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Perfil

Briê Silva: toda vez que ela rebola, o mundo sai do lugar

Acompanhamos um pouco da rotina da artista da dança que é uma das representantes do 'twerk' no Recife, mãe de Luara, estudante da UFPE e professora

TEXTO ERIKA MUNIZ
FOTOS DONDINHO

28 de Junho de 2022

Foto Dondinho

[conteúdo exclusivo Continente Online]

“Correnteza de histórias
Irrigam nossas memórias”
Maré viva, de Laís Senna e Gabi Carvalho

De Nova Descoberta, na zona norte do Recife, para a Boa Vista, onde realiza aulas de twerk no centro da cidade, modalidade de dança pélvica com origem em Nova Orleans (EUA), Briê Silva leva cerca de uma hora a uma hora e meia de percurso. Esse deslocamento entre os bairros, porém, nunca se refere somente ao trajeto feito dentro do ônibus, já que até a parada próxima ao Terminal da Guabiraba, o tempo total pode se alongar. Antes de ir trabalhar, a bailarina, coreógrafa, produtora cultural, pesquisadora e professora pernambucana deixa tudo arrumadinho de Luara, sua filha de um ano, para ela ficar, até retornar para casa, aos cuidados e dengos de sua tia Mariluce.

Nas tardes das quintas-feiras e aos sábados, em uma das salas do estúdio, Briê – ariana sonhadora de 23 anos – compartilha, em turmas presenciais e online, seus saberes em aulas de twerk e brega funk. Além da vivência na dança, outra de suas paixões é a música – especialmente o reggae. Em suas falas, durante o relato de algumas lembranças, seu interesse pelo gênero musical afro-caribenho reluziu e esteve presente também nas playlists das aulas, divididas nos níveis iniciante e intermediário.

“Gosto muito de colocar reggae, é uma coisa que sempre curti. Para alongar, para aquecer, para soltar os glúteos. Gosto de trazer outras referências musicais, até para essa perspectiva de que a gente pode dançar com qualquer música. Nas minhas aulas, sempre coloco brega funk também, desde que ele existe, mas curto muito trazer algumas músicas que não são tão escutadas por tantas pessoas”, conta Briê, em entrevista à Continente. “Gosto de trazer músicas instrumentais que trazem referências afro e indígenas, produções regionais e músicas que falem sobre a conexão com a natureza, principalmente, quando quero fazer uma aula em que a pessoa se conecte mais consigo mesma e olhe mais para dentro de si. Vai depender muito do tema da aula, mas rolam coisas fixas, sim. E o reggae, ele sempre está presente”, comenta a artista sobre a musicalidade afrodiaspórica que circunscreve suas criações.

O interesse de Briê pelo reggae vem desde a adolescência. Muito por influência de seu pai, José Fernando, que tinha e ouvia vários CDs de Bob Marley, Peter Tosh, Jimmy Cliff, Tribo de Jah e outros nomes marcantes que construíram a história dessa expressão cultural nascida na Jamaica – e que, desde 2018, é Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Foi nessa fase de sua vida, inclusive, que Elaine Barbosa da Silva escolheu Briê, como se tornaria conhecida na cena artística de sua cidade e, mais tarde, internacionalmente.

“Eu queria um nome que não fosse muito grande e que não fosse muito comum entre as pessoas. Fui em busca de um que tivesse as letras do meu nome, Elaine Barbosa, e que pudesse trazer um pouco do significado dele, que é essa coisa do sol, da iluminação, de iniciativas. Briê nasceu de uma necessidade de me colocar como artista, quando tinha 14 anos e cantava em uma banda de reggae”, relembra. Entre os trabalhos que já realizou como bailarina e coreógrafa, Briê coleciona participações em clipes como Pirraça (2021), da cantora Uana; Se solta (2020), de MC Draak feat. MC GW; Sentadão (2019), de Pedro Sampaio, Felipe Original, JS e Mão de Ouro; e Pane (2019), de Mucão.



Filha única de Dilma e José Fernando, vindos de Porto Calvo, no interior alagoano, Briê conta que sua família se mudou para o Recife antes de ela nascer, em 10 de abril de 1999. Sua vivência com a dança começou na adolescência, em Nova Descoberta. Na mesma época de vida, ela começou a se aproximar de colegas, na Escola Estadual Rotary de Nova Descoberta, que praticavam danças do universo do pop nos intervalos das aulas. Além disso, Briê também pesquisava movimentos em sites, blogs e nas redes sociais, procurando informações, coreografias e histórias disponíveis online. Em casa, ela treinava sozinha e construía seus primeiros passos. Numa dessas pesquisas, ela conheceria o twerk

Certa vez, pesquisando referências na internet, o algoritmo do Youtube a sugeriu um vídeo com várias mulheres brancas rebolando juntas, dentro de um estúdio. Até então, Briê ainda não sabia que aquela dança era o twerk. Só que, dali em diante, ela realizaria estudos práticos e teóricos sobre essa dança afro-americana, que hoje faz parte de sua vida e de sua atuação profissional. Briê também teve vivências com a cultura ballroom, além de fazer parte de rodas de capoeira. 

