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Entrevista

"Talvez a gente tenha dormido sobre as armas"

Aos 20 anos de lançamento do disco 'Samba pra burro', o cantor e compositor Otto fala sobre essas duas décadas de carreira solo e o enfrentamento de questões urgentes do país

TEXTO DÉBORA NASCIMENTO
FOTOS MARCELOS SOARES

02 de Abril de 2018

Ensaio de Otto em tarde de entrevista à Continente em Olinda

Ensaio de Otto em tarde de entrevista à Continente em Olinda

Foto Marcelo Soares

Quando Chico Science, o ponta de lança do Manguebeat, faleceu precocemente em 1997, pairou na cidade a sensação de fim da linha, o receio de que toda a movimentação artística fosse desfazer-se após sua morte. Um ano depois, a história era retomada. A Mundo Livre S/A lançou o fantástico Carnaval na obra. E quando todos achavam que esse seria o grande álbum de 1998, o ex-percussionista da banda, o galego alucinado que vivia sacolejando o corpo com um pandeiro na mão, reapareceu e munido de um disco solo. Com os longos cachos loiros cortados, uma camisa de gola rolê verde-água e um olhar desafiador, sua transformação não estava somente no visual estampado na capa, mas fincada naquelas 13 faixas.

Aliando a tradição à eletrônica, Samba pra burro estabelecia um novo capítulo na música pernambucana e um marco para a sonoridade contemporânea brasileira. Com o seu desprendimento, Otto levou a música pernambucana às pistas de dança, ao repertório de DJs, era ouvido em todas as festas e eventos alternativos do país. Versos de seu disco circulavam como memes sonoros, “Ela é do tempo do Bob, lá do Pina de Copacabana”, “Acabo de comprar uma TV a cabo/ Acabo de entrar na solidão a cabo”, “O celular de Naná é a lua/A lua é o celular de Naná”.

Vinte anos depois do lançamento de Samba pra burro, a TV a cabo sucumbe à Netflix, o celular agora é um computador de bolso, Naná está no céu perto da lua, o Pina de Copacabana deu lugar a outro bar, mas Otto segue com seu olhar desafiador e ousado. Ao som do tema do filme Rocky, o lutador, adentrou o palco do festival Rec Beat na terça-feira do Carnaval deste ano. Vestido como um pugilista, parecia entrar na brincadeira de se fantasiar. No entanto, o figurino representava a luta contra as intempéries dessas duas décadas.

Naquele mesmo dia, poucas horas antes do show, havia voltado do enterro de seu pai. A plateia de 20 mil pessoas soube disso apenas perto do final da apresentação, antes dele cantar Naquela mesa, composição de Sérgio Bittencourt para o seu pai, Jacob do Bandolim. A regravação do samba está em Certa manhã acordei de sonhos intranquilos, belíssimo álbum que nasceu da fase mais sombria da vida de Otto, época em que perdeu a mãe, a esposa, a casa e a gravadora, a hoje extinta Trama, da qual ele é o artista que verdadeiramente vingou. Uma prova é a plateia acompanhar cada estrofe de músicas de álbuns seus, inclusive o mais recente, Ottomatopeia.

Nesta entrevista, o cantor e compositor fala sobre como vem lutando para sobreviver no mercado da música. O verbo lutar aparece em diversos momentos e refere-se a várias questões, vida, trabalho, cidade, país, política, povo… Tudo sob a perspectiva de um artista que está prestes a fazer 50 anos, que cresceu nessas últimas décadas, mas continua com o espírito alegre, curioso e inofensivo de menino. Como o palíndromo do seu nome: do começo ao fim, do fim ao começo, Otto permanece o mesmo.



CONTINENTE No show do Rec-Beat, você entrou no palco vestido de pugilista, com o tema de Rocky, o lutador, numa entrada fenomenal, todo mundo adorou. Essa roupa, esse figurino, significa alguma coisa, tem alguma mensagem?
OTTO Pitty falava “Você parece um pugilista: apanha, apanha, daqui a pouco, vai lá e derruba”. É uma síntese do meu trabalho, da forma como eu venho me colocando na música brasileira. Sou um guerreiro, um lutador desses. Pra conseguir tudo isso que eu consegui, saindo de Pernambuco, mil porradas já levei. Foi uma analogia um pouco comigo e outra com esse período agora, com essa era Temer, esses tempos de perder a democracia, esse golpe todo. Tinha esse enfoque de bater no vampiro de todo jeito. Tanto que a Tuiuti também. Foi uma forma de dizer “A gente está no Carnaval, a gente está brincando, mas a gente vai para o combate. Vai lutar, vai trazer o destino de volta pra gente, pro povo, pras eleições diretas”. Então, foi o misto de duas coisas, uma, minha vida, minha carreira. É difícil ser independente neste país. Mas eu sou um cara que tem um público em todos os lugares. Isso à base de muita luta, de vivência.

CONTINENTE Você está recebendo respostas negativas com relação ao seu posicionamento político?
OTTO Já teve mais, na época mais conturbada, na hora de tirar Dilma. Mas perderam o fôlego. Estão vendo o estrago que se fez. Se fosse o contrário, se Aécio tivesse ganhado, eu respeitaria o voto. Democracia é isso. Já do outro lado, não. Fui bem-agredido, de uma forma bem baixa, chula.

