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Mirante

E se Chico fosse um guri da favela?

TEXTO Débora Nascimento

15 de Abril de 2018

Um dos mais interessantes programas de entrevistas disponíveis hoje não está na TV aberta, e sim na Netflix. Trata-se de O próximo convidado dispensa apresentação – o título é baseado na frase que David Letterman costumava dizer no Late Show para chamar seus entrevistados ao palco. Após dois anos longe das câmeras, o ícone da TV norte-americana sai de sua aposentadoria para comandar um programa mensal na plataforma de streaming. O primeiro foi disponibilizado em janeiro e teve como entrevistado o ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama.

Entrecortando a entrevista principal, realizada, a cada episódio, em um auditório diferente, o programa exibe uma outra, gravada num ambiente externo. Nesse episódio de estreia, Letterman conversou com o congressista John Lewis, tendo como cenário a ponte Edmund Pettus, em Selma (Alabama), onde o político foi um dos ativistas nos históricos protestos de 1965, que exigiam direitos civis para os negros norte-americanos. Dentre as lembranças daquele período, Lewis afirmou que, sem aquelas manifestações de 7 e 21 de março (a primeira foi duramente reprimida pela polícia), não haveria Obama na presidência.

Nos dois episódios seguintes, o apresentador conversou, respectivamente, com o ator George Clooney e com a autora e ativista Malala Yousafzai, vencedora do Nobel da Paz em 2014. Em todos esses programas vem se destacando, além da vida pessoal, o tom político e social dos temas – algo que costuma escapar das tradicionais entrevistas de celebridades na TV. Clooney falou sobre o trabalho de sua esposa, Amal Clooney, advogada libanesa especializada em Direitos Humanos, e lembrou de quando participou ativamente de protestos contra a crise humanitária no Sudão. Por conta disso, ele e seu pai, o jornalista Nick Clooney, foram, inclusive, detidos pela polícia depois de invadirem a embaixada do país africano em Washington DC, em 2012.

Letterman entrevistou os pais de Clooney, Nina Bruce e Nick, que deram abrigo ao universitário Hazim Avdal, refugiado yazidi (povo do norte do Iraque, vítima de genocídio do Estado Islâmico), tratado como um membro da família. E Malala, hoje estudante da Universidade de Oxford, falou da importância da educação para o desenvolvimento de qualquer sociedade. Quando tinha apenas 15 anos, em 2012, a paquistanesa foi atingida por um tiro no rosto, disparado por um membro do Talibã como forma de retaliação porque ela estava batalhando pela educação de mulheres no seu país.

O programa do mês de abril é com Jay-Z, também conhecido como o marido de Beyoncé. Letterman levantou dois temas delicados, a homossexualidade da mãe do rapper, Gloria Carter, revelada em Smile, faixa do aclamado álbum 4:44 na qual ela faz uma participação, e a traição dele, escancarada por Beyoncé em Lemonade (2016). O rapper contou que fizeram terapia para poder salvar o casamento.

Embora essa entrevista tenha repercutido na imprensa norte-americana por conta desses assuntos, um ponto crucial merecia maior destaque, pois extrapola o campo pessoal: as drogas. Jay-Z conta que seu pai havia abandonado a família – atitude, segundo o rapper, muito comum na periferia negra dos Estados Unidos. Pobre, Gloria cuidava sozinha dos quatro filhos – fase de sua vida que o artista registrou no videoclipe de Anything (2000), cujo refrão ele diz que faria qualquer coisa por sua adorada mãe (“I’d risk everything / Oh, i'd risk everything / Yes i'd do anything, anything / Anything for you”).

Quando Jay-Z, então conhecido pelo nome de batismo Shawn Corey Carter, era apenas um adolescente nos anos 1980, começou a se envolver com drogas. Não era apenas um usuário e nem um figurão do tráfico, mas um “avião”, aquele que vendia, fazia o corpo a corpo, o trabalho sujo, um desses personagens pequenos na engrenagem do tráfico que geralmente acabam ou mortos ou presos. Semanalmente, contribuía com 2 mil dólares para as despesas de casa. 

