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Partida 3: Santa Cruz x Sport

TEXTO Samarone Lima

01 de Junho de 2014

Foto Leo Caldas

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 162 | jun 2014]

O clima estava tenso para o time do Santa Cruz,
no segundo jogo da semifinal da Copa do Nordeste. Na primeira partida, uma semana antes, na Ilha do Retiro (estádio do arquirrival Sport), derrota por 2 x 0. Isso obrigava o time a vencer por três gols de diferença, para chegar à primeira final do torneio.

O jogo está marcado para as 22h, mas, desde a tardinha, o massagista do Santa, Catatau, 48 anos, não para um minuto. Com 19 anos de clube, ele é um xodó da torcida, famoso por ser o responsável por chamar os jogadores que estão na reserva para entrar em campo. Basta o treinador chamar Catatau para mexer no time, que a torcida vai ao delírio. Ele sai em disparada, como se estivesse numa corrida contra o relógio, dá um tapa nas costas do atleta e a esperança renasce.

“Eu dou um tiro na faixa de 200 metros. É para o jogador se ligar. Ele tem cinco minutos para entrar em campo”, diz Catatau, que é técnico de enfermagem no Hospital Infantil Maria Lucinda, no Recife. Chega a dar 30 voltas ao redor do campo, para manter a forma.

Nos vestiários do clube, a movimentação é grande. Os jogadores estão concentrados em um hotel e só chegarão faltando uma hora para o jogo. Comparado com os estádios do interior, o Arruda é gigantesco. Por debaixo das arquibancadas, o clube mais parece um labirinto, com diversas salas, divisórias, entradas, como se tivesse construído e reconstruído a estrutura do estádio ao longo de décadas.

O vestiário é imenso, mas simples. O material de cada jogador já foi preparado pelo roupeiro Marcelo José da Silva, de 31 anos, na parte da manhã (camisa, calção e meião). São 19 padrões completos. As chuteiras, cada jogador escolhe a sua. Num dos cantos, no altar, o sincretismo religioso futebolístico: imagens de Nossa Senhora de Fátima (padroeira do clube), Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora Aparecida, Cosme e Damião, Padre Cícero, duas imagens do candomblé e quatro velas de sete dias.

“Hoje, botei quatro velas, porque vai ser quatro a zero”, diz Rosenildo Gonçalves da Silva, o “Madruga”, de 41 anos, que se define como “um bombril” dos bastidores do Arruda.“Faço de tudo aqui. Limpeza, cuido do altar, faço depósito para os jogadores, não deixo faltar vela de sete dias, cobro a caixinha, é tudo mesmo”, diz.

A caixinha é uma norma interna. Jogou lixo no chão? Caixinha. Chegou para treinar acima do peso? Caixinha. Há uma série de itens que os próprios jogadores organizam, em nome de mais organização, respeito aos horários, cuidados com a vida de atleta.

Incansável, Catatau passa e pergunta se está tudo bem. Mostra as várias garrafas que já preparou. Gelo, água, Gatorade, além de um preparado que ele mesmo faz. “Um saquinho desses é mesmo que comer um prato de macarrão”, diz, com o eterno sorriso.

Faltam poucos minutos para a chegada dos jogadores. Pergunto a Catatau onde fica o túnel que vai dar no campo. Ele me mostra. Vou sozinho. Desço 24 degraus, sigo um enorme corredor, talvez 150 metros, mais degraus, outro pequeno corredor, e, finalmente, os degraus que vão dar no campo. Subo lentamente, recordando que por ali passaram grandes craques do futebol brasileiro, como Ramon, Nunes, Givanildo, Ricardo Rocha, Rivaldo.


Foto: Leo Caldas

Chego ao último degrau e vejo parte das arquibancadas. A torcida chega aos poucos. Imagino a emoção de um jogador de futebol, ao subir os degraus, pisar no gramado e ser recebido por milhares de torcedores. Poucos dos jogadores brasileiros espalhados pelo mundo terão a oportunidade de viver uma emoção desse tipo em plena Copa do Mundo.

A CHEGADA
Volto aos vestiários. Às 20h30 instala-se um frenesi ali. A notícia é de que “os jogadores já saíram do hotel”. Como vêm com a ajuda de batedores da Polícia Militar, rapidamente chegam. Há um barulho intenso do lado de fora. Centenas de torcedores, com sinalizadores, começam a cantar músicas de apoio ao time, encerrando com “eu a-cre-dito!”, repetido diversas vezes. Será um jogo dificílimo.

Do lado de dentro do vestiário, é possível ver toda a agitação. Os atletas passam por um corredor de torcedores, que aplaudem, incentivam, dão gritos de “vai pra cima deles, tricolor!”. Muitos jogadores descem com seus indefectíveis fones de ouvido.

Aguardamos passar o alarido. O treinador, Vica, chega em silêncio. Para diante do altar, acende uma vela pequena e sai em direção à sua sala. Imediatamente, alguém liga um aparelho de som com música evangélica, que vai acompanhar toda a preparação, aquecimento, entrada em campo.

Rapidamente, os atletas vão ocupando seus lugares, pegando o material, trocando de roupa. O clima é descontraído, apesar da pressão que viveram durante a semana, por causa da derrota por 2 x 0.

O fotógrafo Léo Caldas coloca a câmera fotográfica ao seu lado, para não causar qualquer tipo de problema com a comissão técnica. Ficamos em silêncio, aguardando os jogadores vestirem seus padrões, para ver a movimentação e encerrar o trabalho.

“Tudo bem por aí? Falta alguma coisa?”, pergunta Catatau.

“Tudo tranquilo, Catatau”, respondo.

Pouco depois, um dos diretores de futebol, Athaíde Macedo, chega e nos interpela. Quer saber quem nos autorizou a ficar ali. Está irritado. Explicamos que foi com a autorização do presidente do clube, Antônio Luís Neto, e do diretor de futebol, Constantino Júnior.

Ele sai, indignado. Volta 10 minutos depois e pede para que nos retiremos.

“Vestiário não é lugar de imprensa”, diz.

Acenamos para Catatau e encerramos nosso trabalho.

O Santa teve dois jogadores expulsos, perdeu de 2 x 1 e ficou de fora da final da Copa do Nordeste

SAMARONE LIMA, jornalista, poeta, escritor, autor do livro Zé - José Carlos Noaves da Mata Machado, uma reportagem.

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