CONTINENTE Durante o período áureo do governo do PT, as coisas estavam caminhando, Gilberto Gil era o ministro… Então, parece que houve um certo relaxamento dos artistas não se posicionarem politicamente. Você concorda que isso aconteceu?
OTTO Os que se posicionam hoje são os mais independentes, os mais históricos e essa galera nova, na qual eu me coloco. Quando o povo é mais atacado, o artista surge nessa hora, porque ele é o povo. E tem o dever de estar sempre avant-garde, observando o futuro. Na realidade, o papel do artista é esse.

CONTINENTE Charles Gavin deu uma entrevista à Continente na qual disse que essa eração de agora não critica as coisas que estão acontecendo, observou que a geração dele, a dos anos 1980, se posicionava mais. Era uma geração que estava saindo da ditadura…
OTTO Mas essa geração dos anos 1980 hoje fala pouco. E se for pegar por Roger ou Lobão, esses anos não estão muito bem-representados (risos). Acho que o artista vai aonde tem as injustiças. Mas os mais abastados se calam totalmente.

CONTINENTE
Essa geração da qual você veio, de Chico Science e Fred Zero Quatro, se posicionava bastante.
OTTO O Manguebeat foi bem assim. Fred era um mestre nisso, a Mundo Livre S/A era mestra nisso aí. Mas tinha a ver com aquela época, a gente precisava ocupar um lugar. O lugar que a gente quis foi falar do mangue, das dores do Recife, reclamar, pedir por mais justiça. Pior é o artista que só junta milhões. É como jogador de futebol: depois de Sócrates, você não vê mais nenhum.

CONTINENTE Casagrande…
OTTO Aquela democracia corinthiana. Eu acho o mais lamentável é a gente ter tantos artistas populares que ficam calados. Sou daqui, sou de CDU, sou do interior do estado, sou belo-jardinense, convivi com seca, pobreza, acho que, depois de Lula, deu um alento muito grande, principalmente para o nordestino. E, de repente, foi tirado tudo isso, os programas sociais. Mas o Manguebeat é isso. Foi popular de esquerda. Nós estamos ainda fazendo nosso papel social. É muito difícil você viver num país que tem tanta desigualdade. A gente teve um exemplo tão bom de país, há tão pouco tempo.

CONTINENTE Essa sua geração Manguebeat, quando surgiu, tinha uma crítica muito forte à situação da cidade. E hoje, como você enxerga o Recife?
OTTO Estou aqui desde o Carnaval. Primeiro, o Estelita. Não tenho nada contra qualquer imobiliária dessa. Agora, quando você vê a situação do trânsito dessa cidade, pensa que tem alguma coisa errada.

CONTINENTE Mas você participou do Ocupe Estelita.
OTTO Participei muito. Passei ontem no centro do Recife. Colocaram todo mundo que consome em shopping. E o resto foi abandonado. Estão lutando pelos prédios, em vez de lutar pelo mais essencial. Temos um problema gravíssimo de trânsito, lugares lindos do centro da cidade estão abandonados. A gente colocou a classe média dentro de um shopping e esqueceu do resto. Um shopping não dá o mesmo prazer de se andar na cidade. Não é possível que as pessoas achem que um shopping gigante vale mais do que uma rua, do que a sua cidade, do que suas origens, sua arquitetura. A gente está abandonando o centro, que poderia estar revitalizado.

CONTINENTE De certa forma, voltamospara os anos 1990, estamos, por exemplo, com poucas casas de shows…
OTTO Sim. A própria Olinda. O carnaval de rua. Eu vejo cinco casas de shows no Carnaval cobrando um puta de um ingresso pra tocar os mesmos shows que eles fazem pra galera classe média. O bom está na rua, mas a rua está abandonada. Aí tem violência. Tem uma rua no centro que é só venda de anel de formatura e farmácia. Eu nunca vi isso. Como é que pode?

CONTINENTE A gente está com uma explosão de farmácias no Recife.
OTTO Tem alguma coisa aí que não está pegando bem. Acho o Brasil uma puta de uma lavagem de dinheiro. Não é nem corrupção mais. É aquele rico que sabe que fazendo aquilo vai foder muita gente, mas ele vai continuar ganhando. O mundo está desumano pra caramba. E a gente está pagando um preço muito sério por isso. E essa perseguição a Lula é muito mais contra o povo. Quem tem voto ainda é ele.

