A cosmogonia de Clarice Lispector no cinema
Ao longo de quatro décadas, filmes e documentários brasileiros vêm sendo produzidos com o intuito de retratar e desvendar o universo literário da enigmática autora
TEXTO Luciana Veras
06 de Maio de 2026
"A hora da estrela" tem como protagonista a atriz paraibana Marcélia Cartaxo, que venceu o Urso de Prata de Melhor Atriz no Festival de Berlim em 1986
Foto Divulgação
"Vou criar o que me aconteceu. Só porque viver não é relatável.
Viver não é vivível. Terei que criar sobre a vida. E sem mentir.
Criar sim, mentir não.
Criar não é imaginação, é correr o grande risco de se ter a realidade."
(Clarice Lispector em A paixão segundo G.H., 1964)
Esfinge, assombro, enigma, surpresa, espanto… Não são poucos os adjetivos usados para descrever a literatura de Clarice Lispector. É como se a experiência de visitar sua obra só pudesse ser encapsulada (se é que este termo é de fato correto) por frases que expressam sensações dúbias: o frenesi da linguagem, o oco da dúvida, o medo ante o âmago da vida. De que modo, pois, seria possível descrever o ato de verter seus livros e crônicas para o cinema? Quem já se dispôs a encarar o desafio de transpor “o inominável” de parágrafos clariceanos para imagens em movimento vaticina: é uma tarefa “vertiginosa” e um convite “irrecusável”.
Foi também com essas palavras que a realizadora pernambucana Renata Pinheiro se referia ao projeto em que trabalhava em setembro de 2022. No galpão de um armazém no Jiquiá, na zona oeste do Recife, ela dirigia Marcélia Cartaxo em uma cena de Vago, como era chamado o longa-metragem, uma produção da Aroma Filmes com roteiro de Renata e do seu parceiro de vida e arte Sérgio Oliveira. “Não é uma adaptação de uma obra específica de Clarice Lispector, mas o roteiro traz a atmosfera de muita coisa dela que a gente leu e quis trazer para a história. A protagonista é uma mulher madura, que no meio de uma crise existencial volta para sua cidade natal. O que ela quer? A gente vai descobrindo aos poucos quem é Glória, com quem ela passa a se relacionar nesse recomeço e por que a casa onde Clarice morou na praça Maciel Pinheiro é um ponto importante. Quando ela chega lá, tudo vira vertigem”, explicava Renata à Continente enquanto a diretora de fotografia Wilma Esser preparava a luz para enquadrar o próximo take.
Naquele dia, Renata revelou que considerava a ideia de alterar o título. “Serginho e eu decidimos que vamos colocar o nome de Lispectorante”, contou. Diante da pergunta se o neologismo indicava algum xarope mágico, a cineasta riu e comentou: “Tem que ver pronto para saber”. Quase três anos depois, em maio de 2025, a Embaúba Filmes distribuiu o filme nas salas comerciais e assim se descobriram os mistérios de Lispectorante e suas conexões com a escritora judia que tinha dois meses quando a família fugiu de perseguições antissemitas na Ucrânia, na União Soviética. Ao aportar no Brasil, após meses de travessia marítima, Pinkouss, Mania, Leia, Tania e Haia Pinkhasovna Lispector se estabeleceram em Maceió, capital de Alagoas, com nomes “abrasileirados” Pedro, Marieta, Elisa e Clarice - Tania, de mesma sonoridade no russo e no português, permaneceu com o nome de batismo.
Em 1925, os Lispector se mudaram para Pernambuco e Clarice passa a morar no sobrado da Maciel Pinheiro. É essa casa hoje em ruínas o epicentro da tessitura onírica que a narrativa de Lispectorante vai urdindo: quando vai lá, Glória, interpretada por Marcélia Cartaxo, encontra uma fresta mágica para repensar toda sua existência e captar a poesia que teima em nascer em meio à erosão arquitetônica, financeira e sentimental. Com seus encontros furtivos porém marcantes (com destaque para Pedro Wagner e Grace Passô no elenco), o filme tem algo de fábula, sim, e do contorno borrado entre as artes visuais, origem de Renata, e os códigos cinematográficos. E sobretudo dos portais que se abrem quando a existência é sofrida e sem sentidos, portais estes de onde talvez se erija a literatura de Clarice.

