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Entrevista

“Tudo atravessa nosso corpo e vai compondo quem somos”

Marcelo Sena fala sobre os 20 anos da Cia. Etc., uma companhia que, desde 2000, vem pesquisando e experimentando modos de usar, sentir e mover o corpo na arte

TEXTO Julya Vasconcelos

27 de Novembro de 2020

Marcelo Sena em 'O homem que amava rapazes' (2006)

Marcelo Sena em 'O homem que amava rapazes' (2006)

Foto Breno César/Divulgação

[conteúdo exclusivo Continente Online]

A Cia. Etc, uma das mais importantes companhias de dança contemporânea de Pernambuco, completa 20 anos de estrada este mês. Reconhecida pelas propostas centradas no entrecruzamento de linguagens e na pesquisa como tônica dos processos criativos, a companhia entra na sua segunda década – que coincide com a pandemia de Covid-19 – apontando a seta para as plataformas digitais, com as experiências em áudio e vídeo e um novo site, que acaba de ser lançado.

A Etc. é também conhecida por apresentar ao público de seus espetáculos um corpo sempre carregado de potências sensoriais, ampliando as formas de senti-lo. O grupo passeia por influências que vão de John Cage e Merce Cunningham às obras performáticas de Hélio Oiticica e Paulo Bruscky, e é composto por Marcelo Sena e Filipe Marcena, embora tenha passado por diversas formações. Nesta atual configuração, para cada projeto ou ação, diferentes equipes são convidadas. No projeto mais recente, podemos ver Marcelo e Filipe juntos no videoclipe/videodança da música Queda, uma parceria com a banda Rua do Absurdo, recentemente selecionado para o festival grego Athens Video Dance Project.

Em entrevista por e-mail, Sena contou sobre a trajetória da companhia que ajudou a fundar, as impressões sobre a dança contemporânea no Brasil e em Pernambuco, os problemas das atuais políticas públicas no país, o atravessamento das linguagens (em especial a videodança) e as possíveis marcas do isolamento em nossos corpos e mentes.



CONTINENTE Como, onde e quando nasceu a Cia. Etc.?
MARCELO SENA A companhia nasceu da vontade de criar um espaço onde o grupo poderia experimentar diferentes formas de criar e de gerir um grupo. Em 2000, o ano em que foi criada, a companhia era sediada em Aracaju (SE), só vindo residir no Recife em 2003. Este primeiro momento da companhia tinha também uma demanda de formação dos bailarinos e das bailarinas do grupo, o que serviu para uma formação já diferenciada do que normalmente se tem em dança, pois já pensávamos em várias linguagens artísticas como importantes para a formação desse artista contemporâneo.

CONTINENTE Nestes 20 anos, quais espetáculos você considera marcantes para a trajetória da companhia e por quê?
MARCELO SENA Feira de cordéis (2001) foi o primeiro espetáculo grande que criamos e, por isso, foi também um marco para a companhia, pois com ele começávamos a fazer as primeiras temporadas e a viajar para outras cidades e estados. Silêncio (2004) inaugurou na companhia um pensamento mais performativo da encenação, trazendo para a criação coreográfica elementos que dialogavam mais fortemente com o campo da arte contemporânea atual. Dark room (2012) trouxe um aprofundamento de corpo e som, quando investimos fortemente numa trilha sonora totalmente gravada a partir das vozes dos bailarinos e das bailarinas, e quando ousamos trazer o erotismo para nossas criações, brincando com os clichês e estereótipos de uma suposta sensualidade latina. Em Dark room, conseguimos também um diálogo muito mais próximo com um público mais amplo, o que colocou a companhia numa evidência maior de suas criações e metodologia de trabalho, já que todos os espetáculos e videodanças são frutos de pesquisas. E, mais recentemente, Tandan! (2017) abriu um campo de investigação com o público de crianças e de pessoas cegas, já que foi um espetáculo pensado especificamente para crianças cegas. Tandan! colocou em evidência muitas pesquisas que já vinham sendo feitas na companhia, sobre corpo e sensorialidade, corpo e som, o pensamento de diferentes modos de fazer e perceber dança, que culminou na criação de um espetáculo que trazia o lúdico e a acessibilidade como fatores primordiais num resultado final artístico.

