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Entrevista

"Nós negros fazemos um autêntico cinema brasileiro"

Homenageado por mostra virtual que reúne alguns de seus trabalhos raros, o cineasta mineiro Joel Zito Araújo fala sobre o seu fazer cinematográfico no Brasil

TEXTO Chico Ludermir

22 de Julho de 2021

Joel Zito conta também que está fazendo um novo filme

Joel Zito conta também que está fazendo um novo filme

FOTO Igor de Paula

[conteúdo exclusivo Continente Online]

Uma das principais referências do cinema
negro brasileiro, Joel Zito Araújo alia audiovisual, pesquisa e militância como poucos. Reconhecido pela capacidade de escancarar as feridas abertas de um país e, consequentemente, de um cinema racista, dirigiu duas dezenas de filmes, entre eles, os premiados A negação do Brasil (2000), As filhas do vento (2005) e Meu amigo Fela, que estreou em 2019, no Festival de Roterdã, na Holanda. 

Menos conhecida e, em alguns casos bastante rara, sua produção de curtas e médias-metragens, realizados entre as décadas de 1980 e 1990, é precursora de uma virada histórica do Brasil: o momento em que pessoas negras deixam de ser objeto e passam a ser sujeitos de suas representações fílmicas. É justamente esse material, composto por nove filmes, que integra a mostra Joel Zito Araújo: uma década em vídeo, que estreia nesta quinta (22 de julho), em plataforma online. Além das obras, que ficam disponíveis no site do evento até o dia 1o de agosto, a programação conta com uma série de debates e uma masterclass com o homenageado.

Aproveitamos o momento de estreia da mostra para conversar com o diretor sobre sua obra e, em entrevista concedida, a distância, à Continente Online, através do jornalista Chico Ludermir, Joel Zito revisita esse e outros momentos de sua carreira, analisa as relações entre cinema e raça, ao mesmo tempo em que questiona a categoria “cinema negro”: “O nosso melhor rótulo seria que fazemos um autêntico cinema brasileiro”, afirma. Também fala sobre sua relação com Pernambuco, seu novo longa, O pai de Rita, já em fase de finalização, e sobre os “cinemas” possíveis em tempos de pandemia e retrocesso político: “Nós podemos ser companheiros de viagem de muita gente que anseia por grandes mudanças”, convoca.


Joel Zito em momento exclusivo para a Continente. Foto: Igor de Paula

CONTINENTE A mostra Joel Zito Araújo: uma década em vídeo, que estreia na nesta quinta (22/7), disponibiliza nove curtas e médias-metragens realizados por você entre os anos de 1987 e 1997, o início da sua carreira. Sobre a mostra, como foi revisitar esses seus filmes? O que você conseguiu ver de sua trajetória como realizador através deles? O que você acha que essa compilação retrospectiva ainda pode falar sobre a história do nosso país e do nosso cinema?
JOEL ZITO Foi surpreendente. De alguma forma, eu meio que considerava este período como uma espécie de ensaio, ou de uma preparação para a minha carreira, que se tornou nacional a partir de A negação do Brasil. Foram filmes que gostei de fazer e que foram importantes para os contextos que nasceram e foram destinados, mas eu ainda não me sentia um cineasta pleno, com domínio do ofício. É estranho observar que eu pensava assim, como se fosse possível um dia me sentir pleno e mestre do ofício – e foi por isso que eu não voltei a vê-los por décadas. Hoje acho que eles são representativos não somente do meu início de carreira, mas também de um momento em que o barateamento dos equipamentos e das formas de fazer filmes aconteceu após o nascimento do VHS, do U-Matic e, logo depois, dos equipamentos digitais. Esse barateamento permitiu que um segmento de minha geração se envolvesse de corpo e alma com os movimentos sociais e sindicais e começasse a produzir mais organicamente, com mais volume, como foi o meu caso. Eu creio que esses meus filmes, realizados em minha primeira década, são significativos desta parte da história do nosso país e do nosso cinema. E esses filmes são filhos do pensamento que norteou a criação da ABVP – Associação Brasileira de Vídeo Popular, do qual acabei me tornando secretário-geral em 1988. Eles ajudam a entender este momento e essa forma de fazer e olhar o cinema que o Brasil passou a ter desde os anos 1980.