Foto: Divulgação
“É um absurdo uma escritora da dimensão de Clarice ter uma casa assim, é o equivalente de uma casa de James Joyce abandonada em Dublin. Mas esse descaso acaba servindo também como inspiração, porque ele quer dizer muito, o descaso de uma casa de uma grande escritora em escombros foi o que fez esse filme de fato. A partir desse olhar, fui conversar com Renata. Já tínhamos um projeto de um filme com uma personagem mais madura, juntamos as coisas e chegamos no filme, que começa nesses escombros, mas também os escombros de uma cidade, um bairro e uma artista que está em um momento decisivo da vida”, situou Sérgio Oliveira em debate no Cinema da Fundação ocorrido há um ano, conforme anotado pelo jornalista Rostand Tiago em matéria escrita para a Continente online.
[Sérgio deixou este mundo em fevereiro, aos 65 anos, numa partida tão precoce como a de Clarice, que faleceu em 9 de dezembro de 1977, um dia antes de completar 57 primaveras. Lispectorante pode ser alugado e/ou comprado nas plataformas de streaming Apple TV, Claro TV+, Vivo Play e YouTube Filmes.]
Há um outro elemento bastante clariceano em Lispectorante: a presença magnética da atriz paraibana Marcélia Cartaxo. Ao debutar no cinema como a Macabéa de A hora da estrela, dirigido por Suzana Amaral em 1985, arrebatou crítica e público no Brasil e lá fora, tornando-se a primeira brasileira a vencer o Urso de Prata de Melhor Atriz no Festival de Berlim e sendo premiada no Festival de Brasília. Sua caracterização como a nordestina órfã, sedenta pela vida que parece ignorá-la por completo, é tão comovente quanto a descrição da personagem pela própria escritora, na voz do alter ego Rodrigo S.M.. neste livro publicado dois meses antes da sua morte: “Essa moça não sabia que ela era o que era, assim como um cachorro não sabe que é cachorro. Daí não se sentir infeliz. A única coisa que queria era viver. Não sabia para quê, não se indagava. Quem sabe, achava que havia uma gloriazinha em viver. Ela pensava que a pessoa é obrigada a ser feliz. Então era. Antes de nascer ela era uma ideia? Antes de nascer ela era morta? E depois de nascer ela ia morrer? (...) Pois até mesmo o fato de vir a ser uma mulher não parecia pertencer à sua vocação”.
“Creio que A hora da estrela é o filme que consegue captar bem essa aura dela”, diz o jornalista do site Cineweb e colaborador da revista Carta Capital Alysson Oliveira. Para ele, que é doutor em literatura pela Universidade de São Paulo - USP, outra versão que se encaixa nessa mítica “aura” é A paixão segundo G.H. (2023), de Luiz Fernando Carvalho. “Acredito que esses filmes são muito felizes em manter, formalmente, o espírito clariceano em si. Obviamente, mediações são necessárias, por isso, entendo a ideia de ‘fidelidade’ enquanto uma espécie de apropriação da obra original, criando uma obra nova num outro meio diferente. Por mais frustrante, por exemplo, que seja a eliminação do personagem escritor no filme A hora da estrela, compreendo que as discussões e ansiedades dele, no livro, são coisas que cabem na literatura. As questões do e no cinema são outras. Por isso, acho muito acertado o que foi feito no filme”, acrescenta.
“Gosto também de O corpo, um filme super pequeno de 1991, baseado num conto. Acho que a atmosfera de um humor inesperado capta muito bem um lado da escritora que nem sempre é lembrado, esse humor um tanto deadpan, surpreendente porque diz grandes ‘absurdos’ com a cara mais séria do mundo”, pontua Alysson, aludindo ao longa de José Antônio Garcia com Antônio Fagundes, Marieta Severo, Cláudia Jimenez e Carla Camurati no elenco. “Gosto muito da coletânea A via crucis do corpo. Dela saíram O corpo e A língua do P, adaptado em Erotique, uma coletânea de filmes eróticos do ponto de vista feminino. São quatro curtas, cada um de nacionalidade diferente, lidando com questões do desejo. A adaptação do conto de Clarice é Chamada final e é dirigida por Ana Maria Magalhães. E tem um outro conto nesse mesmo livro, Praça Mauá, que gostaria de ver em imagens. Creio que os contos dela são mais cinematográficos, num sentido imagético, do que os romances”, opina Alysson.
