Turismo

Mitologia e história nos banhos nas fumarolas da Ilha de Ísquia

As termas naturais e os banhos de lama são atrações a mais da ilha do Golfo de Nápoles que remete a Eneida de Virgílio

TEXTO Álvaro Filho

19 de Agosto de 2026

Fotos Arthur Moreira/Cortesia

A cena é recorrente durante o filme: num luxuoso hotel balnear, sempre que se bate à porta, quem está dentro do quarto responde avanti!, permitindo a entrada. Não à toa, Avanti! é o título original da produção norte-americana de 1972, dirigida por Billy Wilder, que acabou por colocar no mapa um tesouro do Golfo de Nápoles, a Ilha de Ísquia, cenário da trama. 

Amantes à Italiana no Brasil, curiosamente o título do filme na Itália trocou o termo original roubado ao italiano por Che cosa è sucesso tra mio padre e tua madre?, um verdadeiro spoiler, pois revela o plot vivido por Jack Lemmon na pele de um industrial que segue a Ísquia para repatriar o corpo do pai morto, sem saber que o velho tinha uma amante italiana.

A raiz latina dividida entre o italiano e o português não deixa dúvidas, avanti! é um comando para que se avance e cabe muito bem como sugestão para se mergulhar em águas cristalinas e quentes para os padrões mediterrâneos e ainda curtir a charmosa agitação típica da vida noturna de um destino balneário no verão europeu. E não só. 

Uma vez nos arredores de Nápoles, então, não pense duas vezes: avanti! 

Todavia, a menção ao filme não é só por causa do título da obra que reedita a exitosa parceria Wilder-Lemmon de outros clássicos do cinema, como Quanto mais quente melhor e Se meu apartamento falasse. Embora não surjam créditos, as termas naturais e os banhos de lama de Ísquia são praticamente dois coadjuvantes à trama e atrações a mais da ilha. 

A rigor, Ísquia não é apenas uma ilha, mas um imenso vulcão ainda em atividade, só que sem a característica cratera. Uma caldeira natural, a cozinhar os resquícios de tufos e cinzas vulcânicas, o que explica as águas termais e a lama dos banhos. Se não há risco de novas erupções, vez ou outra um terremoto abala a tranquilidade local, o último deles em 2017. 

A atividade sísmica também é responsável pela água do mar alguns graus mais quentes do que no continente. E não só a água. Em algumas praias de Ísquia, a temperatura da areia pode rondar os 100º Celsius, como em Le Fumarole, onde os locais costumam cozinhar o almoço usando apenas a temperatura do areal. 

As fumarolas de Ísquia também se manifestam na forma de saunas naturais, como na Bocca de Tifeo, uma caverna por onde é expelido o hálito das entranhas vulcânicas. O nome remonta ao mito fundador da ilha, nascida da batalha de Zeus contra o titânico Tifeo, aprisionado no Monte Epomeo, o maior de Ísquia. Os tremores de terra, portanto, seriam o mostro tentando fugir da prisão e os vapores, a sua respiração.  

A prisão de Tifeo por Zeus é mencionada por Virgílio na Eneida. O que não está escrito é outro mito envolvendo a criatura gigante que, como tal, tinha os membros do corpo proporcionais a sua dimensão, inclusive, claro, o pênis. O que levou os locais num rompante digno da quinta série considerar os vapores vulcânicos, os suspiros de Tifeo, afrodisíacos. 

O filme se aproveita do mito quando o impagável concierge do hotel vivido pelo ator Clive Revill sugere a um emissário do governo dos EUA o famoso banho de lama de Ísquia, bom para a pressão arterial, má digestão e impotência masculina. A oferta gera interesse imediato no homem de meia idade, que deseja o tratamento, segundo ele, por sofrer de azia. 

O gerente então abre um sorriso sarcástico e, no sagaz estilo dos roteiros de Wilder, garante: “Não se preocupe, após um banho, você vai ter a azia de um homem de vinte anos!”. 


A menção a uma lenda envolvendo Zeus dá a dimensão histórica de Ísquia. Habitada desde oito séculos antes de Cristo por gregos, fenícios e etruscos, o povoado é tão antigo que era chamado Pithekoussai, ou a “a ilha dos macacos”. Mas atenção: para os sapiens helênicos, o pitheko não era o nosso irmão símio, e sim, os humanos que se assemelhavam a eles. Daí deriva o nome dados aos ancestrais australopithecus.  

A ilha foi o primeiro entreposto grego no ocidente, parte da Magna Grécia na Itália, que se estendia entre a Sicília, Calábria e a antiga Parthenope, que posteriormente daria lugar a uma nova cidade, ou neapolis, hoje Nápoles. Os registros desse rico passado estão no Museu Arqueológico Pithecusae, incluindo a mais antiga referência à epopeia Ilíada, de Homero. 