CONTINENTE Acompanhando as pautas de classe (operárias, sindicais), as questões de raça compõem o centro de sua produção, em especial a partir da sua mudança de Belo Horizonte para São Paulo, quando você se aproxima dos movimentos negros. Ainda que pouco conhecidos, Alma negra na cidade (1991), São Paulo abraça Mandela (1991), Retrato em preto e branco (1992) – entre outros que integram a mostra – são obras que marcam um momento histórico do cinema nacional em que os filmes, sobretudo os dirigidos por pessoas negras, passam a denunciar o racismo. Em que pé estava o debate racial no cinema? Como foi a recepção desses filmes em um momento em que a tese mais aceita era a da democracia racial?
JOEL ZITO O cinema brasileiro sempre teve apreço pela cultura negra, mas pouco interesse pelas lutas identitárias do povo negro, voltada para o fortalecimento de sua autoestima ou por suas lutas e reconhecimento de que somos um país muito racista. A geração do cinema novo, assim como a anterior, acreditava na leitura do Brasil que foi feita por Gilberto Freyre. Não é fortuito que tenhamos tido tão poucos filmes sobre grandes personagens e heróis negros. E quase nenhum sobre a questão do racismo contemporâneo, feitos por cineastas brancos. A honrosa exceção foi a primeira e única obra ficcional do teatrólogo Antunes Filho para o cinema, que foi Compasso de espera (1972). Eu percebi isso já na primeira metade desses 10 primeiros anos que fazem parte da mostra. Compreendi que eu integrava um círculo diminuto, que era crítico do mito da democracia racial e queria fazer um cinema com uma outra percepção. Mas meu filme só circulava entre aqueles que já tinham a mesma compreensão que eu: que o racismo era um problema fundamental da sociedade brasileira. E nem mesmo os festivais internacionais tinham esta percepção do Brasil. Os franceses, por exemplo, adoravam a ideia que de aqui era o paraíso da miscigenação racial e valorizavam filmes que confirmassem essa percepção.


Cena iconônica do doc A negação do Brasil (2000), que analisa produções como a novela A cabana do Pais Tomás (Globo, 1969-70). Imagem: Reprodução 