O realizador pernambucano Marcelo Gomes há de concordar. Em 1998, ele e Beto Normal roteirizaram e dirigiram o curta-metragem Clandestina felicidade, “uma livre adaptação do conto Felicidade clandestina, de Clarice Lispector”, como estampava o cartaz - desenhado no mesmo preto e branco com que o filme fora rodado em película, aliás. Marcelo era - e ainda é - fã confesso da escritora. “Ela é uma das grandes explosões da literatura em língua portuguesa para mim, junto a Fernando Pessoa. Quando li Água viva fiquei completamente apavorado e comecei a ler tudo - Perto do coração selvagem, Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, os volumes de contos”, confessa o diretor de Cinema, aspirinas e urubus (2005), Paloma (2022) e Retrato de um certo oriente (2024), entre outros.
Seu desejo era criar na fronteira entre “cinema e literatura”, apostando na liberdade de reinvenção. “O que me interessava era imaginar como uma pessoa de tamanha inventividade observava o Recife, qual era a leitura que ela fazia da cidade. Como seria esse Recife a partir dos olhos de uma menina que veio da Ucrânia e cresceu naquele universo do centro? Não era real, era uma cidade imaginada, um Carnaval imaginado. Por isso o Recife em preto e branco, saído da imaginação dela. Não foi à toa que me debrucei sobre os contos de Felicidade clandestina, principalmente o conto do título e Restos de Carnaval. Beto e eu conversamos com a biógrafa dela, Nádia Batella Gotlib, começamos a escrever e pedimos autorização do filho. Ele foi ótimo, nos disse apenas para falar com Carmen Balcells, que era a agente dela”, recorda o diretor.
[Clarice foi casada por dezesseis anos com Maury Gurgel Valente, diplomata com quem morou nos Estados Unidos e em países europeus como a Suíça. Com ele teve dois filhos, Pedro (diagnosticado com esquizofrenia ainda na adolescência) e Paulo Gurgel Valente. Até hoje, Paulo supervisiona o espólio literário da mãe. Já Carmen Balcells, falecida em 2015, deu nome à agência literária da Espanha que gerenciou a carreira de ícones como Gabriel García Márquez, Julio Cortázar, Rosa Montero e Isabel Allende, entre outros. Hoje, essa agência ainda responde pelos direitos da obra de Clarice; no campo editorial, a Rocco vem publicando a obra dela no Brasil desde 1997, tendo adquirido os direitos outrora pertencentes à extinta editora Francisco Alves.]
Com fotografia de Jane Malaquias, Clandestina felicidade acompanha o cotidiano da menina Clarice (Luísa Phebo, uma joia) pelas ruas do Recife: ela vai até a casa de Rebeca (Nathalia Corinthia) para pedir emprestado o volume de As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato, e sofre com a recusa da amigas, fica assustada quando o pai (Germano Haiut) admite, a ela e às irmãs Elisa (Sarah Hazin) e Tania (Izabel Brito), que sua mãe está muito doente e se anima quando o Carnaval irrompe na frente de casa. Tragada pelo fervor da multidão, pelo compasso do frevo e pelo delírio da folia entorpecida por lança-perfume, Clarice tem uma de suas primeiras epifanias - palavra/conceito/eflúvio que há de lhe escoltar por toda a vida.
“No conto, ela diz que é no Carnaval que as ruas do Recife se explicam - rua da Alegria, da União, da Saudade. Eu queria me impregnar do olhar dela”, lembra Marcelo Gomes. “E quando a festa ia se aproximando, como explicar a agitação íntima que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu”, escreve Clarice no texto impresso como crônica no Jornal do Brasil em 1968 e depois vertido para Felicidade clandestina - era um dos 25 contos do volume publicado em 1971. “A forma como ela olha para o Carnaval é muito bonita. Porque o Carnaval, de fato, é algo muito forte e potente. Acho que é por isso que todo filme meu tem que ter Carnaval”, confessa Marcelo Gomes, que convoca a folia nos documentários Estou me guardando para quando o Carnaval chegar (2019) e Criaturas da mente (2025).
