Olinda Negra: um roteiro afroturístico premiado
O passeio foi criado pelo Afoxé Alafin Oyó para contar a história da população negra na cidade
TEXTO Cleide Alves
12 de Março de 2026
Caminhada Olinda Negra no Largo do Amparo
Foto Leopoldo Conrado Nunes/Cepe
Um roteiro turístico não convencional está atraindo visitantes à cidade de Olinda, que completou na quinta-feira (12/3), 491 anos de fundação. O trajeto é musicado e realizado a pé, pelo Sítio Histórico, mas nesse passeio as pessoas são convidadas a conhecer lugares com significados para a população negra. Com cerca de duas horas de duração, a caminhada começa no Mercado da Ribeira e termina na praça ao lado da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.
“Fui guia-mirim em Olinda, nos anos 1990, e apresentava aos turistas a pomposidade escravocrata da cidade, agora, estou recontando a história pela ótica negra”, declara Fabiano Santos. Ele é presidente da Associação Recreativa Carnavalesca Afoxé Alafin Oyó, idealizadora da Caminhada Afroturística Olinda Negra. O projeto é um dos vencedores do 1º Prêmio Rotas Negras (2026), promovido pelo Ministério da Igualdade Racial para reconhecer iniciativas que evidenciam o legado africano.

Na manhã da quinta-feira (12), o Alafin fez um percurso em homenagem ao aniversário de Olinda. “Estamos no Mercado da Ribeira, um monumento do século XVII, que se tornou um espaço da cultura popular na década de 1980, mas acredita-se que aqui eram vendidas pessoas escravizadas”, afirma Mirela Cavalcanti, integrante do afoxé, no início da caminhada, por volta das 8h30. O Alafin Oyó, primeiro grupo a ocupar o mercado, tem o orixá Xangô - senhor da Justiça - como regente, diz ela.
As ruínas do Senado de Olinda, em frente ao mercado, também estão incluídas no roteiro e os guias da caminhada chamam a atenção para um detalhe pouco divulgado na história brasileira. “Bernardo Vieira de Melo, militar que atuava nessa casa legislativa (conhecido por ter dado o primeiro grito de República no Brasil, em 10 de novembro de 1710), participou do último ataque ao Quilombo dos Palmares, no século 17”, destaca Bernardo Sena, integrante do Alafin Oyó.

Do mercado, o grupo seguiu para os Quatro Cantos, o cruzamento mais famoso do Sítio Histórico, por onde passam quase todas as agremiações no Carnaval. “Para os seguidores da religião afro-brasileira, aqui é uma encruzilhada, uma espaço para deixarmos nossos pensamentos positivos de paz. No nosso primeiro desfile, 40 anos atrás, o Alafin foi agredido ao passar pelos Quatro Cantos, por se tratar de pessoas negras e por causa das nossas roupas”, relata Bernardo Sena.
O percurso continua pela Rua do Amparo, com paradas no Grêmio Musical Henrique Dias, que desenvolve projeto social com crianças carentes. A escola leva o nome de um homem negro que participou das batalhas dos luso-brasileiros contra os holandeses, no século XVII. “Foi um dos primeiros negros a receber soldo pelo trabalho executado e se destacou entre os brancos por sua bravura”, informa Mirela Cavalcanti.

Ainda na Rua do Amparo, o grupo fez uma parada inesperada, para prestar homenagem a Benedito da Macuca (foto acima). Sanfoneiro das ladeiras de Olinda e Patrimônio Vivo de Pernambuco, ele via a vida acontecer, sentado numa cadeira na calçada da Bodega de Véio, e acabou entrando no roteiro. “Nossa caminhada nunca é igual, não podemos essas surpresas no caminho, seu Benedito é uma figura representativa da cidade e do Estado”, diz Bernardo Sena.
A história do compositor de frevo Lídio Macacão (1892-1961) faz parte da narrativa da caminhada. “Ele era negro, empalhador de cadeiras, morador de Guadalupe, gostava de andar bem vestido e trocava o pagamento do serviço por roupas alinhadas, essas informações devem ser repassadas”, ressalta Mirela Cavalcante. Lídio Macacão é autor, entre outras, da canção “Música, Mulheres e Flores”, interpretada pelo Clube Vassourinhas de Olinda.
“Sou de Olinda e não conhecia as entrelinhas da nossa história, a gente sempre conhece a versão contada pelo colonizador, a caminhada superou as minhas expectativas”, comenta a professora Rafaella de Melo, que participou da rota afroturística. “É uma proposta diferente, feita para o turista menos convencional, pois está mais focada no patrimônio imaterial e traz outro tipo de abordagem, gostei bastante”, diz Tiane Pacheco Lovatel, que trabalha com educação em Porto Alegre (RS)
NOVOS CAMINHOS
De acordo com Fabiano Santos, a caminhada Olinda Negra surgiu em 2019, com dois roteiros: Mercado da Ribeira-Bonsucesso e Mercado da Ribeira-Carmo, na sede do Alafin Oyó. O projeto se expandiu para a Caminhada Pernambuco Negra e novos trajetos estão sendo gestados. São cinco rotas de maracatus no Recife, nos bairros de Água Fria, Alto José do Pinho, Linha do Tiro, Bomba do Hemetério e Chão de Estrelas. E três em Olinda, nos bairros do Amaro Branco, Guadalupe e Bonsucesso.
“Já iniciamos a coleta de dados e estamos descobrindo histórias que só eram conhecidas nas comunidades e, agora, vão ganhar visibilidade”, declara Fabiano Santos. Informações sobre as caminhadas no Instagram @pernambuconegra e @alafinsoueu.
CLEIDE ALVES, repórter das revistas Continente e Pernambuco