Tradução

Quem tem medo de desistir?

A ginasta Simone Biles, a tirania da performance e o receio de dizer não

TEXTO CARLOS FERRAZ
ILUSTRAÇÕES MAURICIO PLANEL 

03 de Janeiro de 2022

Ilustração Mauricio Planel

[conteúdo na íntegra nas edições impressa e digital | ed. 253 | janeiro de 2022]

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Após o adiamento por um ano em virtude da Covid-19, as Olimpíadas de Tóquio saíram do papel suscitando emoções ambíguas. De um lado, medo e revolta com um possível agravamento dos níveis de infecção, ocupação hospitalar e letalidade da virose. Preocupações cujos resultados finais demonstraram não ser infundadas. De outro, nostalgia e ânsia por ver o noticiário novamente dominado pelo belo, o incrível e o raro. De pão e de circo também é feita a vida. E os 15 dias de jogos ofertaram as desejadas exibições do maravilhoso. 

Os bônus desta edição foram além de recordes quebrados e atuações memoráveis. Houve gestos de desprendimento, colaboração e altruísmo. Dois atletas do salto em altura, Gianmarco Tamberi, da Itália, e Mutaz Barshim, do Qatar, adversários e grandes amigos, chegam à final como os mais bem classificados. Empatam na marca dos 2,37 m e realizam com afinco as três tentativas de praxe visando superar os 2,39m, mas sem um vencedor. Frente à opção de baixar o sarrafo e voltarem à disputa, decidem, para surpresa de todos, não desempatar, o primeiro lugar e o ouro em uma celebração entusiasmada e comovente, de puro fair play.

Nessa mesma atmosfera se encontravam os atletas do skate que torceram animadamente pelos seus rivais. Camaradagem que revelava não serem antônimas as ações de competir e cooperar. O skate é mais do que uma mera modalidade esportiva. É um estilo de vida criativo, descontraído e desafiante. Por último, no atletismo, desnorteado e aflito ao perceber ter confundido o estádio de sua competição, o velocista jamaicano Hansle Parchment recebe o auxílio da voluntária Trijana Stojkovic, que não só o orienta como lhe empresta o dinheiro para o táxi, a fim de que chegue a tempo ao local correto da prova. Dias depois, Parchment revisita Trijana, trazendo consigo uma medalha de ouro, um presente, os dólares emprestados e os seus sinceros agradecimentos. Parece estarmos falando de personagens de Rubem Braga, em As boas coisas da vida. Mas, dessa vez, são da vida real. Se é que cabe chamarmos de vida real uma Olimpíada.

Embora alavancada por evidentes interesses geopolíticos, publicitários e empresariais, o maior evento poliesportivo do mundo produz mais do que lucros, poder político, rivalidades e vaidades, de indivíduos e grupos. É uma grande festa que congrega o planeta em torno do esforço e do talento humanos para a prática de habilidades singulares e de superação de limites. Evoca de pronto uma atmosfera de disponibilidade favorável ao inusitado, ao raro e ao exemplar. Em Tóquio, acontecimentos do gênero vieram à tona, mas não só na clave do que suscita aplausos, sorrisos e lágrimas, também na que desperta respeito, cuidado e reflexão. A multipremiada ginasta dos Estados Unidos, Simone Biles, decide abandonar as provas movida por problemas emocionais de natureza depressiva e ansiosa.

Caso semelhante havia ocorrido recentemente em Roland Garros. A tenista Naomi Osaka, campeã de quatro títulos do Grand Slam, resolveu interromper a sua participação no evento após episódios de estresse agudo em entrevistas coletivas. No US Open, estendeu a decisão de afastamento para todo o circuito, por tempo indeterminado. De Osaka e Biles eram aguardadas novas conquistas e premiações. Mas a conjugação inusitada entre o corpo das proezas e das vulnerabilidades as posicionou na encruzilhada entre a glória, o patriotismo, a opinião pública e a saúde psicológica, posta em risco ou já debilitada. Duas atletas de ponta, com chances reais de vitória optaram pelos cuidados pessoais e incorporaram à gramática dos esportes de alto rendimento o verbo desistir.

Até estes incidentes, o público seguia convicto de que nada poderia retirar de uma prova um atleta de alto nível a não ser uma lesão física incapacitante, doping ou decisões de ordem política. Razões emocionais estavam fora do script. Estávamos acostumados a esperar de atletas esforços sobre-humanos, expressões de abnegação e de sacrifício.

À bravura dos incansáveis, somavam-se as performances brilhantes de inúmeros atletas da atualidade e de figuras emblemáticas do rol da fama, transmitindo a ideia de que era possível executar as estratégias e os movimentos com naturalidade e sem maiores transtornos. Pareciam suficientes treino, talento, determinação e vontade. Ledo engano.

Em 1956, na crônica Freud no futebol, Nelson Rodrigues já antevia o necessário cuidado com a alma para o bom desempenho de atletas profissionais. Pensando na seleção brasileira de futebol após o vexame na final de 1950 com o Uruguai, em um Maracanã lotado, comentou: “Cuida-se da integridade das canelas, mas ninguém se lembra de preservar a saúde interior, o delicadíssimo equilíbrio emocional do jogador (…) – Já é tempo de atribuir-se ao craque uma alma, que talvez seja precária, talvez perecível, mas que é incontestável (…) quem ganha e perde as partidas é a  alma(…). – fomos derrotados por uma dessas tremedeiras obtusas, irracionais e gratuitas. (…) teríamos sido campeões do mundo, naquele momento, se o escrete houvesse frequentado, previamente, por uns cinco anos, o seu psicanalista”.

À frente de seu tempo, Nelson Rodrigues imaginava uma ferramenta fundamental para o esporte competitivo. Sabia que atletas se veem diante de tarefas que requerem todas as suas forças e habilidades, físicas e mentais. Estão em constantes testes de seus limites, e miram em uma janela de oportunidades e de sucesso estreita e alta. Assim é constituída a arena das disputas: sangue, suor e lágrimas, sem triunfos finais para a grande maioria dos competidores. O foram felizes para sempre se aplica a bem poucos. É a escassez que sustenta a glória.