Por sorte, Jay-Z já possuía uma inclinação musical, porque Gloria costumava ouvir muita música em casa: Michael Jackson, Stevie Wonder... Na escola, uma professora, em especial, despertou no garoto a paixão pelas palavras e pela poesia. Ele, então, passou a fazer rap.

Um belo dia, em 1988, o seu mentor, o rapper Jaz-O, o convidou para ir a Londres participar de uma gravação. Ficaram dois meses por lá. Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, a polícia prendia 30 traficantes no Brooklyn. Dentre eles, um vizinho com quem Jay-Z circulava diariamente. “Ele pegou 11 anos de cadeia. Eu poderia ter sido preso também”, disse. “Possivelmente hoje você não estaria sentado aqui”, observou Letterman. O artista concordou com a cabeça.

O vislumbre da possibilidade de Jay-Z, hoje um dos mais aclamados e bem-sucedidos rappers, perder todo um futuro glorioso pela frente, nos mostra o quanto é vulnerável a vida de milhares de jovens pobres ao redor do mundo, principalmente em países que ainda não resolveram a desigualdade racial, como os Estados Unidos e o Brasil.

É lastimável que um número incontável de rapazes se envolva com o tráfico de drogas pela mais pura falta de alternativa ou perspectiva de uma opção melhor, e encontrem no comércio das drogas uma forma de sobrevivência e até de convivência nas suas comunidades. É lamentável que continuem a ser encarcerados (em sua maioria, por não poderem pagar fiança e um bom advogado) e fiquem marcados para o resto de suas vidas por uma experiência, que, muitas vezes, tem a ver com a imaturidade e rebeldia comuns à idade. “A marginalidade sempre atrai o adolescente”, avaliou Chico Buarque numa entrevista na década de 1990, 30 anos depois de ter sido preso, aos 17 anos, pelo furto de um carro.

Ao contrário de Jay-Z, Chico foi flagrado. Não traficava drogas. Nessa época, o tráfico ainda não tinha virado um modo de vida no Brasil. “Não existia a droga. Ninguém fumava maconha, ninguém cheirava cocaína. Mas a onda no meu tempo era essa, roubar carro”, recordou o compositor, afirmando que o filme Juventude transviada (1955) era uma referência. O rapaz e sua turma gostavam de furtar veículos só por diversão. Faziam passeios e depois abandonavam o automóvel nas proximidades do furto. Mas uma noite, no dia 29 de dezembro de 1961, foi detido junto ao amigo Olivier Jolles, então com 16 anos.

No trajeto até a delegacia, os garotos levaram, como disse o cantor, "porradas" dos policiais. Mas foram liberados no final da madrugada. Como punição, não puderam mais sair à noite, perdendo diversas festas. Por conta dessa “clausura” em casa, Chico aprendeu a tocar violão. Assim como aconteceu com Jay-Z, mais uma vez a música mudava a trajetória de alguém. Chico, o “larápio rastaquera”, lembrou a experiência na composição A foto da capa, do disco Paratodos (1993), e o rapper em diversas letras, como Hard knock life (1998).

Mas o que teria acontecido se, em vez de filho de Sérgio Buarque de Holanda, Chico fosse o 'guri' de moradores negros de algum bairro pobre? A polícia entenderia seu ato apenas como delinquência juvenil? Alguém duvida que a música poderia salvar mais vidas da criminalidade? E quantos talentos estão sendo desperdiçados neste exato momento em alguma prisão?

Na entrevista de Otto, que é capa da edição deste mês da Continente, o cantor e compositor conta que, após sair da Mundo Livre S/A, passou um tempo morando numa favela. “Tinha um vereador na favela e o irmão do vereador, delegado. Ele pegava as dolinha dos meninos. Pegava os meninos, levava pra delegacia. Aí o vereador ia na casa dos meninos, dizia: 'Olha, eu vou soltar ele, segunda-feira eu trago aqui'. Quando esse menino chegava todo apanhado, o vereador ganhava os votos. O irmão prendia, o vereador soltava. Eu ganhei no Viva a nota um Voyage. Um dia, me chamaram pra ser 'piloto', 'piloto de assalto'. E perguntaram: 'Quer ser piloto?'. Eu disse 'Não'. 'Vai, Otto. Vinte por cento de um assalto.' Daqui a pouco, chegou um 'piloto' louco, e eu pensei, 'Meu Deus, está na hora de sair daqui'”. Segundo Otto, vários de seus amigos morreram por conta do tráfico de drogas. O compositor tinha o objetivo de voltar à música. E, inspirado nessa experiência, fez o aclamado álbum Samba pra burro, que se tornou um marco na sua carreira em 1998.

