Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Entrevista

“Numa sociedade ideal, a gente encararia a poesia como um trabalho”

Pernambucana radicada em Berlim, a poeta Adelaide Ivánova acaba de lançar o livro ‘Chifre’. Aqui ela divide visões lúcidas sobre existir como alguém que escreve

TEXTO Erika Muniz

13 de Outubro de 2021

Adelaide Ivánova acaba de lançar seu quinto livro de poesia, escrito na Alemanha, onde mora desde 2011

Adelaide Ivánova acaba de lançar seu quinto livro de poesia, escrito na Alemanha, onde mora desde 2011

FOTO Jakob/ Divulgação

[conteúdo exclusivo Continente Online]

Dois mil e vinte e um é ano de lançamento do quinto livro da poeta e tradutora pernambucana Adelaide Ivánova, e também é ano de eleições na Alemanha. Chifre, seu novo título, sai pela editora Macondo e retoma a dimensão ambígua que seus versos são capazes de percorrer. Desta vez, os poemas transitam entre os de amor e os políticos, porém essas fronteiras constantemente são borradas em cada um deles, que invariavelmente trazem a política e o amor de maneira ambivalente.

Vivendo em Berlim desde 2011, Adelaide, que também é organizadora comunitária, concedeu entrevista por vídeo à Continente, poucos dias antes do pleito alemão. Três seções temáticas – raiva, euforia, cansaço; writer’s block e raiva, esperança, ação – dividem o seu novo livro. “Um chifre é uma coisa linda, com funções maravilhosas para quem o tem. É, ao mesmo tempo, adorno e arma. Mas também é uma coisa cheia de metáforas sobre traição e maledicência”, sintetiza a autora, reiterando as possibilidades semânticas – e humanas – que o chifre pode ter.

Quem já conhece seus trabalhos anteriores identificará uma das características mais marcantes deles, isto é, a impossibilidade de neutralidade diante do mundo e a necessidade de se tomar posição durante o processo de leitura. Em o martelo (2017) – vencedor do Prêmio Rio de Literatura em 2018 –, Adelaide traz as temáticas da violência sexual e da sexualidade feminina a partir da linguagem poética.

Sobre as duas importantes obras da poesia contemporânea brasileira, além de outras que integram sua trajetória artística, a pernambucana conta a seguir um pouco de seus processos de criação, como tem tentado conciliar dois empregos assalariados à escrita, o desafio de publicar um livro de poesia em 2021, além de falar também a respeito de sua experiência enquanto latino-americana vivendo em Berlim.

CONTINENTE Como estão os seus dias nas últimas semanas?
ADELAIDE IVÁNOVA As últimas semanas têm sido o seguinte… Setembro é mês de eleição na Alemanha. Dois mil e vinte e um coincide com o que eles chamam de “super eleição”. O sistema político daqui é diferente do Brasil. Não é o presidencialismo, em que se elege diretamente o presidente. O nome dos cargos políticos também é diferente, (eles) não têm as mesmas equivalências do sistema que a gente entende no Brasil. Este ano é o que eles chamam de “super eleição”. A eleição de chanceler, que não é eleito diretamente. Você vota no partido em outros postos importantes. É como se, no Brasil, a gente fosse votar para presidente, governador, prefeito, deputado e vereador. Setembro de 2021 é quando coincidem todas (essas votações) e mais uma para um referendo que decide se empresas de aluguel serão expropriadas ou não. São cinco votos para parlamentares e mais um desse referendo. As minhas semanas estão uma loucura porque, depois de sete meses desempregada por causa da pandemia, tive que arrumar dois empregos para cobrir as dívidas que fiz nesse tempo. Preferi não pedir o seguro-desemprego, porque quem o pede não pode mais concorrer à cidadania alemã. Nesses sete meses, naveguei sambando, me lascando, pedindo dinheiro emprestado, pegando dinheiro emprestado do banco, fazendo trabalhos para o Brasil, que quando se traduz do real para o euro, dá o mesmo que nada. Passei esses sete meses rebolando, mas me endividei. Agora, para compensar esses meses de desemprego, consegui arrumar dois empregos assalariados. Um para uma revista de esquerda e outro para uma deputada de esquerda, trabalhando na campanha dela até novembro. Então, quando me perguntas como está a minha vida, digo: “Um caos!”. É mês de “super eleição” e os dois trabalhos assalariados que eu tenho têm a ver com a política da cidade. Estou muito deprimida porque não tenho tempo para nada.

CONTINENTE Acompanho seus trabalhos publicados e suas entrevistas. Você costuma trazer uma materialidade, em suas falas, sobre o fazer artístico, que acho fundamental e não vejo tanto no campo da poesia. Recentemente, você lançou o livro Chifre. Como é fazer poesia em 2020 e 2021?
ADELAIDE Que pergunta simples e difícil (risos)! Como é fazer poesia em 2020 e 2021? Fazer poesia, escrever, é difícil em qualquer tempo. É difícil quando os tempos estão bons; é difícil quando os tempos estão ruins. Então, não é fácil, né? falava muito disso, de como escrever, de fato, é terrível. É um ato quase masoquista, porque a pessoa se enfia. Ele mesmo tem algumas respostas para essa pergunta. Usando uma palavra que você usou agorinha, falando em materialidade… O fato concreto para terminar Chifre foi precisamente o desemprego. Por mais estranho que isso possa parecer, porque estar desempregada retira a possibilidade de ter uma tranquilidade mental. Estar desempregada é um motivo de tensão, porque você vive com medo de um despejo, de não pagar aluguel, de não conseguir pagar suas contas. Então, obviamente, diminui a qualidade de vida, tira muito da sua energia mental. Procurar trabalho é uma forma de trabalho, não-assalariada, mas é trabalho. Tem essa parte da vivência do desemprego, que é extremamente dolorosa, que adoece e, por outro lado, você não está dedicando pelo menos oito horas do seu dia para alguém que está expropriando sua força de trabalho. Apesar de eu viver na tensão de “Caralho, como vou pagar as contas?”, tinha muitas horas disponíveis para mim, no meu dia, para conseguir terminar Chifre. Então, como é escrever poesia em 2020 e 2021? Dois mil e vinte e 2021, para mim, foram anos marcados por desemprego. Foi possível escrever esse livro sob essa preocupação, mas com a realidade concreta do tempo disponível. Agora que tenho dois trabalhos assalariados, não consigo nem ler, quem dirá escrever. Escrever poesia em 2020, então, foi com essa preocupação da sobrevivência e também com o sentido de urgência, porque eu sabia que: “Tenho que terminar esse livro, porque no momento que eu arrumar um emprego novo, já era, não vai dar mais”. 