CONTINENTE Agora estamos com a ameaça Bolsonaro.
OTTO Bolsonaro é fruto dessa desinformação toda, de todas as empresas de comunicação, todos os grandes jornais e TVs. Eles conseguiram dar um nó na cabeça das pessoas. Nesse meu disco, eu tenho até imagens de tortura. O Brasil está vivendo uma tortura que não está fraca, não. São quatro anos de desinformação. Muitas fake news. Só falam que há corrupção em cima de corrupção. É um grande castelo de Kafka, que parece que não vai ter fim. E Bolsonaro vem nesse cara desinformado, que não teve como se informar. Não é possível que dentro de uma democracia alguém ainda queira militar no poder. E Temer já botou. A gente está voltando a um período muito perigoso da história. Eles deram um golpe mesmo. É muito difícil tirar um presidente do poder. Por isso, quem entrou vai lutar de todas as formas para permanecer lá. A gente está perdendo muito. E a gente tem que ser muito rápido, tem que lutar muito. Por isso que eu estou combatendo o tempo todo, por isso coloquei a roupa de boxer.

CONTINENTE Você acha que a falta de conscientização de uma parcela grande da população tem a ver também com a própria formação cultural e musical do povo brasileiro ao longo das últimas décadas?
OTTO Isso reflete muito na nossa música, na nossa cultura. Eu estava ouvindo bossa nova vindo para cá e pensei: “Isso não combina com o Brasil mesmo. O que combina é ‘desce a bunda, mexe a bunda’”. Quanto menos se falar em alguma informação, melhor para esse tempo. O resultado é esse. Se você colocar uma bossa nova, você diz: “Porra, não é o mesmo país!”. Você vê tanta coisa boa ali, Tom Jobim. A poesia desapareceu. Acho que é o reflexo de tudo.

CONTINENTE Você acha que a juventude está sem opção, como tinha, por exemplo, nos anos 1980, quando você ligava o rádio e, de canto a canto, estava tocando todo tipo de música?
OTTO Eu vi a relação das melhores músicas de 30 anos atrás. Tinha Chico Buarque, Caetano, Gilberto Gil, hoje isso se perdeu. Com todo respeito ao que o povo quer, mas perdemos a poesia, a informação. No entanto, isso vai de frente a toda mudança do mundo mesmo, à tecnologia, à discussão do trans, as coisas mudaram muito e vão mudar ainda mais. A minha geração mesmo, de 40, 50 anos, a maioria virou burguês. Fui uma vez lá em Belém, porque eu sou do MHuD, Movimento Humanos Direitos, que tem Marcos Winter, Letícia Sabatella… E eu fui lá no Pará, e era pra cobrir o julgamento da morte do líder camponês Dezinho. Quando a viúva Dona Joelma foi dar o depoimento, o juiz disse: “Pelas vestes, se conhece quem é esse cara daí”, e eu corri, disse, “Desculpe, vim aqui para ajudar”. Saí envergonhado. Sentei no banco, baixei a cabeça. Quando ela acabou, em vez de ir para o lugar dela, veio até a mim e disse: “Muito obrigada por você ter vindo”. Eu pensei: “Meu Deus, que atitude grande desse povo que está aí levando bala, sendo morto. Os grileiros matando”. Quando cheguei no assentamento, era uma praça cheia de menino, eu não vi um chorar. Começaram a servir a comida, a gente foi comendo em pratinho de plástico. Quando acabou, não tinha um lixo sequer, fazem isso pra não se ter uma mácula contra eles. Esses movimentos são necessários, podem mudar nossa civilização. A minha esperança é essa, que a gente se una, lute, saiba lutar, tenha coerência, a paciência que esses sem-terra têm, que o pobre tem. A gente veio disso daí, eu vim do interior deste estado. Por isso que eu luto por essa gente, por esse país, por esse estado.

CONTINENTE Como o contato com Chico Science e Fred Zero Quatro influenciou o seu trabalho?
OTTO Eu já era amostrado, queria ser músico, já tinha vindo de Paris. Fred é um sujeito superinteligente, combativo, um cara lá de Candeias, punk. Mabuse, Renato L. eram punks intelectuais. Pra mim, ficar na Mundo Livre foi maravilhoso, mas Chico era do meu estilo, um maloqueiro. Era muito inteligente, muito genial. Não tem aquela coisa das quatro raças de Pernambuco? Chico era mais amulatado, Fred meio loiro. Eles compõem bem o que somos, o que é nossa história.

CONTINENTE Você vem da Invasão Holandesa.
OTTO Sim. Aí encontro Fred ali. Eles são grandes líderes de carisma e de música. Pra mim, são mestres. Fred está vivo, Chico a gente perdeu, infelizmente, mas a vida é essa. Mudou a história do Recife. Isso sem patrocínio. Se for falar da Bahia, é uma política só. Aqui, era a gente por a gente, conquistando passo a passo. A música pernambucana foi salva. Teve toda essa galera, Siba, Cannibal, não era só Manguebeat, é todo mundo junto ali, a turma de Olinda. Eu me lembro da dificuldade que a gente tinha. Eu acompanhei como cresceu a estima desse povo, dessa juventude, como as artes plásticas ganharam, como o cinema ganhou. Hoje, um adolescente daqui de Pernambuco vive diferentemente da gente, que ouvia: “Vai dar merda. Não vai estudar, não vai pedir um emprego? Vai ser músico mesmo?”. O pernambucano pode fazer arte, ele tem uma estrutura que foi fomentada com essa geração nossa. A gente foi lá pro Bairro do Recife e só tinha as festas no (Bar do) Grego. Aí revitalizaram. Mas, pô, agora fizeram um estacionamento? Pra tocar música baiana? Nada contra, mas a gente estragou um porto pra neguinho fazer um estacionamento pra virar show pra ganhar dinheiro uma vez no Carnaval. Como é que se faz isso? São coisas que não podiam ter acontecido e não podem acontecer numa cidade da idade do Recife, da nossa tradição. Como é que pega o Parque do Memorial Arcoverde e, no dia de Carnaval, bota três casas de show ali, pisando no mangue? A área comum do povo está desaparecendo.

