O jovem não precisa estar em um determinado partido para ser um sujeito político. Ele pode lutar pela revisão e transformação de realidades a partir do seu posicionamento crítico, por exemplo. Uma outra característica desse sujeito político é sair do lugar de si mesmo em direção ao outro. Por exemplo, eu sou uma mulher cis, heterossexual e branca, mas isso não implica que eu não vá entrar nas lutas do movimento negro ou em defesa dos indígenas. Quando sai de si mesmo em direção a esse outro, esse jovem toma para si as pautas que não eram suas”, condensa a professora.

Para Érika, a humanidade tem uma construção política e histórica “de colocar a juventude como o lugar da transformação”. “Essa ideia do jovem como potência, com a capacidade de mudar o mundo, é uma visão construída social, histórica e politicamente, que também tem a ver com as questões hormonais, mais efervescentes. A juventude como esse espaço de inquietação: ao jovem, que na maioria dos casos não tem tanta responsabilidade, é mais fácil ousar”, observa.

Ousar, em 2022, tanto significa “tomar as rédeas da História para combater o sentimento de desilusão” como “não arredar o pé da luta”, respectivamente, nas palavras de Otho Paiva e Jefferson Henrique. O primeiro, 27 anos, é presidente do diretório municipal do Psol em Igarassu e um dos membros do Catucá, um coletivo pensado para resgatar a memória do município; o segundo, 22, é estudante de Serviço Social da UFPE e um dos coordenadores nacionais da Juventude Fogo no Pavio, nascida em 2019 nas hostes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto/MTST.

“Catucá é o nome de uma floresta, de um rio e de um quilombo que teve seu momento de maior resistência durante o período da Regência, na troca de poderes entre Dom Pedro I e Dom Pedro II. A partir dessa ideia, o coletivo surgiu para retomar o sentimento de pertencimento dos igaraçuaras, uma palavra de terminologia indígena que adotamos para honrar nossa herança. Durante a pandemia, entendemos que era preciso construir a luta com outros coletivos, então formamos a Rede Igaraçuara de Cuidados, composta por mais de 15 movimentos. Garantimos a distribuição de cestas básicas para mais de 300 famílias da cidade. As atividades culturais – como aulas com leituras de textos marxistas, exibições itinerantes de filmes e as batalhas de rima – ainda estão paralisadas, mas a partir do momento que a maior parte da juventude estiver com suas duas doses de vacina, vamos voltar”, explica Otho, “porque a cultura é instrumento de luta também”.

Foi a partir de uma batucada homônima que impulsionava os atos do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto em São Paulo que se alastrou a faísca da Fogo no Pavio. “Surgimos a partir das discussões tidas no Congresso da União Nacional dos Estudantes – UNE, e também dentro do MTST, mas desde maio decidimos que nossa atuação seria mais ampla, indo além da luta territorial e para dentro das articulações estudantis. Estamos organizados para disputar as ruas e as narrativas, entendendo que, na trincheira de luta, não dá para esperar 2022. Os ataques ao ensino público, à Saúde e às políticas públicas da juventude vêm acontecendo desde o começo desse governo. Não podemos perder de vista que estar nas ruas é fundamental para derrotar o bolsonarismo”, indica Jefferson.

Morador do Barro, na zona oeste do Recife, ele partilha a sua utopia: “Todo jovem periférico sonha com um futuro repleto de dignidade e esperança. Nesse centenário de Paulo Freire, aprendemos com ele que é importante esperançar”.


EXTRA: Leia reportagem especial sobre Paulo Freire publicada na Continente #249, de setembro 2021


***

Em 2 de outubro do ano passado, enquanto Jefferson Henrique marchava com a Fogo no Pavio pelo centro da capital pernambucana no ato #ForaBolsonaro, Marcone Ribeiro abria a primeira edição dos Jogos do Orgulho, no Ginásio de Esportes Geraldo Magalhães, o Geraldão. Mais de 300 pessoas participaram dos torneios de futebol de salão, vôlei e queimado na iniciativa voltada para a juventude LGBTQIA+. “Como gestor público e jovem negro e LGBTQIA+, tenho o compromisso com a promoção da inclusão e da diversidade através do esporte”, explana o secretário-executivo de Juventude do Recife, cidade governada por um prefeito jovem, João Campos completou 28 anos em novembro de 2021.

Marcone, 25, nasceu no Coque, perdeu seu pai, assassinado quando ele tinha 7 anos, estudou na rede pública de ensino e foi beneficiado por diversas políticas públicas – do Bolsa Família ao Universidade para Todos. Criou um projeto social chamado Coque Connecta, para incentivar o aprendizado de inglês e já participou da The Youth Assembly, conferência da juventude da Organização das Nações Unidas, mas não se ilude com as conquistas. “Porque o acesso à educação e a oportunidades como essas não pode ficar restrito a poucos privilegiados e a juventude negra, no nosso país, ainda está em uma situação de maior vulnerabilidade”, diz.

Em 2022, o Recife terá a Conferência Municipal de Juventude e revalidará o Plano Municipal de Juventude, sancionado pela lei 18.279/2016. O Brasil, que instituiu o Conselho Nacional de Juventude e a Secretaria Nacional de Juventude e o Programa Nacional de Inclusão de Jovens em 2005, pela lei 11.129, tem um presidente que, em 2019, chamou a jovem ativista sueca Greta Thunberg de “pirralha” e enalteceu a apatia dos jovens. “Queremos uma garotada que comece a não se interessar por política, como é atualmente dentro das escolas, mas comece a aprender coisas que possam levá-las ao espaço no futuro”, apregoou Jair Bolsonaro. Como em outubro haverá eleição presidencial, é capaz de a juventude ignorar esse “conselho” e abraçar a política como um meio para vislumbrar o futuro.

E, com ou sem Carnaval neste 2022, independentemente de frevar ou não, cada jovem seguirá curtindo seu brega, ouvindo seu funk, dançando o passinho, descobrindo-se e reinventando-se, enquanto trava suas batalhas e alimenta seus sonhos.

Nem todos farão como Laís Lins, que tatuou a seguinte frase de Hey Jude, icônica canção dos Beatles, no ombro: “Don’t carry the world upon your shoulders”. “Porque tem momentos que eu sinto exatamente isso, que parece que tudo se volta para cima de mim, como se eu fosse responsável pela minha mãe e pela minha avó. Fiz essa tatuagem aos 19 anos e hoje, com 26, acho que ainda faz sentido. Não acho que compete à juventude carregar o mundo, mas acho que a gente termina carregando”, destaca a professora de Inglês, que enfrentou a morte precoce do pai, foi expulsa de casa pela mãe e chegou a abandonar os estudos no Ginásio Pernambucano antes de ser pioneira – a primeira em sua família a entrar numa universidade.

Outros versos estão na sua pele, como “Love will tear us apart”, do Joy Division, e “Nothing is gonna hurt you baby”, do Cigarettes After Sex. Na intensa contradição da juventude, a certeza de que o amor há de nos despedaçar, porém nada vai nos machucar. “Tudo só vai melhorar se ajudarmos uns aos outros. Tive professoras que duvidaram de mim, e até me perseguiram, mas uma delas pegou na minha mão e me abriu um caminho. É o que procuro fazer agora, incentivando o aprendizado com consciência”, afirma Laís, sem correr da raia a troco de nada, seguindo em frente e segurando o rojão.

LUCIANA VERAS, repórter especial da Continente.
EDUARDO AZERÊDO, designer e ilustrador.

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