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Matéria Corrida

Aldeia global

TEXTO José Cláudio

02 de Junho de 2021

Bruno de Souza Leão. 'Guerra no mangue', acrílica sobre tela, 80 x 100 cm, 2015

Bruno de Souza Leão. 'Guerra no mangue', acrílica sobre tela, 80 x 100 cm, 2015

Imagem Reprodução

A maior facilidade de difusão de informações que torna possível nos trazer acontecimentos do outro lado do mundo, de qualquer lugar, até de outro planeta, de forma imediata, e de nos deslocarmos fisicamente, em questão de horas, a qualquer ponto da face da Terra, colaborou para o surgimento da ideia de “aldeia global”, como se, de uma hora para outra, tivessem sido abolidas as diferenças entre culturas e etnias, economia e até climas, o que fez um russo dizer que o lugar mais frio que ele conhecia era o Recife, porque, em qualquer época do ano, onde ele entrasse, aqui no Recife, o frio era de bater queixo, pelo ar-condicionado. A Europa unificou a moeda, o euro, mas há muito a economia global se guia pelo dólar, que determina o preço do petróleo. Já no tempo do programa Jovem Guarda, um compositor do grupo, brasileiro, declarou não ser a língua portuguesa própria para música, só conseguindo escrever em inglês.

Mas cultura não se muda por decreto, como não se muda a nossa biografia. As coisas com que convivemos na infância e na vida, o meio em que fomos criados é que molda a nossa estética, o que achamos bonito. Não precisa ir mais longe. Quando trabalhávamos numa pedreira aqui perto, já na era do celular, perguntei ao mestre, o sertanejo Ananias, se o tempo lá estava bom, porque não me adiantava ir se chuvoso, não dando para trabalhar debaixo de chuva. Perguntei-lhe: “Como está o tempo aí?” Ananias respondeu: “Seu Zé, tá bonito”. Aí eu fui. Já antes de chegar, o lameiro quase não permitia passar o carro. A chuva, torrencial. Aí entendi que “bonito” para ele era chuva.

Na década de 1950, quando comecei a pintar, apesar da pouca informação, tínhamos que nos comportar como se vivêssemos em Paris e, logo depois, como se fôssemos novaiorquinos. Apesar do regionalismo de Gilberto Freyre, ninguém escapava dos movimentos, sejam franceses sejam americanos logo em seguida, sob pena de ser tachado de ignorante ou reacionário, retrógrado.

Parece que, no século XXI, a coisa tem mudado de aspecto. Aliás, a última vez que falei com Cícero Dias, um dos pioneiros da arte moderna no Brasil, ele disse que a moda, na ocasião, era cada um engajar-se consigo próprio. Parece que os meninos, ou senhores, da nossa “pintura mirim”, como batizou Mané Tatu, ouviram a sugestão. Mas deixemos de delonga. A exemplo do último artigo, aí seguem mais algumas reproduções.


Bruno Monteiro. Mariquitas, acrílica sobre tela, 20 x 35 cm, 2018


Mané Tatu.
Cajueiros, acrílica sobre tela, 30 x 40 cm, 2014


Ramiro Bernabó.
Visgueiro. Óleo sobre eucatex, 30 x 34 cm, 1985


Ricardo Moura.
Paisagem, acrílica sobre papel, 30 x 42 cm, 2014

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*As opiniões expressas pelos autores não representam
necessariamente a opinião da revista Continente.

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