CONTINENTE Aqui não dá pra viver de música ainda, não é?
OTTO Cara, aqui dá pra você começar, aqui tem a inspiração. A cultura aqui é muito rica. Não dá para um menino que nunca morou aqui ter a musicalidade que a gente tem. Mas eu acho que ainda não é um lugar pra viver de música. Não é pra viver de quase nada. O Brasil também está difícil. Até São Paulo está difícil pra qualquer um. Estou conseguindo viver. Não ganho nada, mas continuo independente. A propósito, como é que Olinda não tem uma escola de frevo e de jazz o ano todo? O mais difícil é mão de obra, são os músicos, e aqui tem um milhão, muita gente talentosa. Por que o RioMar não fez uma escola pra criança? Só aterraram o mangue. Por que a Moura Dubeux não diz “Vou revitalizar isso aqui”? Por que eles não veem isso? Não sei se chega a ser só burrice, mas a falta de visão de futuro deles é que é o pior. Estão abandonando tudo, as agremiações…

CONTINENTE Como é que você avalia o Carnaval deste ano? Muita gente criticou as festas privadas, a infraestrutura, esse foco nos shows de palco.
OTTO Eu sou bem-acolhido nos lugares onde eu toco no Carnaval. Nesse motor do carnaval pernambucano, faço parte da engrenagem. Mas sinto que, de uns 10 anos pra cá, a gente virou um festival de rock. No Marco Zero, eu toquei lá alguns anos, ele se diluiu, é violento, tem muita briga. Não estão visando o Carnaval, tocar de dia, sabe? Vamos fazer um Carnaval mais ecológico! O Recife poderia ter o Carnaval mais limpo do mundo se botasse os garis espalhados. E essa falta da valorização da terra, a gente poderia ter Nação, Siba, grandes palcos, grandes shows com gente que é até mais respeitada pela população do que qualquer outra banda. Isso a gente tem aqui, tem Alceu, Lenine, Antônio Carlos Nóbrega. Tem o Rec Beat, que chama pessoas começando, mas o grande palco está entregue para os outros. O músico de frevo aqui, coitado. Ele vai tocar, mas ele é malpago. Eu faria um carnaval muito mais local como o baiano faz. É difícil entrar ali dentro da Bahia. Quem manda lá são eles.

CONTINENTE Em cada disco, você sempre faz um cover, não é?
OTTO Sempre. Agora foi Meu dengo, de Roberta Miranda, que eu adoro, que virou minha amiga, que é maravilhosa. Já botei Roberto (Carlos), Odair e vai indo. Daqui a pouco vai ser (MC) Loma, que eu adorei! (risos) Essa menina estourou nesse carnaval e me deu uma lavada de alma, porque quando já vem Anitta, Pabllo Vittar com uma produção, essa menina fez sozinha, mandou ver e foi a mais pedida. Eu respeito, sabe? Eu não sei o que vai ser da vida dela, tomara que ela ganhe muito dinheiro agora, porque essas coisas aí vão trocando, mas é muito bom que Pernambuco coloque o breguinha dele, essa cultura do tecladinho, do barzinho da Cochinchina ali de Maranguape.

CONTINENTE Essa geração está mais diversificada. Antes ficava muito entre os homens, os compositores, os músicos, os cantores.}
OTTO Agora eu acho que mudou tudo.

CONTINENTE Você pode até não concordar, mas acho você um hitmaker. Cada disco seu, na primeira audição, a gente percebe o potencial de hit de algumas músicas. Do disco novo, você escuta Bala e já gosta da música.
OTTO Primeiro, eu tinha Pupillo do meu lado. Eu tento fazer todos os discos com o mesmo produtor. A gente teve os erros do primeiro, os do segundo, mas teve os acertos do primeiro, do segundo...

CONTINENTE Onde estão esses erros?
OTTO Os erros são: cantar melhor. Isso teve todo um tempo. Ninguém nasce sabendo. Meus discos estão sempre subindo. Na minha idade, agora, acho que aprendi muita coisa. Já passei por toda a euforia, por todo um processo de música, de droga, que muita gente na música passa. E agora estou mais maduro, já estou sabendo o que quero, eu conceituo os meus discos, conto uma história. Meu disco nunca vai ter “a” por “a”. Você sempre vai ter alguma coisa de conceito, de inspiração. Eu aprendi a formular isso, Pupillo junto comigo. Pupillo é hoje um dos maiores produtores do Brasil e a gente começou junto ali. Ele é genial. Eu vou aprendendo a cantar, a fazer a minha alquimia, os meus discos. Passei cinco anos sem disco, correndo o Brasil.