O ambiente competitivo adquire facilmente ares tirânicos e inumanos, criando as condições ideais para o desencadeamento de quadros de dor crônica, ansiedade, burnout e depressão. Um delicado trabalho necessita ser feito para lapidar e transformar a tensão, o desgaste, a frustração, a impressão de incapacidade mental e física e o medo de decepcionar em força, desejo e esperança. Não é tarefa fácil, nem mesmo para especialistas.

Um alerta foi dado no sentido da humanização do regime de preparação de atletas de alto nível e da inclusão do treinamento psicológico na linha de frente das preocupações e do planejamento estratégico. Ficou claro que vocação, talento e preparo físico, tático e técnico não impedem falhas no imprevisível e delicado sistema de regulação emocional do organismo humano. As mudanças aspiradas há décadas por Nelson Rodrigues se tornaram urgentes. Mas as provações em foco excedem soluções individuais e contextos esportivos. Há um problema estrutural na cultura.

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As queixas de Naomi Osaka e Simone Biles resumem o vivido dos indivíduos contemporâneos, somadas e subtraídas as diferenças de posição e status. Disse Osaka: “Eu penso que nunca sou boa o suficiente. Eu nunca disse a mim mesma que eu fiz um bom trabalho, mas eu sei que constantemente eu digo a mim mesma que eu sou ruim ou que poderia ter feito melhor (…) eu acho que sou extremamente autodepreciativa”. (…) “Sinto também que não estou me divertindo tanto quanto antes”. (…) “Estou neste ponto em que preciso descobrir o que quero fazer”.

Simone Biles, por sua vez, afirmou: “Eu simplesmente não confio em mim tanto quanto antes. E não sei se é a idade, mas fico um pouco mais nervosa quando faço ginástica”. O que ambas dizem, em uníssono, é o que ouvimos na clínica: “não sou tão boa quanto gostaria”, “não sei se estou à altura do que faço”, “não tenho certeza de que gosto de minha rotina profissional”, “não confio mais em mim mesmo”, “preciso descobrir o que quero de minha vida”.

Os incômodos das atletas se parecem com os de todos nós. Afinal de contas, do lado de fora dos estádios, a vida contemporânea segue uma cadência semelhante. O atleta encarna e realiza os nossos valores mais fundos. É o que gostaríamos de ser no contexto de nossas arenas de disputas, competições, comparações e exigências. Em seus infortúnios, enxergamos os nossos pequenos dramas. E nos cenários que compartilhamos, um imperativo de sucesso e felicidade funciona como um dever contínuo e exorbitante, mascarado de necessidade pessoal e talhado para sonegar a paz e o ato espontâneo do desejo.

O resultado afetivo decorrente da consecução do dever é, se bem-sucedido, alívio, e caso frustrado, decepção e sofrimento. Foi o que disse literalmente Naomi Osaka: “Eu sinto que, quando ganho, não fico feliz. Sinto mais um alívio. E, quando perco, fico muito triste. Não acho que isso seja normal”. A exigência de ter que dar certo oprime de atletas a cidadãos comuns, salvo raríssimas exceções. O ganho já não é comemorado como vitória, mas como mera obrigação. A derrota pesa muito mais do que uma nova conquista. Não há mais prazer em ganhar, apenas medo de perder. E fica ainda pior quando se carrega nas costas o paradoxal peso de uma história de êxitos e triunfos.

Nostálgica, Osaka devaneia: “Eu acho que o que eu estou tentando dizer é que eu vou tentar celebrar mais a mim e a minhas conquistas. (…) Tipo, a escolha de ir lá e jogar, de ir ver os fãs, aquelas pessoas vêm me ver jogar, isso por si só é uma conquista”. O esforço para gostar do que deveria ser apreciado naturalmente lembra-nos da crônica de Clarice Lispector, Por não estarem distraídos. Os personagens, um casal de amantes, sentiam: “a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta (…) Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não”. O que gerou a mudança? Responde o narrador: “Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles (…) Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham (…) porque quiseram ser, eles que eram”.

A deliciosa experiência de estarmos distraídos é a primeira que se perde sob o jugo da exigência. Como antes Osaka na relação com seus fãs, os protagonistas de Lispector sabiam fazer companhia um ao outro até o dia em que passaram a desejar ser o que já eram e planejar fazer o que já faziam. O que poderia levar alguém a querer realizar o que já realiza?

Talvez o autocontrole dos perfeccionistas quando aspiram a parar o tempo e a repetir ipsis litteris o que já fazem visando fazê-lo tal qual deveriam; ou na pretensão de otimizar o ato, se auto exigem sem trégua, se auto supervisionam sem descanso, à procura de um a mais que tornaria especial a reedição da experiência. Algo paradoxal como: vamos nos programar para alcançar a vivência a que chegamos exatamente porque não nos programamos. Ou: vamos revisar e otimizar o que fizemos para alcançar o que conseguimos porque nada nos exigimos. Sem a distração, peça central da cena, transita-se do desejo ao dever; e o que se colhe é tédio, aborrecimento e cansaço. Definitivamente, distrair-se não é um verbo contemporâneo, ambicioso, coaching.

Algo similar ocorre no uso reiterado da palavra gratidão, habitual em nossos dias. Visa conferir relevo e nos chamar a atenção para o que é ofertado pelo outro ou pela vida e que não conseguimos espontaneamente ou distraidamente valorizar e reconhecer a autoria. Por que desaprendemos a gostar do que fazemos e a admitir instintivamente a importância do outro? Por que só conseguimos fazê-lo ritualizando a ação, conferindo-lhe o caráter de um roteiro a ser seguido, que, embora exiba uma aparência cuidadosamente espontânea, é, no fundo, exigente e duro, como escreveu Lispector? Em uma resposta simples e que pula etapas: por estarmos deprimidos, no sentido amplo do termo, não estritamente clínico. Mas, por sua vez, por que estamos deprimidos?

