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Depoimento: Ailton Krenak

TEXTO Ailton Krenak

01 de Abril de 2017

Ailton Krenak

Ailton Krenak

Foto Guido Moreto/Agência O Globo

[conteúdo vinculado ao especial da ed. 196 | abril 2017]

Uma grande extensão de serras e vales, cobertos por florestas e ricas campinas. Com caça abundante e fartura de peixes nas águas de córregos e rios caudalosos: assim foi a paisagem avistada pelo naturalista príncipe Wied-Neuwied, quando de sua viagem científica ao Brasil. Ele descreve a exuberância e beleza do lugar onde vive o povo Krenak hoje, que ficou registrado na imagem que mostra uma embarcação vencendo as cachoeiras, em trecho do Rio Doce cercado por um verdadeiro jardim tropical. Paraíso dos antigos Botocudos. Nação de índios guerreiros que, durante séculos, teve essas serras e vales como seu território, mesmo depois da ocupação do litoral pelos colonos portugueses.

Durante todo o ciclo do ouro e diamante das Gerais, ainda assim os Krenak seguiram ocupando a vasta região entre os rios São Mateus e Doce, só mais tarde aberta à colonização portuguesa. A corte conivente usava as muralhas do sertão como defesa contra a prática de roubo e desvio de riquezas da Coroa portuguesa, estas eram retiradas pelo caminho do ouro ou estrada real que cortava a crista das serras na região central, deixando a parte leste das florestas do rio Doce sem rotas para penetração. Para maior segurança, ainda difundiram por todos os meios que essa região era ocupada pelos bravos e arredios Botocudos, descritos como temíveis canibais. Assim foi justificada a guerra que moveu a Coroa portuguesa contra os povos que formavam a nação dos “Botocudos”, guerra justa decretada por D. João VI quando chegou com a corte para se estabelecer no Rio de Janeiro em 1808.

A vida desses povos nunca mais foi a mesma, com a implantação de quartéis nos afluentes do Rio Doce, São Mateus e Jequitinhonha, formando aldeamentos, postos de controle da movimentação dos índios, que mesmo nas matas eram perseguidos e arregimentados para o trabalho forçado nas novas colônias que avançavam sobre a região. Na segunda metade do séc. XIX, a maioria dessa população nativa já estava encurralada, sofrendo perseguição dos militares e colonos, que a todo pretexto faziam caçadas de índios, com a paciente aceitação dos inspetores nomeados pelo governo central, que ficava nas províncias, em Minas Gerais, apoiando as frentes de colonização do Rio Doce. Como no grande empreendimento feito pelos irmãos Ottoni, com a Cia. de Colonização do Rio Doce, moderno e ativo sistema de trazer colonos da Europa, em especial da Alemanha, para ocupar as terras indígenas, agora abertas à colonização. Apesar de frustrado, esse projeto deu impulso à abertura de quase todas as atuais vilas e cidades que prosperaram na consolidação do que são hoje centros comerciais urbanos na região.

SÉCULO XX
Já na segunda década do séc. XX, a última expedição científica europeia, no começo da nossa vida republicana, sobe o Rio Doce a partir do litoral do Espírito Santo, conduzida pelo russo H.H. Manizer (1911-1914). Chegando aonde está a terra indígena Krenak, encontrou os índios cercados por colonos em disputa de terras, e decidiu tomar a defesa dos indígenas ante a total conivência das autoridades com a prática de assassinatos e roubos feitos pelos brancos.

O médio Rio Doce foi o último refúgio dessas famílias indígenas, escorraçadas de suas aldeias de origem, perseguidas e massacradas por seus vizinhos, onde o Serviço de Proteção ao Índio – SPI, precursor da atual Funai, estabeleceu o aldeamento definitivo para os indígenas que restaram nas regiões vizinhas de Minas e Espírito Santo, antigos territórios indígenas no Rio Doce.

Em 1920, o governo da província de Minas Gerais decidiu criar uma colônia tomando toda essa região do médio Rio Doce e aceitou, então, retirar 3.983,07 hectares para os Krenak, onde o SPI instalou o Posto Indígena Guido Marliére, terra indígena Krenak ocupada hoje por uma população de aproximadamente 130 famílias. Parte dessas 130 famílias teve que passar por despejos e deslocamentos forçados, com graves sequelas para os sobreviventes. Desde a primeira transferência, feita na década de 1950, foram liberadas terras aos colonos da região, com a tentativa de fixação dessas famílias Krenak em outra terra indígena no Vale do Rio Mucuri entre os Maxakali, povo indígena aldeado à mesma época que os Krenak, e que também era hostilizado por seus vizinhos fazendeiros de gado. As famílias não conseguiram permanecer, devido à grande carência e desestruturação desse posto indígena Maxakali, administrado pelo Serviço de Proteção Indígena – SPI.

