Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Resenha

O 'rito de passá' de MC Tha

Cantora paulistana faz funk para falar de umbanda e busca por identidade, a partir de um álbum de estreia que é mote do seu show no Molotov e em outros festivais

TEXTO Fernando Silva

13 de Novembro de 2019

MC Tha e sua Iansã pós-moderna

MC Tha e sua Iansã pós-moderna

Foto Divulgação

[conteúdo exclusivo Continente Online]

MC Tha tinha um plano traçado ao produzir Rito de passá. Em suas palavras, ela desejava “desfrutar do que o Brasil tem e agregar à música”. Mas se o resultado visto no seu álbum lançado em junho vai nessa direção – como se o funk entrasse em um liquidificador e saísse em forma de batida nos sabores tecno brega, pop e MPB –, a cantora e compositora também diz se interessar em tocar o público de outra maneira, além das canções e dos vocais suaves."[Fazer com que] As pessoas se olhem pra entender de onde vieram, a cor que têm."

Tal busca pelas origens é tema constante dessa artista paulistana de 26 anos, que se vê em uma missão de levantar questionamentos país afora. “Sem enfiar o pé na porta, sabe?”, faz questão de explicar, entrando no terreno do discurso de não perder a ternura. “Acho que existe forma mais calma, pacífica, de brincar e falar sobre isso.” Seja como for, vem ganhando reconhecimento. Ela é uma das atrações do festival No Ar Coquetel Molotov (16/11) e já tem show agendado no MECANewYear Inhotim, em dezembro, e no Lollapalooza, em abril de 2020. MC Tha concorreu ainda ao troféu de “revelação do ano” no Prêmio Multishow.

Produzido no centro de São Paulo, no bairro da Santa Cecília, o primeiro disco da sua carreira foi lançado de forma independente. Sem recurso de gravadora nem qualquer tipo de patrocínio ou apoio cultural. “Teve ausência de dinheiro”, brinca MC Tha. Rito de passá é repleto de pistas sobre a identidade da artista nascida na Cidade Tiradentes (SP), indo de temas cotidianos a religiosos. No trabalho, ela cita a astrologia em Despedida; canta que veio “do lixo pra beijar o luxo” em Avisa lá; narra uma paquera sem ser vulgar em Onda; ao ritmo dos atabaques, louva sua fé de umbanda na faixa-título.

Moradora da Zona Leste até hoje, ela tinha de atravessar a cidade rumo ao estúdio, montado na casa do produtor musical Pedrowl, para gravar os vocais e acompanhar o processo. “Houve dias em que eu não tinha o dinheiro da condução para ir até lá. Aí ele falava: ‘Vou depositar o dinheiro e você vai vir’.” Assim finalizou o projeto e o lançou nos serviços de streaming.

“Quando eu estava produzindo o álbum, só esperava que conseguisse colocá-lo na rua. Achava importante. O que ia me dar de volta, quantas visualizações ia ter, isso não importava muito. Tanto que eu brincava com o Pedrowl, falava: ‘Se eu morrer, se acontecer algo, você lança esse disco’ [risos]. Foi uma dificuldade tão grande que juro que tive esse pensamento”, recorda a cantora.


Foto completa da capa do disco Rito de passá. Foto: Divulgação

O LESTE, MEU LUGAR
A história de Thais Dayane da Silva, a MC Tha, é bem brasileira. Filha de pais baianos (e separados) que migraram para São Paulo, ela cresceu em três casas diferentes: na da mãe, que é de Senhor do Bonfim (BA) e se virava como podia, trabalhando com coleta de reciclagem e fazendo limpeza na escola onde encarava as aulas do supletivo; na da avó materna, costureira cujo ganha-pão era vender de porta em porta panos de prato e tapetes; e, por fim, na casa do pai, um operário vindo de Piripá (BA) que ficava com a menina nas férias.

Tudo isso em Tiradentes, na extrema zona leste paulistana, onde está o maior complexo de conjuntos habitacionais da América Latina. E onde, segundo dados do Mapa da desigualdade 2019 divulgados pela Rede Nossa São Paulo, a expectativa de vida é a pior da cidade, com 57,31 anos (a de Moema, bairro nobre localizado na Zona Sul, é de 80,57 anos, o melhor índice).