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A Organização Mundial de Saúde estima que mais de 300 milhões de pessoas no mundo hoje sofrem de depressão. E o Brasil contribui com 10,4% de sua população na composição dessa cifra. Os especialistas se dividem na explicação de uma suposta explosão de casos ocorrida nas últimas décadas. Na ausência de registros claros para comparação, alguns acreditam que foi o acerto do diagnóstico o que permitiu uma melhor identificação da depressão e, consequentemente, de sua visibilidade social. Não teria havido aumento significativo das ocorrências, em números relativos, apenas o incremento dos registros. Outros creem exatamente no inverso: é possível que diagnósticos menos precisos confundam depressão com estados de tristeza normais e com sintomas compartilhados com outros quadros psicopatológicos, superdimensionando os números.

É aceito por todos que a existência de medicações mais eficazes funciona como mais uma variável relevante nesse quesito. As pessoas procuram os serviços de atendimento na medida em que podem contar com melhores soluções. A maior demanda daí decorrente ganha a aparência de elevação da frequência do fenômeno. Mas é unânime e destacado o papel do fator estresse como causa dos transtornos depressivos. E este é um vetor em escalada crescente no mundo atual, o que advoga a favor da tese da proliferação dos quadros doentios. O impacto do estresse se deve não só ao poder de induzir diretamente a crise quanto ao de provocar situações predisponentes, como o uso de álcool, tabaco e outras drogas.

Sabemos que qualquer tentativa de apreender a dinâmica das causas psicológicas da depressão, assim como de outros transtornos mentais, são sempre aproximações, recortes e simplificações. A fórmula, por mais admirável que pareça, não suporta a aproximação de uma lupa. São males que se originam de combinações de fatores biológicos e constitucionais, além de psicológicos e sociais. Encontram nas ocasiões de estresse vetores importantes para o seu desencadeamento, mas há um amplo repertório de estresses possíveis para serem levados em conta, com variações individuais de sensibilidade para os mesmos.

O que faz com que certos fatores de risco sejam causa de um quadro depressivo para uns e, para outros, apenas um incômodo grave, mas assimilável; o que torna uns despidos e outros dotados de recursos imaginários e emocionais para enfrentar o poder ofensivo de um evento específico é algo que o psicanalista Jurandir Freire Costa, citando Freud, põe com razão na conta da Moira – do destino. Ao tratar das neuroses, o próprio Freud havia dito: “Deve-se temer que nossa necessidade de encontrar uma ‘causa última’ simples e tangível da doença neurótica permaneça insatisfeita”. O mesmo ocorre com as depressões.

Consideradas as incertezas teóricas e levando-se em conta a pluralidade de contextos estressores da atualidade (da uberização do trabalho à discriminação racial), tomaremos os depoimentos das atletas e o eco de queixas afins que chegam aos nossos consultórios para aquilatar o papel corrosivo das exigências e desafios da ideologia meritocrática. Podemos reduzi-los a um fantasma que cobra e assombra o inconsciente de todos nós: a aspiração por sermos extraordinários e o indisfarçável desprezo pela pessoa comum.

O culto do extraordinário e o pavor de ser uma pessoa comum é a edição contemporânea do lema do herói e do vencedor. Repassado diuturnamente, de forma explícita e implícita, pelas agências transmissoras da ética meritocrática, esse código se tornou dominante nos contextos escolares, profissionais e esportivos. Pouco sobrou do sábio conselho do Bispo da Pensilvânia, Ethelbert Talbot, imortalizado pelo discurso do Barão Pierre de Coubertin na cerimônia de abertura dos jogos olímpicos de Londres, em 1908, quando declara que o importante não é vencer, mas competir. E com dignidade. É certo que quem compete quer vencer, mas a máxima indica que o jogo da vida é mais fecundo e satisfatório quando recusamos o desafio imaginário do ou a vida ou a morte e a concentração de todas as nossas expectativas em uma única batalha. E isso vale para os três contextos citados.

A prédica do extraordinário se confunde com um Bem e, talvez, seja por isso mais danosa. Opera com incentivos e sem defesas, na condição de algo edificante e inofensivo. Desdobra-se nas figuras da exigência perfeccionista, da autocobrança por desempenho e da implacável avaliação de falhas e defeitos. Por si só, não gestaria um só caso de depressão propriamente dita e, tampouco, o pathos específico que deu origem ao maracanaço. Mas é, sem dúvida, uma causa potencial das ansiedades e tristezas que compõem o terreno da depressividade atual.

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A hipótese de um laço estreito entre o transtorno depressivo e o culto da excelência ganha plausibilidade pela coincidência temporal entre o estágio de maturação das ideologias da autorrealização e da meritocracia e a ascensão geométrica dos registros e/ou das ocorrências de casos de depressão no mundo, de meados do século XX em diante.

Cunhado em 1958, pelo sociólogo Michael Young, e associado na ocasião a uma sociedade distópica, o conceito de meritocracia, segundo Sandel, adquiriu apenas nos anos 1980 o status positivo de ferramenta justa e igualitária para a avaliação de pessoas. E foi abraçado por políticos do espectro da esquerda à direita. Imaginamos, como adverte o autor, que a meritocracia: “é algo que define o sonho americano, mas essa retórica de acender sozinho é proeminente nos anos 1980 e 1990. A versão anterior falava de uma ampla igualdade de condições, de cidadãos que se reuniam em espaços públicos e praticavam o respeito mútuo. Esse é o sonho americano mais generoso, e foi reduzido nas últimas quatro décadas à mobilidade ascendente individual”.

Está fora de discussão o valor positivo do mérito. Como argumenta Sandel,  desejamos ser atendidos por um bom médico, quando estamos com um problema de saúde, assim como queremos que o piloto do avião em que nos encontramos seja habilitado para o voo. Mas a meritocracia não é uma ideologia do mérito. Revela-se melhor enquanto conceito por meio das duas crenças centrais que imprimiu no imaginário ocidental: a) só os que ganham têm valor e b) os melhores merecem o que possuem.