Capa do livro Chifre, recém-lançado pela editora Macondo.
Imagem: Divulgação

CONTINENTE Queria que você contasse o processo de escrita dos poemas que compõem seu livro Chifre.
ADELAIDE Em 2016, a época do impeachment de Dilma coincidiu com a minha separação do meu ex-namorado Jakob. Tem alguns poemas dedicados a ele no 13 nudes. Digamos que tem essa ponte entre um livro e outro. Uma separação não é só um dia em que você diz: “Ok, esse namoro acabou, esse casamento acabou”. Uma separação é um processo que você vai sentindo. Você sabe que o namoro acabou muito antes dele acabar, mesmo que você use de mecanismos de defesa internos para tentar se convencer de que não acabou. A gente meio que sabe quando acabou. Eu já estava escrevendo alguns poemas sobre essa separação, antes dela acontecer, quando já tinha esse cheiro de separação no ar, que foi mais ou menos na época do impeachment. Se não me engano, Dilma foi afastada do cargo em 2016 e o processo se concluiu em agosto de 2016. Como eu e Jakob continuamos morando juntos mesmo depois de terminarmos, porque é muito difícil encontrar apartamento em Berlim, então, tinha essa relação, tinha essa esquisitice de virar companheira de apartamento do seu ex-namorido, que também é esse processo de impeachment, como ele foi. É esse couro de pica, vai se alongando e são eternas DRs. A gente via as sessões da assembleia como eternas Naquele último depoimento de Dilma, em que ela ficou cerca de 14 horas no parlamento, antes daquela votação horrorosa, ela ficou horas no parlamento respondendo, tendo uma DR com a assembleia. Eu estava tentando encontrar precisamente esse paralelo entre o processo de você depor alguém de um cargo, seja um cargo democrático, como foi Dilma eleita democraticamente, seja um cargo do trabalho emocional, que é ser uma namorada, sobretudo numa relação heterossexual, que quem faz um trabalho emocional dentro de uma relação heterossexual é, na maioria das vezes, a mulher. Faz o trabalho por você e pelo cara. Quem analisa os namoros é a mulher e tal. De repente, ser deposta desse cargo, ser demitida de um cargo. No caso de Dilma, não foi demissão, foi mais violento. Mas se tira a pessoa desse cargo, desse posto. A minha pergunta era muito isso, porque, de fato, Dilma levou uma gaia de Temer. Foi isso que ele fez com ela. Essa questão de traição, de lealdade, acontece, muitas vezes, em termos até muito conservadores, porque o cara que dorme com outras mulheres tendo uma namorada não é tão julgado ou não é julgado como uma mulher que tenha relações extraconjugais. Mesmo que você esteja em um relacionamento aberto, em que os dois aceitam o relacionamento aberto, a probabilidade da moça ser vista como promíscua, como quenga, como rapariga, como puta, continua existindo. Para o cara, não. “É consensual, é um namoro aberto, todos sabem.” São várias camadas de opressões que a gente vive, mesmo quando a gente tenta ser criativo com as soluções das nossas relações. Em uma monogamia consentida, em que todos estão topando essa monogamia, ela é complicada porque a gente acaba não olhando para as questões misteriosas do desejo. Mas a não-monogamia consentida também é complicada porque a gente não vive em uma sociedade em que a mulher está autorizada a dar para quem queira e como queira. A conversa sobre traição é uma conversa ainda muito dominada por uma retórica cristã de culpa, mas, por outro lado, são processos dolorosos. Enfim, eu estava fritando isso na minha cabeça, eram muitas coisas… Foi o meu namoro mais longo, foi o meu namoro mais amoroso, apesar de todos os problemas. Na verdade, para resumir, a confrontação que eu estava tendo, na época dos poemas que aparecem no Chifre, era o seguinte: “Por que amor não é suficiente?”. Amor não é suficiente para sustentar uma relação, do mesmo jeito que o projeto que Dilma tinha – com o qual eu tinha vários problemas, apesar de ser uma pessoa de esquerda e uma pessoa que apoia o PT na maioria das vezes, eu tinha várias questões com o governo Dilma –, a dedicação dela ao projeto que ela tinha não foi suficiente para segurar ela no cargo. Existem outras forças ali, né? Do mesmo jeito que, em uma relação, só o amor não é suficiente. Era isso que eu estava tentando dar conta de entender, mas até hoje não entendi (risos)

