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Internet: Opinião acima de tudo

Polêmicas nas redes sociais ganham a mídia e despontam como conquista que oscila entre o exagero e a emoção

TEXTO Fábio Lucas

01 de Agosto de 2014

Ilustração Nelson Provazi

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 164 | ago 2016]

O crescimento da influência das redes sociais sobre
a mídia tradicional tem provocado ou facilitado a geração de ondas de opinião, que parecem irresistíveis, a princípio, mas podem logo se desfazer, como no caso da banana atirada em campo ao jogador Daniel Alves, que virou mote instantâneo, porém breve, contra o preconceito racial. Ou, ainda, angariam a simpatia de uma mobilização virtual que nem sempre se traduz em manifestação concreta de apoio – e, mesmo assim, ganham peso simbólico que se reproduz até interferir nas instituições que decidem. Como esse fenômeno das ondas opinativas deve ser tratado pelo jornalismo? E por um público cada vez menos confiante no que estampam as capas de jornais e revistas tradicionais?

Segundo o analista de comunicação digital André Raboni, o que a internet traz é um modelo de comunicação direta, que ao mesmo tempo atingiu a credibilidade dos grandes veículos e permitiu que indivíduos se tornassem produtores de conteúdo, seja em um blog, seja num canal de Youtube ou no Facebook. E a credibilidade desse tipo de informação? “A credibilidade é algo que se constrói com o tempo, e vai ser determinada tanto pela capacidade de arregimentação de público quanto pelo impacto social das informações. Independentemente de serem verdadeiras ou não, mas por angariarem simpatia através da opinião livre e exclusiva”, diz o analista, para quem o desejo de expressão visto em tempo real tem resposta certa. “O público na internet é ávido por opinião: se for favorável, o público divulgará como algo que o representa. Se não for, o público divulgará para criticar”.

O professor Adriano Pilatti, da PUC-Rio, endossa a multiplicidade de opiniões do meio virtual como algo intrinsecamente positivo. “Nas chamadas mídias sociais, há uma polifonia confusa, mas em princípio saudável. Sua contribuição principal está justamente na diversidade de perspectivas e, quanto maior o rigor dos enunciados que veicular e o compromisso com os fatos, maior será sua contribuição”, acredita Pilatti. Para o professor de Direito Constitucional, uma das novidades desse fenômeno é que todos podem ser produtores e transmissores de informação e opinião. “Isto serve à democracia, às liberdades e à construção das autonomias individuais e coletivas. É um excelente começo de conversa.”


Gesto de racismo contra jogador Daniel Alves deu início à campanha #SomosTodosMacacos que se propagou na internet. Foto: Divulgação

A consequência dessa mudança é perceptível entre os profissionais da imprensa. “O chamado ‘jornalismo tradicional’ foi abalado por um tsunami – a internet. E eu diria: ainda bem!”, afirma Geneton Moraes Neto. Para ele, o alargamento das possibilidades de comunicação entre indivíduos, sem a mediação do jornalista, põe em xeque princípios seculares do jornalismo. “Qual será o efeito disso? Não se sabe ainda. O que se sabe é que já não é possível desconhecer o poder estupendo das mídias sociais. A ‘má notícia’ para o jornalista é que ele já não é o único emissor de informação e opinião. Pelo contrário! A ‘boa notícia’ é que, em meio a essa avalanche de informações, um personagem vai ser sempre necessário: alguém que seja capaz de hierarquizá-las, descrevê-las com clareza, explicar ao público o que elas podem significar. Nesse momento, entra no grande salão de festas, provavelmente com uma bengala na mão e um livro debaixo do braço, aquela figura malvista, tão crucificada e tão questionada, tão bombardeada e tão necessária – ele, o jornalista. Ainda vai durar um bocado”, opina Geneton Moraes.

No fluxo de emissores e receptores que não mais se distinguem, quase não há tempo para a parada necessária à reflexão, e o pensamento pega carona na emoção. “Na internet, as opiniões proliferam e se chocam. Mas aí com uma característica preocupante: tornam-se impulsivas, irracionais, nervosas, agressivas. Basta ver o que acontece com o Facebook, que se transformou em muitos casos em um espaço para xingamentos, ataques enlouquecidos e brigas infantis”, critica o escritor José Castello. Segundo ele, a internet deixou as pessoas com os nervos à flor da pele. “Nela, qualquer um fala qualquer coisa de qualquer um, ela se transformou em uma espécie de lugar do vale-tudo. Criou o que chamo de opinião impulsiva – que, na verdade, é um boicote disfarçado ao pensamento”, define Castello.

Na mesma linha, o editor-geral do Jornal do Commercio, Ivanildo Sampaio, ainda que reconheça a força das redes sociais, e tenha consciência de que elas chegaram para ficar, acredita no superdimensionamento de sua influência junto à opinião pública. “Uma nota produzida por um blog anônimo muitas vezes é tida como uma verdade absoluta que foi compartilhada por milhares de pessoas – e isso quase sempre é invencionice. Pior. Muitas vezes, descobre-se que a informação é inverídica e que circulou apenas entre seguidores de uma mesma tribo”, diz Ivanildo. Sem limites claros, as redes podem ser usadas para desconstruir reputações e biografias através de agressões anônimas, “o que é impossível na mídia impressa”, defende o editor-geral do JC.