Os candidatos ao castelo ou aos crocodilos não atentam para as contradições que giram em torno desse princípio. A primeira é que o “mérito dos bem-sucedidos” nem sempre é devido a conquistas prévias dos mesmos: ser inteligente, alto, forte, belo e habilidoso ou ser filho de pais bem-sucedidos financeiramente que o posiciona nas melhores escolas, faculta-lhe os melhores serviços médicos e a segurança necessária para transitar sem danos, fazem parte de heranças constitucionais e familiares e não adquiridas pelo indivíduo em foco. Por conseguinte, dependem de dons e da sorte, deformando assim o ponto de partida de uma competição justa e estritamente por mérito.

A segunda é que o “mérito dos bem-sucedidos” só é aceito se a sociedade demandar a ação em causa e julgá-la importante e valiosa. Saber jogar futebol em uma terra dominada pela arte da escultura não agrega grande valor ao portador. Saber educar crianças em uma sociedade marcada por uma economia capitalista financeiro-rentista não levará muito longe o poder de compra da docente. E nascer em uma sociedade que valoriza o seu talento não é mérito, é novamente sorte. Grandes méritos não garantem, portanto, qualquer reconhecimento.

Por fim, a terceira, é que o “mérito dos bem-sucedidos” não justifica os benefícios alcançados com suas vitórias. Tratam-se de critérios distintos. O mérito pode garantir, no máximo, a posição, mas não o prêmio auferido. Em uma corrida, quem faz o percurso em menor tempo é o primeiro lugar. Mas isso não decide o que o vencedor irá receber. Digamos que haja um valor geral de 10 mil reais para a premiação e a corrida conta com 10 competidores. Devo dividir o valor em 10 mil para o primeiro e nada para os demais? Cinco mil para o primeiro, três mil para o segundo e dois mil para o terceiro? 2.500 para o primeiro, 2.000 para o segundo, 1.750 para o terceiro, 1.500 para o quarto, 1.250 para o quinto e 1 mil para o sexto? Fica claro, pelas alternativas, que o critério de distribuição dos benefícios conforme o mérito posicional é puramente arbitrário. Não há critério meritório para se avaliar quanto a mais deve receber a diferença obtida pelo mérito.

Construímos um fetiche no modo como olhamos o primeiro lugar, assim como o bem-sucedido. Podem ter alcançado escores muito próximos ou ser detentores de méritos similares aos demais, mas, aos nossos olhos, parecem separados por um fosso abissal.No lugar do espectro de possibilidades e da interdependência, preferimos a idealização do mito associado às agonísticas opções do tipo ou tudo ou nada, ou preto ou branco, ou você ou o outro sem espaços para transições. 

O chamado a ser incrível, nunca banal induz à crença de que a pessoa comum, de comportamentos mais repetitivos e previsíveis – sem destaques –, é um derrotado, inútil, supérfluo, invisível, e o extraordinário, de atos mais criativos e inesperados – célebres –, um vencedor, insuperável, único, inigualável, raro. E aqui está incluso ser jovem, de corpo malhado, com poder de compra e inúmeros seguidores nas redes sociais. Destituídos de lugares simbólicos dignos e respeitáveis no espaço intermediário entre os polos, os atores dessa ficção carregam nas costas a sensação de estarem constantemente à prova, em um drama hamletiano de ser ou não ser o herói ou o impostor.

Recalcamos a figura do homem médio e igualmente do sentido de comunidade – a interdependência que sustenta dos patamares mais básicos aos mais complexos da vida em sociedade. O mundo comunitário é negado duplamente: pelos indivíduos comuns que não acreditam contribuírem para tanto, que não contam com a sua existência e, consequentemente, não buscam nele amparo; e pelos extraordinários, que o negam, omitindo quem e o quê os ajudou em sua ascensão (ninguém me ajudou, cheguei até aqui graças unicamente a mim mesmo), sob o risco de manchar os fios de ouro da independência, da autodeterminação e da autossuficiência que entramam a glória de ser um self-made man. Levadas ao pé da letra, autonomias do gênero soam tão absurdas quanto afirmar que cada indivíduo teria o dever de elaborar a sua própria vacina para a Covid-19 ou então enfrentá-la de peito aberto.

A conclusão de Sandel é precisa:

“Os bem-sucedidos devem se perguntar se é verdade que seu sucesso é atribuível inteiramente a eles, ou se esquecem até que ponto estão em dívida com sua comunidade, seus professores, seu país, as circunstâncias de sua vida e, em suma, a sorte que os ajudou em seu caminho. Apreciar o valor da sorte na vida pode dar lugar a uma necessária humildade. Parte do problema é que as elites meritocráticas de hoje em dia sofrem uma falta de humildade”.

Sob o comando desse fantasma da excelência, a sociedade contemporânea alcançou níveis de produtividade inéditos, porém com um passivo de mal-estares e transtornos emocionais difíceis de serem compensados por bens e serviços. Os desafios deixaram de ser pontuais e localizados e se transformaram em um moto-contínuo. As obrigações de cada um passaram a conter pendências e tarefas atrasadas como um padrão. Invejas, ódios, medos e culpas por comparações e autoavaliações se cruzam e se combinam na alma dos comuns. O alarme de estresse (preparação pra luta e fuga) – fundamental para otimizar o desempenho – não se desliga jamais. Não é propriamente uma comunidade o que se forma em torno dos deveres de excepcionalidade, mas uma gincana assemelhada à Round 6 – série coreana da Netflix. 

Resta ao indivíduo encontrar o gênio que o habita ou decretar falência psíquica. Embora, na ausência do talento criativo e empreendedor, seja aceitável a moeda do sobrecarregado. Se não sou incrível, sou pelo menos disponível: trabalho demais, faço tudo o que me pedem, não nego tarefas, não nego convites, aceito desafios, assumo encargos, compromissos, deveres, responsabilidades... não digo não pra nada!  Trata-se de uma versão B da busca pela excelência, com alto poder de convencimento. Desejada inclusive por alguns que já detêm o título principal.

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Todos querem ser extraordinários. Ganhar, triunfar, dominar um ofício, dar a volta por cima, sentir a própria força, se aprimorar e buscar ser melhor rendem sensações e sentimentos revitalizadores. Que o diga a minha filha mais nova, Liz, que, aos cinco anos, após sofrer algumas derrotas em disputas com os irmãos e as amigas, cai em prantos, num choro sentido, e, diante de nossas tentativas para consolá-la, dizendo-lhe que é preciso aprender a perder, reage magoada: “Eu já aprendi a perder! Eu quero agora aprender a ganhar!”.

