Reportagem

Teatro pernambucano: sucesso de público

Nos anos 1980, peças tornam-se fenômeno, levando milhares de pernambucanos de volta aos teatros locais, como "Cinderella, a história que sua mãe não contou"

TEXTO Márcio Bastos e Isabelle Barros

25 de Março de 2026

"Édipo REC", montagem do Magiluth

Foto Annelize Tozetto/Divulgação

As grandes produções da década de 1980 também abriram os olhos de uma nova geração para o teatro como possibilidade de carreira. De uma família humilde no bairro de Afogados, na Zona Oeste do Recife, Jeison Wallace não tinha acesso a jornais, revistas ou a manifestações culturais, com exceção dos ciclos festivos, como Carnaval e São João. Quando tinha 15 anos, foi trabalhar no escritório onde seu tio era contador e lá viu no jornal o anúncio do curso de iniciação em teatro do Centro de Cultura e Arte da Funeso, em Olinda, ministrado por Antonio Carlos Gomes do Espírito Santo, conhecido como Carlão. Para chegar até lá, Jeison precisava pegar dois ônibus e, como só tinha dinheiro para uma passagem, ia andando da sua casa até o Centro do Recife para pegar o transporte até a cidade vizinha.

Na prova pública feita ao final do curso, percebeu pela primeira vez que era engraçado, pois arrancou risadas do público em cena, mesmo sem a intenção – o que a princípio o incomodou, mas depois ele percebeu ser um dom. A partir desse curso, começou a ser chamado por várias companhias, passando a aprender com a prática. “Posso dizer que aprendi fazendo. Minha maior influência foram os espetáculos produzidos pelo grande Bóris Trindade, entre eles Tal e qual, nada igual. Quando assisti, pensei: ‘Meu Deus, é isso que eu quero fazer!’. Inclusive, um dos atores que estava nessa peça, Luiz Lima, que infelizmente não está mais com a gente, me ensinou muito sobre comédia”, lembra Jeison.

Foi na esteira dessa e de outras influências que Wallace estreou junto à Trupe do Barulho a peça Cinderela, a história que a sua mãe não contou, em 1991, na sessão da meia-noite. Fenômeno absoluto do teatro pernambucano na década de 1990, o espetáculo ficou uma década em cartaz e deixou uma marca indelével nos palcos e na cultura pernambucana. Com texto de Henrique Celibi, que iniciou sua carreira no Vivencial, o texto reimaginou a personagem dos contos de fada como uma desbocada empregada recifense, com situações e ambientações locais.

Elenco original de "Cinderela, a história que sua mãe não contou"
Foto: Jô Ribeiro/Divulgação

No texto “É feia, ridícula e quer ser feliz”, publicado no Jornal do Commercio em 1997, seis anos após a estreia do espetáculo, o escritor Moisés Neto aponta que Cinderela é um fenômeno que atrai pobres e ricos, que é de si mesma que a sociedade ri quando vê a personagem em cena. “O consumidor desta arte tem os mesmos olhos de caranguejo de Chico Science, como um hiato-cicatriz entre o passado e o futuro da Manguetown, Recife”, escreve.

Opinião semelhante é compartilhada pelo professor, pesquisador e encenador Rodrigo Dourado, que em um vídeo publicado na página do Instagram Palco Pernambuco (@palco.pernambuco), voltada para a celebração da memória teatral do estado, afirma que “enfim, o público pernambucano se via refletido no espelho”. Ele arrisca dizer que Cinderela foi o nosso “Mangue teatral”, mesmo que não planejado, quando a periferia recifense se mistura com a cultura pop e o humor do povo, explodindo no teatro.

“Posso dizer que sou o caso de um santo de casa que fez milagre. Comecei a trabalhar, as pessoas passaram a falar do grupo, de Cinderela. Depois, criei minha própria companhia, a Ôxe, Mainha Produções, também passei a aparecer no rádio e na televisão. O pernambucano se identifica muito com o linguajar de Cinderela e até hoje, passados 33 anos, as pessoas vêm falar comigo com aquela emoção”, pontua Jeison, que em 2024 voltou aos palcos com o espetáculo, observando as dificuldades da cena. “Não existe pauta. Sou de um tempo que a gente ficava anos em cartaz com a mesma peça, de quinta a domingo e que o dinheiro da bilheteria dava para a gente sobreviver e investir nas novas peças, com apoiadores. Hoje, isso não é possível. Agradeço ao público por Cinderela ainda ter essa força, ao ponto de, no primeiro semestre, termos feito duas sessões lotadas no Teatro Guararapes, para quase cinco mil pessoas, e agora estarmos circulando por várias cidades. Para quem quer fazer teatro pensando em glamour, esqueça. É trabalho, muito trabalho”.