CONTINENTE Nesse mundo capitalista, tenho a sensação de que é como se o nosso tempo fosse roubado. Como é sua relação com o tempo no dia a dia?
ADELAIDE A minha relação com o tempo é ao mesmo tempo utópica – como eu gostaria que o tempo fosse dividido – e concreta, que é a forma que eu preciso administrar meu tempo, ou aprender a administrá-lo de modo que esse tempo, que me é roubado para o trabalho assalariado, cause menos danos possíveis. A minha relação com o tempo é uma relação de eterno déficit porque… Por exemplo, as pessoas falam assim: “Ah, o dia de Beyoncé também tem 24h e ela faz tudo o que ela faz”. Beyoncé é dona de meios de produção, Beyoncé tem pessoas trabalhando para ela, de modo que o tempo dela se expande enormemente. Então, ela pode ter uma agenda cheia porque ela pode ter uma babá para cuidar dos filhos. Ela vai ter várias pessoas para limpar as casas dela, ela vai ter pessoas que ela pode delegar tarefas. Então, é óbvio que o dia dessa pessoa se expande e ela consegue realizar muito mais do que eu, que não sou dona de meios de produção, que preciso trabalhar para pagar minhas contas, que não tenho ninguém para limpar minha casa, que não tenho ninguém para realizar o trabalho de cuidado por mim. Todas as minhas relações quem tem que cuidar sou eu. Não posso pedir para uma secretária mandar uma flor para a minha mãe no dia do aniversário dela. Se eu quiser fazer esse gesto, para quem quer que seja, sou eu que preciso fazer. Não tenho para quem delegar. Por exemplo, discutir a capa de Chifre, como ela (Beyoncé) deve ter alguém, um assistente que vai discutir várias capas do disco, até que ela se senta e vai discutir qual a melhor. O máximo de delegação de trabalho que posso fazer é na minha relação com as máquinas. Tenho uma máquina de lavar, à qual eu delego as duas, três, quatro horas que passaria para lavar lençol, toalha. Essa relação é muito surreal de delegar tarefas para máquinas e, obviamente, falo já pensando em mulheres do Sul Global, do mundo inteiro, que nem isso têm. Então, essa relação do tempo é sempre uma relação de ansiedade, porque é uma relação de déficit, de falta. E outra coisa também: em um tempo mais amplo, falando aqui da passagem do tempo relacionada à nossa vida, como mulher heterossexual, cuja validade no mundo é vista pela minha fertilidade, tenho encarado muitas questões também em relação a envelhecer. É absurdo pensar que já trato na terapia sobre envelhecer com 39 anos de idade, porque é uma preocupação de quanto tempo vou durar até passar a ser invisibilizada por causa da idade. Você fica com uma sensação de que tem muito pouco tempo. É muito mais do que uma questão de “terei ou não filho?”, “posso ter filho ou não posso ter filho”, é tipo quanto tempo tenho até fazerem de mim uma mulher invisível porque vou estar velha, não vou estar mais gatinha. Então, tem esse tempo das 24h do dia, tem esse tempo da nossa passagem na Terra como mulher, mas sobretudo como mulher heterossexual, porque são relações de opressão e, mesmo quando o nosso companheiro é massa, sempre é desigual e assimétrico; (são essas questões) que também me ocupam e me preocupam. Queria ser menos preocupada com isso, mas sou. 

CONTINENTE Como em seus outros livros, Chifre foi publicado por uma editora independente. Ele e 13 nudes saíram pela Macondo. O martelo, no Brasil, foi pela Garupa. Essas e outras editoras têm feito no país um trabalho importante, sobretudo no campo da poesia. Enquanto autora, queria que você comentasse como percebe a atuação e importância das editoras independentes no país, nesses últimos anos.
ADELAIDE Acho que o que as editoras pequenas puderam fazer foi um giro mais rápido. Vamos supor assim… Um gato, quando ele tem que fazer uma curva, ele vai fazer mais rápido do que um hipopótamo. E, aqui, não estou fazendo juízo de valor nenhum entre o gato e o hipopótamo. Os dois são importantes na nossa fauna mundial. Só que o gato vai ser mais ágil porque ele é pequeno, porque ele é mais leve, e o hipopótamo, ele vai precisar fazer uma curva maior, ele vai demorar mais porque os órgãos dele são muito pesados. Espero não estar simplificando, mas já sabendo que estou simplificando. É que as editoras pequenas puderam se adaptar mais rapidamente, ou entenderam muito mais rapidamente esse giro no desejo de leitura e no desejo de produção poética que estava sendo feito no Brasil. Temos Angélica Freitas, que lançou Um útero é do tamanho de um punho, que é um divisor de águas na poesia brasileira. Podem falar o que quiser, dizer que é exagero, dizer que não sei o quê, mas quem não acha isso está errado. A realidade concreta, histórica e material é essa. Um útero é do tamanho de um punho foi um divisor de águas na produção poética brasileira e na leitura de poesia no Brasil. É claro que um livro não é publicado hoje e a maré muda amanhã. É um processo. Mas ele é um divisor de águas. E, a partir daí, começa-se a escrever de novas formas e começa-se a ler de novas formas. As editoras pequenas puderam se adaptar mais rápido, as editoras maiores têm todo um catálogo, um portfólio de autores que elas precisam continuar publicando. As editoras (pequenas) não têm esse compromisso de ter que publicar grandes livros para continuar existindo. Uma editora grande pode ter um catálogo que seja até contraditório, por exemplo, publica uma autora feminista, mas precisa publicar também um macho branco para continuar vendendo. Enquanto que a editora pequena pode, inclusive, ter uma coerência no seu catálogo, que é muito maior, porque ela já é pequena de todo jeito, não precisa responder a tantas pressões do mercado como a editora grande. Acho que elas, as editoras pequenas, fazem um trabalho fundamental. O que tenho muita pena delas é com o trabalho de como é difícil se distribuir livros no Brasil. Isso é, de fato, um impedimento. A gente vive em um país que é muito grande, gigante e que, por causa das condições materiais, ainda se lê muito pouco. Mas isso não é culpa das pessoas, é claro que é um problema estrutural. Eu tenho muita raiva quando dizem: “Meu Deus, o brasileiro não lê”. Não é porque o brasileiro tem um problema, não é natural. Enfim, isso são outras histórias. Ainda que o projeto de editoras seja muito maravilhoso, porque existe uma expansão de vozes que acontece por meio das editoras pequenas, a vida das editoras pequenas é muito difícil e é difícil chegar nesses livros. Não adianta só falar da parte boa e da parte linda das editoras pequenas. É difícil para os donos das editoras pequenas e é difícil para quem publica com elas, porque é difícil competir com um governo como o de Bolsonaro, aumentando (impostos), querendo botar impostos novos, querendo privatizar os Correios, querendo aumentar preço de papel. É difícil para todo mundo.