O irmão caçula, Benício, hoje com cinco anos (será a idade da conversão ao espírito competitivo ou apenas a do Édipo e de suas ambições ególatras?), saiu com essa nestes dias: “Pai, quando eu perco, eu não consigo NÃO fazer uma cara de triste. Eu tento, mas não consigo”. Pego de surpresa, pergunto-lhe o que disse para me certificar se havia de fato entendido, e ele reitera: “Quando eu perco, eu tento não chorar, mas eu não consigo”.

Nesse mesmo compasso, quando tinha por volta dos 10 ou 12 anos, lembro de um amigo da escola que me propôs brincarmos de bater pênaltis um pro outro. E acrescentou a regra de “chutarmos com toda a força!”. Incomodado com a pedida, não com a brincadeira, tentei argumentar que melhor seria batermos os pênaltis apenas com alguma força, não toda. A única justificativa, não revelada, era evitar expor para o amigo e para mim mesmo o que seria o limite de toda a força que eu tinha. Infelizmente, ele concordou com a proposta de moderação. E eu perdi uma boa oportunidade de lapidar o narciso cronicamente insatisfeito que carregamos em nossas costas.

Tempos depois, dois exemplos da escola da vida, ainda no âmbito do futebol, me ajudaram a entender a importância do ordinário e o papel comunitário do extraordinário. O primeiro foi no dia em que, ainda menino, me deparei em uma pelada de rua com um ex-jogador do Clube Ferroviário do Recife – time da primeira divisão do campeonato pernambucano de futebol, mas com resultados sofríveis. Imaginava que o Ferroviário só continha pernas de pau. Foi com muita surpresa que me deparei com um verdadeiro craque diante do amadorismo profundo dos peladeiros de plantão. No campo entre cajueiros, em Candeias, só deu ele. Freguês dos grandes, algoz dos pequenos! Como foi instrutivo ver o show desse ex-jogador entre nós, praticantes autoconfiantes e presunçosos! Aprendi, numa só jogada, a relativizar o valor do atleta médio de um time profissional e, consequentemente, numa extensão maior, a valorizar o papel da pessoa comum que, no final das contas, faz a roda do mundo girar e, em certos contextos, cumpre um papel de gala, como o inesperado visitante de Candeias. O jogador do Ferroviário é o homem médio que surpreende. O ordinário que se mostra extraordinário em um determinado momento. Uma metáfora de todos nós.

O segundo exemplo veio do convívio com um grande amigo de infância. Chamava-se Pedrinho – Pedim, em sotaque nordestino original. Além de uma pessoa amiga, rara, de coração nobre, era um craque de futebol, desses que jogam para o time. Pedim tinha uma capacidade magistral de valorizar os colegas que atuavam com ele. Os menos dotados, os verdadeiros “café com leite”, faziam gols, davam passes importantes, defendiam com simplicidade, mas com eficácia, quando pertenciam a seu time. As equipes médias que ele montava eram vencedoras, não por Pedrinho jogar por todos, mas pelo talento de fazer com que todos jogassem e dessem o melhor de si, sob o seu comando. Em quadras e em campos de areia às margens do Pajeú, contagiava os próximos e essa é a maior nobreza dos extraordinários. Não é o êxito de fazer sozinho e, muito menos, de humilhar ou sombrear os menos habilidosos, mas, sim, iluminá-los com a força do exemplo, da inspiração e do comando. O anônimo jogador do Ferroviário e meu amigo Pedim valorizaram aos meus olhos, em definitivo, o valor ou o passe do homem médio e a importância social do extraordinário.

Finalmente, na tarefa de lidar com o erro, peça central da composição do homem médio, ficou igualmente marcado na memória um comentário despretensioso de um outro grande amigo, capaz, como poucos, de olhar a vida fora da caixa, dada a sensibilidade, o bom humor e a inteligência. Ladimir havia parado de fumar, após longos anos de hábito, e tinha me dito que não cederia mais ao vício. Tempos depois, eu o vejo novamente em pleno uso de seu doce veneno. Com tom levemente recriminatório,  abordei-o: “Mas, Ladimir, você havia me dito que tinha parado de fumar!” E ele, com a segurança e a irreverência costumeira, respondeu: “Ah, Carlinhos, é importante fazer alguma coisa errada de vez em quando”. Tinha toda razão. Não há nada mais apropriado para o gozo da vida, o exercício do bom senso e a consciência de nossos limites do que uma relação camarada com os próprios erros. Não era à toa que Ladimir era tão querido pelo meu pai, um pregador constante da arte de fazer autocrítica. Não apenas visando a correção e o aperfeiçoamento. Quem sabe, principalmente, como um convite para que o entendêssemos em seus claros-escuros. Talvez, para que não nos assustássemos com os nossos.

Nas nossas histórias de vida normalmente se apresentam personagens e situações semelhantes, prontos a nos ensinar a importância da competição e da cooperação; de ser e de avaliar o extraordinário como um bem individual e coletivo; de habitarmos, sem resistências, a condição de homem médio – que acerta e erra, se oculta e se destaca –, sempre passível de surpreender a si mesmo e ao outro; e da autocrítica como ferramenta de aperfeiçoamento e de aceitação e proveito de nossos limites e erros. Contudo, a ideologia do sucesso individual e da busca por ser o melhor de todos, nunca um comum, desfaz qualquer encantamento com pessoas reais e com a precariedade da vida, assim como substitui o gozo com o extraordinário pelo gozo do extraordinário. Colocamo-nos bem distantes da capacidade lúdica de tirar partido do precário, como os nossos filhos pequenos faziam quando se interessavam mais pelas caixas, papéis ebarbantes do que pelo próprio presente. E, individualistas que somos, trocamos a alegria contagiante de um sorriso coletivo pela gargalhada solitária do vencedor. Pois é ela o que queremos pessoalmente obter. 