CENAS MÚLTIPLAS
Problemas históricos como a falta de pautas, persistiram nos anos 1990, como mostra uma coluna de Valdi Coutinho no Diario de Pernambuco, intitulada “Repartição de pautas o eterno problema”, datada de 29 de agosto de 1990. Ele observa que o número limitado de espaços de apresentação cria dilemas como o fato de que grandes produções precisam de muito tempo em cartaz para se pagarem e, ao mesmo tempo, também havia uma grande procura, tanto por parte de grupos com caráter mais profissional e comercial quanto por grupos experimentais. Nesse contexto, a demanda era muito maior do que a oferta de salas de apresentação.

"Sabemos todos como é difícil o tempo atual, desde o 15 de março deste ano, para a cultura nacional de modo geral. Todos estão sofrendo, ainda, com o Plano Collor. E o dinheiro para investir na área cultural agora é que está escasso mesmo. No entanto, seria muito bom se a produção teatral do Recife viesse a contar, o mais rápido possível, com outros espaços”, escreveu Valdi, que clamava ainda pela reabertura do Teatro Hermilo Borba Filho, anexo do Teatro Apolo.

O trabalho de Antonio Cadengue junto à Companhia Seraphim de Teatro foi marcante para a década de 1990 no teatro pernambucano, com suas peças robustas, a exemplo de Em nome do desejo (1990) e Senhora dos Afogados (1993), voltadas para a pesquisa. O grupo contou ainda com nomes como Marcos Vinícius de Pinho e Souza, Lúcia Machado Barbosa, Manuel Carlos de Araújo, Anibal Santiago Silva e Augusto Farias Tiburtius. Com caráter formativo, ajudou a fomentar a cena local, tendo empregado em suas peças artistas que atuaram fortemente nas décadas seguintes, como Paulo de Pontes, Cira Ramos, André Filho, Zuleika Ferreira, Cláudio Lira, Antonio Taveira Júnior, Márcia Cruz, Gheuza Sena, Daniela Travassos, André Brasileiro, Hermila Guedes, entre outros.

Os anos 2000 viram tentativas de retorno ao teatro de grupo e da busca por uma pesquisa continuada, com o Coletivo Angu de Teatro, fundado em 2003; o Magiluth, surgido dentro do curso de Teatro da Universidade Federal de Pernambuco, e a Companhia Fiandeiros de Teatro, também em 2003; O Poste Soluções Luminosas, que nasce como grupo voltado para a iluminação, em 2004, mas se volta para a atuação a partir de 2009, entre outros. Dramaturgos pernambucanos, como Newton Moreno, Marcelino Freire e João Falcão também ganharam destaque na cena nacional, especialmente em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Giordano Castro, Erivaldo Oliveira e Bruno Parmera, do Magiluth
Foto: Divulgação

Políticas como o Funcultura, instituído pelo Governo de Pernambuco, em 2002; o Prêmio Myriam Muniz, criado pela Funarte, em 2006; e o Palco Giratório, do Sesc, lançado em 1998, entre outras, foram fundamentais para o fomento e circulação de produções, tanto por Pernambuco quanto pelo país, ao longo dessa década e da seguinte. Os anos 2010 foram marcados por tentativas de contornar a falta de pautas, como é o caso de experiências de teatro em casa e em espaços alternativos, e com o surgimento de alguns incentivos públicos, como os prêmios do Governo do Estado, a exemplo do Ariano Suassuna, para cultura popular e dramaturgia, e Pernalonga, homenagem a Roberto de França, do Vivencial, para produções, iniciativas, artistas e coletivos de teatro.

O Festival Recife do Teatro Nacional, o Janeiro de Grandes Espetáculos e o próprio Palco Giratório, entre outros, ajudaram também a trazer muitas peças ao Recife, fomentando intercâmbios e possibilidades de apreciação estética e de formação, através de cursos e oficinas. Alguns artistas que começaram no teatro, como Hermila Guedes, Irandhir Santos, Tuca Andrada, Virginia Cavendish, Bruno Garcia, Patrícia França, entre outros, também migraram para o audiovisual, tanto cinema quanto televisão, trabalhando muito fora do estado.