Famosos aderiram à campanha #SomosTodosMacacos. Fotos: Divulgação

BLOGS
Um pouco antes das redes sociais arregimentarem militantes da opinião, fizeram sucesso no Brasil os blogs de jornalistas, que logo se tornaram referência para a grande imprensa. Há quem considere tais precursores com os dias contados. “Para mim, blog de jornalista nunca foi jornalismo – sempre foi egotrip. Só que eles, que praticavam o autoculto dos próprios blogs como espaços ‘democráticos’, não previram a explosão das redes sociais e a avenida que se abriu, a partir delas, para que os leitores praticassem – eles mesmos – a egotrip de ver suas opiniões, seus raciocínios e suas imprecações não só publicadas, mas também repercutindo e arregimentando seguidores”, observa o jornalista Luís Costa Pinto. De acordo com ele, em lugar de radicalizar as posições pela profissionalização dos métodos de apuração, muitos desses blogueiros passaram a cultuar de forma ainda mais abissal as próprias opiniões, levando mais em conta os adjetivos do que os substantivos na guerra pela adesão de público.

O futuro é sinistro na trilha dos blogueiros que criaram fama em cima de opiniões muitas vezes polêmicas, na visão de Costa Pinto, que atualmente é consultor independente de comunicação e diretor da agência Propeg. “Não vejo saída para esse tipo de jornalismo, muito pelo contrário: está inoculado, a partir desse processo, o vírus que vai aniquilar a credibilidade dos grandes veículos de comunicação que não souberam depurar o joio do trigo em seus quadros e creem que as altas audiências de alguns blogueiros significa poder e influência na forma como se media isso na última fase áurea da imprensa brasileira – os anos 1990.”

Aliada à onda tecnológica, cada opinião pode ser um modismo, mas o domínio da opinião será? Com o aumento do volume opinativo nas mídias, na produção e na recepção, a partir dos canais abertos pela tecnologia da comunicação (blogs, redes sociais etc.), podemos dizer que já habitamos uma espécie de babel da opinião. “É uma metáfora interessante, pensar no mundo de hoje como uma torre de babel, não apenas linguística, mas também discursiva, com a precaução apenas de não vermos isso como o fim do mundo ou de entendê-la de modo apocalíptico”, concorda o professor Wander Emediato de Souza, da Faculdade de Letras da UFMG, organizador do livro A construção da opinião na mídia. Na visão dele, com as redes sociais, o cidadão comum passa a assumir diferentes papéis e não precisa ficar passivo diante dos canais institucionais de produção da informação.


Professor Adriano Pillati acredita que a polifonia nas redes sociais é confusa,
mas saudável. Foto: Divulgação

“As pessoas podem agir fazendo circular opiniões suas e de outras pessoas com as quais compartilha uma ideia, uma ideologia ou um conjunto de intenções, ou seja, pode fazer parte de uma rede de irradiação, pode reagir a notícias e a opiniões de outras pessoas, pode construir movimentos sociais, encontros e agrupamentos por afinidades. O Facebook, por exemplo, antes marcadamente voltado para a exibição de si mesmo e para relações afetivas de grupos de amigos, agora se torna também uma arena discursiva importante na qual se debate quase tudo e se faz circular todo tipo de informação e de opinião, das mais sensatas e moderadas às mais insensatas e radicais, das mais autorizadas e credíveis às mais ficcionais e manipuladoras”, diz ele.

“O fato é que as redes sociais quebram, de certa forma, o monopólio das grandes corporações de mídia na produção e na circulação de notícias, permitindo que pessoas comuns também assumam o papel de jornalista, de escritor, de polemizador, de humorista. A grande novidade das democracias modernas é o surgimento das redes sociais, por isso elas assustam tanto os governos autoritários, que tentam controlá-la ou até mesmo suspendê-la e censurá-la. Para a democracia participativa, as redes sociais constituem um ganho”, defende Wander Emediato.

Porém, é preciso ter cautela com as ondas, afirma a editora-chefe da Folha de Pernambuco, Patrícia Raposo. “Sem dúvida as mídias sociais são um fenômeno que tem impulsionado as pessoas a seguir tendências. Mobilizam grande contingente, muitos deles são jovens, com formação intelectual ainda inconsistente, que são levados na ‘onda’. O problema das mídias sociais é que seus posts nem sempre são plausíveis de credibilidade e confiança. Nas mídias sociais se posta tudo, de verdades a mentiras. E merecem atenção, na medida em que podem incitar atitudes preconceituosas, racistas e descabidas. Então, precisamos observar o sentimento gerado por elas com frieza e maturidade”, pondera.