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Equivalente ao consumismo, a meritocracia estimula a busca constante por um objeto a mais, como forma de distinção. A ambição, no limite, inalcançável, insere os seus seguidores na dinâmica clássica da melancolia, cogitada pela psicanálise. O desenho característico do melancólico, segundo Freud, é o de alguém que reage patologicamente à perda do objeto amado, real ou idealizado. Contemporaneamente, a psicanalista Marie-Claude Lambotte retifica o argumento freudiano e aponta ser a falta, a ausência original do objeto amado, e não a sua perda, o que acarreta o quadro melancólico propriamente dito. São os dilemas de ter e depois perder e o de nunca ter tido. Os dois modelos de sofrimento estão presentes na corrida meritocrática. Frustrados na busca pelo título de ser e continuar sendo o melhor perdemos o que desejávamos alcançar ou que esperavam que alcançássemos (e que já era nosso, na fantasia) e, à luz dessa perda, parece um deserto o que nos resta. Ninguém pode nos amar nessas condições, nada temos a oferecer, e, se o fizerem, não queremos esse amor, tal como Groucho Marx, que não frequentava clubes que o aceitassem como sócio. O resultado: adultos e crianças desolados e irritados consigo mesmos, vulneráveis aos fantasmas cruciais da existência: ficar sozinho, abandonado, sem dotes para conquistar e preservar o amor do outro e a respeitabilidade social, por não obter sucesso nesse jogo específico da vida: competir sem parar, vencer sempre.

Não faltam exemplos disfuncionais e paradoxais do potencial estressor do projeto de tornar-se diferenciado, acima da média e o mais longe possível de uma pessoa comum. Muitos jovens recorrem hoje em dia mais ao Cialis (tadalafila) do que ao preservativo: perder a saúde, sim; a ereção, jamais! Pela mesma razão que transformamos Rubens Barrichello, piloto da elite do automobilismo, em sinônimo de lentidão. Não adianta ter conquistado tudo o que conquistou: não foi um Ayrton Senna. Ponto final! Exigências superlativas tornam cada vez mais comum o exílio das pessoas dentro de si mesmas, com receio de se mostrarem medíocres caso apareçam no palco da vida. E com a aflitiva impressão de estarem muito aquém do que outros pensam sobre elas e a um passo de serem desmascaradas, como na síndrome do impostor.

A solução atualmente oferecida pela cultura é esse blá, blá, blá velho conhecido e associado, com alguma justiça, à alienante pregação dos coachings e dos manuais de autoajuda: seja um vencedor, o céu é o limite, somos o que quisermos ser, só depende de você, desistir não é uma opção, a vida é uma guerra, dentre outras prescrições e advertências. Incitam a alma vulnerável e ambiciosa de todos nós com a promessa de que o sucesso e o estrelato se encontram ao alcance de qualquer interessado. Bastaria aceitarmos, sem boicotes, o sucesso como propósito de vida, e abraçarmos com fé, força e foco os conselhos, atitudes e planejamentos recomendados pelos convictos regentes do psiquismo. Dessa fórmula infalível que preconiza uma vitória a qualquer custo, sem lugares simbólicos à altura das pessoas médias, resultam sentimentos de insuficiência e de superfluidade, com a cereja do bolo reservada para a responsabilidade individual (o erro é sempre nosso!) por não termos alcançado a resiliência necessária para transpormos as barreiras que se apresentaram no caminho. A pedida era para nos conduzirmos segundo uma outra proposição de Groucho Marx: “Vamos descobrir um tesouro naquela casa? – Mas não há nenhuma casa… – Então vamos construí-la!”.

Recentemente, Liz pediu para que eu e a mãe opinássemos sobre qual de dois objetos, confeccionados um por ela e um por Benício, com massinha de modelar, era o mais bonito. Esquivamo-nos da sinuca de bico afirmando que eram ambos bonitos. Insistiu várias vezes no pleito e repetimos a mesma resposta. Percebendo que não iria conseguir o que queria, Liz protestou: “Adultos sempre estragam brincadeiras de competição!”.

De fato, não podemos levar a extremos a crítica da competitividade. Afinal de contas, competir é uma modalidade a mais de interação, que possui a sua razão de ser (otimizar um ato, um produto, um serviço) e o seu gozo próprio (medir forças, sentir como estamos frente ao outro), uma vez localizada em seu devido contexto. O problema, sem dúvida, não é a competição e nem o mérito. Mas a transformação da primeira, em modo de vida, e, do segundo, em ode ao vencedor, e não aos capazes e aos competentes, sem esquecermos do suporte aos que se mostram inaptos em algum momento, por razões diversas. 

A função vencer, em um mundo meritocrático, encontra-se permanentemente ativada. O efeito direto são almas insaciáveis e endividadas como as nossas.

***

Não é de se estranhar que a depressão conste como um dos principais motivos de incapacidade e de afastamento do trabalho, conforme dados da OMS (Organização Mundial de Saúde) e da Opas (Organização Pan-Americana de Saúde). Fizemos da depressão um regulador social, e dos mais efetivos. Antes a culpa e a vergonha, hoje a dor crônica, a estafa e, especialmente, a depressão, são alguns dos poucos freios capazes de barrar as nossas ambições, forjadas por sôfregas ânsias de sucesso e bom desempenho. Funcionam como um prazo para entregarmos os pontos. Definem os atuais limites do que fazer ou não fazer. Forjam os derradeiros motivos para poder parar e dizer não. Um novo lema foi traçado: seguirmos firmes e fortes, sem descanso e sem medida, até a próxima depressão. Só nessas condições nos tornamos indiferentes às expectativas ansiosas e ávidas de nosso Eu, dos outros e dos ideais. Só nessas condições conseguimos formular uma autocrítica que demarque os limites que não podemos ultrapassar. Era do que suspeitava Freud, ironicamente, em Luto e melancolia, ao analisar as autoacusações presentes na sintomatologia de quadros mais severos.