CONTINENTE Como você vê o cenário da dança contemporânea no Brasil e especialmente em Pernambuco?
MARCELO SENA Acredito que, nos últimos 10 anos, houve uma forte presença da dança contemporânea saindo de seus processos muito herméticos e passando a encontrar um público mais amplo e variado, assim como um compartilhamento mais frequente dos processos criativos e do próprio cotidiano de trabalho de cada artista ou grupo – o que talvez tenha diminuído a distância dos artistas contemporâneos e seu público. Acredito também que as redes sociais possibilitaram diferentes modos de acessar esse material, assim como fomentou muitas criações a partir desse escancaramento do espaço privado. As políticas públicas foram fundamentais também para a continuidade do trabalho de muitos artistas e grupos, mas temos percebido que essas políticas públicas que ainda estavam começando passaram a ter um processo de regressão com os atuais poderes e modos de pensar a política neste país, seja pelos golpes, seja pelo discurso de desvalorização do campo intelectual e artístico. Uma onda extremamente conservadora vem deixando marcas profundas na história das artes deste país. Aqui em Pernambuco, ao mesmo tempo em que se pensa ferramentas de maior democratização dos recursos, temos tido um congelamento dos recursos existentes na área, assim como diversas prefeituras, como a do Recife, que simplesmente deixaram de atender à alta demanda da produção artística da cidade, afastando o público. Ainda percebo muita gente produzindo, mas tenho me preocupado com a continuidade desses trabalhos. Tenho visto muitos e muitas artistas que estão se distanciando da área, por não conseguirem se manter financeiramente. E sabemos o quanto é importante termos condições básicas para continuar com um trabalho sério e com rigor.


Tandan! (2017), criado para público de crianças cegas. Foto: Arthur Reis/Divulgação

CONTINENTE É tão difícil pensar no corpo, atualmente, enquanto matéria de circulação, experiência, sensibilização, mobilização de afetos, estando nós impedidos de nos tocar, de chegarmos perto um dos outros. Como você vê este momento sendo alguém que trabalha com o corpo e suas potências? Acha que isso nos deixará cicatrizes?
MARCELO SENA Tenho pensado bastante no que estamos vivendo como uma lente de aumento do que já temos vivenciado há alguns anos com a democratização da internet e o alto número de smartphones nas mãos das pessoas. Uma lente de aumento de um certo distanciamento dos espaços presenciais de convivência, do contato físico entre as pessoas e da relação de presença que temos quando estamos em algum lugar. Se você me pergunta se isso deixará cicatrizes, respondo que estamos sempre com cicatrizes novas, desde que nascemos. Tudo atravessa nosso corpo e vai compondo quem somos, desde a geração que teve o rádio, depois a TV, agora a internet, e de como cada meio de comunicação desse afetou profundamente cada geração. O desafio de quem trabalha hoje com a arte da presença, ou com o corpo como suporte de criação, está exatamente em subverter essa anestesia, que pode provocar em nós um contato cada vez mais virtual, mediado por uma tela e caixas de som. Não posso deixar de lamentar o quanto tem sido grave essa situação em que estamos vivendo. Acredito que talvez o maior impacto dessa pandemia esteja em como lidar com nossos espaços públicos e o convívio social presencial. As políticas de urbanização vêm afastando cada vez mais as pessoas das vias públicas, dos espaços de convivência. E passar por um período tão grande como este também deixa marcas em relação a tantas mortes, descaso com o humano e a pouca seriedade com o que vem sendo tratada a questão da saúde pública, que vai muito além da saúde física, ou das condições básicas para se manter vivo. É um momento importante de pensar a saúde mental, as potências criativas e lúdicas das pessoas como fator essencial de alimentar sua autoimagem, sua autoestima, sua potência de vida e a valorização da vida em sociedade, em comunidade.

CONTINENTE É possível viver de dança em Pernambuco? Como a companhia viabiliza seus projetos?
MARCELO SENA É possível, mas poucos conseguem. Apesar de termos um fundo de cultura, como o Funcultura, e alguns editais específicos que financiam alguns trabalhos, a dificuldade de ter uma mínima estabilidade ou garantia faz com que muitos artistas e grupos não possam dar continuidade às suas pesquisas, às suas criações. Muitos e muitas artistas conseguem sobreviver a partir de uma atividade na área de educação, dando aulas em academias, cursos livres ou parcerias com projetos pedagógicos, o que vem sendo uma tônica há muitas décadas não apenas na área da dança. Há 11 anos que temos na UFPE, no Recife, o curso superior de Licenciatura em Dança, o que trouxe outras alternativas, como a possibilidade de seguir uma carreira acadêmica. Quanto à Cia. Etc., estamos conseguindo viabilizar as ações a partir dos editais locais, projetos do Sesc, convites de festivais e parcerias com outros grupos e projetos.

