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Curtas

Delta Estácio Blues

Toda força da poética de Juçara Marçal

TEXTO Márcio Bastos

03 de Novembro de 2021

Em seu segundo disco, artista traz músicas inventivas, pulsantes e sem compromisso com a cadência harmônica usual da canção

Em seu segundo disco, artista traz músicas inventivas, pulsantes e sem compromisso com a cadência harmônica usual da canção

Foto Pablo Saborido/Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 251 | novembro de 2021]

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Juçara Marçal é uma artista que trabalha no coletivo, mesmo quando está explorando sua individualidade. As forças criativas dos encontros permeiam toda a sua carreira, iniciada nos anos 1990, e desenvolvida nos grupos Vésper Vocal, A Barca e Metá Metá, em empreitadas paralelas, musicais ou de outras linguagens (fez sua estreia nos palcos em 2019, na peça Gota d’água [PRETA], dirigida por Jé Oliveira), e também no trabalho solo. Este termo, inclusive, parece não agradar tanto a artista que entende seus projetos, incluindo o recém-lançado Delta Estácio blues, como continuações de uma investigação profunda e contínua, resultado de um diálogo constante com outras forças criativas.

O disco, já disponível nas plataformas de streaming, é considerado o sucessor do celebrado Encarnado (2014) e contou com o fomento do edital Natura Musical. Inicialmente, ele tinha previsão de lançamento para 2020, mas a pandemia colocou os planos em suspenso, forçando Juçara a encontrar também outros caminhos para continuar produzindo. Aprendeu a mexer em programas para se gravar em casa, participou do disco de Marcelo D2, trabalhou em uma trilha sonora e fez algumas lives, inclusive com os projetos Padê e Metá Metá. E, em meio a essas várias experiências, a experimentação e a inquietação começaram a guiar o desenvolvimento do álbum.

“Para mim, são várias vias de atuação. (O trabalho solo) É uma vontade de esmiuçar alguma coisa mais particular, mas não que isso seja uma outra viagem. São vários projetos, inclusive esse. As pessoas costumam falar ‘Ela lançou o primeiro e agora é o segundo’, como se tudo que estivesse em volta não tivesse importância ou tivesse uma importância menor. Como se não fosse eu ou se não estivesse inteira nesses outros – e para mim não é assim que funciona”, explicou em entrevista à Continente. “Assim como Encarnado, neste projeto eu tinha uma ideia de sonoridade que eu queria ir trabalhando com o tempo que fosse necessário para fazer. A ideia desse disco surgiu lá atrás, em 2017. Mas não tinha pressa para fazer.”

Para a produção de Delta Estácio blues, Juçara colaborou mais uma vez com Kiko Dinucci, seu parceiro no Metá Metá, Padê e outras iniciativas, e, juntos, debruçaram-se em um processo quase de jogo, no qual o sample era o elemento lúdico sobre o qual tinham possibilidades infinitas de criação.

“Tinha uma ideia de usar os samples, os cacos para montar a base do disco, de ser um trabalho principalmente de bases eletrônicas e, a partir daí, surgiria a canção. Uma ideia meio de arranjo de rap mesmo, em que você faz a base e se versa em cima. No nosso caso, a gente faz a base e a canção vai sair daí: melodia, letra e tal. Era um processo que a gente não sabia direito como ia fazer e foi descobrindo no fazer”, enfatizou. “Fizemos cerca de 30 bases diferentes – umas não viraram canções, outras foram completamente modificadas. Foi um processo muito compartilhado entre mim e Kiko, ele como produtor musical e na arquitetura das bases, e eu o tempo todo sentada ao lado; ele fazendo uma melodia e eu colocando uma letra, e vice-versa. E na hora de convidar amigos para colocar instrumentos, melodia, colocar uma letra em cima de melodia. Foi muito compartilhado. Uma linha puxando a outra.”

Esse quebra-cabeça da canção materializa-se em Delta Estácio blues de forma primorosa. As músicas são inventivas, pulsantes, sem compromisso com a cadência harmônica usual da canção, e ressaltam a força da interpretação de Juçara. Crash, composta por Rodrigo Ogi, por exemplo, aproxima-se do rap em sua urgência e pungência. O disco busca um peso em seu som e explora as potencialidades da música eletrônica e da manipulação dos graves, direcionamento que se apresenta de forma clara em como Baleia, composta em parceria com Maria Beraldo, e La femme à Barbe, releitura da música de Brigitte Fontaine e Jacques Higelin.

Vi de relance a coroa, faixa que abre o álbum, é uma composição do pernambucano Siba, com quem Juçara já havia colaborado anteriormente. “A gente já estava com o repertório praticamente fechado e Siba, um dia antes da gravação das vozes, disse: ‘Fiz essa música para você’. Ouvi e pensei: ‘Que música foda’. Juntar Siba e Cadu (Tenório) foi muito especial. Traz o peso que não é deprê; dá vontade de sair pulando. O disco é vibrante”, reforçou.

Outros artistas que colaboraram com o disco foram Tulipa Ruiz, Rodrigo Campos, Catatau e Douglas Germano, que participa da faixa Corpus Christi, classificada por Juçara como uma “bossa nova torta”. “A gente imaginava uma bossa nova em uma praia zoada, de farofeiro, do litoral Sul de São Paulo, que é aquela coisa de engarrafamento, lotação. Não é bossa nova com Leblon, violão, suavidade (risos).”

Das sessões criativas do álbum, algumas canções acabaram enveredando por caminhos mais solares e, por isso, estarão reunidas em um EP com previsão de lançamento para o próximo verão, no início de 2022. Essas faixas são de autoria da própria Juçara, em parceria com Clima e outra com Kiko Dinucci; Alzira E e Jadsa. Prolífica, a artista também já tem outro projeto finalizado, atualmente em fase de mixagem: Sambas do absurdo 2, continuação do projeto encabeçado por ela Rodrigo Campos e Gui Amabis.

Juçara também comemora sua volta aos palcos. Neste mês de novembro, segue em turnê pela Europa com Kiko Dinucci, e, ao retornar, fará os primeiros shows presenciais de Delta Estácio blues (uma apresentação gravada foi transmitida no começo de outubro) na Casa de Francisca, no final de dezembro. “A banda já está montada e a gente está na instiga. Já deu para sacar que (o peso do disco) vai para o show”, pontuou.

MÁRCIO BASTOS é jornalista cultural.

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