CONTINENTE Como é que um texto acontece para você, Adelaide?
ADELAIDE Depende muito. Essa resposta é até meio bosta, eu peço perdão (risos). Nesses dias, escrevi um poema novo. Eu estava sentada aqui, no home office, no trabalho número um, que é o da revista. Moro no primeiro andar, estava com a porta da varanda aberta e escutei uma criancinha chamando pela mãe e tendo uma conversinha com uma vozinha muito fofa. Menina, me deu um negócio. Na hora, escrevi um poema! Não vou dar spoiler aqui, mas, na hora, o poema veio. É um poema curto, mas veio. Pode ser assim. Pode ser que o poema aconteça dessa forma: que venha enviado por Jah, pela deusa sabe-se-lá de onde. Acontece uma mágica, né? Mas também pode ser como foi, por exemplo, com a maioria dos poemas d’o martelo, que foram escritos de uma maneira muito estruturada. o martelo tinha uma dramaturgia muito fechadinha, por isso é um livro tão curto. Eu queria contar uma história que já sabia de cor e salteado e precisava preencher umas lacunas narrativas. Muitas vezes o título aparecia antes, porque o título remete ao escrivão, ao médico, ao juiz. Eu sabia que teria que escrever poemas sobre essas pessoas ou sobre o que esses personagens representam. Era um trabalho de pesquisar para cada um desses poemas. Era um trabalho muito jornalístico, baseado em pesquisar, pesquisar, pesquisar… O poema era a última coisa que acontecia, depois da bagagem estar cheia de informações sobre cada um daqueles termos, que eu sabia que precisava preencher naqueles 28 poemas da primeira edição d’o martelo

CONTINENTE Diante de tantas atividades que ocupam os seus dias, como você vem conciliando leitura e escrita?
ADELAIDE Neste momento, não venho (risos). É impossível. É um negócio que também acho importante ser falado sempre que possível. Poeta não vive de poesia, a não ser que você seja muito famoso, a não ser que você seja herdeiro ou, sei lá, a não ser que você tenha ganhado uma bolsa e aí você pode dedicar esse tempo para a escrita. Ser professor universitário não é viver de poesia, é viver de ser funcionário público. Para escrever o martelo, por exemplo, pedi dinheiro emprestado ao meu ex. Por isso, tive de escrever o martelo em tempo recorde. Mas fiquei ruminando ele dentro de mim por muitos anos. Em 2015, ganhei uma bolsa de uma residência artística na Espanha. Passei três meses lá, dando um tapa nos poemas que meio que já existiam, que eu ia escrevendo quando dava. Antes disso, em março de 2015, quando a maioria dos poemas d’o martelo foram escritos, eu pedi para o meu ex pagar a minha vida. Falei: “Olha, vou parar entre fevereiro e abril, preciso escrever esse livro”. Quando você me pergunta como está o processo de escrita agora, eu digo que não existe. Às vezes, acontece de eu escrever um poema, como o da menininha com a mãe, mas isso não quer dizer que estou trabalhando em um projeto poético agora. Estava durante o desemprego, finalizando o Chifre e trabalhando nos poemas novos que vinha escrevendo até voltar a trabalhar em dois trabalhos assalariados. É muito triste porque, em uma sociedade ideal, a gente encararia a poesia como um trabalho. Seria remunerado não somente pelo ato de escrever a poesia, mas por toda a pesquisa que precisa ser feita, pelo livro que você tem que ler, pelos filmes que você tem que ver, pelas conversas que você tem que ter. Mas estamos lutando exatamente para isso, vamos chegar lá (abre um sorriso). 

CONTINENTE Já que você falou de Um útero é do tamanho de um punho (2012), de Angélica Freitas, você lembra a primeira vez que leu esse livro?
ADELAIDE Lembro que eu estava em São Paulo, no subsolo da Fnac de Pinheiros. Tinha uma seção dedicada à poesia. Eu não tinha dinheiro para comprar o livro. Sentei naquelas poltronas e li o livro nesse subsolo da Fenac. Lembro muito claramente a sensação: “Nunca li nada igual. Nunca li nada igual em língua portuguesa”. Apesar de já ter lido outras mulheres autoras, poetas com temas feministas, nunca tinha lido nada igual. Eu nunca tinha lido aquelas imagens. “Uma mulher limpa, uma mulher bêbada, uma mulher...”. Sabia que, naquele momento, alguma coisa tinha se transformado em mim, eu só não sabia o quê. 