Lá, MC Tha foi criada e se tornou cantora. Virou ainda uma espécie de seguidora de Douglas, seu irmão mais velho. “Tudo o que ele fazia eu queria fazer também – ele era uma referência pra mim. Então, muito do meu gosto, muitas das coisas que sei da vida vieram dele”, relembra a artista.

Foi por influência do rapaz que passou a ouvir rap nacional, transcrevendo para cadernos, inclusive, as letras ouvidas em rádios e CDs, a fim de entender os significados. O exercício levou a menina a se interessar por rimas, que criava até em cartinhas manuscritas na infância.

A paixão cultivada pelo hip-hop até a impulsionou a soltar a voz. “Naquele tempo, era moda ter karaokê em casa, e minha mãe comprou um microfone pra gente conectar no som. Aí, quando todo mundo saía, eu ligava o microfone, colocava uma fita cassete do Douglas pra rodar e cantava as músicas”, conta. Em uma dessas ocasiões, por engano, acabou apertando um botão diferente no aparelho e gravou sua própria versão de um rap do grupo Expressão Ativa. “Meu irmão encontrou essa fita e achava a coisa mais linda do mundo. Mostrava pra todo mundo: ‘Olha como a Thais canta bem’.” À época, ela sentia vergonha. Hoje, considera primordial o episódio. “Aí comecei a prestar atenção se eu cantava bem ou não.”

A garota, que gostava das aulas de língua portuguesa do colégio, frequentava também cursos de dança e capoeira. “Eu queria muito fazer balé, mas minha mãe falou que eu tinha de aprender a me defender. Então, me colocou na capoeira”, fala rindo. Foram oito anos no jogo-dança até o dia em que recebeu a notícia da morte do irmão Douglas, vítima de um acidente de moto. “Ele tinha 18 anos e a missa de sétimo dia foi no meu aniversário de 13 anos. Parecia que o mundo tinha acabado.”

A perda desanimou MC Tha em relação a tudo. Nem os trabalhos de modelo que surgiam na agência, na qual era cadastrada, ela queria fazer. “Eu só fui voltar a me interessar por alguma coisa quando conheci o funk.”


MC Tha. Foto: Divulgação

OLHA QUEM CHEGOU
Aos 15 anos, ela decidiu entrar de cabeça no fluxo das ruas da Cidade Tiradentes. “Comecei a participar de um bonde, já que o funk tinha isso de a gente ter bondes e ir pras festas, todos com seu representante pra subir no palco e cantar.” O dela se chamava Bonde Sinistro. “Eram uns 50 meninos, eu e mais umas três meninas. Estávamos lá porque eu ficava: ‘Vai ter menina, sim’ [risos]. Eles mesmos não queriam, não.”

Infiltrando-se naquela estrutura, a jovem iniciava a trajetória como compositora. Ainda tímida, guardava as canções a sete chaves até o dia em que jogou uma ideia para MC Gordo e MC Marola, vocalistas do grupo. “Fiz uma música pro nosso bonde. Vocês querem gravar?”, narra. “O nome desse funk era Bonde Sinistro, e eles concordaram em registrá-lo.”

Sem tantos recursos, a molecada tinha seu modus operandi de gravação, bem simples. O estúdio era o computador: baixava-se um programa de áudio e daí gravavam as vozes em fones de ouvido com microfone. A base rítmica também vinha de downloads na internet. O processo transformou a adolescente Thais em “mestre de cerimônias”. Na hora, ela não percebeu, mas nascia ali a MC Tha. “Gravei uma guia, que era eu cantando pra eles escutarem, decorarem a letra. Só que soltaram essa gravação com a minha voz, sem me pedir, em um site que a gente usava muito, o 4shared”, diverte-se, hoje, a cantora.

Passou a receber elogios na escola, sem entender o motivo, até que viu (e ouviu) a própria criação fazer sucesso na comunidade. “Tinha sete minutos e falava o nome de todos os participantes do bonde. A gente brincava que era Diário de um detento [clássica música dos Racionais MC’s] parte 2 [risos].”

