Turismo

Orvieto: a cidade que inspirou uma teoria freudiana

TEXTO Álvaro Filho

19 de Agosto de 2026

Fotos Arthur Moreira/Cortesia

Uma muralha medieval como tantas na Itália, mas não se engane, sob os seus pés escondem-se doze séculos de história e outras interessantes surpresas. Eis Orvieto, erguida pelos etruscos, destruída pelos romanos, renascida na Idade Média e surpreendente preservada até os dias de hoje. Uma cidade que inspirou uma importante teoria freudiana e que através de uma inusitada tradição gastronômica pode curar traumas ou fobias relacionados aos pombos.

Incrustada num platô vulcânico na região da Úmbria, a uma hora de trem de Roma - um pouco mais de carro -, Orvieto é um destino que muitas vezes escapa dos guias turísticos da Itália, uma alternativa para quem deseja escapar das multidões nas ruas e filas em frente a monumentos e restaurantes, e admirar com calma as impactante arte e arquitetura renascentista italiana.

Foi o que fez Sigmund Freud na primeira das três passagens por Orvieto, em 1897, durante uma viagem entre a Áustria e a Herzegovina, ao sul da Bósnia, nos Balcãs. Uma placa no número 36 da Corso Cavour, ao pé da Piazza della Republica, indica onde antes funcionava o Hotel delle Belle Arti, no Palazzo Bisenzi, atualmente aberto ao público como centro cultural.

Do hotel onde se hospedava, Freud estava a uma curta caminhada do grande monumento de Orvieto, o Duomo, uma catedral cuja a magnífica fachada estende-se por 53 metros de altura e ombreia em beleza e trabalho artístico com outros famosos duomos italianos, como o de Milão e de Florença. O prédio abriga ainda os impressionantes afrescos do toscano Luca Signorelli, que teriam inspirado nada menos que Michelangelo ao pintar o teto da Capela Sistina.

Só este “detalhe” bastaria para incluir Signorelli entre os grandes do renascentismo italiano, mas o que o pintor não suspeitava era que séculos depois o seu nome também estimularia a obra de um outro grande mestre - esse da psicanálise - batizando o primeiro dos famosos deslizes dos inconsciente identificados por Freud, o Lapso de Signorelli.

Relatado no clássico Psicopatologia da vida votidiana, publicado um ano após a viagem a Orvieto, o também chamado Caso Signorelli resumidamente aborda a artimanha do inconsciente em “apagar” alguns nomes da memória, ou melhor, do consciente. Freud começou a elaborar a tese ao comentar sobre a beleza dos afrescos com uma companhia de viagem, mas ao tentar se referir ao pintor, o único nome que lhe vinha à cabeça era o de Botticelli.

O mecanismo do lapso é intricado e passa pelo jogo de palavras que envolvia o signore no nome do pintor - “senhor” em italiano e herr em alemão - que por sua vez envolvia os relatos de um colega de Freud na (Herr)zegovina sobre a relação entre sexo e morte dos seus pacientes turcos. Botticelli entraria de gaiato na história graças ao fonema Bo em Bósnia.

Jacques Lacan posteriormente retomaria o Caso Signorelli numa análise mais ampla a partir do magnífico afresco no Duomo de Orvieto, o Giudizio Finale ou Juízo Final, encomendado para Signorelli por 600 ducados, além de pagamentos mensais em milho e vinho. O trabalho levou de 1499 a 1504 para ser feito e depois de muito milho e vinho, o resultado é uma obra vultosa que inclui anticristos, o fim do mundo, o paraíso, o inferno e a ressurreição da carne.

Segundo Lacan, a tal Resurrezione della carne, com anjos com trombeta e corpos de homens e mulheres nus, estariam no xis do lapso freudiano. Sexo, pecado, punição, inferno, como na carta do amigo bósnio sobre os seus pacientes turcos. O fato de o tal anticristo na pintura ser judeu como Freud foi a gota d’água para o inconsciente embrulhar tudo e desaparecer com aquilo.

Freud falou sobre quase todas as nossas noias, embora não tenha tratado especificamente da ornitofobia, a fobia a pombos e aves em geral. Mesmo assim, é bem capaz de Orvieto ser a chave para uma possível cura ao medo. Assim como em outras regiões da Úmbria, a popular ave às vezes pejorativamente chamada de “rato voador” é considerada uma iguaria e está presente no menu da maioria dos restaurantes da muralha.

A predileção pelo pombo - não os que tranquilamente passeiam na praça em frente ao Duomo, mas no prato - tem uma explicação histórica. Tudo começa muito antes dos romanos, aliás, muito antes de Cristo, doze séculos atrás para ser mais preciso, quando um povo oriundo da Etrúria, uma região que se estendia pelas margens do rio Tibre, fez de lar o platô vulcânico onde hoje é Orvieto.



