Turismo

Paudalho: um destino que une fé, natureza e história

O município é um lugar de romaria e de ecoturismo. Neste sábado, 30 de maio, haverá trilha noturna para contemplação da Lua Azul no Villa d'Águas.

TEXTO Cleide Alves

27 de Maio de 2026

A Igreja de Nossa Senhora da Luz é uma construção do século XIX, com acréscimos

A Igreja de Nossa Senhora da Luz é uma construção do século XIX, com acréscimos

Foto Leopoldo Conrado Nunes/Cepe

Está em Paudalho, na Mata Norte de Pernambuco, um dos maiores centros de romaria do Nordeste. E você sabe a origem dessa história? Tudo começou com um presente dado à mãe pelo filho padre que estudava em Roma, na segunda metade do século XIX. A lembrança de viagem que ele trouxe era uma imagem de São Severino deitada num caixão de zinco. A mãe, é claro, exibia o mimo a todos os amigos que recebia em sua propriedade, o Engenho Ramo.

Mas aí, um amigo paraibano resolveu fazer um pedido ao santo, alcançou a graça e trouxe um bezerro como pagamento da promessa. Pronto. Foi o suficiente para a história do santo milagreiro de Paudalho - São Severino do Ramo - se espalhar pelo vento. Hoje, na alta temporada, que vai de setembro a abril, o santuário acolhe até 25 mil pessoas só num dia de domingo. Se for o Domingo de Ramos, que abre a Semana Santa, esse número quase triplica.

“Recebemos 60 mil pessoas no Domingo de Ramos de 2026”, declara o historiador e secretário de Cultura e Turismo de Paudalho, João Batista Silvino. De acordo com ele, o São Severino do Engenho Ramo (foto aacima - Leopoldo Conrado Nunes/Cepe)era um italiano do século V, um soldado romano que trocou o imperador para seguir o critianismo e, por isso, acabou sendo martirizado e morto. A imagem que atrai multidões fica num altar lateral da Igreja de Nossa Senhora da Luz, a antiga capela do engenho.

Quando setembro chegar a Paudalho, este ano, os romeiros vão encontrar o Santuário de São Severino do Ramo de cara nova. “Fizemos a recuperação do telhado da igreja, substituímos a rede elétrica, trocamos a iluminação e agora estamos pintando as paredes”, detalha João Batista Silvino. A obra, orçada em cerca de R$ 13 milhões, com recursos da Codevasf, inclui a construção de um centro comercial e outro gastronômico com 500 boxes de alvenaria (foto abaixo - Leopoldo Conrado Nunes/Cepe).

O novo centro vai abrigar os comerciantes que vendem de tudo o que você imaginar - de artigos religiosos a panelas - e no momento trabalham em precárias barracas de tábua em volta da igreja. No mesmo ambiente, haverá espaço adequado para ambulantes, banheiros de apoio aos romeiros e um grande pátio com arquibancadas para realização de missa campal. “Precisamos fortalecer o turismo, mas principalmente cuidar do romeiro, o que segura o santuário é a fé das pessoas que rezam e pedem a intercessão de São Severino.”

O santuário foi desapropriado pela prefeitura em 2023, a primeira etapa da obra começou em 2024 e a previsão de encerramento é setembro de 2026. Com o centro romaria renovado, a expectativa é aumentar o tempo de permanência dos visitantes em Paudalho. O município, distante apenas 37 quilômetros do Centro do Recife, tem outros atrativos religiosos, históricos, culturais, gastronômicos e paisagem rural (ver matéria no aplicativo da revista Continente).

Um deles é a antiga estação ferroviária, inaugurada em 1881, no Centro. No prédio, funcionam o Arquivo Público e um museu (foto acima - Leopoldo Conrado Nunes/Cepe), com entrada gratuita. Na área externa há um teatro para apresentações artísticas ao ar livre e um bosque criado com o replantio de pés de pau-d’alho. Internamente, o visitante encontrará um museu com estátuas de deusas greco-romanas do antigo cineteatro municipal, o relógio de ponto da estação e pinhas decorativas de casarões de engenho de açúcar. Em 1907, Paudalho tinha 62 engenhos.

Casarão da Barragem do Orá

O município desponta como novo destino turístico na Mata Norte e tem opções para quem procura sossegar e relaxar a mente. Essa é a proposta do Villa d’Águas, que reúne cultura, história, gastronomia e natureza em uma área de 210 mil metros quadrados (21 hectares). Por enquanto, oferece programação aos sábados e domingos, sem pernoite, mas deverá ampliar os atendimentos com a inauguração de chalés e ecopousadas para locação, ainda este ano.