“Quando, em uma exacerbada autocrítica ele se descreve como um homem mesquinho, egoísta, desonesto e dependente, que sempre só cuidou de ocultar as fraquezas do seu ser, talvez a nosso ver ele tenha se aproximado bastante do autoconhecimento, e só nos perguntamos por que é preciso adoecer para chegar a uma verdade como esta. Sem dúvida, quem pode chegar a uma tal autoapreciação e expressá-la diante dos outros [...] está doente, quer diga a verdade, quer seja mais ou menos injusto consigo próprio”.

Na prática, é como se os automóveis não tivessem freios e só parassem na traseira de algum outro ou em um poste ou árvore que aparecesse no caminho. Organizar o trânsito dessa forma traria enormes custos. Mas é mais ou menos assim que administramos o fluxo de nossas vidas. Dê o seu máximo até adoecer. Desistir não é uma opção, deprimir talvez! O acidente depressivo não é um ponto fora da curva, não é propriamente um acidente, mas a forma possível ou aceitável (e não será admitida por todos) de alguém se conter.

O evento depressivo adquire, assim, o status não só de um freio que se impõe à nossa revelia, mas também o de uma estratégia de sobrevivência controversa, uma desejável rendição, uma aspiração a um fim, a uma entrega. Semelhante a alguém que tentasse fugir desesperadamente de um ladrão que o persegue por conta de seus pertences e, em um determinado momento, do alto de uma ponte, resolvesse lançá-los ao mar, praticando uma defesa, do tipo: não tenho mais o que lhe oferecer; desista de mim para que eu possa ficar “em paz”... deprimida. É a autêntica realização de um desejo contemporâneo: o de não me peçam mais nada!

Biles e Osaka precisaram se deprimir para revisar a carreira e alterar o curso dos fatos. Uma parte nossa indaga: será preciso tanto para mudarmos os rumos de nossas vidas? Outra, pondera: poderia ser bem pior! Por um lado, é como se perdêssemos as rédeas. A doença nos guia. O bom senso foi substituído pelo senso médico. Por outro, é difícil evitarmos a chegada da depressão, e assim a perda da autonomia, por não dispormos nem de pródromos claros (sinais que anunciam a doença) e nem de roteiros de prevenção garantidos.

A aposta se resume a um diagnóstico precoce e ao cultivo da qualidade de vida (exercício físico, sociabilidade, hobbies, meditação), fazendo as vezes de uma blindagem improvisada. O que não é pouco, embora possa se mostrar insuficiente. Mas, na ausência da depressão para ligar o sinal vermelho, o exercício do cuidado de si oscila, procrastinando a atenção a mal-estares importantes por meio de pensamentos do tipo: “muito está em jogo”, “há compromissos inadiáveis”, “há outros envolvidos”, “estou me organizando para isso”. São argumentos compreensíveis, mas que nos levam, na maioria dos casos, a prejuízos maiores.

Precisamos levar a sério o que disse em sessão um cliente: “Nunca ouvi alguém falar que deveríamos abandonar os nossos sonhos. E como é importante fazer isso de vez em quando!”. Complementaria: abandonar certos sonhos e limitar as aspirações à felicidade. Sem um teto para as aspirações e satisfações próximo às nossas condições de agir no mundo, não vamos jamais saber o gosto de nos sentirmos capazes e autênticos. A busca pela excelência pode render bons frutos quando os contextos de vida, as características de personalidade e o momento maturacional são levadas em conta. Mas, na condição de um ideal impositivo que só tem olhos para o vencedor, é mais um fator de despersonalização do que de aperfeiçoamento. Quem tem medo de desistir é quem ainda não se deu conta disso.

Desistir da tirania de si mesmo, da busca incessante pelo extraordinário, de uma devoção a competir que nos torna parecidos com o personagem Miguelito, do cartum de Quino, quando este resolve numa caminhada pela calçada ultrapassar o cidadão à frente antes que ele alcance a esquina. Ao fazê-lo, diz para si mesmo, jubiloso: “ahá!”, para em seguida se perguntar, abatido: “ahá o quê?”. Desistir é preciso, mas não exatamente como as crianças sírias refugiadas e traumatizadas pela guerra civil, retratadas no documentário A vida em mim, quando desistem da espera angustiante por um visto de asilo humanitário na Suécia adentrando em um estado semelhante ao do coma, nomeado como transtorno de resignação; nem como Bartleby, personagem de Melville, que desiste de forma automática, paralisado pela compulsão a dizer não; e tampouco como os suicidas, cujas desistências coincidem com a destituição da esperança. Desistir faz sentido como uma forma de sobreviver ou de lutar por uma vida justa e equilibrada.

No entanto, se tememos a depressão, tememos ainda mais a desistência. Desistir é um verbo de conotação negativa. Utilizá-lo sem um motivo que nos ultrapasse significa a assinatura de um atestado de mediocridade, embora a depressão já seja encarada dessa forma por muitos. Porém, sem a depressão a tiracolo, não conseguimos justificar para nós mesmos e para os outros a suspensão de atividades que modelam nossas identidades pessoais e sociais e garantem em maior ou menor escala o nosso sustento econômico, mesmo sendo obstáculos ao cuidado de si e, em certos casos, a própria razão da destituição de si mesmo. É difícil convencermos a voz que nos diz, com resistência, com orgulho ou apenas com resiliência: “ainda dá pra aguentar mais um pouco!”. A depressão é o sintoma social de uma época que não nos concede o direito de desistir sem a tarja do arruinado e sem a angustiante sensação de estarmos perdendo uma enorme oportunidade, como se a vida fosse um cassino.

Felizmente, uma vez instalada a depressão, novas manobras ainda podem ser realizadas, embora em terreno mais precário. Dependem igualmente da forma como lidamos com o ideário da excelência. Biles e Osaka fizeram de seus estados depressivos plataformas para a conjugação do verbo desistir numa conotação libertária. Muniram-se da potência do não, no sentido conferido ao termo pelo filósofo Agamben.