“A minha pegada com o twerk passou por vários lugares fora à técnica. Comecei na técnica, como dançarina, em um lugar do 'close' e, depois, fui para um outro lugar, muito mais espiritual, mais sensitivo, de ativar a sensibilidade do corpo, de entender que a minha técnica poderia ficar muito melhor se eu pudesse abrir os poros com outras formas de ver o corpo. Aí, consegui desenvolver um trabalho com o twerk e a ancestralidade. Esse trabalho perpassa por espiritualidade, por saúde pélvica, técnicas de bruxaria, todo o rolê. Esse é o meu trabalho de vida agora”, conta a artista, primeira de sua família a ingressar em uma universidade pública – Briê vem conciliando seus trabalhos artísticos à graduação de Licenciatura em Dança, na Universidade Federal de Pernambuco, e às vivências com a maternidade.







Embora não haja uma total precisão quanto à etimologia do termo, twerk (e a variação twerking) traz consigo o significado, em inglês, de “rebolar”, “rebolado” ou, como dizemos pelas bandas de cá, de “mexer a raba”. Com suas raízes ligadas à cultura bounce, o twerk já apareceu em clipes de grandes artistas pop como Beyoncé, Rihanna, Nicki Minaj – no icônico Anaconda (2014) –, a brasileira Anitta e outros nomes. Segundo artigo no site norte-americano VH1, o primeiro artista a mencionar a palavra twerk, em seu videoclipe, foi o DJ Jubilee, em Do the Jubilee all (1993); a artista do bounce music Cheeky Blakk foi a primeira a colocar a palavra “twerk” no título, em Twerk something (1995). Beyoncé também inseriu o termo na letra de Check on it (2006), além de trazer movimentos dessa dança em várias de suas coreografias até hoje.

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Briê dá início às suas aulas com exercícios de alongamento e aquecimento voltados para a preparação e a “abertura de espaços”, a fim de que os movimentos de twerk possam acontecer de maneira saudável. Com a soltura dos glúteos, os corpos se esquentam e recebem a vibração proporcionada por aquele movimentar. Do preparo à execução dos movimentos propriamente ditos, as alunes compartilham o que vêm construindo, conectam-se consigo mesmas e, ao mesmo tempo, entre elas. “O alongamento e o aquecimento são formas de acionar a consciência corporal. E, no pós, o desaquecer também. Porque você tem que trazer essa coisa de acalmar o corpo. Não é só fazer tudo isso de ‘balancei, balancei e vou embora’. Seu corpo ainda está ali, em ebulição, fervendo, então, você precisa retomar aquela energia, respirar fundo, se concentrar nela e sentir o que aconteceu para que possa diluir melhor o pós e relaxar a sua musculatura”, explica Briê. 

Ao praticar ou entrar em contato com essa dança (e também com outras), um posicionamento político importante é compreender o rebolado para além de aspectos ligados às materialidades do corpo – ainda mais quando esse rebolado se circunscreve dentro de expressões culturais com matrizes em comunidades historicamente periferizadas, como é o caso do twerk. Confiança e respeito aos limites de quem pratica costuram as vivências mediadas por Briê durante suas aulas. A sala do estúdio não é um ambiente que se resume à busca desenfreada pela perfeição técnica, tampouco se direciona à valorização de padrões estéticos branco-cis-hetero-normativos. Todes são bem-vindes. E podem fazer as aulas da maneira que quiserem. De short, de calcinha, de calça, de top, ou como se sentirem mais confortáveis.

O cuidado nas execuções de cada movimento, porém, existe sim, já que a professora procura preservar a saúde óssea e muscular de suas alunes. Sob a mediação de Briê, que diz também aprender muito durante as suas aulas, todes se conectam com esse “território de poder”, como ela diz, que é a pelve. E também conhecem as nomenclaturas de cada movimento trabalhado do twerk, além de aprenderem também sobre a origem e os contextos em que essa dança se configura.