Em um dos textos reunidos em O que eu escrevo continua - Dez ensaios no centenário de Clarice Lispector, publicado pela Cepe Editora em 2020, a escritora e jornalista pernambucana Marilene Felinto contextualiza a geografia particular da caçula Lispector. “No mapa de Recife, a família de Clarice habitou o quadrilátero entre a Ponte da Boa Vista e a Ponte Princesa Isabel, no bairro da Boa Vista, à beira do Rio Capibaribe, onde vivia uma comunidade judia de cerca de 350 famílias. Naquela capital ainda acanhada, movida a bondes, que tinha perto de 300 mil habitantes, Clarice viveria uma de suas maiores tristezas, perderia a mãe, que morreu em 1930, quando a menina tinha 9 anos. O pai, mascate vendedor de tecidos, esforçava-se para dar às filhas a melhor educação do lugar. Clarice e as duas irmãs tiveram inclusive aula de piano, instrumento que o pai havia comprado ‘com grande sacrifício’ logo que a esposa morreu”, rememora Marilene em Clarice Lispector e a alegria fatal de Recife.
Os argumentos dela foram traçados como um paralelo entre a vivência de Clarice e a da própria Marilene, que experimentou uma infância de escassez no Recife e na juventude saiu do Recife para estudar no Rio de Janeiro. O ensaio prossegue: “Clarice menina tinha intimidade com o centro da cidade e certo acesso à cultura letrada para além da escola – a livraria Imperatriz era vizinha de porta de sua casa –, brincava à beira do rio e no elegante jardim do Derby com seu chafariz. [...] ‘Estou tão emocionada que não consigo escrever’, continua a escritora ao descrever o mar em Banhos de mar. Mais tarde, já mulher feita, em As águas do mar, experimenta a mesma sensação de alegria e entrega ao entrar no mar, no silêncio das seis horas da manhã: ‘uma alegria fatal’ porque ‘a alegria é uma fatalidade’.
“A água salgada é de um frio que lhe arrepia em ritual as pernas. Mas uma alegria fatal — a alegria é uma fatalidade — já a tomou, embora nem lhe ocorra sorrir”. Este trecho integra um dos contos de Felicidade clandestina, mas havia aparecido sob outra camada em Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres (1969) e conduz uma cena crucial de O livro dos prazeres, adaptação que Marcela Lordy exibiu na Mostra de Cinema de São Paulo em 2020. “O banho de mar ao nascer do dia, uma das cenas mais bonitas, conduz Lóri a um caminho sem volta. Cena que remete à entrada do mar de uma personagem do curta Ser o que se é (2018), da mesma diretora. Neste filme, a adolescente, que lê Clarice na praia, tem vergonha de seu corpo e se questiona se entra ou não no mar. Em O livro dos prazeres, esse mergulho representa um momento de transformação e de fruição com o mundo, como água que invade e muda o lugar por onde passou”, assinalava a jornalista Paula Passos na Continente Online em texto de outubro daquele ano pandêmico.
“Eu costumo dizer que Clarice era muito barroca, então, quis fazer uma mistura de linguagens”, contou a diretora e co-roteirista na conversa com Paula Passos. Na tela, a imagem límpida proveniente das câmeras modernas se intercala com intertítulos filmados em 16mm para narrar o encontro entre Loreley, a Lóri (Simone Spoladore), uma professora que se divide entre a rotina maçante e flertes fugazes no Rio de Janeiro do final dos anos 1960, e o professor de filosofia Ulisses (o ator argentino Javier Drolas). Marcela Lordy levou uma década no processo: “A vontade de adaptar o livro surgiu da minha necessidade de olhar mais de perto para a velocidade com que as relações afetivas se formam e se desfazem nos dias de hoje. Estava morando sozinha pela primeira vez, quando me deparei com Lóri e seus desafios existenciais da maturidade”.