Exerceram o poder de não fazer, de decidir não participar, de seguir no sentido inverso ao esperado a fim de preservarem um bem maior. Ao mesmo tempo, assumiram o negativo de suas performances, tecendo, ao lado de históricos de conquistas, um corajoso e digno currículo mortis, tal como definido pelo filósofo Leandro Konder: um lugar para o registro dos erros, limites, fracassos e decepções. Currículo que serve como fomento para a sensatez e a humildade. Como uma peça que nos prepara para a morte, como defendeu o autor, mas também para uma vida que respeita os próprios limites.

Numa versão temerária, poderiam ter adiado a revisão de suas vidas e aumentado o risco de quadros psicopatológicos ainda mais graves, que exigiriam o mesmo desfecho do afastamento, porém com danos físicos (cardiológicos, reumatológicos, gástricos, intestinais), mentais (ideações e atuações suicidas) e profissionais (erros, negligências, descompromissos) superiores. É habitual o atraso da desistência. Quem nunca sentiu ter levado longe demais um namoro ou casamento que já apresentavam opressões, invasões, controles – afetos depressivos e ansiosos suficientes para porem freio nas últimas ilusões? Quem nunca se viu com vontade de sumir para evitar a prestação de contas com filhos, cônjuges, colegas, patrões, público etc. em pactos que já deveriam ter sido renegociados anteriormente?

O trabalho da autocrítica não é fácil. Aceitar derrotas, assumir erros, encarar desistências fere o narcisismo e a vaidade, mas possibilita realismo e maturidade. Em certos casos, o efeito Kintsugi – técnica japonesa centenária que consiste em reparar peças de cerâmica com resina polvilhada a ouro, conferindo às cicatrizes resultados estéticos admiráveis. Transposta para o campo subjetivo, a técnica é uma parceira do currículo mortis, ao realçar o valor da imperfeição e o luto. Para além desse uso, a autocrítica ensejada pelos verbos recusar, renunciar, desistir soam nas decisões de Biles e Osaka como ações próximas à desobediência civil. Perante o que as oprimiam, disseram não!

Desistir de sonhos impossíveis, limitar as aspirações à felicidade. Teme tais atitudes quem ainda não se conscientizou de que a vida interessante só é viável se tiver contornos, se abrirmos mão de quimeras que nos iludem e esticam a corda, sem plausibilidade e gratificações proporcionais. Os únicos que ganham nessa conta são a publicidade e o mercado. Ganham nos provocando desejos que não desejamos. E ganham contornando nossas mágoas. Como repetem à exaustão: “enquanto uns choram, outros vendem lenços”. Há, literalmente, interesse em nosso sofrimento.

Se a paz de espírito depende da aceitação e colocação de balizas no que esperamos de nós, do outro e do ambiente, depende igualmente do cultivo do real. O personagem Miguel, de Quino, entendeu isso ao escrever a Erika. Na carta, se explica: “Querida Erika: seus lábios de morango,... seus dentes de pérola,... seu cabelo de seda e seus olhos de esmeralda... convenceram-se a me casar com Maria,... que tem lábios de lábio, dentes de dente, cabelos de cabelo, olhos de olho. Portanto, adeus. Miguel”. Erika não contava com essa. Por sua vez, a serenidade se encontra com mais facilidade nos terrenos em que agimos sem fantasia. Como na canção de Chico Buarque, em que o outro é convidado a voltar à relação do jeito que é, “sem mentir pra você”: “vem, mas vem sem fantasia, que da noite pro dia, você não vai crescer”.

É preciso circunscrevermos o campo de ação, variarmos o objeto e a medida com alguma liberdade, e buscarmos as parcerias possíveis e adequadas, a fim de nesse ensejo seguirmos na busca do que for possível ser, em projetos individuais ou coletivos. Nem no preto, nem no branco, identificados no intervalo cinza da vida, no qual (quase) todos vivem. O mundo tem limites e quem os habita são pessoas médias. Essa consciência é a melhor forma de sermos afetivamente responsáveis, com nós mesmos e com o outro. Não se trata de prêmio de consolação, nem convite para viver na invisibilidade ou largado na pior versão de si mesmo. Mas sim de uma filosofia ou de um projeto político que nos convida a cultuar a variação da vida e a singularidade de cada um, em um espaço público digno e decente para todos.

Nem abandono de si, nem heroísmo; resignação e assertividade no trato com o desejo. É esse o núcleo da ideia de saúde cativada por Freud. Um conceito que remete à proposição de São Francisco de Assis: “Senhor, dai-me força para mudar o que pode ser mudado… Resignação para aceitar o que não pode ser mudado… E sabedoria para distinguir uma coisa da outra”.

O Freud convocado por Nelson Rodrigues encontra ironicamente em Dom Helder, o padre de passeata, um parceiro próximo para afirmar o advento do homem comum. Nas palavras do arcebispo emérito de Olinda e Recife: “Quando houver contraste entre a tua alegria e um céu cinzento, ou entre a tua tristeza e um céu em festa, bendiz o desencontro, que é um aviso divino de que o mundo não começa e nem acaba em ti”.

Dom Helder traçou, em breves linhas, a imagem do sujeito freudiano que renuncia à ambição onipotente de querer que o mundo espelhe os seus estados de espírito. Humilde e realista, nada medíocre, no sentido pejorativo conferido a esse termo, é o homem médio que, em Freud, tateia em busca de um si mesmo capaz de alcançar uma posição de equilíbrio entre as ambições narcísicas de querer sempre mais e a inclinação masoquista de nada merecer. “Nem sempre ganhando, nem sempre perdendo, mas aprendendo a jogar.”

Desistir é um verbo fundamental em uma era de triunfalismos. Necessário para nos mantermos senhores de nossos destinos e capazes de dizer não. Para testemunharmos que sofremos de uma doença de contexto. E, dessa forma, entendermos, como defendia o psicanalista Hélio Pellegrino, que “A salvação, ou é negócio de todos, ou de ninguém”.

CARLOS FERRAZ, psicanalista, professor de psicologia da Fafire (Faculdade Frassinetti do Recife) e doutor em Saúde Coletiva pelo IMS-UERJ. carloshf36@hotmail.com

MAURICIO PLANEL, ilustrador nascido no Uruguai e radicado no Brasil. É membro do coletivo Collagistas Sin Fronteras e da Sociedade Brasileira de Colagem.

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