CONTINENTE Por que esse período?
OTTO Quando começou esse negócio de Dilma, pensei: “Não acredito que a gente vai passar por isso”. Não acredito que vão tirar uma mulher honesta. Pedalada é assunto para boi dormir. Quando Temer entrou, eu disse: “Agora é minha hora!”. Esse disco é também um grito preso. Foi criado tematicamente nessa época, pra essa época, contemporâneo. Você falou de Bala, “Bala, que dispara contra o tempo, volta”. Isso vai voltar uma hora. A bala está voltando. Vai ser difícil pra nós, mas vai ser difícil também pra eles. Eles estão menosprezando a capacidade democrática do Brasil. Por isso estão com tanto medo de pesquisa, de eleição. Eu não sei até onde eles vão se esconder, se proteger. Sabe o meu maior orgulho? É quando venho cantar aqui (emocionado) e as pessoas daqui dizem “Eu sou de CDU, já vi ele num ônibus”. Tenho o maior orgulho de ter essa malandragem pernambucana, de ver Fred, Siba, a gente sempre metendo disco bom, e vencendo num país deste, vindo do Nordeste. Não era fácil. Não gosto nem de falar de preconceito. Eu tenho cabeça levantada, erguida. Sou da terra de João Cabral, de Gonzaga (emocionado). Nunca me rebaixei pra nenhum. Pode ter igual à gente, mas melhor ainda não vi. Moro em São Paulo. É aquela coisa dos sem-terra, sabe? Faço tudo certinho pra que não tenha um carinha desses que venha falar. Quando eu casei com a Alessandra (Negrini), eles não acreditavam que tinha um pernambucano que vai e pega uma global conhecidíssima e casa. Eles tentaram me derrubar. Levei muita lapada, quase era “o marido da atriz”. Todas as críticas eram ferrenhas comigo. Quando me separei, eles até maneiraram. Mas aí eu vim com um disco e saí no New York Times.

CONTINENTE Você foi muito perseguido por paparazzi.
OTTO Paparazzi ainda não é o pior. O pior é a crítica que não quer que o pernambucano tenha inteligência. O nordestino não pode ter tanto assim, não. A gente não pode ser tão ousado. Eu sou ousado. Tem um bando de gente ousada nessa terra. É o lugar ideal para se combater o mundo hoje.

CONTINENTE Voltando à questão da composição, como é o teu processo de compor?
OTTO Preciso ver a situação, passar por alguma coisa, são memórias, as coisas que escrevo são as coisas que vejo. Eu poderia ser muito mais amargo, mas não sou, sou romântico. Dentro do romantismo que eu emplaco, tem muita dor, tem muita coisa social. Com amor, a gente toca onde é necessário tocar nas almas das pessoas. Então, as coisas que eu vejo acontecer, ou lendo um jornal, saio juntando. Mas primeiro preciso enxergar e depois controlar para que saia. Esse disco é altamente político, mas não é panfletário.

CONTINENTE Mas você compõe no violão? No pandeiro? Como é que você faz?OTTO Eu sempre preciso de uma batida, mas a música já entra aqui, ó, eu já chego cantando. Eu chego, “Pupillo, olha” e começo a cantar. Ele já me entende… Eu acredito muito na minha criação. Falo sempre que é uma fonte d’água que vai sair toda hora! E a única coisa que eu tenho que fazer é cuidar dessa fonte para que jorre sempre água. Eu perco várias músicas, esqueço. Se eu tivesse estúdio, eu acho que faria um disco por dia, mas não dá! Já tive minhas inseguranças, mas agora eu tô muito, sabe… Eu tenho um público no Brasil todo, que gosta e entende minha música. Outra coisa, sou amigo de Caetano, de Alceu, a gente pega os ídolos ainda e conversa, sabe? Jorge Mautner encontro na rua. Eu tive essa sorte também de viver nesse país que os ídolos ainda são gente, ainda tão ali, Caetano, Chico.

CONTINENTE E essa perseguição ideológica a Chico Buarque? O que você acha disso?
OTTO Tem a ver com tudo que remete às lutas sociais. Esse poeta lutou, foi importante. Mas ele já rebateu essas críticas. Há quanto tempo Chico não lançava um disco, ele já está rebatendo. É a mesma coisa de Lula, representa uma mudança. Chico representa uma mudança política enorme. Brincou com os militares. Brincou com poesia inteligente e eles ficaram comendo poeira. Ele foi um dos maiores revolucionários. A música dele é revolucionária. Como a de Caetano, e foram em cima de Caetano e de todos esses caras que representaram uma abertura. A propósito, hoje eu tiro roupa no palco porque a galera que vem aí vem pesada! Você vê Johnny Hooker. Eu conhecia Johnny com Liz (Donovan) e Xaxá (Gil Vicente Xarxas), ele pequeno! Esse cara também é aberto, vai, tira a roupa, dança, vai pra cima. Dessa geração do Manguebeat aí, eu acho que eu era o mais aberto, mais gay assim… Num sentido de alegre…