CONTINENTE Seus livros têm um projeto de composição muito bem-estruturado. Como você os pensa? No caso, os poemas são escritos para caber nos projetos ou os poemas vão acontecendo e depois você os organiza?
ADELAIDE o martelo é um projeto jornalístico sobre o que acontece com uma pessoa que foi estuprada. Hoje em dia, uso mais a palavra pessoa do que mulher porque, quanto mais venho pesquisando sobre abuso sexual de homens, mais fico impressionada como é frequente e eles não querem falar sobre isso. Mas, claro, na experiência de um estupro vivido por uma mulher, o pós é pior para uma mulher por causa da sociedade patriarcal que a gente vive. Provavelmente, o homem que foi estuprado não vai chegar a uma delegacia. Mas, se chegar, é provável que ele seja acreditado; acho que até pela surpresa de ver um homem se colocar nessa situação. Mas uma mulher não vai ser acreditada de jeito nenhum. Então, o martelo é um projeto jornalístico que foi escrito na mídia poesia, como poderia ter sido escrito de qualquer outra forma sobre esse tema. Na verdade, escrevi poesia depois de várias tentativas, de erros. Tentei fazer um projeto fotográfico sobre isso que foi insuficiente e tentei escrever sobre o tema no formato de prosa jornalística, que já foi demasiado. A poesia parecia, para mim, o meio-termo entre a concisão da fotografia e a prolixidade da prosa. Daí, tomei a decisão de escrever um livro de poesias sobre isso. O Polaroides, por exemplo, é uma coleção de poemas que eu escrevi entre 2004 e 2014. Não tem, que eu veja, um projeto nele. É um apanhado de coisas que ia escrevendo, assim como no 13 nudes. Na verdade, o 13 nudes tem um pouquinho mais de projeto, porque o Chifre já existia quando ele saiu, mas ele ainda não estava formatado para ser publicado. Para mim, o 13 nudes é como se fosse o prefácio do Chifre, que foi publicado dessa forma, meio como um preview. 13 nudes é um projeto e não é, ao mesmo tempo, porque é um projeto de ser um prefácio do Chifre, mas não parei para pensar o 13 nudes. Eu parei para pensar o Chifre, mas, aí, como tinha a possibilidade de publicar o Polaroides e o Chifre ao mesmo tempo, quando estava falando com Otávio (Campos, poeta e editor da Macondo), falei: “Ó, tem esse livro aqui, que está pronto”. Ele falou: “Vamos publicar, então, como se fosse um prefácio”. Tanto é que o 13 nudes termina com um “Continua...”, indicando que vem mais coisas dali. Gosto muito de pensar, pelo menos a minha produção artística, como um todo. Tudo faz parte de um grande projeto só e aí você vai escolhendo as mídias para cada um. Teve o autotomy, que era aquela série fotográfica que eu fiz com dois meninos trans. Hoje, eles já estão adultos. Eu os acompanhei por uns meses, na primeira fase da transição deles dois, Kai e Michael. Na verdade, o que eu estava pesquisando ali – de uma forma bem egocêntrica, hoje eu faria totalmente diferente, se é que faria –, eu estava tentando entender o que é ser mulher no mundo através dessa convivência com dois homens trans, que é muito da minha busca como artista. Como é ser mulher? O que é ser mulher no mundo em que a gente vive e não em outro mundo, não em uma bolha idealizada? Mas, voltando à tua palavra, materialidade, nesse mundo que a gente vive, nessas condições materiais, que é o meu projeto existencial e artístico. É como se os livros fossem os animais que fazem parte dessa fauna que é essa grande pergunta: “O que estamos fazendo aqui enquanto mulher?”. Não sei nem se te respondi. 

CONTINENTE Respondeu, sim. Artisticamente, você se expressa de diferentes formas. Como se dá a decisão de trabalhar em determinada mídia sobre determinado tema?
ADELAIDE Nem sempre é fácil identificar. A primeira exposição fotográfica que concebi foi em 2003, que é meio quando considero ter me tornado uma artista profissional, apesar de não ter ganhado dinheiro nenhum naquela época. Vai fazer 20 anos que trabalho profissionalmente com arte. Eu já fotografava antes. Ganhei uma máquina da minha tia Mery, que é enfermeira do Sistema Público de Saúde de Pernambuco. Viva o SUS! O nome dela é Rosemery. Foi ela quem me deu a minha primeira câmera fotográfica analógica, uma Zenit. Com essa câmera, comecei a experimentar no início dos anos 2000. Lembro que estava fotografando meu primeiro namorado loucamente com essa câmera. Com esses anos todos de prática, hoje em dia, acho que consigo identificar com mais facilidade qual a mídia para um certo tipo de trabalho. o martelo, por exemplo, foi tentativa e erro. Até chegar na poesia, tentei duas vezes resolver essa questão. Fiz dois projetos que tomaram muito tempo. Hoje em dia, não demoro mais tanto. Mas, por exemplo, quando estava terminando de organizar o Chifre, já nasceu um outro livro em mim que achei que era teatro. No ano passado, estava tentando escrever ele em forma de teatro e pesquisando muito. Li muitos textos de Brecht, textos teóricos, textos de dramaturgos de esquerda. Comecei a pesquisar Dias Gomes, o que ele diz. Ele era muito próximo ao Partido Comunista Brasileiro, foi perseguido pela ditadura militar. Comecei a pesquisar como era a forma de trabalho de Dias Gomes. Quando a galera do espetáculo teatral Cara palavra me procurou, achei que era uma confirmação para continuar no caminho do teatro. Continuei insistindo em escrever esse livro novo, que já é o próximo, em formato de teatro. De uns meses para cá, não tenho mais conseguido escrever desde junho. Parei de escrever porque não tenho mais tempo. Mas, em março, comecei a ver que não era teatro, comecei a adaptar tudo o que tinha escrito. De um grande texto teatral, um grande monólogo, comecei a reescrever esse livro. No posfácio do Chifre, até falo um pouco sobre esse “projeto escalafobético”, que era para ser teatro, rádio, performance ao vivo, não sei o quê… Estou tentando remodelá-lo, porque acho que não é teatro, mas pode ser que seja também! Então, quando me perguntas: “Como você sabe qual é a mídia?”. Muito por tentativas e erros, vou experimentando. 