Ou seja, da mesma forma que no campo imagético as adaptações cinematográficas esticam as possibilidades para dar conta da fértil imaginação clariceana, na vereda do teor dos livros, e do olhar lançado para as mulheres, sua obra pouco perde na atualização. Desquitada antes dos 40 anos, com dois filhos que nem sempre estavam com ela, fumante com fama de bruxa e com o sotaque intimidante (que, na verdade, se devia à língua presa que ela nunca quis operar), escritora de pulso e personalidade firmes num meio masculino e machista, ela conjurou personagens complexas e multidimensionais como Lóri; Virginia em O lustre (1946) - talvez uma homenagem à autora britânica Virginia Woolf, a quem ela sempre foi comparada por adotar a fluxo de consciência; G.H.; e a narradora anônima de Água viva (1973). “Ao ler o livro, senti que havia algo sagrado ali sobre o amor e a autorrealização feminina na sociedade patriarcal brasileira que ainda precisava ser resgatado”, entende Marcela Lordy.
Embora ambientados na década de 1960 como suas matrizes, O livro dos prazeres e A paixão segundo G.H. são obras da contemporaneidade. Simone Spoladore e Maria Fernanda Cândido saltam no abismo de suas personagens e entregam performances tão avassaladoras quanto passagens como essa: “A necessidade é o meu guia. A realidade é a matéria-prima, a linguagem é o modo como vou buscá-la — e como não acho. Por destino tenho que ir buscar e por destino volto com as mãos vazias. Mas — volto com o indizível.” Essa aproximação com o “indizível” é mais perceptível no longa-metragem de Luiz Fernando Carvalho, que em 2013 já vertera alguns contos para a televisão no quadro Correio feminino, apresentado durante oito domingos consecutivos no Fantástico, na TV Globo. Coincidência ou não, esses episódios eram alinhavados pela voz de Maria Fernanda; cinco anos depois, no 2018 que convulsionou o país e elegeu Jair Bolsonaro, os dois entraram no set para inventar G.H.

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Em Diário de um filme (Rocco, 2024), a roteirista Melina Dalboni, que atendeu ao chamado de Luiz Fernando para dividir a escritura do script, a intensa preparação, a enxuta filmagem de apenas 21 diárias em um único set (um apartamento em Copacabana) e uma cosmogonia própria, destaca essa declaração do cineasta: “Lidar com o silêncio não é coisa fácil. Minha necessidade era buscar dentro desse silêncio um diálogo com algum mistério, era confiar nas entrelinhas da coisa e seguir o fluxo, usando o mínimo de artifícios. O fato de estar na câmera e de 70% da história se passar no interior do quarto de Janair, fez com que eu estivesse sempre a alguns centímetros de G.H. Este é um filme epidérmico. Este talvez tenha sido o motivo fundamental que me levou a aceitar que eu mesmo fizesse a câmera, simplesmente para que a minha condução se desse através da personagem, e não a partir da Maria Fernanda. As cenas são, na verdade, cumplicidades que eu tinha com a G.H.”
Se às vezes uma pessoa tem dificuldades em descrever o efeito exercido pela literatura de Clarice Lispector, tamanho o terremoto subjetivo, emocional e linguístico a que ela se submeteu, é duro tentar descrever o filme após vê-lo. Seu impacto visual arrebata, assim como arrepia a doação de Maria Fernanda à personagem, ao cenário e à “desintegração” que a dona de casa sente ao entrar no quarto da empregada recém-demitida e experimentar o magma da vida ao ver um desenho na parede e encontrar uma barata em cima do armário. Walter Porto, editor de livros da Folha de S. Paulo, resume assim: “A paixão segundo G.H. é como saborear a conquista do impossível. Há que se discutir se algum artista já conseguiu isso. Clarice chegou perto. Carvalho e Cândido também”. Para Carlos Alberto Mattos, o longa “extraordinário, corajoso e requintado” não se amedronta diante do original: “Em vez disso, mergulha no seu tecido escamoso e delirante para daí extrair uma pérola do cinema”.
O filme não somente oferta à platéia uma janela para perceber o transe da protagonista (a atriz revelou se tratar do “maior desafio de sua carreira” e de uma jornada de “desconstrução de personalidade”, resultando numa “anti-interpretação”) como também transcende o livro ao personificar Janair, a empregada cuja ausência desencadeia a espiral catártica da ex-patroa. No livro, Clarice condensa: “Não era de surpreender que eu a tivesse usado como se ela não tivesse presença: sob o pequeno avental, vestia-se sempre de marrom-escuro ou de preto, o que a tornava toda escura e invisível — arrepiei-me ao descobrir que até agora eu não havia percebido que aquela mulher era uma invisível.” No longa, Samira Nancassa, vinda de Guiné-Bissau como refugiada, fora escalada pelo diretor justamente por não ser atriz. Seu rosto enquadrado em close e a imagem do seu corpo quase em fusão com o de G.H., em planos que remetem a Ingmar Bergman, surgem como uma ruptura voraz.
