Turismo

Sorrento: sol, poesia e filosofia ao sabor de limoncello

TEXTO Álvaro Filho

21 de Julho de 2026

Foto Matheus Moreira

As coloridas lojinhas em tons de laranja espremidas nas estreitas vielas medievais de Sorrento fervilham de homens e mulheres com pouca roupa e a pele bronzeada pelo calor inclemente do verão no sul da Itália. De longe, a charmosa cidade da famosa Costa Amalfitana assemelha-se a outros concorridos destinos balneares da Europa, mas o que talvez poucos saibam é que a comuna italiana já era um point turístico ainda antes de existir turismo.

Entre os séculos XVII e XIX, Sorrento marcava o ponto de retorno do Grand Tour, uma tradição nascida entre a aristocracia inglesa, rapidamente adotada pela elite de outros países da Europa, em patrocinar aos seus herdeiros uma versão iluminista de gap year misturada com intercâmbio, uma espécie de mochilão gourmet pelo Velho Mundo. A ideia era garantir uma formação cultural clássica in loco aos jovens europeus de boa família e fortuna.

A primeira menção ao termo Grand Tour é atribuída ao padre católico britânico Richard Lassels, no livro The Voyage of Italy, publicado em 1670. Ao contrário das atuais excursões turísticas, porém o roteiro não obedecia a um itinerário muito rígido, chegando a ir até a Atenas na Grécia, via Catânia e Siracusa na Sicília, mas algumas escalas eram praticamente obrigatórias.

A viagem geralmente partia do porto de Dover, na Inglaterra, cruzava o Canal da Mancha rumo à França, com escalas em Le Havre, Paris, Lyon e Marselha, seguindo para a Itália, por Florença, Roma, Nápoles e sua belíssima costa, incluindo os sítios arqueológicos de Pompéia e Paestum. Sorrento marcava justamente o retorno do tour, por Veneza, depois Genebra e os Alpes, na Suíça e, para os mais dispostos e resistentes, ainda Berlim, antes da volta via Bélgica ou Holanda.

A posição estratégica de Sorrento explica o porquê de bem antes dos turistas brasileiros, norte-americanos e asiáticos invadirem as suas ruelas medievais, passaram por lá nomes como Byron, Keats, Goethe, Dickens, Wagner, Ibsen, Nietzsche, Freud, Thommas Mann além de Mary Shelley e o marido Pearcy, que em 1840 se hospedaram no icónico e luxuoso Grand Hotel Cocumella, ainda em operação.

Alguns esticaram a estada, como o poeta russo Máximo Gorki, que viveu em Sorrento por nove anos, com direito à ilustre visita do camarada Lênin para tépidas tardes de partidas de xadrez à sombra de uma palmeria imperial. Hoje, a longa passagem do escritor ainda é lembrada com um sisudo busto na Piazza della Vittoria e também o Gorky Day, celebrado em 18 de junho.

Nos quase três séculos de atividade, o périplo aristocrático-poético-filosófico sofreu algumas interrupções, a primeira delas durante a Revolução Francesa, em 1799, seguidas pelas beligerantes campanhas de Napoleão que tocaram o terror pela Europa e, claro, as duas Grandes Guerras. Quando a paz voltou a reinar no continente, o Grand Tour já havia virado démodé entre o que restou da elite europeia e entrado para a história.

Para a história também ficaram teorias inspiradas pelos cenários do Grand Tour. Mary Shelley, por exemplo, escreveu Frankenstein num só fôlego durante um chuvoso verão em Genebra, enquanto Thomas Mann fez dos canais e gôndolas palco de A Morte em Veneza. O alemão também usaria a pequena Palestrina, no caminho entre Nápoles e Roma, como local do macabro diálogo entre Adrian e Mefistófeles em Doutor Fausto.

Foi diante do azul intenso da baía de Nápoles, observado pelo Vesúvio, que o ainda jovem alemão Theodor Adorno começou a rabiscar a sua Teoria Crítica e que o seu colega de departamento acadêmico na cinzenta Frankfurt, Walter Benjamin, usou o solo poroso vulcânico da Costa Amalfitana para teorizar sobre a “porosidade” entre o espaço arquitetônico e o tecido social das cidades no ensaio Nápoles, publicado em 1925.

Outros não chegaram a terminar o tour. O marido da autora de Frankenstein, o britânico Percy Shelley, considerado por Harold Bloom um “poeta sem rival” no romantismo inglês, escreveu algumas de suas principais obras, como Prometheus Unbound e The Cenci, entre Roma e Veneza, durante o período de luto pela morte dos filhos Clare e William.