Foto: Silvia Agulo Losa/Divulgação

CONTINENTE Em outras entrevistas suas, já vi você mencionar que não se sente mais fotógrafa. Você poderia comentar isso?
ADELAIDE Eu penso muito sobre isso. A fotografia é parte da minha vida. Não me sentir mais fotógrafa não significa que não esteja rodeada de pensar a fotografia o tempo inteiro. Inclusive, em um dos trabalhos assalariados que tenho hoje em dia, com essa deputada, vez ou outra, tenho que fotografar um evento, fazer um retrato dela. Também está dentro desse pacote do que faço. Mas não me considero mais fotógrafa por diversos motivos. Um deles, talvez o mais importante – e eu digo talvez porque, de fato, não sei se é a resposta –, é o fato de que a profissão de fotografia, por ser extremamente ligada a avanços das tecnologias digitais, ela tende a ser uma profissão classista. É claro que você pode ser de uma família pobre e se tornar fotógrafa. Obviamente, inclusive, isso acontece. Mas é muito mais difícil porque você precisa estar sempre atualizada com o mais novo equipamento da câmera, o mais novo software, você precisa saber mexer no software. Então, existe um elitismo por causa dessa conexão entre o ofício da fotografia e a dependência direta de um equipamento. Claro que fotografia não é nem perto de classista como é cinema, que você precisa ser rica, mas tem isso. E quando você vai ver a classe fotográfica – e estou falando isso do ponto de vista da Alemanha, porque faz mais de 10 anos que não trabalho com fotografia no Brasil –, quando você vê quem são os fotógrafos hoje em dia na Alemanha, a maioria vem de famílias de classe social mais alta para cima. Você precisa comprar equipamentos, você precisa financiar os estudos, você precisa poder fazer dívidas sem se preocupar. Eu não aguentava mais lidar com os colegas, porque é gente que não fazia ideia do que é a luta pela sobrevivência. Você pagou o aluguel de junho, mas não sabe o que vai ser do de julho. Então, não aguentava muito viver nesse mundinho, que não tinha a ver com a (minha) classe aqui. Isso foi um grande abuso que tive. O outro abuso era o fato de que, para conseguir expressar o que estou sentindo, não tenho autonomia suficiente porque preciso sempre antes aprender a mexer em um software. Primeiro, você tem que aprender a mexer em uma câmera. E a gente vai falar aqui do capitalismo, claramente. O capitalismo funciona, hoje em dia, no sistema de obsolescência programada. Já existem as tecnologias suficientes para a melhor câmera do mundo existir, ser produzida em massa e ser produzida em massa de modo a ela ser barateada. O que as empresas fazem é produzir com uma tecnologia aquém da que elas já são capazes para fazer com que você sempre tenha que atualizar. “Preciso do Iphone novo, preciso da câmera nova porque essa tecnologia está superada.” Você tem que ficar comprando e, toda vez que você compra uma coisa nova, você tem que aprender a mexer nela de novo. Eu não aguentava mais viver assim. Primeiro era o Photoshop, depois aparece o Lightroom, depois vem o Lightroom.1. Era um inferno, não aguento não. 

CONTINENTE É muita demanda.
ADELAIDE É muita demanda e uma demanda ditada pela forma com que o capitalismo funciona. Não tem como você ser fotógrafa em 2021 e usar a mesma câmera que a Nikon lançou em 2006. Você está fora do mercado. Então, decidi que não queria mais fazer parte disso. Tenho muito paz com essa decisão, mas tenho muita pena também. Aí, a literatura apareceu para mim, mas também as minhas leituras vêm sendo, cada vez mais, performáticas. Tenho tentado trabalhar misturando todas as mídias possíveis na performance. Entendi que tenho muito mais autonomia para produzir com literatura e com performance do que com fotografia, sobretudo com fotografia comercial.

CONTINENTE Desde 2011, você vive na Alemanha. Conta como se dá esse processo de imigração e como é viver na Alemanha, a partir de suas experiências.
ADELAIDE O processo foi muito ligado com o que aconteceu e está relatado n’o martelo. Eu tinha muita vontade de experimentar como é viver em um lugar em que o meu gênero não é aquilo que determina todas as interações sociais do meu dia a dia. Não somente em um país como o Brasil, mas em um país como o Brasil, um país colonizado, um país colonizado de uma forma muito violenta, de uma forma violenta por um país católico, o machismo se manifesta de uma maneira extremamente violenta, estrutural – porque está nas instituições – e também interpessoal. No Brasil, se você é mulher, se você é trans mulher; você é mulher, trans mulher o tempo inteiro. Você é dormindo, porque você sonha, você é o tempo inteiro. E eu pensava: “Como deve ser morar em um lugar que eu seja mulher só em alguns momentos do meu dia?”. Escolher o país foi uma curadoria. E, aqui, preciso dizer que o sonho de morar fora só foi possível porque, nessa época, a gente tinha um governo de esquerda que possibilitou que eu sonhasse sonhos diferentes que os que a minha mãe teve. O sonho da minha mãe, que vem de uma família muito pobre do agreste pernambucano, era estudar, trabalhar e não morrer de fome. Passados 40 anos, o meu sonho era poder imaginar viver fora do país, porque tinha um governo que começou a criar novas possibilidades de sonhos. Criou uma nova classe média. A gente foi da pobreza para a classe média por causa de Lula, não tem outra resposta para dar aqui. Eu sonhava mesmo com essa possibilidade de morar em um lugar que eu não fosse lembrada em todo mundo que eu era mulher. E, por causa de mistérios e coincidências da vida, acabei conhecendo uma pessoa, com quem acabei depois me casando, que era alemã. Eu tinha pensado em ir para a Rússia também, mas depois acabei descobrindo que a Rússia era um país muito machista e violento e acabou sendo a Alemanha esse lugar de recomeço mesmo. Eu queria recomeçar a minha vida depois de todo aquele trauma que está n’o martelo. o martelo não é 100% da minha história, mas é muito da minha história. Não somente da minha, mas de várias mulheres que entrevistei em 2011. Mas muito do que vivi está n’o martelo, então, queria mesmo ter a chance de recomeçar, de ter outros ciclos sociais, de não andar o tempo inteiro com medo de cruzar ou com o príncipe, digamos assim, ou uns amigos do príncipe, que era como eu vivia minha vida no Recife e em São Paulo, com medo de cruzar com qualquer pessoa que me lembrasse daquele horror. Foi por isso que eu vim. Só que quando cheguei aqui, as horas que eu não sou mulher, sou imigrante. Eu não vivo mais o dia 24h como mulher como vivia no Brasil, mas, quando você não é mulher, você é imigrante, que dá conta de um novo tipo de marcação social, de gaveta social que colocam você. É um lugar de opressão novo, que em São Paulo meio que já tem. Quando você é recifense ou nordestina e se muda para São Paulo, existe muito preconceito e muita xenofobia. Mas, aqui, no coração da besta capitalista e neonazista, é uma outra dimensão de preconceito e de racismo que a gente vive mesmo. 