A roteirista Melina Dalboni mostra a radiografia desse processo em Diário de um filme: “Na transposição do romance para o filme, quando G.H. espia o escuro do guarda-roupa e se assusta com a barata, ou seja, diante da vida feroz cuja presença subterrânea ela ignorava, inconscientemente, ela vê também Janair, a empregada que ela tratava de invisibilizar. Para narrar essa metáfora, Luiz Fernando tira o fundo do guarda-roupa, onde posiciona Samira. O plano é um close que parte do breu total do armário fechado e, com o mínimo de luz, aos poucos revela o brilho nos olhos de Janair. O diretor pede para que Samira simplesmente olhe para a lente sem piscar. A vivência do olhar de Samira devolve para a câmera a opressão da sociedade”.
Mesmo afirmando que “não há um modo técnico de lidar com a vida, mas um modo espiritual”, Luiz Fernando Carvalho engendrou sua traquitana particular para lidar com o desafio: a Lente G.H., fabricada artesanalmente com base em materiais russos dos anos 1970. “A lente traz na própria ótica um conflito, fruto da junção entre as óticas de uma grande angular com a de uma teleobjetiva”, sintetiza o diretor, que optou também por filmar em 35mm no formato full frame, deixando a tela quadrada como o negativo. Seu propósito era “um quadrado de branca luz”, como o quarto de Janair aparece no romance“, para criar a ilusão de que “o espectador, assim como o leitor, também está soterrado numa mina desabada e preso no deserto, como Clarice escreve”, detalha Melina Dalboni. “Se em Clarice Lispector, o conceito pensar-sentir é crucial para alguma compreensão do mundo, Luiz Fernando deixa-se guiar por uma espécie de conceito de filmar-sentir”.
[Em 2024, mesmo ano em que A paixão segundo G.H. percorria os cinemas com a distribuição da Paris Filmes, a atriz britânica Cate Blanchett professava globalmente sua admiração por Clarice ao receber o Donostia Award pelo conjunto da sua carreira no Festival de San Sebastian, na Espanha: “Vivemos em tempos incertos e busco coragem em Clarice Lispector, uma autora brasileira que é um gênio em absoluto.”]
Na mente de G.H., no romance já traduzido para mais de 15 idiomas, Clarice parece sintetizar sua postura na vida: “Vou criar o que me aconteceu. Só porque viver não é relatável. Viver não é vivível. Terei que criar sobre a vida”. Decidida a virar escritora desde os 13 anos de idade, quando ainda estudava no Ginásio Pernambucano, na rua da Aurora, ela construiu seu caminho não só com talento, mas com tenacidade: apostou na escrita mesmo com o diploma em Direito - tinha 22 quando finalizou e 23 anos quando lançou Perto do coração selvagem, em 1943. E quando se cansou de morar fora do país, longe das irmãs, bancou a decisão de se separar do marido. A resiliência dela se descortina em Clarice Lispector - A descoberta do mundo (2022), documentário da realizadora pernambucana Taciana Oliveira, que ao perseguir sua vontade foi tão obstinada quanto a escritora.
“Li Água viva nas prateleiras da antiga Livro 7 aos 20 anos. Foi uma revolução. Já conhecia a faceta tradutora dela, pois tinha lido um romance de Walter Scott da Ediouro, mas fiquei obcecada pela obra e pela figura dela. Fiz a proposta de um documentário chamado A descoberta do mundo porque eu queria partir das crônicas, que são o momento em que ela mais fala com as leitoras. Não queria a voz de outras pessoas falando dela tanto, queria mais ouvi-la. Entrei em contato com a família e eles liberaram, contanto que tivesse a consultoria de Tereza Montero, uma das biógrafas de Clarice”, conta Taciana.
