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Dilemas: A objetividade como ponto de vista

O ato de informar não escapa à noção de que toda edição é uma escolha, e toda escolha, por sua vez, uma opinião

TEXTO Fábio Lucas

01 de Agosto de 2014

Ilustração Nelson provazi

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 164 | ago 2016]

A transmissão dos fatos e a reflexão crítica sobre eles
a partir das grandes empresas de comunicação têm sofrido tremendo impacto com o advento da tecnologia da informação, disponível em rede global para qualquer cidadão. Os meios tradicionais – jornais, revistas, rádio, TV – sofrem cada vez mais com a necessidade de se adaptarem à realidade da rede, em que a troca incessante e horizontalizada de mensagens é tão importante quanto o conteúdo daquilo que é transmitido. É nesse contexto que se retoma o tema da ética jornalística, um dos mais discutidos, quando o foco é a perda de espaço da mídia tradicional na formação da opinião pública.

Para o professor de Direito Constitucional e coordenador do Núcleo de Estudos Constitucionais da PUC-Rio, Adriano Pilatti, essa perda de espaço é notória, e não só no Brasil. “As razões são multifatoriais: por um lado, as novas gerações preferem se informar pelas redes, sites e blogs da internet. Por outro, há crescente e justificável desconfiança das vinculações e subordinações das “opiniões” da imprensa tradicional ao poder econômico, às organizações partidárias, corporativas etc. E uma insatisfação com a costumeira mistura entre informação e opinião”, aponta Pilatti.

Para uma parcela dos leitores, a isenção de opinião na reportagem – gênero jornalístico classificado como informativo, embora também se insira entre os interpretativos – seria um mito, assim como se julga que o pendor para um lado do fato sempre existiu, das manchetes às legendas de fotos e chamadas de rádio e TV. Afinal, toda edição traz consigo uma inseparável carga opinativa. Também parece nunca ter sido tão difícil acreditar na suposta distância almejada pela “mera” descrição, que legaria ao público a tarefa de formar a própria opinião sobre os acontecimentos, numa época em que o receptor tem voz ativa sobre a repercussão de quaisquer mensagens.

“Fazer jornalismo é, inevitavelmente, fazer escolhas. Há decisões (algumas de natureza técnica) que precisam ser tomadas na hora de levar uma informação ao público”, diz Geneton Moraes Neto, repórter da TV Globo Rio. A primeira delas é considerar o que vem a ser notícia, e, em seguida, o destaque que receberá e o ângulo a ser mostrado. “Quando toma tais decisões, o jornalista – no caso, o editor – exerce um julgamento, queira ou não. Se exerce um julgamento, deixa de ser isento. A isenção absoluta pode não existir, mas, no bom jornalismo, existe algo que deve ser obrigatório: a fidelidade aos fatos. Quando os apresenta com fidelidade, o jornalismo pode, sim, cumprir um papel relevante”, avalia Geneton.

Para o jornalista e publicitário Luís Costa Pinto, a objetividade jornalística é um conceito surgido nos anos 1960, cultivado nas duas décadas seguintes, e que passou a perder força nos anos 1990, quando o mundo polarizado entre EUA e URSS deixou de existir. “Sobretudo no Brasil, mas também na Itália, na Península Ibérica, na Argentina, entre outros países, a imprensa da primeira metade do século 20 notabilizou-se por ser uma imprensa de opinião. Nos países de língua inglesa, notadamente nos EUA e na Inglaterra, e também na Alemanha, sempre houve um distanciamento um pouco maior – só um pouco –, mais característico do formalismo desses povos do que da busca de uma imparcialidade objetiva dentro do jornalismo”, compara.

No caso brasileiro, os exemplos vão claramente contra o que se consagrou entre os profissionais de comunicação como o “mito da objetividade”. “O que eram as estruturas narrativas dos jornais de Assis Chateubriand, por exemplo, e mesmo de O Globo, até os anos 1960, ou da Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda, e da Última Hora, de Samuel Wainer, senão libelos acusatórios ou peças de defesa de governos ou de oposições?”, questiona Costa Pinto.