CONTINENTE De liberto.
OTTO De liberto. Aí vem um menino que eu vi pequeno, “Otto, eu quero que você cante comigo”, e eu penso, “Meu Deus, eu toquei aí nesse coração! Eu faço parte desses meninos!” Então, Chico Buarque é fichinha para a geração que vem aí. Karina Buhr está botando pra lascar, sendo mulher pra caralho, mandando se foder, brigando, batendo cabeça, é uma guerreira da porra. Eu digo, porra, essa geração…

CONTINENTE Otto, você faz parte de uma geração que foi a última antes da pirataria, do download… Como é que enxerga esse mercado? Ele era melhor naquela época quando você lançou o Samba pra burro?
OTTO A gente entrou quando os estúdios, que eram caríssimos, ficaram baratos. Já estava vindo o digital… Eu acho que hoje é melhor porque a gente pode ter liberdade. Acho que tem que ter um poder de criação muito grande, mas as máquinas tão aí, celular tá aí. Eu sempre acho que a tecnologia vem pro bem. Por mais que a gente esteja patinando, essa nova geração, não. Minha filha já tem outra relação. Fico ali no WhatsApp, no Face, no Instagram… Ela já está editando, fazendo outras coisas. Acho que isso tudo vem pra libertar.

CONTINENTE Mas a divulgação do teu trabalho está melhor hoje do que em 1998?
OTTO O tête-à-tête é bem melhor do que o jornal. Eu já passei poucas e boas com críticas. Hoje, nem ligo mais pra críticas. Porque era uma coisa pessoal. Hoje, o meu tête-à-tête é no Instagram, no Facebook, é ali ó… Deu, escreveu alguma coisa, vou lá, mando um coração.

CONTINENTE E o YouTube?
OTTO YouTube até dá, mas o Instagram, hoje, eu acho que é uma força pra mim. Eu tenho cinco mil pessoas (89 mil seguidores), já acho isso demais, tem gente que tem um milhão. Agora, pra mim, os meus cinco mil, sete mil, 10 mil que eu alcanço, eu já tô correndo, fazendo meus shows. E vai ter gente no show. O contato que vem dali é o melhor. Eu digo: “Porra, eu tô demais aqui!”. Fico muito no Instagram. Virei cantor, era meu sonho de infância. Então, desde o Samba pra burro, se um bebão me chamar, “Otto, venha cá!”, eu ia lá. Era um por um. Hoje, eu continuo assim. Se eu posto alguma coisa, fico ali umas duas horas só para aquelas pessoas, escrevo de volta.

CONTINENTE E é você mesmo, não tem ninguém por trás? Geralmente há um assessor...
OTTO Sou eu. É, tem o empresário que fica, tem… Mas prefiro aqui comigo. Tudo, hoje, o clipe meu, eu faço, sou eu que faço. Tenho uma vida simples nesse sentido. E quero continuar simples, independente. Acho que o espírito do mundo é mais assim, as pessoas vêm do nada e acontecem. Eu já tenho uma abertura na MPB. Acredito que o segredo da minha vida é a humildade. Entro no meio do povo, vou pro carnaval de Olinda, tiro 700 fotos, mas tiro! “Pô, Otto, eu estou te atrapalhando?”. Eu digo: “Num está não, cara, é bom pra mim, obrigado! Venha pra cá, me dá um beijo”. Ainda encosto a cabeça. A minha luta é assim, é cirúrgica, acho que é isso que vai me fazer ficar mais forte ainda. Aí, quando eu chego no Rec Beat, tem 15, 20 mil pessoas. Vejo a dimensão da minha carreira, o valor que me dão. Isso é o mais importante. Eu tento ter um conforto e, olhe, eu estou tendo conforto. Não tenho nada ainda, não juntei nada, não tenho poupança nenhuma. Tenho algum dinheiro, mas… Meu pai era um promotor honesto, tinha a Brasília dele. Eu dizia: “Papai, essa Brasília, e aquele menino ali, com um Opalão…”. Ele dizia: “Meu filho, o dinheiro que eu ganho como funcionário público do estado é pra comida, casa pra vocês e uma escola boa. É isso que eu posso dar”. E pra mim, também, acho que vou continuar sempre assim. Estou aqui, ó, no Sete Colinas. Quer lugar melhor? É o maior orgulho ter isso, trazer minha filha aqui. Não sei nem viver como rico. Moro num apartamento, pago aluguel. Vim de Belo Jardim, do Agreste. Tive pai classe média, mãe professora. Não posso ir muito além disso daí. Tenho grandes amigos, me dou ao luxo de… Faz cinco anos que vou pra casa de Caetano e Paulinha. Pô, Caetano é uma estrela. Mas é uma casa de gente, sabe? Uma família maravilhosa, não tem ostentação. Caetano trata você igual. Não vejo ele pegar um helicóptero, querer... sabe? E olhe que ele trabalha pra caralho, com uma obra gigantesca e ele tem uma vida de conforto, mas, sabe? É um homem do povo, é uma pessoa muito sensível. Então, é esse o artista que eu vislumbro.