CONTINENTE Quais artistas, seja na literatura ou outras expressões artísticas, têm te encantando ultimamente?
ADELAIDE Vou falar sem filtro! Tenho escutado, de novo, muito Nirvana, para o meu livro novo. Escutava muito na minha adolescência nos anos 1990. Nirvana era uma força. De um ano para cá, tenho escutado muito grunge em geral, por causa dessa pesquisa para esse futuro livro. Tenho escutado muito Dominguinhos, de uma maneira que nunca tinha prestado atenção nos poemas dele antes. O negócio com Nirvana é a relação que o Nirvana tem com o corpo e doenças do corpo. Tem muitos poemas de Kurt Cobain que são muito ligados com essa deterioração física. E os poemas de Dominguinhos muito ligados às várias instâncias de movimentação humana dentro do Sertão e dentro do Brasil, que têm me interessado muito. Tenho prestado muita atenção nesses dois. Escuto muita música cubana, porque estava, aqui, meio que sonhando que ia conseguir ir para Cuba no ano que vem. Já estou começando a achar que não vai ser tão mais fácil por causa da pandemia, mas tenho escutado muita música cubana nesses últimos meses. De leitura, estou lendo agora um livro de Toni Morrison chamado Paradise. É um livro de 1997, o primeiro que ela lançou depois que ganhou o Nobel, em 1993. É um livro que, como cada um que faz, deixa você sem fôlego. Esse, como sempre, é uma mistureba de personagens. Só no fim você entende como ela conseguiu conectar tudo aquilo ali, mas é a história de uma cidade. É muito incrível. Antes dela, eu estava lendo um piauiense chamado Permínio Asfora, de quem eu nunca tinha ouvido falar, mas era o autor de cabeceira do meu avô, que era organizador comunitário em Gravatá do Jaburu. Agricultor de esquerda, ecossocialista. Uma pessoa que morreu quando eu era nova e burra, uma pessoa que eu tenho muita pena de não ter me conectado mais com ele em vida. A gente era muito amigo, mas no sentido avô e neta, mas eu ainda não tinha sido politizada o suficiente para entender a importância do que ele estava fazendo nas brenhas de Pernambuco. Só depois da politização que entendi. E esse Permínio Asfora é um autor piauiense, muito de esquerda, que escreveu sobre a luta dos sertanejos, sobretudo dos trabalhadores da terra para ter alguma autonomia nos cafundós do sertão do Brasil. Estou muito impressionada com Permínio Asfora, porque se a gente acha que Jorge Amado era de esquerda, o Permínio Asfora dá um samba no Jorge! Maravilhoso! Amo Jorge Amado também, sobretudo os primeiros romances.

CONTINENTE Nas suas redes sociais, já vi você postando fotos da sua avó e sua mãe também. Queria que você contasse sobre essas mulheres e como elas lhe costuram.
ADELAIDE Vovó é uma mulher do interior de Pernambuco, mas ela só imigrou para o Recife tarde. Na verdade, os filhos que imigraram para o Recife primeiro. E para várias cidades do Brasil, inclusive. Ela teve 16 filhos, trabalhou muito tempo na roça com vovô na vendinha. É uma mulher que tenho muita admiração porque ela nunca teve medo de se atualizar. Acho que é por isso que ela vive tanto. Vai fazer 100 anos em novembro. Ela não teve medo de se refazer. De tanto a gente falar, ela ainda é homofóbica, machista, mas bem menos que antes. Quanto mais a gente, a geração dos netos e netas, foi se politizando, foi tentando explicar as coisas para ela e ela meio que foi acompanhando. Foi mudando junto com a gente. Acho que esse frescor mental dela faz com que ela se mantenha jovem, mas ela também muito me criou, porque mamãe ficou grávida no primeiro semestre da faculdade de Veterinária. Meu pai saiu do Brasil por causa de pressões políticas, na época. Era aquele finalzinho da ditadura militar. Ele, anarquista, e tinha pressões políticas, que nunca entendi muito bem e faziam a vida dele meio que impossível de circular no Recife. Ele foi embora, só conheci ele entre cinco e sete anos. Então, tem essa relação de ter duas mães mais ou menos. De ter essa avó que me criava no dia a dia e essa mãe que eu só via no fim de semana e era a pessoa por colocar fantasia no meu dia a dia. Mamãe me levava no cinema, me mostrava músicas. Vovó, uma sertaneja escorpiana, no meio da semana, meu convívio com ela era um esquema quase militar. A hora de dormir, a hora de acordar, as unhas limpas, cabelo limpo, a roupa limpa, tinha que ser tudo perfeito. Ela era braba que só. Aí, no fim de semana, com mamãe era que vinha aquele respiro do afeto. São duas pessoas a quem eu devo, se não tudo, muito. 

