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Cinema: Marcos de uma tradução imagética

Adaptações para as telas do 'Auto da Compadecida' e 'A Pedra do Reino' mantêm a peculiar fusão entre o barroco ibérico e o romanceiro popular

TEXTO Alexandre Figueirôa

01 de Outubro de 2010

A distância entre o armorial e as câmeras foi parcialmente superada pelo êxito da versão da peça para TV e cinema de 'O auto da Compadecida'

A distância entre o armorial e as câmeras foi parcialmente superada pelo êxito da versão da peça para TV e cinema de 'O auto da Compadecida'

Foto Divulgação

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 118 | outubro 2010]

A rigor, não existe um cinema armorial.
O movimento, criado por Ariano Suassuna, tem representantes e seguidores nas artes plásticas, literatura, teatro, dança e, sobretudo, na música. Na sétima arte, o máximo que poderíamos elencar seriam incursões e aproximações em seu universo estético, quando obras do próprio Suassuna foram levadas à tela. A primeira delas foi a adaptação do Auto da Compadecida, realizada em 1969 por George Jonas, cujo título era A Compadecida. O figurino, desenhado por Francisco Brennand, apresentava traços dos elementos estéticos propostos pelo movimento, e o fato de o filme seguir o texto teatral vincula-o a uma concepção narrativa que, mesmo de forma superficial, estaria na base dos preceitos defendidos por Suassuna.

No entanto, uma visualidade realmente próxima e inspirada por uma iconografia presente no imaginário da cultura popular nordestina e dos traços “neomedievais” do ideário armorial, só alcançaram melhor representação em obras mais recentes. Entre elas, destacam-se as minisséries O auto da Compadecida, de Guel Arraes, e A Pedra do Reino, de Luiz Fernando Carvalho. Elas ganharam versões para serem mostradas no cinema e foram lançadas em DVD, embora tenham sido concebidas inicialmente para serem exibidas na televisão.

Apesar da boa recepção de público e crítica para essas adaptações televisivas, podemos identificar a existência de uma lacuna entre o armorial e o audiovisual pela desconfiança que o criador do movimento sempre teve em relação aos meios de comunicação de massa. Para Suassuna, a televisão seria uma inimiga da cultura popular e o fato de ele aceitar ver suas obras numa emissora comercial como a TV Globo deveu-se, no caso de Guel Arraes, à relação de afeto com o filho do ex-governador Miguel Arraes e também por Guel ser uma referência de qualidade na televisão brasileira.

Essa distância entre o armorial e as câmeras foi parcialmente superada pelo estrondoso êxito tanto da versão do Auto na televisão quanto no cinema, embora Guel, ao realizar a adaptação, não tivesse em vista necessariamente ser um difusor do movimento armorial. Ele estava muito mais interessado em trabalhar com a ideia de um cinema popular brasileiro e ao mesmo tempo dessacralizar os limites entre a televisão e o cinema. No depoimento prestado no livro Guel Arraes, um inventor no audiovisual brasileiro (Cepe, 2008), Guel afirma ter buscado o texto de Suassuna pela facilidade de comunicação que a obra teria com o público. De qualquer modo, o diretor reconhece que, na adaptação da mais famosa peça teatral de Suassuna, ele utilizou o que chama de “método armorial”, ou seja, na obra há piadas e cenas inteiras tiradas do teatro, de histórias e autores medievais, já que esse repertório retrabalhado por Suassuna no Auto da Compadecida está muito próximo da cultura popular nordestina.

Visualmente, O auto de Guel Arraes segue, apesar da leitura pessoal do diretor, a estética preconizada por Suassuna, uma vez que ele mergulhou no universo apontado no texto, cujos traços ainda hoje podem ser encontrados no interior do Nordeste, bem como nas pinturas dos artistas armoriais. As cores em tom de terra do vestuário e as gravuras que ilustram os folhetos de cordel são elementos usados por Guel na criação da plasticidade da sua obra audiovisual. A mise-en-scène de O auto busca tirar o máximo proveito do uso da paisagem e dos tipos humanos, estabelecendo uma representação cara ao espectador brasileiro e que povoa o seu imaginário, realçando nela seus aspectos pitorescos e dando-lhe, ao mesmo tempo, um verniz de erudição e de valorização da cultura popular.

