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1984/2014 - Arte e democracia no Brasil

TEXTO Marcus de Lontra Costa

01 de Março de 2014

A gente não quer só comida/
a gente quer comida, diversão e arte.”
(Titãs, Comida, hit dos anos 1980)

Há 30 anos, o Brasil vivia a euforia da retomada democrática. Apesar da resistência dos militares e a conivência da grande imprensa, a sociedade civil bradava “Diretas Já!” e esse grito ocupava as ruas e avenidas das cidades brasileiras. No Rio, a festa da democracia havia começado com a eleição de Leonel Brizola e Darcy Ribeiro para o governo estadual. Para nós, jovens cariocas acostumados à sisudez dos governantes da ditadura, parecia um sonho ver o grande líder trabalhista, de lenço vermelho no pescoço e sotaque gaúcho, saudar o povo que o elegeu. Mais que isso, tínhamos Darcy Ribeiro, a contagiante inteligência a serviço da alegria, da coragem, da vontade de viver e de um profundo amor ao Brasil de verdade, aos índios, aos negros, aos pobres, aos jovens, para os quais ele se dirigia com afeto e empolgação.

Nesse clima, surgiu a ideia de se fazer uma exposição sobre a jovem produção artística brasileira, até então desconhecida do público. No ano anterior, Paulo Leal, Paulo Herkenhoff e eu havíamos viajado por todo o Brasil para a seleção de artistas do Salão Nacional. Surgia, então, uma nova produção artística identificada com o Brasil que acreditávamos poder construir: festiva, colorida, tendo a coragem de se expor pelas telas e pelas ruas das cidades. Essa nova geração acreditava nas técnicas tradicionais e, diferentemente da anterior, investia na força das imagens, nas pinceladas generosas, nas relações diretas com os ícones da mass media. O mais importante, entretanto, era a valorização da diversidade estética. A tal “vocação construtiva brasileira” estava sendo implodida juntamente com seu caráter ditatorial. Ainda bem que o Brasil, terra da mestiçagem, é complexo e rico para não ter vocação alguma ou, talvez, ter todas as vocações.

Por isso, os curadores escreviam na abertura da mostra: “Gostem ou não, queiram ou não, está tudo aí, todas as cores, todas as formas, quadrados, transparências, matéria, massa pintada, massa humana, suor, aviãozinho, geração serrote, radicais e liberais, transvanguarda, punks e panquecas, pós-modernos e pré-modernos, todos enfim iguais a qualquer um de vocês. Talvez um pouco mais alegres e corajosos, um pouco mais... Afinal, trata-se de uma nova geração, novas cabeças. E, se hoje, ninguém alimenta o pedantismo de ‘entrar para a História’, de ser o tal, o que todos esperam é poder fazer alguma coisa sem os pavores conceituais. Trata-se enfim, de tirar a arte, donzela, de seu castelo, cobrir os seus lábios com um batom bem vermelho e com ela rolar pela relva e pelo paralelepípedo...”

Trinta anos depois, esse pequeno texto juvenil e apaixonado acabou entrando para a história. A arte e o Brasil, apesar de todas as dificuldades, são bem melhores do que eram nos anos 1980 e, sem dúvida, uma pequena parcela dessa melhora tem a contribuição de uma geração de agentes e produtores artísticos que acreditaram no Brasil como fonte de inspiração e de trabalho. Nesse sentido, a geração 80 continua atual, a luta continua, os dragões da maldade continuam à espreita e nós continuamos com o santo guerreiro a lutar para que este nosso canto no planeta seja verdadeiramente democrático e independente. 

MARCUS DE LONTRA COSTA, curador carioca, ex-diretor do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (Mamam). Foi curador, junto com Paulo Roberto Leal e Sandra Mager, da mostra Como vai você, Geração 80?, que reuniu 123 artistas.

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