CONTINENTE Mas acho que você passa isso também, essa autenticidade, essa simplicidade, isso fica bem visível para o público.
OTTO Caetano vai lá com os cozinheiros, com a turma que trabalha lá, e são tudo… Parece que é tudo da família. É isso que a música dá, é isso que a arte dá. Quando você vê, “ah, o cara vende 1 bilhão”. Não, não é isso. É um mundo ilusório. Acho que vale muito mais pra mim a humildade e o intelecto, informar. A riqueza maior da minha vida está na alma, e é com ela que eu vou.

CONTINENTE Quando você lançou Certa manhã acordei de sonhos intranquilos (2009) foi um período muito conturbado em sua vida…
OTTO Gigante, gigantesco. Minha mãe morreu, acabou o meu casamento…

CONTINENTE Qual foi a força que você encontrou ali pra não sucumbir?
OTTO Cara, a força que eu encontrei ali… Uma pessoa que me ajudou muito, olha, eu estava tão sem grana, Alessandra disse: “Porra, você não vem pegar Betina?” Eu disse: “Eu não tenho… Eu não posso pagar… Nada, quase”. Aí Mart’nália, filha do meu maior ídolo, Martinho da Vila, chegou, fez: “Vá pra minha casa de Mauá!” Então eu fui pra Mauá, porque não tinha aluguel, não tinha nada. Eu fui lá, fiquei lá, levei minha filha… Passei uma temporada dura. Isso já vinha com a morte da minha mãe, fim do casamento com Alessandra, tudo, tudo aconteceu assim… Aí, de repente, eu fiz o Certa manhã acordei de sonhos intranquilos e fui página inteira do New York Times: Otto is brazillian, but with a different beat. Então, ressuscitei. Aqueles que dizem “Ah, perdeu a mulher!” tiveram que fazer a matéria da matéria. Aí eu disse: “Cara, num vou perder mais”. Ressuscitei. Eu apanhei, mas fui salvo pelo maior jornal do planeta.

CONTINENTE E foi um período em que você estava bebendo muito.
OTTO Muito! Aí, quanto mais pobre você fica, quanto mais necessitado, mais você vai se afundando. Então, foi um período terrível, mas eu fui forte, tive amigos e a sorte de ter esse talento que eu não sabia.

CONTINENTE E seu pai se foi há duas semanas…
OTTO E meu pai morreu… Foi agora, Marcos Axé (percussionista da banda) também. Mas eu estou forçando… Outra coisa, por isso a roupa de boxear, é muita lapada pra poucos dias. Os três. Minha mãe, enterrei ela e tinha um show no Crato. No mesmo dia. Parou o carro no cemitério lá de Belo Jardim, entrei, fui fazer show. Marcos Axé foi antes do Mimo. Fiz o show. E meu pai foi… Segunda de carnaval ele morreu, na terça eu enterrei, estava o carro lá, vim, cantei na terça no Recife. Talvez eles estejam me confirmando que tenho que ser forte. Que sou forte, que estou no caminho certo, que agrego. Tudo parecia que caía na minha cabeça. Se tivesse uma turma e eu estivesse nela, e aparecesse uma maconha: “Olha quem está fumando é o Otto”. E talvez eu nem estivesse. Vim lutando com tudo isso, sabe? Hoje, eu ganhei. Hoje, o povo não me deixa. Meu público não me deixa, ele cresce.

CONTINENTE Quando você lançou o Samba pra burro foi um ano após a morte de Chico Science. Essa morte de Chico Science parecia que fim da esperança. Aí veio o Samba pra burro e foi o marco disso que a gente está ouvindo agora.
OTTO Foi um divisor de águas, não existia música eletrônica na música brasileira. Toda banda brasileira antes do Samba pra burro não tinha DJ, eles colocaram o DJ depois. O primeiro ProTools do Brasil era de Antônio Pinto (filho de Ziraldo) e de Apollo 9. E meu disco foi gravado no ProTools. Hoje em dia, não vejo um disco tão eletrônico assim. Quando Chico morreu, a gente achava que tudo ia se acabar. A Nação Zumbi segurou a onda. A gente ganhou outras coisas. O meu primeiro show foi no Abril Pro Rock. E veio… Apollo 9 tocava com a Planet Hemp e trouxe o K-7. Aí tava B-Negão, Zé Gonzales, César Michiles, Pupillo, tinha uma galera em cima do palco. Isso norteou a minha vida. Aprendi que, na música, como em qualquer coisa, você não faz nada só. Eu sempre agrego, sempre estou aprendendo com os outros, muito mais do que ensinar. Talvez hoje eu até posso ser um parâmetro de uma coisa que se possa aprender. “Quero ser músico, vou ser músico, vou aprender.” Não tenho música, não toco, só toco percussão. Então, eu tive que aprender a fazer música. Enquanto estava na Mundo Livre, fui botando, sabe, Low, Bob, tudo aqui na cabeça.

CONTINENTE Por que essas músicas não entraram na Mundo Livre?
OTTO Porque Fred (Zero Quatro) não queria. Nem olhava! Dizem que ser grande é muito difícil. Eu ocupo espaço. Eu devia perturbar ele muito, né? Eu, amostrado do jeito que sou (risos).