Em um de nossos encontros, que aconteceram presencialmente e também por videochamada, uma das primeiras perguntas que fiz para Briê foi como ela se percebia, naquele momento, tanto a partir de suas experiências pessoais, como em relação aos seus trabalhos. Ela respondeu: “Hoje, consigo ter muito mais dimensão do meu trabalho. Antes, eu fazia mais porque gostava. Depois de um tempo, você vai notando a importância que isso (o rebolado em uma perspectiva ancestral) tem na vida das pessoas. Acredito que me tornei uma pessoa que artisticamente trabalha com movimento pélvico, de diversas formas, seja ela qual for. E percebo que tenho sido, nessa cena, uma pessoa com uma responsabilidade muito grande sobre passar esse conhecimento de maneira responsável e consciente”. 

Em 2018, junto a outras mulheres, Briê deu início à Twerk Recife. De lá para cá, realizou cursos de formalização para o ensino de twerk. E, atualmente, algumas das pessoas que participaram desses processos de formação também estão propagando os saberes e dando aulas. Inicialmente, como um grupo de estudos, a Twerk Recife é hoje uma escola com foco na ancestralidade pélvica – que não trabalha somente com twerk, mas com outras expressões, a exemplo do brega funk.

Ao lado de Briê, outras artistas, professoras e pesquisadoras – Clau de Luna, Julha, Vivian Marvel, Dinian Calazans, Ayara Martins e Duda Serafim – movimentam essa rede, que vem organizando ainda eventos e produções culturais importantes na cidade, como o Festival Twerk Recife, que trouxe uma programação online extensa e gratuita sobre o tema, a partir de diversas perspectivas; e do Sankofa: twerk e ancestralidade, curso de formação teórica e prática na temática, possibilitado pelo último edital da Lei Aldir Blanc (PE). 






Clau de Luna e Briê, parceiras de trabalho, no Carvalho Studio de Dança.
Foto: Dondinho
   

“Me vejo muito neste lugar materno, de quem está sempre cuidando, de quem está sempre tecendo redes com o trabalho que faço, de quem está sempre fazendo uma manutenção de um bem-viver, um bem maior, pensando na coletividade e trabalhando em coletividade. Acho que, hoje, me sinto muito nesse lugar de uma mulher que vive em um processo de maternagem com a vida em geral. Cuidando e tecendo; cuidando e recriando. Recriando novas narrativas e vivenciando tudo isso, só que dentro desse lugar da coletividade”, disse Briê em uma das nossas conversas. 

“A gente costuma dizer que as danças pélvicas são danças que não movimentam somente o quadril, elas movimentam o quadril em ênfase. É a parte que mais é enfatizada, que tem mais potência, mas que também se movimentam outras partes do corpo. A maioria dessas danças – não todas, mas a maioria – vem de danças afrodiaspóricas, que é muito desse lugar cultural, de África, de ter esse foco na pélvis, por esse ser um lugar de vida e de espiritualidade para muitas comunidades”, comenta Briê.

São movimentos que consideram o corpo de maneira integral, trabalhando também outras partes, sem estabelecer fragmentações e hierarquias perpetuadas pela modernidade eurocêntrica.

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Mãe de Luara, Briê conta como a maternidade atravessa a sua vida profissional: “No meu caso, que trabalho de forma independente, tudo é atravessado de maneira muito direta, porque passei um tempo repousando, aí tive que me desdobrar para poder trabalhar, sem que eu pudesse fazer exercícios de alta intensidade, sem poder estar em shows, sem poder ensaiar com a mesma intensidade de antes, sem poder estar dando aulas com a mesma intensidade de antes. Porque 24h do meu dia, preciso dar conta da minha filha. Seja de forma direta, na amamentação, ou indireta, tendo que resolver algumas coisas fora, enquanto tenho que resolver formas de deixar ela com alguém para poder sair e voltar para casa o mais rápido. A maternidade é um processo que é grudado no seu corpo”. 

Tocar nesse tema da maternidade e refletir sobre como ele passa, de maneiras diversas e distintas, pela vida de algumas mulheres, é evidenciar algo que precisa estar presente, sem idealizações comuns às abordagens em torno do assunto, nos ambientes e espaços que decidem sobre as políticas públicas voltadas para a vida dessas mães. Evidentemente, isso se potencializa e traz aspectos específicos quando consideramos as intersecções – como raça, classe, gênero, território, idade e outras – que devem ser encaradas quando se estabelecem espaços de escuta, acolhimento e compreensão para o bem-viver e a qualidade de vida dessas mães. 