Logo, arranjaram uma data pra sua primeira apresentação ao vivo. Ela não queria – “Não vou, gente, eu não canto. Vocês estão doidos”, dizia. Era tarde demais. Acompanhada por dançarinas, subiria ao palco de um estabelecimento em São Miguel Paulista, também na zona leste, e assim daria o passo inicial na carreira.

Para ela, a Cidade Tiradentes foi fundamental em seu florescimento como artista. “Sempre me arrisco a dizer que ela foi o berço do funk [na cidade]. Um dos primeiros lugares a receber o ritmo que veio da Baixada Santista e a fazer eventos, espalhar pra outros bairros”.

Renato Barreiros, então subprefeito da região, foi dos maiores responsáveis por propiciar aquele cenário, segundo MC Tha. Produtor cultural e diretor de filmes, ele organizou o Funk Festival – Canta Cidade Tiradentes e recebia MCs no gabinete para debater a criação de eventos. “Ele tentava entender a juventude, não reprimir.”

Ao chegar à maioridade, no entanto, ela largou a música. Com 18 anos, começou a cursar a faculdade de Jornalismo, paga com o salário do emprego na Fábrica de Cultura, rede de centros de formação e difusão artística construída pelo governo do Estado de São Paulo em bairros da periferia. Em ambos os projetos, MC Tha contou com a ajuda de Barreiros.

Na Fábrica de Cultura, conheceu Jaloo, em 2012. Primeiro, apenas colega de trabalho; depois, um grande parceiro e amigo. O paraense desembarcava na cidade para ser o responsável pelo estúdio da unidade do Itaim Paulista, onde músicos podiam agendar horário e gravar de forma gratuita.

Então longe dos microfones, na rotina de revezar trabalho e estudo, Thais ganhou de seu chefe Barreiros a tarefa de recepcionar o rapaz vindo do Norte. “Foi amor à primeira vista. Quando vi, a gente estava morando junto”, relembra ela. Durante cinco anos, passaram pela Vila Mariana, pelos Jardins e pela Pompeia. No processo de várias mudanças de bairro, Jaloo investiu em sua carreira de cantor, o que a influenciou a retomar os tempos e as atividades de MC Tha.

Sem concluir o curso de Jornalismo, ela voltou à música, em 2014, com o single Olha quem chegou, produzido por Jaloo.



ABRAM-SE OS CAMINHOS
A umbanda é ponto central no trabalho de MC Tha, mesmo não sendo tema único de suas músicas. Em Rito de passá, carro-chefe do disco homônimo, ela fala de entidades, fé e ciclos, repetindo sempre o desejo de ver abrir os caminhos. O clipe da faixa, lançado em fevereiro e já tendo ultrapassado a marca de um milhão de visualizações no YouTube, reforça a ideia entre cenas de oferendas, rituais e da cantora no Cantinho dos Orixás, em Nazaré Paulista, cidade a 64 quilômetros de São Paulo.

Ela traz ao século XXI uma longa tradição da música brasileira de reunir som e religiões de matriz africana. Por isso, MC Tha se junta a nomes como a mãe de santo e quituteira Tia Ciata, personagem vital no nascimento do samba; o compositor baiano Dorival Caymmi; as cantoras Maria Bethânia e Clara Nunes; e Vinicius de Moraes, Baden Powell e seus afro-sambas.

“Acho que Rito de passá é a canção que resume o álbum porque ela trata desse jogo da vida, de entendermos as fases em que estamos e que tudo é aprendizado”, explica, mencionando os versos “Cantar e dançar pra saudar/O tempo que virá/Que foi/Que está”, refrão da composição. “É viver o que está proposto ali no momento, ao invés de ficar tentando nadar contra a correnteza, se culpando e se machucando.”

No entanto, não foi fácil para a garota aceitar que aquela era sua religião. Pensou em ser evangélica, cogitou o espiritismo, mas vivia sonhando mesmo com orixás de umbanda e candomblé. “Vai ser uma revolução porque não sei se minha família vai aceitar”, era um de seus diversos pensamentos naquela época. Quando, enfim, aos 22 anos, ela resolve conhecer um terreiro, não o abandona mais. Após seis meses como convidada, MC Tha se tornou médium da corrente. E lá se vão três anos.