Para o escritor José Castello, criou-se na internet aquilo que ele denomina
opinião impulsiva. Foto: Divulgação

CAUTELA
O editor de opinião do jornal Valor, José Roberto Campos, concorda com a postura cautelosa diante das redes. “Noventa por cento do que se escreve no Facebook, por exemplo, são opiniões particulares, de baixa inspiração, quando não abertamente grosseiras e preconceituosas. Fazendo um paralelo, o jornal deve, na reportagem, fazer de tudo para não ser opinativo. Nas redes sociais, vale o contrário: dificilmente há algo além de opiniões”, compara José Roberto. O editor não menospreza as redes. Para ele, as mídias sociais são cada vez mais relevantes, e podem chamar a atenção da imprensa para muitas coisas que são ignoradas. “Mas deve ser apenas matéria-prima sobre a qual a imprensa séria poderá (ou não) construir uma peça acabada”, sugere Campos.

Nesse aspecto, a função preponderante das redes parece ser mesmo a de externar o máximo de opinião sobre todo assunto. “Acho que, na divulgação de opiniões, as mídias sociais são imbatíveis, mas elas ficam nisso, com muita superficialidade e xingamentos. Boa parte das opiniões são dadas e recebidas por pessoas pouco afeitas a leituras de textos longos (o meio preza a rapidez em detrimento da profundidade). O Facebook serve, por exemplo, para conhecermos melhor o cidadão brasileiro. Mas há que navegar no meio de muito lixo para se chegar lá”, diz José Roberto.

Como o comportamento da sociedade se reflete nas mídias sociais, os jornais precisam seguir a tendência de perto, com grandes times de colunistas. “Nas colunas, procura-se a opinião pessoal, pelo fato de o colunista ser especialista em determinados assuntos, ou uma pessoa bem-sucedida”, enquadra Campos. Vale lembrar que a diversidade de colunas num jornal não chega nem próximo do que se desenha pelos veículos na internet – somente a Folha de S.Paulo, em seu portal, conta com mais de 120 colunistas.

A editora do portal G1 Fabiola Blah diz ser fundamental que as pessoas possam se informar com a maior variedade possível de versões, lados e opiniões. Mas, segundo ela, isso leva a outra questão: como os internautas compreendem o que é debatido nos diversos espaços virtuais? “Muitas pessoas assistem a essas discussões sem necessariamente participar delas. Então, não saberia dizer como elas entendem esses questionamentos, não sei se é possível mensurar a ‘qualidade’ desse entendimento. Mas o debate em si já é frutífero.”


"Feed de notícias costuma refletir opiniões parecidas com as nossas", diz o professor Filipe Campello. Foto: Divulgação

O leque opinativo disponível também é destacado por Benira Maia, editora do portal NE10. “Quem quiser se aprofundar no assunto vai encontrar um mundo à sua espera.” Benira indica ainda o reforço das convicções de cada um que se mira no espelho das mídias sociais. “Aquele que já tem uma ideia, uma crença, vai também achar os seus ‘iguais’ e se tornar mais ‘crente’ de suas posições.”

Trata-se de um comportamento que se observa bastante na evolução recente das ondas de opinião. Segundo Filipe Campello, doutor em Filosofia pela Universidade de Frankfurt e, atualmente, pesquisador de pós-doutorado na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), uma eventual mudança de posicionamento é muito circunscrita. “Além disso, outro risco que se corre é do que podemos entender como uma ‘seletividade prévia’, em que o círculo de amigos que aparece no nosso feed de notícias, ou até mesmo blogs e jornais que lemos, já ser o que exprime opiniões parecidas com as nossas. De algum modo, encontramos aquilo que já esperamos”, diz Campello, ratificando a percepção de Benira Maia. De todo modo, para o filósofo, a pulverização de notícias e opinião é benéfica, desde que acompanhada por uma postura de criticismo. “Se, por um lado, a consolidação de novas mídias proporciona uma maior democratização e pluralização da informação, ela, por si só, não garante uma maior qualidade dos debates e uma recepção crítica do seu conteúdo”, adverte.

Nessa direção, talvez a paralela multiplicação dos debates possa sinalizar, ao menos, para uma ampliação da disposição crítica. Dar a conhecer melhor o cidadão que ganha voz em todos os países é um dos efeitos das ondas de opinião. Nos últimos anos, de posse da nova ferramenta tecnológica, a mobilização popular em torno de reivindicações de grupos tem sido precedida por mobilizações que surgem nas redes. Esse é outro ponto da questão que não pode ser esquecido pelas mídias tradicionais. “O lado bom dessas manifestações virtuais é que fizeram com que as redações mudassem a forma de pensar e enxergar as notícias, deixando de ser uma avaliação fechada. As mobilizações virtuais são um novo termômetro”, ratifica a gerente de jornalismo da TV Clube, Roberta Aureliano.

É nesse termômetro virtual que, a partir de agora, a realidade passa a ser descrita. E a opinião, amparada pela liberdade de expressão e potencializada nas redes digitais, precisa ser mais do que febre impulsiva curtida na base da emoção. 

FÁBIO LUCAS, jornalista, mestre em Filosofia e editoralista do Jornal do Commercio.

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