CONTINENTE Sua família é do Alto do Capibaribe. A história dessa família, que também é a sua história, é marcada pela migração interna. Como é sua relação com esse tema? De que maneira isso lhe atravessa?
ADELAIDE Esse tema tem ficado, obviamente, mais presente depois que vim morar aqui. Antes de sair do Brasil, existe uma coisa da migração interna, que é meio perversa porque ela é muito invisibilizada. Na verdade, quando morava em São Paulo, já era meio para eu me reconhecer como imigrante. Mas, quando você está no mesmo país, você tende a ver essa experiência da migração interna como experiência quase inevitável. Você acaba tornando a pobreza no Nordeste como algo intrínseco dessa região geográfica, e que não é. Alguma região teria que ser empobrecida e, no caso, foi o Nordeste, porque foi escolhido industrializar outra região. Você acaba se acostumando que, se você mora em um lugar e quer fazer alguma coisa, você vai ter que migrar ou do interior para a capital, ou da capital para o centro financeiro do Brasil, que é São Paulo ou o Sudeste. Quando fui morar em São Paulo, apesar de minha vida ser muito pior do que a que eu tenho aqui na Alemanha – no sentido de condições materiais e de qualidade de vida extremamente pior –, eu não fui capaz de politizar esse movimento, essa migração interna. Nem o meu nem o da minha família que veio antes de mim. Como vovó teve 16 filhos, ela tem filho em todo canto. Teve essa migração muito motivada pelas condições materiais, pelo fato do meu avô ter perdido tudo. A terrinha que eles tinham, eles perderam. Eles se mudaram primeiro para Caruaru, foi a primeira fase dessa mudança. Depois de Caruaru, o litoral e, depois, o Sudeste do Brasil. Eu não tinha o que é necessário para politizar nem a minha migração nem a imigração da geração anterior à minha, que é a da minha mãe e dos meus tios. Só quando cheguei aqui que pude acessar as ferramentas necessárias para entender essa experiência, que é uma experiência que me antecede e antecede meus ancestrais, inclusive. Então, agora é uma parte fundamental não somente da minha pesquisa artística, mas também da minha prática política, que está, cada vez mais, relacionada a tematizar ou a “desinvisibilizar” não somente os efeitos da imigração, mas por que as pessoas migram. E sobretudo mulheres, por que a gente migra. 

CONTINENTE Que horizontes você visualiza para o próximo ano no Brasil e no mundo? Por aqui será um ano de eleições e parece difícil.
ADELAIDE Sinceramente, não me sinto apta a responder essa pergunta, porque sou extremamente pessimista. Eu tento, exerço um otimismo racional. Para ser uma pessoa que constrói a revolução, como me sinto – eu sou comunista e politicamente organizada –, só faz sentido lutar por um mundo melhor se você acredita que ele é possível. Então, ligo a cabeça no racional para cumprir as tarefas de um movimento social de que faço parte. Para fazer isso, preciso racionalmente me manter otimista. Quando começo a analisar a realidade como ela se põe para mim hoje, eu penso: “O mundo vai se acabar, vai pegar fogo. Onde não vai pegar fogo, vai inundar”. Quando você me pergunta: “Quais suas perspectivas?”. Não consigo nem responder. Não me sinto apta para responder. Não sou a pessoa para responder essa pergunta. Tento viver um dia de cada vez, cumprindo as tarefas históricas do meu tempo e dos movimentos sociais do partido que faço parte. Acho que o caminho do mundo é a gente entender que a gente precisa priorizar e desacelerar a catástrofe climática e, para isso, a gente precisa, de fato, de uma mudança de sistema. A gente precisa superar o capitalismo, porque, ou é isso, ou a possibilidade do fim da vida na Terra. E isso inclui, obviamente, retirar as extremas direitas do poder em todo o mundo. Não somente as extremas direitas, como todos os atores que contribuem para a manutenção do capitalismo, que também podemos falar desse Centrão, sobretudo o Centrão brasileiro que contribui muito para que as coisas estejam como estão.

CONTINENTE Para terminar, o que é felicidade para você? O que essa palavra lhe remete?
ADELAIDE Felicidade, para mim, é não me sentir usurpada da minha autonomia existencial pelos donos dos meios de produção; é não sentir horas roubadas do meu dia para alguém ficar rico e não eu. Felicidade, para mim, é ter tempo de cuidar de mim, ter tempo de cuidar da poesia, ter tempo de cuidar da minha horta comunitária, ter tempo de fazer meu trabalho político e cumprir minhas tarefas. Felicidade, para mim, é poder não fazer absolutamente nada. Felicidade, para mim, é poder sonhar que um dia eu vou poder voltar para o Brasil e morar no Sertão de Pernambuco, construir minha escolinha de alfabetização de jovens e adultos. Felicidade, para mim, é poder sonhar que… Sei lá, felicidade, para mim, é viver em paz e acho que enquanto a gente viver no capitalismo, a gente não vai ter paz.

ERIKA MUNIZ, jornalista, com graduação em Letras.

Publicidade

veja também

"O mercado não consegue reproduzir a magia do slam"

“Utilizo muito a palavra como feitiço”

"Paulo Freire não tem sucessor"