Segundo a cantora, a crença ajudou a sanar dúvidas e angústias que sentia diariamente. “Aí eu pude me entender e aceitar muita coisa em mim, a minha natureza.”

Isso, ela conta, incluía compreender suas raízes, a própria personalidade e até voltar a ter cabelos longos, cheios e armados, deixando os alisamentos de lado. Refletiu-se na música também, em uma busca pela naturalidade. “Eu não tenho formação musical e nunca tive aula de canto. Então, o que faço é muito intuitivo.”

Foi assim, na base da intuição, que surgiu a capa do disco. Nela, a artista usa boné e óculos escuros, veste um saião branco, um véu e uma blusa vermelhos e segura uma vela e uma espada de cor encarnada. Mas conceito de juntar elementos não era, inicialmente, tão religioso: “Eu não tinha a ideia de representar nenhum orixá. Só que, no dia da sessão de fotos, me veio à cabeça de que [a imagem produzida] era a de uma Iansã pós-moderna”.

Sentada em um café de um shopping center na Pompeia, zona oeste de São Paulo, MC Tha sorri ao relembrar a história sobre essa entidade, velha conhecida desde sonhos da infância. E aproveita pra esclarecer: Iansã é orixá do vento e dos temporais, é quem pode virar o tempo. “Ela vai pra guerra com outros orixás. Então, se vocês enxergam Iansã [na capa], e na hora em que fui tirar a foto eu também enxerguei, tudo bem. Tem tudo a ver.”



MÚSICA INTERNACIONAL SÓ EM IORUBÁ
Em setembro, a Continente viu um show de MC Tha em São Paulo, na Casa Natura Musical. Na apresentação, ela girou no palco, ficou de pé no balcão do bar, desceu à pista para cantar ao lado do público e interpretou clássicos do cancioneiro nacional. Fazem parte do setlist, por exemplo, Tigresa, de Caetano Veloso, e Preciso me encontrar, composição de Candeia celebrizada por Cartola. Nada mais natural para alguém que adora Zeca Pagodinho e Alcione.

“Se você pegar meu celular, não vai ver uma música internacional. Só em iorubá”, diz, aos risos. Para ela, o caminho a ser trilhado na carreira envolve apenas o som produzido no Brasil.

Quando questionada a respeito de referências e do que escuta, transbordam ritmos e artistas brasileiros em sua lista. “Sou muito fã de Cazuza. Ele influenciou muito meu estilo de compor”, cita. “Gosto de samba, de tecno brega, do [grupo] Os Tincoãs. Ouço Mestre Verequete [o rei do carimbó].”

Ali, em meio aos holofotes, ela só para na hora de Oceano, faixa em que canta “Se lambuzaram no doce/ Levaram o melhor que eu tinha/ E enquanto a boca amarga/ Meu coração desalinha”. Neste momento, senta-se e segura um espelho diante do rosto. É identidade e origem em cena. “Tem gente que fala que se lembra da relação com a família, com os amigos. As pessoas dão outros significados”, conta. “[Mas] Eu escrevi pensando na solidão de uma mulher negra e periférica porque parece que a gente nunca tem espaço pra ser feliz. Converso com manas negras e é uma tristeza. Elas falam de uns caras que entram na vida, dão toda a corda do mundo pra confiar [neles] e, no final, é responsabilidade afetiva zero.”

Em seu espetáculo, MC Tha mostra ainda canções que não entraram em Rito de passá e foram lançadas como singles, casos de Valente e Bonde da Pantera. Outra de suas criações com presença garantida é o tecno samba Céu azul, gravado em dueto com Jaloo. Na Casa Natura, quem apresentou essa música com ela foi Luiza Lian. “É uma das mais bonitas da nossa geração”, afirma a cantora de Azul moderno. Na opinião de Luiza, sua contemporânea tem o poder da conexão. “Acho que o trabalho dela é precioso, traz mensagens que são importantes de serem difundidas e escutadas.”

FERNANDO SILVA é jornalista.

Publicidade

veja também

Música é navalha em 'Ainda temos a imensidão da noite'

Fora das roupas, dentro das almas

'Parasita' e as fissuras do capitalismo

comentários