A importância da opinião para a atividade jornalística tem sido reforçada no intuito de levar o leitor a discernir atores e pontos de vista. “Hoje, como leitor, prefiro ler veículos de comunicação e textos de jornalistas que se posicionam – mesmo que essas posições sejam contrárias às minhas. Desde que elas se tornem claras desde o início, desde que eu saiba fruir uma informação sabendo divisar o quanto de opinião há nela e qual a proporção de partidarismo há ali”, ressalva Luís Costa Pinto, que também arrisca um palpite sobre o futuro: “Acho que os veículos de comunicação vão entrar numa era de transparência total de seus posicionamentos – porque isso vai reforçar a credibilidade deles. Ou fazem isso, ou morrem”.

PROJEÇÕES E ISENÇÕES
A editora-chefe do jornal Folha de Pernambuco, Patrícia Raposo, levanta a dificuldade inerente à seleção e exibição da notícia. “Como não projetar alguma carga de indignação no noticiário, quando você vê, por exemplo, uma greve da polícia com viés político sabidamente ilegal, ser decretada à revelia para provocar pânico na população? E, ao mesmo tempo, assistir a uma multidão inescrupulosa aproveitar a oportunidade para invadir e saquear lojas? Se você observar, o noticiário desses fatos trouxe alta carga opinativa. Seja na escolha das fotos/imagens, dos personagens, ou na forma de contar o caso. Por exemplo, na Folha de Pernambuco tínhamos fotos de pais levando os filhos para saquear. Como não analisar isso e não trazer opinião sobre o assunto?”, questiona Patrícia.

Para ela, não há veículo que não emita opinião sobre os fatos. Nas principais revistas semanais do país, de acordo com ela, essa tendência é exposta de forma mais clara e aberta. “Cada uma segue uma linha ideológica, seja por convicção, seja por necessidade. E o leitor afinado com uma não tolera ler a outra”, diz.

O adensamento das redes sociais trouxe repercussões que ainda estão se consolidando. “A forma de se noticiar vem mudando, porque o leitor está sendo exposto a uma série de novidades, entre as quais a alta dose de opinião trazida pelas informações difundidas nas redes sociais. Por isso, penso que a opinião virou um produto intrínseco ao jornalismo”, afirma Raposo. Essa exposição às novidades da tecnologia da comunicação seria uma das origens da crise enfrentada nas redações tradicionais, de acordo com Fabiola Blah, editora do portal G1: “Acho que a mídia tradicional passa por um momento de grande questionamento, tanto em relação ao espaço que ocupa quanto no aspecto da credibilidade. Isso está diretamente ligado ao crescimento das mídias sociais e à multiplicidade de opiniões e pontos de vista disponíveis na internet”.


Patrícia Raposo, editora-chefe da Folha de Pernambuco (à dir) em debate em emissora de rádio. Foto: Divulgação

Se não há mais notícia sem opinião – ou se nunca houve –, os profissionais de redação se deparam com o desafio da reflexão que não descambe para um partidarismo panfletário. “É preciso ter um plus, é preciso orientar para uma reflexão sobre alguns fatos. Percebo que o leitor quer ver sua indignação estampada nos jornais, nas revistas. Quer encontrar eco aos seus sentimentos. Mas é preciso ter bom senso, equilíbrio, do contrário, o veículo vira um produto ideológico e, quando isso acontece, pode perder público, pois se ele não estiver afinado com sua mensagem, troca-o por outro”, avalia a editora-chefe da Folha de Pernambuco.

O leitor ou espectador, portanto, não despreza a grande imprensa, procurando nela o reforço ao que ele mesmo pensa sobre um determinado assunto. “É um mito dizer que a internet substituiu as mídias tradicionais”, garante o analista de comunicação digital André Raboni. “Muita gente ainda busca informação em um grande veículo para garantir sua veracidade. Mas há quem não cite alguns veículos justamente pela desconfiança que ele gera”, ressalva Raboni, sem deixar de se referir aos efeitos da ampliação do acesso a diversas fontes de notícias. “A credibilidade dos grandes veículos certamente sofreu abalos com a popularização da internet. Os meios digitais ampliaram de tal forma o acesso à informação, que os jornais impressos perderam sua exclusividade.”

O bom senso nos traz de volta à isenção, que deve ser o ideal de todo jornal sério, segundo o editor de opinião do Valor Econômico, José Roberto Campos. “É impossível evitar a subjetividade. E a isenção, entre outras medidas, é uma forma de domá-la”, sugere. O texto isento, segundo Campos, é mais fácil quando mais distante dos interesses próprios, como em reportagens sobre crimes e o cotidiano das cidades.