Área particular de ecoturismo, o Villa d’Águas ocupa as terras do antigo Engenho Lavagem e vem chamando a atenção pelo casarão redescoberto às margens da Barragem do Orá. É um sobrado de dois pavimentos, do início do século XX, construído por José Pinheiro Ramos (Seu Zumba), prefeito de Paudalho em duas gestões, de 1883 a 1886 e de 1900  (foto abaixo - Leopoldo Conrado Nunes/Cepe)a 1904. Uma data na fachada indica que a casa foi erguida de 1926 a 1928.

“Era a casa de campo do prefeito, nunca foi a residência oficial. Não é enorme, as pessoas chamam de casarão porque ela ganha imponência com a barragem”, observa Leonardo Ramos. Ele adquiriu a propriedade em 2002 e restaurou o sobrado, que fica aberto apenas para visitação. “A grande quantidade de janelas na casa favorece a ventilação, mas no passado era um símbolo de riqueza, quanto mais janelas, mais rica era a família”, observa.

Completam o bucólico cenário a antiga moradia do feitor, de 1927, uma área verde com pés de ipês, algaroba, eucalipto, pau-brasil, sapoti e pitomba, entre outros, um redário com capacidade para sete redes e um local onde são acesas fogueiras à noite. Neste fim de semana, em volta da fogueira (foto abaixo - Leopoldo Conrado Nunes/Cepe), haverá contemplação da Lua Azul. É um fenômeno raro e tem esse nome para indicar a segunda lua cheia em um mesmo mês. Isso ocorre a cada dois ou três anos.

A casa do feitor também foi recuperada e abriga um empório gastronômico. Todo mês, um chef de cozinha diferente é convidado para criar um prato. O chef só vem um dia, mas o prato do Villa Paisagem e Sabores permanece o mês inteiro no cardápio. “Ele prepara nesse dia e treina a nossa equipe para executar depois”, diz o gestor do restaurante, Rafhael Diniz. Frutas da propriedade, como cajá e limão, são aproveitadas em sucos no restaurante.

Nos últimos 24 anos, Leonardo Ramos vem plantando mudas de diversas espécies vegetais no terreno. “Temos estágios diferentes de reflorestamento, que são contemplados numa trilha de seis quilômetros pela mata”, destaca. As trilhas e passeios de caiaque são realizados pela manhã e à tarde. “Em parceria com a Universidade Federal de Pernambuco, vamos desenvolver o projeto de uma embarcação autônoma e sustentável”, afirma o empreendedor.

“Também vamos implantar um pólo esportivo com duas quadras de tênis, um mini campo, pista para caminhada e corrida e três museus, dedicados à arte sacra, ao barro e aos antigos engenhos de açúcar”, avisa Leonardo Ramos. O Villa d’Águas fica a 12 quilômetros do Centro de Paudalho e a igual distância do Centro de Carpina, município da mesma região, conhecido pela gastronomia, que vai da comida caseira de boteco aos rodízios de carne.

A Barragem do Orá (oficialmente Barragem de Cursaí) é um reservatório de abastecimento d’água, inaugurado em 1983. Tem capacidade para armazenar 13 milhões de metros cúbicos de água. “Foi construída nas gestões dos governadores Marco Maciel e Roberto Magalhães”, diz Leonardo Ramos. Na propriedade há animais, como sagui, iguana e jacaré-de-papo-amarelo.

Fé, tradição e cultura

É com base nesses três pilares - fé, tradição e cultura - que as secretarias de Cultura de Paudalho, Carpina e Tracunhaém estão desenhando, com o Sebrae, o projeto de um roteiro turístico para aumentar o tempo de permanência dos visitantes nos municípios. “Estamos identificando os atrativos de cada lugar e o número de leitos que a região oferece, vamos mapear e detalhar tudo no Salão de Turismo da Mata Norte, que será realizado no segundo semestre”, declara o gerente de Unidade da Zona da Mata do Sebrae-PE, Alexandre Alves.

A Mata Norte, diz ele, tem personagens históricos e é propícia ao turismo cultural, de tradição, religioso, de história e de gastronomia. “Falta criar o produto turístico para ser comercializado pelas operadoras de viagens”, afirma Alexandre Alves. Operadoras e agências serão convidadas para testar o roteiro e fazer ajustes. A ideia é explorar os atrativos dos três municípios de forma integrada. “Quem vai à romaria de São Severino, pode visitar o artesanato de Tracunhaém e desfrutar da gastronomia de Carpina”, destaca.

Serviço

Villa d’Águas

Contato: acessar o Instagram oficial (@villadaguas) para agendar as visitas

Valor: R$ 60 (preço promocional com 50% de desconto, temporariamente). Gratuito para crianças abaixo de 5 anos

Entretenimentos: Trilha, caiaque, visita ao casarão e passeio de carrinho elétrico

Estação ferroviária: Praça Santa Tereza, no Centro

Horário: 8h às 16h (segunda a sexta) e 9h às 15h (sábado)

Acesso: Gratuito

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