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Curtas

Mateus

Novo documentário de Dea Ferraz traz dois palhaços em busca de seus ancestrais

TEXTO LUCIANA VERAS

03 de Fevereiro de 2020

Documentário da pernambucana Dea Ferraz explora as possibilidades do encontro

Documentário da pernambucana Dea Ferraz explora as possibilidades do encontro

Foto Laura Dornelles/Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 230 | fevereiro de 2020]

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Há várias possibilidades de se apreciar Mateus (Brasil, 2019), o novo documentário da realizadora pernambucana Dea Ferraz. Podemos enquadrá-lo como um “desejo de respiro”, para usar as palavras da própria diretora, em uma carreira marcada por filmes pensados e concretizados dentro de formas mais rígidas – Câmara de espelhos, filmado em 2013 e lançado em 2016, no qual ela coloca vários homens dentro de uma caixa-preta onde são mostradas imagens que objetificam e ridicularizam o corpo feminino ou mesmo a própria mulher e assim ratificam a banalidade do machismo e da misoginia, e Modo de produção, também rodado em 2013 e exibido em 2017, em que ela radiografa o cotidiano de um sindicato de trabalhadores. Ou ainda vê-lo como um road movie sobre dois palhaços em busca dos seus ancestrais ou até mesmo como um filme-processo, “um documentário de busca onde o caminho faz parte do próprio filme”.

Bom é que Mateus, exibido em novembro de 2019 na programação itinerante da Mostra Sesc de Cinema, em Paraty e com duas sessões em Pernambuco, pode ser isso e muito mais. Afinal, descortina-se uma ampla vereda de possibilidades quando dois palhaços, Jurema e Bandeira, ganham as estradas rumo à zona da mata pernambucana em um Fusca 1978, com o objetivo de rastrear os brincantes que encarnam Mateus, antológico personagem dos grupos de cavalo-marinho. Eles são Jurema e Bandeira, mas também são Claudio Ferrário e Odília Nunes, e em suas conversas partilham muito do que já viveram, dos Mateus e Catirinas que fizeram e/ou querem fazer, porém, principalmente, repartem a abertura para os encontros.

“O documentário lança esses dois palhaços na estrada, nessa viagem, sem produzir nada. Além disso, Claudio e Odília estão no filme assumindo várias camadas deles mesmo: são dois atores conversando entre si em um carro, exercendo o lugar do encontro com o outro, como em uma entrevista, sabe? Como entrevistadores que buscam o outro enquanto vão, os dois juntos, buscando esses mestres. Acho que o filme nasce de um desejo meu, por ser casada com Claudio e ouvir muitas histórias dele, de saber mais sobre o Mateus que ele foi, sobretudo de entender o encontro com esse personagem. Por isso também chegamos a Odília, que pesquisa o Mateus do cavalo-marinho e quer ser a Catirina para poder estar numa brincadeira popular que é sempre muito masculina. A sensação que tenho é que Claudio faz uma viagem ao passado, para lembrar o Mateus que foi, e Odília faz uma viagem para o futuro, para ser a Catirina e ser aceita e respeitada dentro da tradição popular, sendo coroada por Martelo, o grande mestre dela”, condensa Dea, em entrevista à Continente.

Nessa travessia, Martelo, Zé de Bibi, Mocó e seu Luís entram em cena sem que nenhum contato prévio com eles tivesse sido feito. “Nada era programado. Esse é o filme sobre o qual tenho menor controle. Chegava e filmava tudo que estava acontecendo. Isso se sente: esse mergulho na chance dos encontros”, pontua Dea Ferraz. Acompanhada dos dois diretores de fotografia, seus parceiros habituais Leo Crivellare e Marcelo Lacerda, e da montadora Bia Baggio, ela também se jogou: percebe-se que Mateus é uma obra erigida sob o signo da liberdade e a partir de uma generosa escuta. Tudo, afinal, passa pelo afeto, pelo modo como afetamos as pessoas com quem nos relacionamos e somos afetadas por aquelas que atravessam nossos caminhos.

E se constata que o filme procura olhar para os indivíduos, as almas, por trás da brincadeira, universalizando não apenas o cavalo-marinho, ou mesmo o Carnaval, essa entidade tão mítica para nós, pernambucanos, mas a própria noção da cultura. “Indo além da brincadeira, encontramos aquelas pessoas e, no final das contas, encontramos a nós mesmos. Ou seja, falamos de quem somos aqui no Nordeste”, pontua Dea, “e nas exibições que fizemos aqui, percebemos como crescemos e vivemos com essas imagens dentro da gente. Mas acho que esse imaginário também pode ser acessado por quem não é daqui”.

Para a realizadora, isso se deve, acima de tudo, ao genuíno interesse que move seus personagens principais: “A busca de Claudio e Odília era legítima, passava por dentro deles, eles eram muito interessados por essa figura do Mateus. Queriam encontrar e escutar os mestres. Em Paraty, algumas pessoas perguntaram se esses mestres, nem sempre tão abertos, sabiam que estavam sendo filmados e o que significava estar ali, de uma certa forma também como espectadores. É que quando Claudio e Odília chegam com tanto afeto, os mestres se abrem não só para a conversa, mas para brincar no picadeiro. A potência da verdade dos dois que procuram e daqueles que são encontrados. E acho que vale ressaltar a segunda camada do filme: para além da estrada, da liberdade e do encontro, tem o ato de se lançar no vazio. Não só o próprio filme, que se joga, mas esses personagens, os dois atores e seus Mateus, que se lançavam no vazio que é o picadeiro, sem saber o que ia acontecer, sem medo do erro, do que podia ficar registrado disso. É muito bonito ver essa liberdade, esse descontrole, que, para mim, é a própria vida”.

Com produção da Parêa Filmes e da Janela Projetos, em coprodução com Alumia Filmes, Mateus ainda não tem previsão de lançamento comercial. “Acho muito difícil que um filme como esse entre em circuito comercial. Não chegamos a colocar em editais de distribuição e, do jeito que tudo está agora no horizonte da cultura no Brasil, não temos muito essa perspectiva. Quero pegar o filme e fazer uma viagem pelas cidades por onde passamos. Quero mostrar para os nossos Mateus em praça pública, cruzando o estado todo…”, vislumbra Dea Ferraz. Ela e seu documentário nos miram e não nos fazem esquecer: a vida é o que escapa.

LUCIANA VERAS é repórter especial e crítica de cinema da Continente.

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