Cena de São Paulo abraça Mandela (1991), que está na mostra. Imagem: Divulgação

CONTINENTE A pesquisadora Kênia de Freitas, ao se deparar com o desafio de conceituar cinema negro, nos dá (entre outras) duas contribuições. A primeira, de pensar cinemas negros no plural (como forma de fugir do essencialismo e dar conta da diversidade); a outra é definir esse cinema a partir da combinação da autoria e temática negra dos filmes. Você considera que faz cinema negro? O que significa para você pensar a partir dessa definição?
JOEL ZITO Eu nunca me preocupei com a definição de “fazer cinema negro”. Eu sempre fiz um cinema que compreendia o Brasil de uma outra perspectiva, alinhada com o pensamento das boas cabeças negras que sempre existiram e eram meus parceiros. Eu, portanto, tinha consciência de estar fazendo um cinema alinhado com a militância artística e política negra. Acho que o rótulo cinema negro vem de fora. Hoje jovens críticos gostam de trabalhar este conceito. Mas eu tenho dúvidas sobre esta caixinha. Que tipo de cinema o Almodóvar faz? Cinema gay? Que tipo de cinema Claire Denis faz? Cinema experimental? Eu não acho que este tipo de caixinha ajude em muita coisa. Falar em cinema africano, sim. Em cinema europeu, sim. Em cinema asiático, sim. Em cinema indie, sim, diante da supremacia de Hollywood em suas formas de produção e narrativa. Mas que, aliás, já não é mais tão monolítica assim e absorve as inovações narrativas indies. Falar em Blaxpoitation, sim, porque ali existia uma estética próxima, meio uniforme e até mesmo uma temática comum, diante de uma dificuldade de pessoas negras em fazer um cinema comercial em Hollywood assumindo seu olhar negro. Mas falar em cinema negro brasileiro só serve para dizer que são filmes feitos por cineastas que têm consciência e orgulho de sua negritude. Não acho que vai muito além disto, como utilidade. O Brasil tem 54% de sua população que se assume como negra ou parda, então a nosso melhor rótulo seria que fazemos um autêntico cinema brasileiro. Os outros é que fazem um cinema de minoria, portanto, deveriam ser chamados de realizadores de “cinema branco”, mesmo porque o elenco costuma ser, às vezes, totalmente caucasiano. Eu puxo esta provocação aqui porque, por muito tempo, meus filmes ficaram em um território mais limitado porque os críticos me consideravam não como um cineasta fazendo cinema sobre a identidade negra e a questão racial no Brasil, mas como um militante negro que tentava fazer cinema. Isso foi muito redutor. Demorei a quebrar esta barreira e a circular para um público mais amplo, ou em festivais de nível A.


Extra:
Leia texto de Joel Zito para a Continente Online sobre a atriz Ruth de Souza


CONTINENTE Fazendo uma pesquisa, me deparei com relatos da sua participação no V Festival do Cinema do Recife, em um artigo de Noel dos Santos Carvalho e Petrônio Rodrigues. A edição daquele ano de 2001 foi marcada não somente pela exibição do seu longa A negação do Brasil, que ganhou o prêmio de melhor roteiro, mas também pela articulação que resultou no Manifesto do Recife, do qual você é signatário junto com Zózimo Bulbul, Milton Gonçalves, Antônio Pintanga, entre outros. No que aquelas reivindicações e movimentações políticas – que apontavam para o fim da segregação no cinema através de políticas públicas – resultaram no cinema que temos hoje?
JOEL ZITO Eu sou redator e um dos signatários do Manifesto de Recife. Eu acho que ele, e o , foram os mais importantes manifestos públicos para chamar a atenção do mundo cinematográfico brasileiro sobre o olhar e as reivindicações dos e das artistas negras. Isto se somou ao impacto que teve no mesmo período com o meu livro e filme A negação do Brasil. Este foi o primeiro grande momento de mobilização cinematográfica nossa, enquanto um grupo unido, e creio que deixou marcas profundas nos dias de hoje.

CONTINENTE A sua relação com Pernambuco extrapola a participação em festivais. Seu filme Almerinda: uma mulher de trinta (1991, que também integra a mostra), por exemplo, foi financiado pela S.O.S Corpo (ONG feminista recifense) e produzido pela TV Viva, uma das grandes referências de televisão popular. Conta um pouco mais sobre sua relação com o estado. Você tem acompanhado o que tem sido produzido aqui?
JOEL ZITO Eu tive a felicidade de sentir esta emergência do cinema pernambucano in loco. Em decorrência de minha atuação na ABVP como secretário-geral e dos meus primeiros filmes, me tornei amigo do pessoal da TV Viva e muitos dos cineastas que se destacaram depois e que passaram por ali. No final dos anos 1980, essa geração que produziu e experimentou coisas na TV Viva já era uma coisa fervilhante e muito original e com essa pegada pop, que é uma de suas grandes características. Hoje sou amigo dos principais realizadores. Acompanho quase tudo que é feito pela minha geração e muitos dos novos.