“Eu lutei para entrar nessa terra Krenak, andando pra lá e pra cá. Doente, não pude voltar lá do Vanuire, em São Paulo, depois de quatro anos fora da nossa terra. Os fazendeiros estavam dentro, nós tinha sido levado para outro lugar, para morar no Maxakali, mas não deu pra gente ficar lá, morreu crianças. Eu vim do Maxakalis a pé, era menina e meus pés soltaram a sola, tudo machucado”, relata dona Laurita Krenak, 82 anos.

Os Krenak não puderam ficar nas terras Maxakali, tentaram voltar para sua terra de origem, ocupada por posseiros, com a conivência do órgão indigenista que mantinha arrendamentos com os colonos. Foram esses arrendamentos que deram base à reivindicação dos colonos arrendatários para tomar definitivamente a terra indígena, em ação na justiça que durou 19 anos, impedindo a volta das famílias indígenas, que, mesmo assim, nunca desistiram de sua terra.

Por mais de 15 anos, as famílias despejadas da terra indígena Krenak perambularam por diversas regiões do Brasil, quando muitos se perderam de seus familiares, adoeceram e sofreram muita privação, sendo considerados extintos pela administração do governo.

A barganha da terra indígena Krenak, na margem esquerda do Rio Doce, que foi demarcada em 1920, por uma propriedade da corregedoria da Polícia Militar de Minas Gerais, foi pretexto à extinção da aldeia Krenak na barra do Córrego do Eme, e a condução das famílias que estavam dispersas por muitas regiões de Minas e de outros estados como Goiás, Mato Grosso, Espírito Santo e São Paulo para a fazenda Guarani, onde foi implantado o Reformatório Krenak. Somente na última década, essa triste página da história de abusos e violência institucional do Estado brasileiro contra os índios Krenak foi trazido a público pela Comissão da Verdade.

Relata dona Laurita Krenak: “Os chefes de Posto, funcionários do governo, tiravam os índios, despachavam pra longe… Fomos pra São Paulo, pois eu tava doente, e diziam que em São Paulo tinha mais recurso. Me deixaram lá em Tupã, para tratamento de saúde. O chefe de Posto, do SPI, me deixou lá e disse: ‘Se essa menina morrer, sarar, não me avisa’. Não deixou endereço, nada. Fiquei quatro anos lá no sanatório”.

REFORMATÓRIO
Esses crimes foram acobertados por visar à tomada das terras ocupadas tradicionalmente pelos antigos Botocudos, estendida a indígenas de dezenas de outras etnias, que foram jogados nessa área do Reformatório Krenak, com a criação de uma Guarda Rural Indígena – GRIN.

Uma absurda experiência de reeducação de indígenas, para a qual, por qualquer desentendimento com as autoridades administrativas do Serviço de Proteção aos Índios – SPI, eram conduzidos a essa unidade mantida pela Polícia Militar de Minas Gerais, com a forte presença dos órgãos federais, notadamente das autoridades militares. Foi a oportunidade que o estado de exceção, implantado com o golpe militar, deu aos antigos inimigos dos povos indígenas em Minas Gerais, a ocasião de acabar com os direitos indígenas, justificando o esbulho das terras indígenas por seus vizinhos, agora associados à ditadura, transformando os sobreviventes em pacientes de centros reformatórios, na condição de indigentes.

Não só os Krenak conheceram a “cadeia”, como eles se referem ao reformatório. Pelo menos 94 indígenas de 15 etnias levados de 11 estados passaram por lá, segundo dois inquéritos do Ministério Público Federal (MPF) em Minas, que investigam essa passagem dos anos de chumbo.“Botaram nós na cadeia. Sofremos demais aqui. Batiam, machucavam os índios”, aponta Manoel Vieira das Graças, Pankararu de Pernambuco.

Enquanto isso, a terra indígena era ocupada mesmo pelos colonos, com os indígenas tendo que se refugiar junto a outras aldeias ou buscar trabalho nas fazendas da região. Sem direitos e jogados pelas estradas, os Krenak foram acolhidos por parentes em outros estados, como São Paulo, Goiás e Mato Grosso, sempre lutando para retomar sua terra na margem esquerda do Watu, o mesmo Rio Doce que dá nome a Cia. Vale do Doce, operadora de três desastres na vida desse povo indígena, sendo o primeiro a estrada de ferro Vitória–Minas, que cortou a terra indígena durante mais de 70 anos, sem nunca ter feito nenhuma compensação ao povo indígena, até que, em 2005, teve a sua passagem interrompida pelos Krenak, que fecharam a ferrovia, obrigando a Vale e a Cemig – Cia. de Energia de Minas Gerais a negociar a compensação por impactos da UHE – Aymorés, com barramento do rio cerca de 30 km à jusante da terra indígena.