Jay-Z, que, em suas letras, faz denúncias sobre pobreza, injustiças, racismo, também vem produzindo documentários que escancaram o preconceito racial na Justiça norte-americana, como o ainda inédito Rest in Power: The Trayvon Martin Story (2018), sobre o rapaz de 17 anos que foi perseguido e assassinado covardemente (como é a práxis) por um vigilante na Flórida, e a surpreendente série documental TIME: The Kalief Browder Story (2017).

Disponível na Netflix, a série aborda, em seis capítulos, a trajetória de Kalief Browder, um dos seis filhos de uma mãe solteira do Bronx, um garoto de 16 anos, que, preso por três anos sem nenhum julgamento, passou por experiências terríveis, como surras de detentos e carcereiros, fome, semanas sem tomar banho, isolamento de 800 dias numa solitária insalubre.

Mesmo após ser libertado (por falta de provas e testemunhas), ganhar o interesse de celebridades, como Jay-Z e Rosie O'Donnell, e da mídia por conta da reportagem publicada na New Yorker, a temporada na penitenciária afetou a sua mente de tal forma, que ele não conseguiu superar os traumas. Com apenas 21 anos, cometeu suicídio por enforcamento, um tipo de morte, inclusive, simbólica, pois está presente na história dos afro-americanos.

O filme expõe a falência do sistema capitalista, da política, da polícia e do judiciário norte-americanos, principalmente no que se refere aos efeitos dramáticos na vida da população mais pobre, lembrando e muito o que ocorre no Brasil, com a diferença de que as condições das penitenciárias brasileiras são ainda piores e não temos a maioridade penal de 16 anos – a pauta voltará ao Congresso Nacional neste ano. De eleições.

A resistência de Kalief Browder em não ser mais um acusado negro a se dobrar perante uma engrenagem judicial racista, elitista, corrupta, omissa, negligente, inoperante e cruel é admirável. Acusado de roubo de uma mochila num processo em que não havia uma prova e nem uma testemunha sequer, negou-se a fazer um acordo judicial no qual teria que se dizer culpado. Com isso, sairia rapidamente da prisão, mas perderia os direitos civis tão batalhados por ativistas como o supracitado John Lewis e que custaram a vida de Martin Luther King, que esteve na segunda manifestação na ponte de Selma.

Por conta de sua determinação e de seu enfrentamento, Kalief pagou um preço muito alto. Mas, ao menos, sua história se tornou conhecida e expôs as entranhas do país. A pressão popular após o trágico fim do brilhante rapaz, então universitário, levou Obama a proibir o recurso da solitária para menores de 18 anos e diversos estados começaram a rever a maioridade penal de 16 anos. O martírio de Kalief no cárcere, durante sua busca por justiça e ética, o tornou um autêntico mártir, e é um indicativo de que, embora a travessia da ponte em 1965 tenha possibilitado, em 2008, um Obama na presidência, ainda há muito chão pela frente para a conquista da igualdade racial.

TIME: The Kalief Browder Story é um dos grandes documentários contemporâneos sobre a questão racial hoje, como os concorrentes ao Oscar do ano passado, A 13a Emenda, Eu não sou seu negro e OJ Made in America. É uma aula de Direito. Ou de como deveria ser a Justiça. E pode servir, também, como um aprendizado para o Brasil corrigir os seus erros históricos.

Ao final da entrevista de Letterman com Obama, na estreia do programa, o apresentador fez um elogio: “Você é o primeiro presidente dos Estados Unidos que eu verdadeiramente respeito”. Esse elogio guarda uma verdade inescapável. Para aquele país ter o seu primeiro presidente negro precisou que o candidato fosse: inteligente, experiente, perspicaz, competente, simpático, eloquente, bem-humorado, bom marido, bom pai, bom filho, bom político, carismático, bonito, elegante, gentil. Para um desqualificado como Donald Trump vencer a eleição, bastou ser apenas branco. E rico.

 

 

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