Essa dimensão da vida de Briê Silva é trazida ao corpo deste perfil, portanto, por também ser algo que atravessa seus processos de criação artística, e que apareceu não apenas durante as entrevistas realizadas, mas em vários espaços de convivência que compartilhamos. Algumas vezes, durante nossos encontros, Briê contou as novidades de Luara, sua filhinha, e o que ela havia aprontado e aprendido nas últimas semanas. No dia de fazermos as fotos para a narrativa deste texto, no Teatro de Santa Isabel, Luara, que no mês de maio completou um ano de idade, também esteve conosco, participando das fotografias com sua mãe e colorindo de afetos todo o processo.  

Naquele palco, a que um dia Briê pretende voltar apresentando um espetáculo de danças pélvicas que tenha circulação em teatros do estado, ela já se apresentou anteriormente, quando fazia parte de um grupo voltado a expressões culturais compreendidas como “tradicionais”, a exemplo do cavalo marinho, da ciranda, da dança afro e outras. Em abril de 2022, para as fotos e vídeo, ela criou uma coreografia composta por passos de twerk mesclados aos de brega funk e dancehall ao som da canção A praieira (1994), de Chico Science & Nação Zumbi (ver em nosso perfil do Instagram). “Adoro fazer coreografia com músicas de rock, trabalhar o manguebeat e todo esse rolê de uma coisa regional. É uma coisa de afinidade afetiva que curto, porque tem muitos elementos, muita guitarra e muita percussão”, comentou a artista, logo após sua performance

Em 2020, com o início da pandemia da Covid-19, a presença e a circulação de pessoas em ambientes de compartilhamento tiveram que dar lugar ao distanciamento social. As práticas de exercícios e ensaios precisaram, naquele momento, ser levadas ao ambiente virtual, visando preservar a saúde da população, o que permitiu – mesmo de forma bem reduzida – que trabalhadoras e trabalhadores da área conseguissem interagir e disponibilizar aulas e conteúdos.

Nesse período, Briê começou a fazer lives em plataformas como o Instagram e o Zoom. Enquanto ferramenta de divulgação, o Instagram impulsionou bastante o trabalho da artista, fazendo com que chegasse a pessoas de várias partes do mundo. E em 2020, ela foi convidada a participar do seu primeiro evento fora do Brasil, o International Twerk Champions (nessa edição, o evento aconteceu online). Em abril deste ano, foi a vez de Briê viajar até Madrid, na Espanha, a convite da organização do evento, que financiou seus custos para ela participar como jurada, dar aula de brega funk e palestrar sobre suas vivências enquanto mulher preta, periférica e que trabalha com rebolado no Brasil. 



 “Foi uma experiência incrível. Necessária demais na minha vida e que me deu um gás de autoestima em relação ao meu trabalho. Eu não sabia o impacto que ele tinha na vida das pessoas. Eu sabia do que acontecia, mas não que era tão importante a ponto de me fazer atravessar o oceano, a ponto de ‘vamos pagar a sua estadia, sua passagem, sua alimentação, porque queremos você aqui’. Eu não teria condições de fazer sozinha”, revelou a artista, dias após seu retorno ao Recife. 

Além de fazer história, levando a cultura de Pernambuco e suas experiências pessoais e artísticas para Madrid, permitindo ainda que pessoas de diferentes países conhecessem de perto seu trabalho, Briê também pôde aprender com outras pessoas e outras formas de compreensão das danças. Inclusive, fazendo também conexões para eventos no futuro e, por isso, a artista segue em busca de patrocínio.

“Já percebo algumas diferenças em como estou me organizando, em relação às minhas aulas e como boto energia para organizar os trabalhos aqui, no Brasil. Já vim com outras percepções, já estava com outras produções culturais por dentro, agora estou mais engajada ainda em fazer as coisas acontecerem.” E sobre o futuro, ela ainda revela: “Agora, estou gestando um novo projeto, que é de twerk para mães e gestantes e vai ser online. Se eu conseguir, dependendo do andamento, vou fazer ele de forma híbrida, presencial e online”.

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No início dos anos 1990, as primeiras movimentações do twerk começaram a se consolidar em Nova Orleans, nos Estados Unidos. Como em outras manifestações culturais contra-hegemônicas, o twerk tem origem nas periferias dessa histórica cidade – onde nasceu o jazz –, e já chegou a ser atacado e deslegitimado por parte da população civil e também da mídia.

No Recife, julgamentos e perseguições policiais direcionadas a expressões que tecem a nossa cultura, a exemplo do passinho, do brega funk e, outrora, do frevo, que se tornou Patrimônio Imaterial da Humanidade, em 2012, também já aconteceram. O mesmo se deu com as sambadas de maracatu. Conhecido mundialmente pelo samba e por outras musicalidades, o Brasil, ainda hoje, tenta apagar as origens negras e o potencial transformador dessas expressões artísticas no país, e com origem em suas periferias. 