“Meu pai e minha mãe andavam com os filhos, sem rumo, jogados de um lado pro outro, com nossa terra ocupada pelo fazendeiro. Os índios foram levados para a Fazenda Guarani, onde ninguém aguentou tanto sofrimento e os primeiros que foi de volta para terra Krenak foi eu com meus filhos, minha mãe e outras duas famílias de lá. Só esses é que entraram para ficar na terra, até os outros da fazenda Guarani juntar todo mundo espalhado e vir também, juntando mais gente. Eu entrei… Eu aqui andei muito. Todos os chefes de posto tiravam a gente, nós fomos mandados para São Paulo. Eu sei tudo, o princípio e fim, estou falando”, conta Dona Laurita Krenak. 82 anos.

IMPACTOS
A desestruturação da vida socioeconômica e cultural desse povo, degradação ambiental e abandono pelas agências de assistência estatal levaram a uma situação de constante conflito com a Vale e seus parceiros nos empreendimentos que impactam a vida do povo Krenak. Com isso, o MPF em Minas Gerais deu entrada em ações contra os empreendedores Vale/Cemig e governo do estado de MG, identificando os diversos impactos desta forma: 1) impactos sobre o Rio Doce; 2) impactos sobre o território indígena; 3) impactos de ordem periférica; 4) impactos sobre a saúde indígena; 5) impactos sobre a fauna; 6) impactos sobre o patrimônio arqueológico.

Nessa ação do MPF, que concluiu pela responsabilização do consórcio da UHE–Aymorés, ficou estabelecida a obrigação da Vale/Cemig e governo de Minas Gerais pela recuperação ambiental da T.I. Krenak; estruturação e manutenção dos serviços de saúde específicos dentro da T.I.; monitoramento da qualidade da água do Rio Doce; desenvolvimento de projetos e atividades voltados para a sustentabilidade econômica das famílias Krenak. Sendo também definida uma indenização paga a cada família pelas perdas causadas por essa lista de impactos identificados.

Em 2006, algumas das condicionantes para operação da UHE–Aymorés começaram a ser contratadas pelo consórcio Vale/Cemig e aplicadas dentro da T.I. Krenak. Mesmo com descontinuidade, vinham avançando até o desastre da Barragem de Mariana, como foi conhecido o grave crime ambiental que colocou o Rio Doce em coma no dia 5 de novembro de 2015.

Mais uma vez, a vida dessa pequena comunidade é assaltada pelo insuportável abraço do progresso. Agora, entregue pela mão de ferro da mineração, atividade econômica que move a economia mineira desde a colônia, quando o caminho do ouro e estrada real já justificaram uma verdadeira guerra de extermínio contra os nativos desses vales e serras mineiras. Samarco e Vale do Rio Doce aparecem ao lado da BHP australiana como as responsáveis pela barragem de contenção de detritos da lavagem de minérios, que, no dia 5 de novembro de 2015, invade a vida de milhões de brasileiros, desde a pequena Bento Rodrigues, coberta pela lama tóxica da Samarco, até as tartarugas marinhas no litoral capixaba. A aldeia Krenak e toda a bacia do Rio Doce agora são reféns da lama da mineração, o bezerro de ouro da economia mineira. Uma pá de lama desce o rio, matando todo a ictiofauna.

Minha roupa eu lavava na beira do rio, nas lajes onde ficava sentada batendo roupa, banhando e vendo a vida do Watu – nosso avô, que é o Rio Doce para os brancos. Antes da lama descer o rio, passando na minha aldeia, senti o barulho que vinha na frente fazendo uma arrepio das águas, como se o rio estivesse correndo ao contrário, subindo contra a corrente. Antes dessa água acontecer eu sonhei naquelas águas sujas. Eu pensei: agora acabou tudo. Não tem peixe, não tem nada. Dizendo ‘corre gente, a água está chegando’, falei. Isso aí que fizeram com nós, eu e os mais velhos que ainda estão lá, tem Maria Sonia, Eva e Euclides…”, lamenta Vó Laurita, como é chamada a velha senhora que por mais de 70 anos luta para viver na sua terra Krenak, à margem esquerda desse rio.

Para as novas gerações de Krenak, resta lutar contra a histórica guerra de ocupação desse lugar que vem desaparecendo sob seus pés, resistindo teimosamente contra o insustentável abraço do progresso. 

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