Os etruscos remontam à Idade do Bronze, porém foram os primeiros povos da Península Itálica a forjar o ferro. A habilidade com os metais permitiu a execução de uma obra impressionante. Para fins de proteção contra invasões e, principalmente, para encontrar água no árido solo vulcânico, construíram uma verdadeira cidade subterrânea, um conjunto de cavernas que se espalha pelos 10 quilômetros quadrados onde hoje se encontra a muralha medieval.

Literalmente, uma cidade embaixo da outra. São cerca de 1.200 cavernas, ou seja, não raro cada casa na atual Orvieto tem acesso a uma antiga cave etrusca no seu subsolo, devidamente monitorada pelo governo, que restringe o uso pelos moradores apenas para estoque de alimentos ou ainda uma milenar adega. Mas nem sempre foi assim.

Após a invasão romana e a eliminação dos etruscos no platô, trezentos anos antes de Cristo, Orvieto permaneceu soterrada até ser redescoberta na Idade Média, no século XIV. A construção da cidade atual - incluindo a própria muralha, a imponente Torre del Moro e partes do monumental Duomo - foram feitas a partir do tufo, o material vulcânico escavado do subsolo e que, misturado à água, produzia uma espécie de cimento. 

As escavações foram proibidas no final do século XIX, a fim de evitar que a cidade de cima desabasse sobre a debaixo. Hoje, apenas os arqueólogos cavam o underground de Orvieto, encontrando algumas curiosidades, como rudimentares lagares para a produção de azeites, e mais curioso ainda, centenas de pombais.

Após a Peste Negra, quando a fome assolou a Europa, os moradores de Orvieto recorreram aos pombos como alimento. Os pombais subterrâneos traziam uma janela na muralha, por onde as aves saíam para se alimentar e retornarem à noite. Os proprietários tinham então no subsolo de casa, praticamente a custo zero, uma fonte tanto de proteína - carne e ovos - quanto de renda, pois o excedente, incluindo as penas, era comercializado dentro da Urbs Vetus.

A espécie de delivery medieval funcionou até o papa Urbano VIII ordenar em 1632 o fim dos pombais. A justificativa oficial era  a proteção do burgo, pois teoricamente as janelas permitiam a entrada de invasores, mas há quem desconfie que o embargo papal teve um motivo menos nobre: impedir o contrabando de produtos para dentro da muralha sem passar pela alfândega na entrada principal e a consequente fuga dos impostos.

Fato, mesmo, é que os pombos seguiram a fazer parte da mesa em Orvieto após o veto papal e é bem provável que Freud tenha experimentado a iguaria, em nome da ciência. Hoje, o mais famoso restaurante orvietano faz uma homenagem à ave, a trattoria La Paloma, fundada em 1956, gerida pela terceira geração da família Cinti. Há ainda a Tipica Trattoria Etrusca e suas mesas na parte externa com vista para o Duomo.

Para quem deseja experimentar - ou evitar a todo custo - comer um pombo, é bom prestar atenção ao termo piccione no menu, a grafia da ave em italiano. O La Paloma oferece o Piccione alla Leccarda, cozido com especiarias ao vinho tinto, servido numa leccarda, uma típica travessa de bronze em formato oval e alongado.

Já a Tipica Trattoria Etrusca promete o Piccione all’ Orvietana, à moda da casa portanto, com o a ave recheada com pão e salsicha de porco, cozida lentamente ao vinho tinto por cinco ou seis horas. Há ainda a alternativa do Piccione Brazzato, literalmente o pombo na brasa, servido feito o nosso tradicional galeto de padaria.

Aos menos corajosos ainda assim é possível aproveitar a passagem e tentar algo exótico, como o Coniglio all’Etrusca, um prato à base de carne de coelho cozido com ervas, olivas e vegetais - exceto o tomate, pois na época dos etruscos ainda não havia sido introduzido na Europa - ou um Parpadelle de cinegaglia, uma espécie de bolonhesa de javali. Os garfos mais conservadores podem sempre recorrer a um molho de tomate com umbricelli, a pasta típica da Úmbria.

 Falando em coragem, é sempre possível fazer um tour pela cidade subterrânea de Orvieto. O passeio leva cerca de uma hora, mas é importante novamente recorrer a Freud para lembrar que alguns túneis estreitos pelo caminho não são recomendados aos mais claustrofóbicos.

 Outra descida imperdível é o impressionante Pozzo de San Patrizio, um imenso poço medieval ordenado em 1527 pelo papa Clemente VII a fim de abastecer a muralha. A estrutura tem 52 metros de profundidade, o equivalente a um prédio de 18 andares, e além do visual gótico proporciona um curioso efeito acústico no seu interior. A desafiadora subida na volta é só para reforçar que Orvieto é mesmo uma cidade de tirar o fôlego.

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