CONTINENTE O Bicho que Pula.
OTTO O Bicho que pula, numa vontade! Mas era uma vontade… Por Fred, eu estaria até hoje com ele lá. Hoje, eu vou gravar com ele aqui, eu e minha mulher. Minha mulher (a fotógrafa francesa Kenza Said) vai cantar no disco dele. Ele procurando uma música francesa, ligou aqui pra mim ontem: “Ó, Otto, vem cantar em francês”. Eu falei assim: “Minha mulher é francesa, eu vou levar ela!”. Vou encontrar ele depois de muito tempo aqui. Sou fã dele. Mas perturbei ele também.

CONTINENTE Você é totalmente o oposto de Fred, não é? É verdade aquela história de que foi o produtor Carlos Eduardo Miranda que deu o toque pra você fazer o seu disco?
OTTO Foi mais Camilo Rocha, que é DJ, jornalista. Ele veio pro Moritzstad (casa de shows que funcionou no Bairro do Recife nos anos 1990). A gente tinha tomado ácido e eu estava lá com o pandeiro, eu andava com o pandeiro na mão. Quando saí da Mundo Livre, ele disse: “Você tem que fazer a música eletrônica daqui”. Segui esse conselho. Depois, encontrei com Alex Antunes, que ligou pra Miranda, veio pro Abril Pro Rock. Miranda foi pra Trama, me levou. Pensei: “Cara, de ex do Mundo-Livre eu não vou ficar”. Quando eu saí da Nação Zumbi, já foi “Olha, já não tá mais lá o amostrado”. Aí, quando Fred me botou pra fora, não quis mais, eu disse: “Caralho, o que é que eu vou fazer?” Fui lá pra dentro do Beco da Periquita, que é em CDU, entrei na favela. Em vez de ficar lá no (bar alternativo dos anos 1990) Irmã Bertrice só levando piada, fui fazer minhas coisas. Tinha uma moral com Chico, perdi. Tinha moral com Fred, perdi. Eu disse: “Cara, não vou ficar aqui nesse centro, com essa galera, me chamando de doido, maluco e me desprezando”. Fui pra favela, me encontrei lá dentro, e fui contar a história dela todinha, e foi o começo e o fim de todos os meus amigos. Eu vivi isso e está tudo lá: Distraída pra morte, tem tudo, Café preto. É um disco altamente social. Eu me isolei. Fumei crack a primeira vez, olhe, experimentei crack. Fiz de tudo dentro da favela. Vi meus amigos morrerem.

CONTINENTE Morrerem?
OTTO É, foi, morrerem. Olha como era o lance do Beco da Periquita. Olha como é louco aqui no Recife. Tinha um vereador na favela e o irmão do vereador, delegado. Ele pegava as “dolinha” dos meninos. Levava os meninos pra delegacia. Aí o vereador ia na casa do garoto, dizia: “Vou soltar ele, segunda eu trago aqui”. Quando esse menino chegava todo apanhado, o vereador ganhava os votos. O irmão prendia, o vereador soltava. Ganhei no Viva a nota um Voyage. Um dia, me chamaram pra ser “piloto de assalto”. “Quer ser piloto?”. Eu disse “Não”. “Vai, Otto. Vinte por cento de um assalto.” Chegou um “piloto” louco, e eu pensei, “Meu Deus, está na hora de sair daqui”.

CONTINENTE E esses 50 anos agora?
OTTO Espero que daqui a pouco eu possa comprar uma casa. Ou na Chapada ou em algum vale desse, não quero ficar velho em cidade nem com a porra.

CONTINENTE Será o bicho que pula no mato.
OTTO Uma hora vou ter que me aquietar. Já estou me aquietando. Já vi tanta coisa. Estou tão calejado, que uma hora acho que vou querer relaxar esse espírito. Ir pro mato, chegar de chapéu melado de merdinha, pegar o voo, chegar aqui, fazer show e voltar. Mas, neste momento, quero muito lutar por essa democracia. É o meu objetivo agora, porque não vai ser uma coisa de um ano, dois anos… Eu nunca falaria o que falei hoje, talvez até porque não quero bronca com ninguém não. Quero mesmo é dizer: “Porra, não vamos esquecer esta cidade. Não vamos fazer desta cidade um grande shopping!”. O meu objetivo é esse: criar a minha filha que está aí com 13 anos, maravilhosa, acompanhar ela. Tenho uma mulher, casei, graças a Deus. Mas é isso, ter saúde, tenho um compromisso como pai muito grande com o futuro do país. Sou uma pessoa pública, isso me dá muita força de atuar na política, de brigar. Não é que eu esteja certo, mas algo me diz que estou no caminho. Certeza, certeza, a gente nunca tem. Principalmente quando é política. Mas saber que está no melhor lado, sabe? Saber que está do lado do povo, do lado certo.

CONTINENTE O lado certo da história.
OTTO É! Claro!

CONTINENTE Acho que é isso.
OTTO É isso, né? Foi lindo! Lindo!

DÉBORA NASCIMENTO, repórter especial da Continente e colunista do site da revista.

           

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