O próprio Shelley morreria na Itália, durante um naufrágio do seu barco, de Livorno e Pisa. O corpo deu à terra dias depois, ainda portando um volume com as poesias de Keats no bolso. Shelley seria cremado onde foi encontrado, às margens da praia de Viareggio, não sem antes o amigo Byron retirar o coração do poeta e entregá-lo à esposa Mary. As cinzas de Shelley foram depositadas no Cemitério dos Ingleses, em Roma, na curiosa companhia de Keats.

Na praia com Nietzsche
O turismo massivo não facilita as coisas, mas é possível encontrar poesia e filosofar sobre a vida em Sorrento, hoje menos conhecida por ter sido a escala de retorno do Grand Tour e mais pela qualidade do seu limoncello, o delicioso e intenso licor à base de limão (tipo siciliano, o limão verdadeiro, nome científico Citrus limon, também conhecido como limão eureka ou Lisboa), que bem poderia ter refrescado as ideias de Adorno, Benjamin e companhia.

A cidade é rapidamente acessada pelos trens urbanos da linha Circumvesuviana que serpenteia a Costa Amalfitana a partir da Estação Garibaldi, em Nápoles. A viagem dura cerca de 40 minutos e o bilhete custa € 3,90.

Os vagões da Circumvesuviana estão sendo paulatinamente trocados, mas ainda se corre o risco de viajar num dos modelos antigos, sem ar-condicionado, o que no verão pode ser sinônimo da sensação térmica da erupção do Vesúvio. Para não transformar o passeio num verdadeiro inferno, atenção à atuação dos jovens e ágeis pickpockets enquanto se admira a vista do vulcão.

Embora pareça mais cômodo, resista à tentação de chegar a Sorrento de carro. A curta distância de 53 quilômetros talvez dê uma ideia de que tudo será rápido, mas a viagem pode facilmente extrapolar duas horas, muito porque o belíssimo percurso pela estreita e sinuosa pista da costa raramente permite que se acelere para além dos 30 km/h. Estacionar também pode ser um problema. As poucas vagas nas ruas - ao valor de € 2 por hora - rapidamente esgotam-se na alta temporada e uma hora num estacionamento privado ronda os € 50.

Fundada sobre uma antiga vila etrusca oito séculos antes de Cristo, Sorrento mantém bem preservado o antigo centro do seu borgo medieval, com lojinhas e restaurantes, por onde os passageiros do Grand Tour circulavam antes de rumarem às mesas espalhadas pelas esplanadas da Piazza Tasso, o coração boêmio do balneário, onde está o Fausto Bar.

Embora a imagem de Nietzsche em traje de banho suscite arrepios, Sorrento tem um dos mais famosos lidos da Costa Amalfitana, num cenário de cinema, com águas azuis, cristalinas e tranquilas, onde é possível esticar-se nos lettini, sob a sombra de um colorido ombrelone. Porém, farmar uma legítima aura adorniana tem seu preço e o ingresso para um dia ao sol onde o seu poeta preferido se banhou não sai por menos de € 100 para uma família de quatro pessoas.

Se o orçamento não permitir tal luxo, concentre-se em admirar o magnífico - e ainda gratuito - pôr do sol a partir do miradouro da Piazza della Vitória, na companhia do busto de Máximo Gorki e de um delicioso gelado italiano.

Poseidon e muçarela de búfala
Embora um pouco fora de rota do Grand Tour, uma vez em Sorrento, se o tempo permitir, vale a pena uma esticada até Paestum, o mais bem conservado sítio arqueológico grego da Itália. Foi o que fez Nietzsche, que resumiu a grandeza da antiga cidadela grega como um lugar onde Deus tivesse construído a sua casa com enormes blocos de pedras.

A cerca de 100 quilômetros de Sorrento, chegar a Paestum é mais cômodo de carro do que de trem, que demanda algumas trocas de linha e pode custar impressionantes cinco horas de viagem.

Fundada sete séculos antes de Cristo pelos aqueus - aqueles mesmos, da Ilíada de Homero - Paestum era chamada de Possidônia, o que pode interessar aos pequenos fãs de Percy Jackson. Passou às mãos de Roma a partir de II a.C, o que faz do sítio uma simbiose entre impressionantes templos gregos e os prédios públicos e fóruns dos pragmáticos romanos.

Durante os séculos, Paestum foi caindo no esquecimento e alguns dos templos chegaram a ser usados como estábulos de fazendas. Na Segunda Guerra, hospedou uma base militar aliada da infantaria norte-americana, com soldados e tanques de guerra a transitarem entre as colunas jônicas. A importância histórica da antiga Possidônia foi reconhecida em 1998, quando se tornou Patrimônio Mundial da Unesco. Hoje, recebe cerca de 200 mil visitantes por ano.

O que nem Poseidon esperava era que a cidade dedicada a seu nome ficasse mundialmente famosa por outro motivo. Paestum é considerada a melhor produtora de muçarela de búfala da Itália, considerada um verdadeiro manjar dos deuses, incluindo, claro, os deuses gregos.

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