No caso do twerk, a imprensa norte-americana não escondeu suas tentativas de silenciamento acerca da raiz afro-americana dessa dança, sobretudo quando ela começou a entrar para o circuito mainstream, através de performances de artistas do pop mundial, dando mais visibilidade ao debate ao ser performado por artistas brancos e brancas.

Beyoncé, por exemplo, uma das principais artistas da música norte-americana, já havia incluído movimentos de twerk na coreografia de Crazy in love (2003) e de outros hits. Mas quando a cantora Miley Cyrus fez sua apresentação com Robin Thicke, no VMA, trazendo movimentos do twerk, dez anos depois, vários veículos midiáticos pautaram o assunto. Nessa apresentação, criticada como apropriação cultural, Miley cantou We can't stop, Blurred lines e Give It 2 U e, por sua performance, foi acusada de estar “perpetuando estereótipos prejudiciais para mulheres negras”, como aponta a pesquisadora Shereen Zink, no artigo Twerking and cultural appropriation: Miley Cyrus’ display of racial ignorance. Em agosto de 2013, logo após a edição do VMA, a palavra “twerk” foi uma das mais procuradas no Google e vários sites começaram a falar sobre o assunto. 

Ao twerk entrar para a indústria do entretenimento, houve diversas tentativas de tirá-lo de seus contextos de origem, o desconectando também da dimensão ancestral que a dança abarca e, inclusive, tentando promover o apagamento do protagonismo de mulheres negras. Em declaração emocionante durante o TED Talk, em 2021, a cantora norte-americana Lizzo falou sobre a importância do rebolado para a autoestima, saúde e empreendedorismo na vida de mulheres negras pelo mundo. Segundo ela, o rebolado seria uma “forma de autoexpressão, liberdade e confiança”. A rapper, ainda, alertou também sobre os processos de apropriação de elementos da cultura afrodiaspórica dentro do sistema capitalista. “Tudo o que os negros fizeram foi e é cooptado, apropriado e explorado pela cultura pop”, disse. 

Sobre essa visibilidade que artistas brancas no pop costumam receber na mídia ao performarem a partir de elementos da cultura negra, Briê comentou: “Quando a Miley (Cyrus) fez twerk, bombou. Mas isso só quando era uma mulher branca fazendo. Quando as mulheres pretas, como Nicki Minaj, que também é uma diva pop, foram lá e fizeram o clipe Anaconda com um monte de mulheres negras, teve gente que disse que era ‘promíscuo’. Ela foi totalmente julgada. A gente começa a ver a diferença (no tratamento) não só com ela, como com outras artistas pretas que fazem twerk nos seus clipes, mas que não têm uma visibilidade tão grande quanto quando é uma mulher branca que está cantando e falando sobre”. 

Fazer aula com Briê Silva e, com ela, construir a compreensão do corpo, da música e da dança em sua unidade, é permitir se entregar a uma série de tecnologias e conhecimentos que foram historicamente silenciados em um mundo colonizado, mas também é perceber como as estruturas históricas, mesmo que de maneiras distintas, enrijecem corpos. No sistema capitalista, que prioriza a lógica da objetividade e da retidão, a malemolência do rebolado tem potencial revolucionário, seja de questionar a rigidez de pensamentos e danças eurocentradas, que ditaram, por muito tempo, valores culturais e artísticos, mas também de permitir conectar-se às potencialidades de cada corpo. Entender o movimento pélvico não apenas no lugar do poder e sensualidade – que ele também pode considerar – é ainda habitar o autoamor e o autoconhecimento que ele propõe.

Antes de desaquecermos, perguntei a Briê quais seriam os seus sonhos. E ela, que diz ter muitos, contou alguns deles: “Após ter realizado um dos meus sonhos que é ser mãe, estou no processo de estar muito engajada no meu trabalho. Quero viajar mais. Depois dessa viagem, os poros da minha necessidade de liberdade abriram mais. Quero ir a outros lugares, não só fora do Brasil, mas também dentro do país. Quero aproveitar essa vida, no sentido de não querer só conversar e estudar por aqui, por essa tela, quero ir até onde as pessoas estão e fazer as aulas delas. Quero que a gente possa pensar políticas públicas, políticas afetivas para que esse movimento rebolativo, aqui, no Brasil, possa acontecer realmente de uma forma financeiramente (viável) para todas nós”.



ERIKA MUNIZ, jornalista com graduação em Letras.

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