CONTINENTE Quem são os artistas que influenciam o trabalho da companhia
MARCELO SENA Tivemos uma influência muito forte, no início, de um movimento norte-americano, da década de 1960, a Judson Dance Theatre, um grupo de artistas que passaram a colaborar entre si. A parceria entre John Cage e Merce Cunningham foi uma grande inspiração para muito do que criamos nos primeiros anos. Mas isso foi algo que fomos percebendo aos poucos. Com o tempo, fomos também sentido falta de estar mais atento à arte feita na América Latina e mais especificamente no Brasil, e a quais artistas poderíamos nos aproximar mais, conhecer, aprofundar. Pessoalmente tenho me inspirado muito nas obras performáticas de Hélio Oiticica e nas obras de Paulo Bruscky. Mas isso tem sido permeado com muitas outras referências, principalmente nas áreas do audiovisual, das artes sonoras e da performance.


Corpo-massa: pele e ossos (2007). Foto: Breno César/Divulgação

CONTINENTE
Como se dá o processo criativo e a construção dos espetáculos da Etc.?
MARCELO SENA Sempre partimos de algo que estejamos vivenciando, seja pela proximidade da experiência, seja pela recorrência com que alguma questão se apresenta. A partir daí, a questão passa pelo corpo, de como o corpo é imbuído daquela questão. Nos ensaios, vamos trazendo alguns laboratórios criativos e percebendo como aquilo pode encontrar algum eco na movimentação, na sensorialidade, no modo de criar sentido com a carne, com a presença física ou com a imagem desse corpo. Então, vamos aprofundando esses laboratórios, buscando referências que dialoguem, desde uma bibliografia a obras artísticas e outras áreas de conhecimento (geralmente, lanço mão de algo da área da neurociência). Seguimos num processo de pesquisa até que vá tomando forma no corpo e no modo de apresentar ao público, podendo vir a ser um espetáculo, uma performance, uma videodança, uma intervenção, arte sonora etc.

CONTINENTE Vocês têm uma longa parceria com a banda Rua do Absurdo, que podemos ver mais recentemente com o videoclipe/videodança Queda. Como surgiu essa parceria e como se dá o processo de construção coletiva desses materiais que envolvem tantas linguagens diferentes?
MARCELO SENA Caio Lima, artista da banda Rua do Absurdo, trabalhou na Cia. Etc. como integrante por cinco anos e isso nos aproximou bastante das discussões e dos experimentos sobre a relação entre música e dança, ou mais abrangente entre som e corpo. Eu também sou músico-compositor e muitas dessas questões já faziam parte das pesquisas da companhia, mas Caio chegou colaborando muito profundamente com sua sensibilidade para a nossa prática. Já criamos algumas trilhas para espetáculos e videodanças juntos e isso acelerou muito a aproximação no cruzamento entre essas linguagens, abrindo outras tantas possibilidades advindas dessa relação de corpo e som, como o conceito de audiodança, que criamos em 2013 com o intuito de pensar um modo de percepção de dança que viesse pelo canal auditivo, e de como criar peças sonoras que percorressem esse caminho. Em 2014, conseguimos o incentivo do Funcultura para passar todo o ano pesquisando e experimentando os desdobramentos do que batizamos de “audiodança”.


Extras:
- Ouça podcast sobre a criação da companhia
- Ouça podcast Eu tu, eu ia, no qual Sena e Marcena dão dicas culturais


CONTINENTE Além do videoclipe Queda, a companhia trabalha há bastante tempo com a linguagem audiovisual. Você poderia falar um pouco sobre o que caracteriza as fronteiras entre dança, videodança e videoclipe, e quais são espaços de circulação desse material?
MARCELO SENA Pensar as fronteiras da videodança com outras categorias da linguagem audiovisual sempre foi um exercício delicado e controverso, pois elas estão sempre se reinventando. Trabalhamos com videodança na Cia. Etc. desde 2008, e partimos sempre de uma definição em que as características coreográficas ou dramatúrgicas da dança estejam impressas em diferentes elementos do vídeo. É uma busca de como trazer a sensação de quando percebemos um corpo dançar, e de como traduzir ou criar essa sensação também na edição, no modo de filmar, na sua relação com o áudio, com a fotografia e os elementos visuais. Enquanto no videoclipe o foco da construção videográfica está muito em função de uma música e que, em um certo sentido, serve como divulgação do artista e/ou da música. Há muitas discussões sobre o videoclipe que questionam esse viés mais “publicitário”, e é por esse caminho que também temos nos aproximado de criações que borram esses limites entre videodança e videoclipe, até porque o uso publicitário não exclui a qualidade de uma produção, nem muito menos elimina as tantas possibilidades de se fazer um videoclipe.