CONTINENTE O cinema contemporâneo, por diversos fatores, tem sido ocupado por outros sujeitos realizadores – e, aqui, eu daria destaque ao protagonismo de mulheres negras como diretoras. Cito Kbela (2015), de Yasmin Thayná, como um marco, mas poderíamos citar tantas outras, como Safira Moreira ou Larissa Fulana de Tal. Como você tem visto essa produção contemporânea? O que acontece com a sociedade quando outros corpos passam a ser sujeitos (e não mais objetos) da representação?
JOEL ZITO Eu também assisti de camarote à emergência do cinema contemporâneo jovem, de realizadoras e realizadores negros, com forte liderança feminina. Creio que tenho tido a sorte de ser contemporâneo do meu tempo, desde jovem. Esse cinema contemporâneo teve como palco principal o Encontro de Cinema Negro Brasil, África e Caribe, criado por Zózimo Bulbul, o maior festival de cinema negro brasileiro, e eu fui curador dele de 2012 a 2018, seguindo o grande amigo Zózimo Bulbul, que me solicitou e delegou esta função. Fui vendo ali o crescimento exponencial de uma nova geração. No início, o encontro tinha mais filmes africanos do que brasileiros. Em pouco tempo, a parte africana foi ficando minoritária. É uma produção potente, cheia de energia e de desejo de mudanças. Tenho muito orgulho de ter sido professor, parceiro e amigo dessa geração. Muitos talentos estão nascendo e alguns já estão consolidados.

CONTINENTE A gente vive em um momento bastante específico da história do mundo. No Brasil, a crise sanitária se soma a uma crise política gravíssima. Pensando na sua longa trajetória de interseções entre cinema e política, e no cinema enquanto enfrentamento e campo de disputa, queria que você pensasse: que filmes são necessários nesse momento? Ou que filmes são possíveis?
JOEL ZITO Eu acho que o país e a América Latina precisam de filmes que afirmem os sonhos, desejos, angústias, sofrimentos e as vitórias do povo negro. Levantar, discutir a questão racial no país e na América Latina é absolutamente fundamental neste momento histórico. Mas deve ir além disto, deve também exprimir um outro olhar do mundo e de nós mesmos, que fomos invisibilizados pela indústria audiovisual do passado. Da mesma forma, temos urgência de um cinema que traga o olhar indígena brasileiro e latino-americano, a sua leitura de mundo, angústias, sonhos e também a proposta de uma relação mais harmônica com a natureza, que é típica da maioria das nações indígenas. Esses são os dois cinemas possíveis que mais me interessam e que gostaria de ajudar a se consolidarem.

CONTINENTE Em paralelo a todo o sofrimento da pandemia, vemos questões muito sérias relacionadas à cultura e mais diretamente ao cinema. Algumas falas do atual presidente colocam seu governo muito próximo à censura, o que, combinado ao esvaziamento da Ancine, parece dar um golpe forte no setor. Como você, que acompanhou a retomada do cinema brasileiro, acha que é possível atravessar esse momento? O que existe na arte que é tão temida por esse governo?
JOEL ZITO Eles passarão. Nós seremos eternos passarinhos trazendo boas novas e sementes de grandes mudanças. O momento é trágico e terrível, especialmente por termos um presidente que odeia a cultura brasileira e os pobres brasileiros. Um hipócrita que odeia o Brasil e finge que é quem mais gosta. Mas, tudo indica, que ele não tem muito futuro. Mas nós temos. Nós podemos ser companheiros de viagem de muita gente que anseia por grandes mudanças.

CONTINENTE Soube que você está em set. Está produzindo um novo filme?
JOEL ZITO Estou na última etapa de finalização do meu novo longa ficcional, O pai da Rita, uma comédia romântica sobre a paternidade do homem negro e sobre a amizade de dois grandes amigos, dois velhos sambistas da Vai-Vai. É uma história inteiramente ficcional, leve e saborosa. Espero estreá-lo ainda este ano.


Foto: Igor de Paula

CHICO LUDERMIR é jornalista, artista visual, educador popular e mestre em Sociologia. É Integrante do movimento Coque (R)existe.

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