Descoberta numa das escavações arqueológicas no cemitério de San Montano de Ísquia em 1953, a Taça de Nestor é uma peça de 2.800 anos com 10 centímetros de altura por 15 de diâmetro, ornada por figuras geométricas. Nela se lê um pequeno poema que brinca com uma passagem da obra homérica, na mais antiga inscrição em grego que se conhece. 

Na Ilíada, a taça de Nestor, rei de Pylos Nestor, era monumental e restaurava as forças dos gregos na mitológica batalha contra os troianos. A modesta versão de Íschia promete algo mais prosaico do que vencer batalhas: o texto diz que daquela Taça de Nestor quem beber será possuído pelos desejos de Afrodite, a deusa do amor e do sexo. Ou seja, em bom grego antigo, o copo promete os divinos efeitos de uma Tadalafila

Quem anda atrás de uma taça para novamente ter a azia de um homem ou mulher aos vinte anos pode também experimentar a versão líquida de Tifeo, rótulo de um dos vários vinhos produzidos em Ischia, um tinto fruto de castas de piedirosso e guarnaccia, comuns na região italiana da Campania, bastante adaptadas ao solo vulcânico. 

Parece soar estranho que uma ilha tenha espaço para cultivar vinhedos, mas Ísquia está longe de ser um pequeno pedaço de terra cercado por águas por todos os lados. Com 46 quilômetros quadrados de área, é maior do que muitas cidades brasileiras, como Olinda, por exemplo. Isso faz com que, ao contrário das vizinhas Procida e Capri não “feche” durante o rigoroso inverno. 

Administrativamente, Ísquia pertence à província de Nápoles e é dividida em seis comunas, Serra Fontana, Lacco Ameno, Casamicciola Terme, Barano d’Ischia, Forio e Ischia, sendo as duas últimas as mais populosas, reunindo cerca de 28 mil dos cerca de 50 mil habitantes insulares. Ambas contam ainda com os dois principais portos da ilha. 

É possível chegar a Ísquia de barco a partir de vários pontos da Costa Amalfitana, como Sorrento e até Amalfi, mas a viagem mais rápida e frequente é mesmo do porto de Beverello, em Nápoles. O percurso de cerca de 30 quilômetros é cumprido em uma hora até o porto da comuna de Ísquia e leva outros dez até atracar em Forio. O bilhete varia de acordo com a temporada, mas ronda dos 30 aos 40 euros, ida e volta. 

A não ser que a hospedagem seja num hotel, pousada ou AirBnB à beira-mar, por se tratar de uma ilha vulcânica, mesmo que o Google Maps indique poucas centenas de metros de distância, é bem provável que uma ida à praia exija descidas e subidas, às vezes, íngremes e por caminhos tortuosos. 

Ou seja, viajar com crianças, idosos ou na companhia de pessoas com mobilidade reduzida pode exigir o aluguel de carros durante a estada na ilha. As diárias oscilam entre 30 e 50 euros e quase todas as praias têm um estacionamento pago por perto, ao custo de cerca de 2 euros por hora. Estacionar no centrinho das comunas, como Ísquia e Forio, pode exigir paciência. 

Os mais dispostos podem recorrer ao satisfatório sistema de transporte público de Ísquia, que liga de ônibus os 40 quilômetros do perímetro da ilha, às vezes se metendo em lugares onde se duvida consiga sair. Com a exceção dos centros urbanos, as calçadas e acostamentos podem simplesmente não existir, por isso, preste atenção antes de decidir seguir a pé. 

Quanto aos banhos térmicos, há algumas opções gratuitas como a já citada Le Fumarole ou ainda nas baías de Sorgeto e Cartaromana. O mais famoso, entretanto, o Jardim de Poseidon, é pago e bem pago. A entrada custa 50 euros e dá acesso a mais 20 piscinas termais, de água salgada, e centros terapêuticos, uma praia privada e restaurantes. 

Os mais dispostos podem ainda tentar um mergulho até as ruínas de Aenaria, cidade erguida já após a tomada romana de Ísquia, em 400 antes de Cristo. Uma violenta erupção do vulcão Cretarius teria afundado Aenaria no mar Tirreno por volta de 180 d.C. Durante séculos, a história parecia um mito até que em 2011 seus vestígios foram encontrados. A aventura pode custar 80 euros, incluindo o passeio de barco e o aluguel dos equipamentos de mergulho.

Se já gastou para além do orçamento, uma opção quase de graça é um banho de mar aos pés do imponente Castelo Aragonês. A fortaleza começou a ser construída 474 a.C. por Hierão I de Siracusa, mas só ganhou o atual aspecto de muralha medieval no século XV nas mãos de Afonso V de Aragão, durante o domínio espanhol no sul da Itália.

Durante o verão, os turistas costumam atravessar a ponte que liga a ilha ao castelo e para se bronzear e banhar-se ao lado dos locais, tendo o colossal monumento como companhia. Água cristalina e quente, além de milhares de anos de história. Ísquia convida, portanto, a seguir o conselho do filme e avanti!.

 

 

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