O editor do Valor lembra que foram criados mecanismos que indicam a isenção de um jornal. “Se um texto é claramente opinativo, ele é identificado como tal, por meio de vinhetas, por exemplo. Se é a posição do jornal, confinamos isso no editorial. Nas reportagens, especialmente em temas polêmicos, há obrigatoriedade de se ouvir pessoas que tenham outra visão sobre os mesmos fatos, quando não o próprio interessado atingido, nos casos em que empresas ou pessoas são criticadas”, observa. Para José Roberto Campos, a isenção continua sendo uma meta, colocando elementos para que o leitor seja capaz de formar opinião própria. “Esse é um dos elementos básicos da democracia”, diz.

Na composição da babel noticiosa, tampouco se deve desprezar a transição geracional que emerge no modo como as pessoas apreendem a informação. “O que nós, jornalistas que atuamos nas mídias tradicionais, temos que reconhecer é que as gerações mais novas não leem, ou leem muito pouco, livros, jornais, revistas, qualquer coisa que não venha pelo terminal de computador, smartphones, Iphone, pelo mundo digital”, pondera o editor-geral do Jornal do Commercio, Ivanildo Sampaio.

“Portanto, como todos nós envelhecemos, o universo de leitores de jornais tradicionais encolhe a cada ano. O que esses meios tentam é oferecer um tipo de conteúdo que se mostre interessante também para esse universo arredio, mas sem esquecer que seus leitores se colocam noutra faixa etária, com outra visão do mundo. Um artigo publicado na página de Opinião, independente do tema, repercute muito mais nos leitores com mais de 30 anos do que naquela faixa que vai dos 20 aos 30. Abaixo de 20, a repercussão é quase zero. E isso não é um fenômeno localizado – é uma constatação mundial”, assegura.

Na TV, opinião combina com formalismo. O posicionamento oficial da emissora só aparece em raros casos, em geral em momentos graves ou em defesa contra alguma denúncia que envolva a empresa. Contudo, isso também está mudando em decorrência da cultura da opinião formada e robustecida em rede.

Para Geneton Moraes Neto, a tarefa mais importante do telejornalismo é registrar a realidade da maneira mais fiel possível. “Já é uma tarefa trabalhosa e complicada. Pode ser uma idiossincrasia, mas eu diria que aquelas ‘opiniões’ ou comentários feitos pelos apresentadores de telejornais, depois da exibição das matérias, são, em 99% dos casos, perfeitamente dispensáveis porque, em geral, não acrescentam nada. Apenas reforçam o senso comum e sublinham o óbvio. É tempo precioso jogado fora. Todo o espaço deve ser dado à notícia”, postula. A gerente de jornalismo da TV Clube, Roberta Aureliano, atenta para os sinais de mudança no comportamento do público. “Mais do que nunca o cidadão brasileiro se sente ‘jornalista’. Mas acho que a principal mudança, dando mais espaço às formas opinativas, está atrelada ao crescimento da classe C, que passou a consumir informação, mas não queria informação da maneira tradicional, ‘dura’, do jornalismo. Então, as grandes mídias perceberam que precisavam conquistar esses novos atores e por isso estão mudando sua maneira de interagir.”

Com a interatividade, a quantidade da presença opinativa disparou, num fenômeno que põe os profissionais do jornalismo às voltas com uma maior responsabilidade. Além disso, vale celebrar a diversidade que a multiplicação de vozes proporciona. “A disseminação da opinião tem seu lado saudável, pois abre espaço para a afirmação de novos pontos de vista e caminho para aqueles que já estavam aí, mas ainda reprimidos”, pontua o jornalista e escritor José Castello.

Para Alexander Martins Vianna, professor de História Moderna na UFRRJ, as dissonâncias críticas e a multivocalidade das mídias ditas sociais são mais uma desafio criativo do que propriamente uma ameaça às mídias tradicionais. “A tendência é que os choques e corrosões mútuos redundem num salto qualitativo dialético para ambas as mídias”, aposta ele, lembrando que nos últimos cinco anos houve uma grande incorporação de elementos das mídias “sociais” nas “tradicionais” – e é possível que, no futuro próximo, tal separação não faça mais sentido. 

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