CONTINENTE E pra quem se interessa por videodança, quais são os grupos/dançarinos/companhias que trabalham com essa linguagem que você destacaria?
MARCELO SENA Infelizmente, ainda temos pouca bibliografia que se dedica a mapear as produções de videodança no Brasil, mas isso tem mudado nos últimos anos com muitas pessoas estudando videodanças no ambiente acadêmico. Para citar alguns exemplos que foram fortes referências para a companhia, acho interessante mencionar as criações em videodança de Merce Cunningham com os diretores Elliot Caplan e Charles Atlas; o DV8 Physical Theatre, de Londres, e as videodanças de Thierry de Mey para a coreógrafa belga Anne Teresa de Keersmaeker. No Brasil, cito as videodanças de Alexandre Veras, do Ceará; Breno César, que inclusive foi o primeiro videoartista a trabalhar na Cia. Etc.; e a força até hoje do Dança em Foco: Festival Internacional de Vídeo & Dança, criado em 2003 por Paulo Caldas, Leonel Brum, Eduardo Bonito e Regina Levy, um festival carioca que tem sempre uma programação com produções nacionais e latino-americanas e que trouxe muitas pessoas importantes da videodança para ministrar palestras e oficinas no Brasil.


Os superficiais, em 2019, com Elis Costa, Iara Campos, Marcelo Sena e Filipe Marcena.
Foto: Antônio Preggo/Divulgação

CONTINENTE Vocês também têm uma pesquisa voltada para o público infantil, que trabalha com a ideia do corpo lúdico. Há muita diferença entre pensar a dança para o público adulto e para o público infantil?
MARCELO SENA Talvez mais do que pensar a diferença entre um espetáculo para adultos ou crianças, é pensar para quais crianças? Qual faixa etária? Foi um grande aprendizado lidar com as diferentes cognições e o desenvolvimento sensório-motor de diferentes idades. Devido a isso, Tandan!, o espetáculo que criamos para um público de criança em 2017, foi direcionado para pessoas dos cinco aos nove anos. Na prática, era muito perceptível como isso, de fato, é importante. Foram dois anos dedicados a perceber essas questões, além de todo o processo da criação coreográfica e dramatúrgica do espetáculo, que contou com a presença de uma equipe de especialistas nessas questões.

CONTINENTE O que podemos esperar da Cia nos próximos anos?
MARCELO SENA Enquanto ainda estamos sem as vacinas para o novo coronavírus, a companhia pretende manter todas as suas atividades online, por isso também uma preocupação em renovar o site da companhia. Todas as videodanças estão disponíveis gratuitamente por lá e em nosso canal do YouTube, e pretendemos oferecer futuramente alguns cursos virtuais na área da videodança. Estamos em processo criativo para um novo espetáculo, a partir do livro O tempo das lebres, do artista e filósofo José Antônio Feitosa Apolinário, atualmente professor da UFRPE, em Serra Talhada (PE). Estamos participando do projeto Capital Social da Caleidos Cia., de São Paulo, pelo qual já oferecemos uma vivência online neste ano, mas temos prevista ainda uma residência artística de dois meses em São Paulo, com toda a companhia Caleidos. Outra atividade que pretendemos manter é a publicação permanente de episódios do podcast Rádio Etc., falando sobre os bastidores, os processos criativos, com entrevistas com artistas da dança e a disponibilização de algumas trilhas sonoras da Cia. Etc.

CONTINENTE Falar nisso, como é o recém-lançado site e a preocupação com o registro das atividades do grupo enquanto um banco de informações sobre dança contemporânea?
MARCELO SENA Desde a criação da companhia, em 2000, tivemos a preocupação de manter um site com importantes registros da história da companhia. De lá pra cá, fomos atualizando a página com quase tudo o que temos de registro, desde fotografias, vídeos, trilhas sonoras, textos e registro dos resultados de cada projeto. Tudo isso disponibilizado de forma gratuita a todo o nosso público. Sabemos também da importância que esse material pode ter pra quem estuda dança, videodança e arte contemporânea. Temos tido, ao longo dos anos, muitas pesquisas de universitários e universitárias do Brasil e estrangeiros que conseguiram obter todo o seu material de pesquisa a partir do que tornamos acessível no site. O que estamos fazendo agora em 2020 é reorganizar esse material de forma ainda mais simples e aproveitar as novas ferramentas da internet para que esse material fique ainda mais fácil de ser apreciado, tornando o site um espaço artístico virtual para todo o público. Sou jornalista e fui pesquisador por quase 10 anos no Acervo Recordança, o primeiro acervo digital de dança no país. Essa experiência me fez entender ainda mais o quanto a memória de um grupo artístico pode dizer muito sobre uma época, a localidade, e dar visibilidade a um tipo de arte que muitas vezes passa ao largo da grande mídia. É também um serviço público disponibilizar todo esse material, já que muito do que a companhia realizou até hoje foi graças a incentivos públicos, de extrema importância para a arte e cultura neste país.

JULYA VASCONCELOS, jornalista, escritora e curadora.

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