AFINIDADES
Porém, para Ariano Suassuna, seria Luiz Fernando Carvalho quem melhor traduziria o armorial para o audiovisual. Não podemos ignorar, nesse contexto, ter sido Carvalho o precursor das adaptações dos textos de Suassuna para o meio televisivo, com os programas especiais Uma mulher vestida de sol, levado ao ar em 1994, e O santo e a porca, em 1995. Também a minissérie Hoje é dia de Maria, realizada por ele em 2005 para a Globo, embora não seja um texto de Suassuna – pela forma como dialoga com os espetáculos populares, sobretudo no cenário, iluminação e figurino, revela afinidade com o movimento armorial.

Apesar das diferenças de sua criação com relação ao Núcleo Guel Arraes, Carvalho segue o modelo de qualidade proposto pela Globo no estabelecimento de uma teledramaturgia diferenciada e em oposição a uma televisão popularesca. Em A Pedra do Reino, ele recriou o Romance d’A Pedra do Reino e levou sua experimentação estética a um patamar realmente surpreendente, mesmo estando na televisão. A adaptação da obra de Suassuna integrava o Projeto Quadrante, cujo objetivo seria transpor para a teledramaturgia obras clássicas da literatura brasileira.

Os cinco episódios da minissérie têm a duração total de 4 horas e 36 minutos e foram exibidos em 2007 por cinco dias consecutivos. Posteriormente, foi lançado em DVD e algumas salas de cinema também arriscaram mostrá-la na íntegra. Comparado a O auto, o sucesso de público foi bem menor, contudo não podemos negar o êxito da empreitada de Carvalho. A minissérie foi rodada em Taperoá, na Paraíba, cidade natal de Suassuna, e utilizou apenas atores nordestinos. Todo o material – roupas e adereços – foi feito por artesãos da região e usou produtos como palha de milho e serragem para obter um efeito de rusticidade cênica.

A ousadia do diretor na adaptação, porém, não se limitou a transpor o cenário e o figurino descritos no livro, mas compôs uma mise-en-scène audiovisual em que os personagens e acontecimentos narrados emergem da tela como quadros barrocos, num fluxo imagético em que predomina o estabelecimento de um pacto sensorial com o espectador. A saga do herói sertanejo Quaderna, criada por Suassuna, foi apropriada por Carvalho para revelar uma imagem de brasilidade cuja raiz seria a diversidade cultural do país. O diretor não seguiu a lógica tradicional do formato minissérie, preferindo ao invés disto estruturar os episódios de A Pedra do Reino em narrativas autônomas. Do conjunto, emerge uma unidade que faz sentido no universo labiríntico pensado por Suassuna.

Se, ao final deste pequeno levantamento, desejássemos apontar um caminho para um audiovisual de base armorial, não resta dúvida de que seriam esses dois trabalhos – O auto da Compadecida e A Pedra do Reino – os marcos de uma possível tradução para imagens em movimento daquilo que Ariano Suassuna por 40 anos vem afirmando como linguagem nacional, a partir da fusão entre o barroco ibérico e o romanceiro popular. Mas, para integrar seu ideário numa linguagem contemporânea, teria de abrir mão dos preceitos que reafirma e incorporar ao armorial a mistura de popular e erudito com elementos da cultura pós-massiva, transitando entre o artesanal e a tecnologia. Algo que talvez os seus herdeiros tenham a coragem de empreender. 

ALEXANDRE FIGUEIRÔA, jornalista, professor e doutor em Cinema pela universidade Paris III.

Leia também:
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Música: Ritmos de um rico simbolismo instrumental
Artes cênicas: Um modo brasileiro de representar
Dança: Movimentos corporais a partir dos brincantes
Visuais: Um território entre o delineado e o indefinido

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