Entusiasta do teatro local, admiradora de Cinderela, do Angu, entre outros, Nash Laila viveu uma revolução interna em 2007, quando o Teat(r)o Oficina esteve aportado às margens do Capibaribe, no Bairro do Recife, com Os Sertões. “Ali foi uma viração mesmo. Ali eu nem entendi, mas senti que a linguagem da multidão, dos coros, me pegava muito. E isso reverberou nos anos seguintes”, conta a atriz, que dois anos antes havia protagonizado seu primeiro filme, Deserto feliz, de Paulo Caldas.

“Eu tinha feito minhas duas primeiras peças, mas ainda via como um processo de formação, e era. Aliás, nunca deixa de ser. Só que o cinema me trouxe uma responsabilidade maior e foi com ele que ganhei meu primeiro cachê. Eu sou uma atriz de teatro e de cinema e defendo muito o encontro entre essas duas linguagens. Tenho dito nas minhas oficinas e debates que participo eventualmente que o que diferencia o teatro e o cinema, do ponto de vista da atuação, é a adequação estética”, reflete a atriz, que estudou Licenciatura em Teatro na UFPE, e em 2011, quando filmou Tatuagem, longa de Hilton Lacerda inspirado na experiência do Vivencial, decidiu se aventurar no Oficina, em São Paulo, seguindo seus sonhos e instintos.

“Fui com passagem de ida e poucos reais no bolso para voltar quando o dinheiro acabasse. Mas fui muito bem recebida nessa que considero minha segunda casa, o Teat(r)o Oficina. Fiquei por 13 anos seguidos, só agora perambulando um pouco por outros mares”, diz Laila. Quando saiu do Recife, ela ainda não conseguia se sustentar com o trabalho de atriz. “É muito raro e isso é uma pena. Infelizmente, o dinheiro para cultura circula mais no Sudeste, ou bem dizer, em São Paulo, porque eu também escuto as dificuldades dos meus amigos belorizontinos, por exemplo. Seria muito massa se o poder público encarasse o fomento ao teatro e sua descentralização de maneira responsável e próspera. Ganha-se muito mal fazendo o que a gente faz”, enfatiza a atriz.

Recentemente, Nash trabalhou com o grupo Magiluth na peça Édipo Rec, que estreou no Sesc Pompeia, em São Paulo. O Magiluth já está consolidado como um dos grupos mais reconhecidos e aclamados do teatro contemporâneo brasileiro, celebrou 20 anos de atuação e pesquisa ininterruptas, incluindo as experiências virtuais durante a pandemia, que se tornaram referência por sua inventividade e uso das plataformas digitais.

A FORÇA COLETIVA
A força dos coletivos de teatro chegou a um patamar que, atualmente, são raras as apresentações de atores que não estão ligados a nenhum deles. A predominância no teatro contemporâneo de Pernambuco segue uma lógica diferente de décadas passadas, quando havia produtoras ou coletivos que conseguiam manter espetáculos em cartaz por temporadas de dois, três, quatro meses e sustentar suas atividades por meio da bilheteria ou do apoio financeiro de pessoas físicas e jurídicas.

São tempos de escassez. O dinheiro da bilheteria não é o suficiente para sustentar longas temporadas, há menos teatros e a agenda disponível está mais escassa. Para se manterem ativos, os coletivos criaram estratégias: vários deles têm seus próprios espaços de ensaio e apresentações, criam sua própria dramaturgia e se equilibram entre curtas temporadas, realização de formações teatrais para outros artistas, participações em festivais e submissão de projetos aos editais e leis de incentivo disponíveis.

“A produção atual do teatro em Pernambuco está muito centrada nos coletivos, nos grupos. Há alguns mais consolidados, com um trabalho mais elaborado, que já tem a sua marca poética e política na cena. Nesse sentido, os nomes mais destacáveis, atualmente, são o Magiluth, com visibilidade maior para fora de Pernambuco, e O Poste Soluções Luminosas, que tem uma pesquisa de linguagem definida e consistente. Além disso, há a Companhia Fiandeiros de Teatro, muito voltada para a formação, mas que tem uma trajetória original na criação de espetáculos, sobretudo no teatro para a infância e juventude”, diz o professor do departamento de Artes Cênicas da Universidade Federal de Pernambuco, Luís Reis. Há também outros grupos que estão começando, artistas mais jovens, que tentam se organizar dentro de uma especificidade de linguagem.

ISABELLE CÂMARA, jornalista
MÁRCIO BASTOS, jornalista e autor do livro Pernalonga: Uma sinfonia inacabada (Cepe)

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