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Debate: Sociedade da opinião total

Os avanços na tecnologia da comunicação criaram um ambiente virtual de profusão de pontos de vista em que todos sentem necessidade de se manifestar

TEXTO Fábio Lucas

01 de Agosto de 2014

Ilustração Nelson Provazi

Você já parou para pensar sobre a volta do regime de califado ao Iraque? E sobre a crise econômica da Argentina? E o direito de presos condenados por corrupção ao trabalho fora da cadeia? Quem sabe, a respeito dos direitos dos animais? Ou da construção de espigões em áreas históricas nas cidades? Mesmo que você não tenha parado para pensar nisso tudo, certamente já ouviu falar – ou até foi indagado sobre essas questões recentemente, e levado a dar apoio à opinião dominante para não parecer fora de órbita na rede social. Na era da opinião total, na qual todos são instados a ter opinião sobre tudo, o que importa é se posicionar, seja qual for o assunto. E se for polêmico, então, aí é que o silêncio condena, como heresia digna de perseguição, até que o herege “desça do muro” e se pronuncie.

No âmbito das escolas de comunicação, o jornalismo opinativo é o que concentra a análise da realidade, permitindo uma leitura dos fatos diferente da pura descrição da notícia. Mas “a realidade que conhecemos resulta da edição do mundo”, escreve Clóvis de Barros Filho, no livro Ética na comunicação. A mistura entre o relato descritivo e o juízo de valor seria, em tese, indesejável para a reportagem, que deveria manter distância e buscar a isenção sobre o que transmite. No entanto, a objetividade, para muitos, é pobre e insuficiente para abordar o significado dos acontecimentos. Abre-se então o espaço para a tomada – velada ou explícita – de posição no jornalismo, em qualquer meio e sobre qualquer assunto, muito além dos editoriais e dos textos assinados nos veículos impressos que nortearam, até anos atrás, a formação da opinião pública.

A profusão de opiniões toma conta da pauta da mídia. Se já era corriqueira no rádio, a babel opinativa invadiu TVs, sites de notícias e, de maneira específica, o jornalismo impresso. Neste último, a tendência tem sido oferecer visões mais densas, proporcionando material de análise aprofundada em contraponto ao achismo verificado nas demais mídias. Mesmo assim, o espaço para a participação do leitor na formação de opinião é crescente em todos os meios, inclusive no impresso, que não deixa de publicar centenas de opiniões que chegam diariamente às redações.

A valorização da opinião – sobrepondo-a, inclusive, ao conhecimento adquirido e especializado de experts – pode ser creditada, por ironia, a uma conquista do conhecimento: a tecnologia da comunicação. Porque, muito antes de Nietzsche declarar que “não há fatos, só interpretações”, a sabedoria filosófica tradicional desprezava a doxa como conhecimento inferior. A opinião podia estar correta, mas aparecia como uma verdade que não tinha como ser verificada ou justificada. Daí a desconfiança de filósofos, como Platão, à palavra proferida sem embasamento, uma opinião – digamos assim – que perdurou até a modernidade.

Hoje, Platão seria ridicularizado. Define o professor de Filosofia e Direito Pablo Capistrano da UFRN: “Vivemos em um tempo hegeliano, em que as opiniões são supremas diante de uma suposta ‘realidade dos fatos’. A questão é que as pessoas não se apercebem da transitoriedade histórica de sua própria verdade e pensam que a opinião que têm reflete um conhecimento seguro acerca do mundo”.

No ambiente veloz da informação excessiva, a opinião do momento tende a se cristalizar até que seja confrontada com outra verdade temporária que a supere. “O problema, me parece, não é o crescimento da opinião na imprensa – mas uma certa tendência à uniformidade e à repetição de opiniões”, considera o jornalista e escritor José Castello. “Já na escola de jornalismo, aprendi que jornalistas devem sempre ouvir os dois ou diversos lados de qualquer questão, e até hoje acredito muito nisso. Infelizmente, apesar de haver na mídia muito espaço para a opinião, e afora honrosas exceções, não há tanto espaço para o choque de opiniões, para as diferenças e para as saudáveis divergências. Para a luta franca de argumentos”, lamenta Castello.

Na era da opinião total, a objetividade não passa de um ponto de vista. E a internet – por suas características de velocidade, simultaneidade e horizontalidade – propicia o surgimento de ondas de opinião tão profusas e efêmeras quanto as informações que por ali trafegam. 

Leia também:
Dilemas: A objetividade como ponto de vista
Menos patrulha, mais diversidade
A construção da opinião
Internet: Opinião acima de tudo

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