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Entrevista

"O patriarcado há de acabar"

Escritora argentina Selva Almada, autora de 'Garotas mortas', comenta a luta contra o machismo, a misoginia e os feminicídios

TEXTO Luciana Veras

28 de Julho de 2021

A autora portenha esmiuçou o caso de três mulheres assassinadas

A autora portenha esmiuçou o caso de três mulheres assassinadas

Foto Vale Fiorini/Divulgação

[conteúdo extra à reportagem da ed. 247 | exclusivo Continente Online]

“A manhã de 16 de novembro de 1986 estava clara
, sem uma única nuvem, em Villa Elisa, a cidadezinha onde eu nasci e me criei, no centro-leste da província de Entre Ríos. Era domingo, e meu pai estava preparando o churrasco nos fundos da casa. Ainda não tínhamos churrasqueira, mas ele se virava bem com uma chapa no chão, em que punha as brasas e, por cima delas, a grelha. Nem quando chovia meu pai cancelava o churrasco – bastava outra chapa para cobrir a carne e as brasas.” 

Assim, com um prosa límpida e fluida, imiscuída na coloquialidade do típico programa familiar descrito nestas primeiras frases, a escritora portenha Selva Almada abre Garotas mortas (2014), publicado no Brasil pela editora Todavia, em 2018. E com sabedoria, faro jornalístico, curiosidade e delicadeza, a autora nos conduz a uma investigação - pessoal, única e intransferível - percorre anos e três casos de feminicídio nunca resolvidos – as mortes de Andrea Danne, Maria Luísa Quevedo e Sarita Mundin na Argentina dos anos 1980.

Nessa primeira incursão pela não-ficção, escrita dois anos depois de O vento que arrasa (Cosac Naify, 2012), Selva Almada fala tanto de si como da generalização da violência contra as mulheres. "Eu tinha 13 anos e, naquela manhã, a notícia da garota morta me chegou como uma revelação. Minha casa, a casa de qualquer adolescente, não era o lugar mais seguro do mundo. Você podia ser morta dentro da sua própria casa. O horror podia viver sob o mesmo teto”, recorda a autora argentina logo no início da narrativa de Garotas mortas, a propósito do caso de Andrea Danne, que ocorreu em uma cidade próxima ao lugar onde ela nasceu e onde seu pai costumava se deliciar com uma parrillada no domingo.

É difícil parar de ler Garotas mortas, tanto porque existe habilidade na escrita em reunir dados e informações e em conjecturar sobre o que pode ter se passado nas últimas horas da vida daquelas três mulheres, como porque Selva Almada nos leva a refletir sobre como a misoginia e o machismo, elementos estruturais da nossa América Latina, erigiram uma paisagem em que o feminicídio virou corriqueiro, banal, comum. "A misoginia é cultural, por isso é tão difícil desmontar o aparato machista. Está muito incrustado em nossas sociedades, em como nos educam, tanto a nós, mulheres, como aos rapazes. Quase todos os âmbitos de nossas vidas estão marcados pelo machismo, pelo patriarcal…", escreve, em entrevista por e-mail. 

Trechos da sua conversa com a Continente estão na nossa reportagem da edição deste mês, em que olhamos para o feminicídio como espelho e signo da nossa sociedade. Aqui, seguem suas respostas na íntegra, em tradução livre do espanhol.  

CONTINENTE O que lhe levou a querer escrever sobre os assassinatos daquelas três garotas?
SELVA ALMADA Conhecia o caso de Andrea porque havia ocorrido perto do meu povoado quando eu tinha 13 anos e havia me impactado muitíssimo. Apesar do passar dos anos, essa história estava muito presente em mim: o que tinha passado? Por que e quem a havia matado? Os casos de feminicídio começaram a se suceder nas notícias em todos os dias e, cada vez que aparecia um novo caso, eu pensava em Andrea, em como aquilo que havia acontecido também tinha sido um feminicídio, ainda que, naquela época, não tínhamos uma palavra para assim nomeá-lo. Dessa forma, começou a germinar a ideia de escrever sobre ela. Logo depois, acidentalmente deparei com outro caso da mesma época, também uma adolescente, também um feminicídio impune…