O que aconteceu poderia ser enredo do mais surrealista dos escritos clariceanos. A diretora aprovou o projeto num dos primeiros editais do Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura - Funcultura destinados especificamente ao audiovisual, começou a registrar entrevistas com Ferreira Gullar e Ledo Ivo em 2007, mas se viu em uma reviravolta perpetrada à sua revelia. Uma rusga com a atriz Cássia Kiss, que participaria das sequências ficcionais no estilo docudrama, interrompeu o processo criativo de Taciana, que paralisou o projeto em 2012 e em 2014 chegou a uma versão que ela mesmo define como “tosca”.
Entre o primeiro corte e a estreia do documentário na Festa Literária de Paraty - Flip em 2022, ela foi do inferno ao céu: “Enfartei, botei stent, nasci de novo e, ao acordar, recuperei aquele amor que eu tinha na década de 1990 por Água viva, A paixão segundo G.H. e Laços de família. Não o amor de uma fã extremada, mas aquele amor da criação, de colocar sentimento nas coisas que faz”, rememora Taciana. O tempo lhe deu ainda o benefício de ter acesso a tesouros. “O processo de reedição coincidiu com a revisão que Teresa estava fazendo da biografia, então tivemos acesso às imagens da entrevista que Clarice deu a Araken Távora para a antiga TVE”. Inédito, o material foi divulgado À procura da própria coisa - Uma biografia de Clarice Lispector (Rocco, 2021) e no documentário, no qual as duas arqueólogas clariceanas assinam juntas o roteiro.
Em abril de 2023, Clarice Lispector - A descoberta do mundo, disponível no Prime Video, no Google Filmes e no YouTube Filmes, recebeu o prêmio de melhor documentário pelo júri popular no Festival SESC de Melhores Filmes. A realizadora teve a certeza de que não foram somente os depoimentos valiosos de Paulo Gurgel Valente e Nicole Allgranti, sobrinha-neta de Clarice, de escritores e amigas como Nélida Piñon e o casal Marina Colasanti e Affonso Romano de Sant'Anna, ou os recortes da entrevista que Marina, Affonso e João Salgueiro fizeram com Clarice no Museu da Imagem e do Som - MIS do Rio, que conquistaram o público. O motivo é a própria escritora.“Ela é atual. As pessoas compram seus livros e querem saber quem era ela. Seu mistério permanece”, diz
Em agosto, o documentário Rio de Clarice será lançado pela Bretz Filmes, com cinco adaptações de contos e cinco cineastas no comando: Eunice Gutman, Maria Luiza Aboim, Barbara Kahane, Nicole Allgranti e Taciana Oliveira dirige uma delas, Amor, emblemático espelho das epifanias - uma dona de casa volta das compras e da janela do ônibus vê um homem cego mascando chiclete. Outra diretora pernambucana, Kátia Mesel, já prepara o seu Recife de Clarices, projeto embalado também pela recém-criada Associação Casa Clarice Lispector - ACCL. O sobrado 387 da praça Maciel Pinheiro foi cedido à entidade pela Santa Casa de Misericórdia em um contrato de comodato com validade de 25 anos. O objetivo é transformá-lo em um museu, para o qual Kátia produzirá 12 obras imersivas e interativas e onde também será exibido o novo projeto.
“É o Recife de Clarices porque ela era múltipla e não cabe em uma só caixinha. Foram muitas histórias colecionadas na sua vivência. Quatro atrizes viverão quatro fases da vida dela enquanto Germano Haiut vai entrar em narrações em off para contextualizar, por exemplo, como chegavam os imigrantes do Leste Europeu e qual era o modus vivendi do Recife na época. Conseguimos os direitos de uso da caligrafia, da voz e da imagem dela e até já compramos uma máquina igual, a Remington 22”, explica Kátia Mesel. Ela cresceu na Boa Vista duas décadas depois da escritora, “andando pela Maciel Pinheiro e pela Manoel Borba, tomando sorvete e leite maltado, e também no seio de uma família de judeus que escaparam da Europa. “Temos o mesmo nome em hebraico, Haia, que significa vida”.
Em 2027, como se constata, meio século após sua partida, Clarice Lispector e sua obra vão se manter no ar como pólen, fecundando novos projetos e sem frear a criação, pois criar é “correr o grande risco de se ter a realidade”.
LUCIANA VERAS, jornalista.