CONTINENTE Por que você adotou o formato da não-ficção? Eu adorei o livro e gostei bastante, justamente, do seu olhar, que considero meio jornalístico, meio detetivesco, e sempre de escritora.
SELVA ALMADA Gosto da não ficção, sou leitora. Quando comecei a dar forma a essa ideia de escrever sobre esses casos encadeados, pensei que não poderia ser um novela ou um romance. Eu queria que os leitores soubessem, desde a primeira página, que não era uma ficção. Que aquilo tudo que estavam lendo havia acontecido a mulheres que tinham existido e que seus assassinos decidiram apagá-las do mapa arbitrariamente. E que, como se isso fosse pouco, esses assassinos haviam seguido livres com suas vidas e nunca pagaram por essas mortes. 

CONTINENTE Seu livro, ao reconstituir um pouco da vida daquelas três mulheres mortas, daquelas três vidas interrompidas, contribui justamente para que não as esqueçamos. A importância de ‘dizer o nome delas’, como costumamos falar aqui no Brasil. Como você percebe a literatura como um instrumento, uma ferramenta, para a construção de uma memória coletiva? No caso de Garotas mortas, penso que o livro contribui justamente para que o debate sobre os feminicídios seja perene. 
SELVA ALMADA Há pouco saiu um livro que se chama El invencible verano de Liliana, da escritora mexicana Cristina Rivera Garza. Ali ela conta do feminicídio da sua irmã, ocorrido em 1990. É um livro muito interessante, te recomendo. Nele, ela fala justamente da memória coletiva, de começar a fazer um pacto coletivo de atribuir palavras a essas mortes e à falta de justiça, pois o caso da sua irmã também segue impune. Creio que a escrita pode contribuir, que um livro pode ajudar a pensar sobre certos temas que ainda são tabus em nossas sociedades ou que estão repletos de preconceitos – por exemplo, sempre se buscam, na vida da vítima, argumentos ou desculpas para o fato de que ela terminou morta. Ou ainda temas que não sabemos justamente como nomear, como pôr em palavras. Quando eu escrevi o livro e o publiquei em 2014, na Argentina sequer existia o movimento #NiUnaMenos, que teve início um ano depois; eu não sabia, de fato, o que ia se passar com Garotas mortas, se iria interessar a alguém ou não, ou o que pensariam as feministas sobre ele… Enfim, não tinha nenhuma ideia. E hoje creio que o livro contribuiu e segue trazendo muitíssimo ao tema. É um livro que as professoras compartilham e trabalham com os seus estudantes, por exemplo, e que lhes abre a porta para discutir sobre este tema com os adolescentes. 

CONTINENTE Vivemos na América do Sul, um continente em que os índices de violência contra as mulheres permanecem muito altos. A que você atribui isso, Selva?
SELVA ALMADA A misoginia é cultural, por isso é tão difícil desmontar o aparato machista. Está muito incrustado em nossas sociedades, em como nos educam, tanto a nós, mulheres, como aos rapazes. Quase todos os âmbitos de nossas vidas estão marcados pelo machismo, pelo patriarcal… Os homens são criados com a ideia de que nós, as mulheres, somos objetos de sua propriedade e que, assim, podem nos matar, caso não façamos o que eles esperam. 

CONTINENTE Por fim, uma última questão: será que algum dia as mulheres argentinas, brasileiras, mexicanas poderão viver sem medo?
SELVA ALMADA Creio que sim. Tomara que sim. Acredito que os movimentos feministas seguem crescendo, felizmente, e seguem nos ensinando e assim seguimos aprendendo. Creio que as meninas que hoje têm 12 ou 13 anos são muitíssimo mais livres do que nós, que estamos mais ancoradas, mais empoderadas. E nós temos que seguir insistindo, protestando, ocupando as ruas, levantando a voz. O patriarcado há de acabar. Assim, não podemos baixar os braços nem seguir vivendo com medo.

LUCIANA VERAS, repórter especial da Continente.

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