Reportagem

Paisagem é o resultado da relação entre pessoas e os lugares de suas vivências

O conceito de paisagem e sua importância para o bem-estar são analisados por pesquisadoras e professoras da UFPE

TEXTO Cleide Alves

23 de Abril de 2026

Paisagem é uma construção que coexiste com as necessidades de quem as vivencia, diz a professora Edvânia Torres

Paisagem é uma construção que coexiste com as necessidades de quem as vivencia, diz a professora Edvânia Torres

Foto Leopoldo Conrado Nunes/Cepe

Os jardins criados pelo paisagista Roberto Burle Marx (1909-1994) representam a paisagem brasileira. Ao dar preferência a plantas nativas, ele criava praças e parques de acordo com a estética e as necessidades da época. Jardim é paisagem, mas paisagem tem conceito amplo. “É uma construção que coexiste com as necessidades de quem as vivencia”, declara a geógrafa e professora na Universidade Federal de Pernambuco, Edvânia Torres Aguiar.

“A noção de paisagem se constrói na relação entre as pessoas e os lugares de suas vivências, e vem da nossa compreensão de mundo, ainda que nem sempre tenhamos consciência disso”, escrevem as arquitetas e urbanistas Mirela Duarte e Luisa Acioli Santos na publicação Pensar Paisagem, lançada em 2020 pelo Laboratório da Paisagem da Universidade Federal de Pernambuco. Elas são pesquisadoras do laboratório, organizadoras e coordenadoras do livro.

Paisagem, destaca a geógrafa, “não é cartão-postal nem massa de modelagem para experimentos a elevados custos de outras realidades exógenas, e nunca são iguais, pela cultura, pelo sítio geográfico, pela economia, pela política e pelos arranjos sociais envolvidos.” Edvânia Torres Aguiar é autora do livro Recortes de Paisagens na Cidade do Recife - Uma Abordagem Geográfica, publicado pela Editora Massangana, em 2007.

Ao ser questionada sobre como o Recife, primeira capital brasileira a completar 500 anos, em 2037, produziu a sua paisagem, em meio à especulação imobiliária e à necessidade de moradia, ela é enfática. “A base ou substrato que é o sítio geográfico é o mesmo e sobre o qual foram cristalizando formas de ocupação da planície (negando a água e mangues com os inúmeros e crescentes aterros, independentemente do grupo social) e da ocupação das vertentes e colinas (que constituem 2/3 da sua extensão territorial) e que não cresceu em quase seus 500 anos”, afirma a professora.

Num cenário de mitigação e/ou adaptação às mudanças climáticas, o assunto é mais complexo, diz ela. “No caso de cidades como o Recife, 16ª ameaçada por isso, no IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), as expressões de Paisagem traduzem cargas culturais fortes da relação dos grupos sociais, e no seu conjunto, a Sociedade, com as transformações do meio natural, passando pelo meio geográfico, nos períodos pré-industrial, industrial até o atual no qual o meio é técnico-científico e informacional (transformada em cidade de serviços tecnológicos-informacionais, educacionais e polo médico).”

Dentro desse contexto, avalia Edvânia Torres, a paisagem tem de ser tratada como política de Estado. “E aí vem a crítica ao processo institucional de planejamento e gestão desses espaços. A ausência de políticas públicas que garantam qualidade e bem-estar no usufruto da cidade. Não é só criar parques, o que é necessário, mas como gerir em suas diversas esferas. A solução não é terceirizar ou concessionar, tem de ser definida a forma de gerir que se deseja, assim como os modelos de fiscalização, de forma transparente e acessível.”

Jardim é vida

Voltando à paisagem jardim, a arquiteta e urbanista Ana Rita Sá Carneiro, professora na UFPE, destaca a importância da conservação e manutenção desses espaços. Ela explora o assunto no livro Pensar Paisagem, citado no início do texto, em um artigo escrito com Mirela Duarte e com o biólogo Joelmir Marques da Silva: “Mesmo um pequeno jardim precisa dos cuidados de sábias mãos para sobreviver, e o jardineiro entende que, alimentando o jardim, alimenta também o próprio espírito, o que é uma forma de vida.”

Jardins públicos, observa Ana Rita, funcionam como um refúgio da agitação urbana e são aliados da saúde. Ao favorecer o relaxamento e aliviar tensões, contribuem para a prevenção contra doenças. “Uma cidade sem jardim seria um ambiente nocivo”, destaca. “Seria o afastamento total da natureza”, acrescenta a arquiteta, urbanista e pesquisadora da obra de Burle Marx, Ana Cecília Ventura.

Ana Rita cita a Carta de Atenas - declaração de princípios do urbanismo moderno aprovada no IV Congresso Internacional de Arquitetura Moderna, realizado em 1933 - para fazer a defesa dos jardins públicos. “Os quatro princípios da Carta de Atenas são habitar, recrear, circular e trabalhar; a recreação exige espaços abertos, como parque e praças”, reforça.

O paisagista Burle Marx, informa Ana Rita, preferia ser chamado de jardineiro e dizia que um jardim é a natureza organizada. “Ele entendia que, cuidando do jardim, manifestamos a nossa atitude jardineira de respeito à natureza e de consciência da relevância do jardim como alimento ao espírito.” Ana Rita é fundadora e pesquisadora do Laboratório da Paisagem da universidade.

Pensar Paisagem reúne artigos de seis arquitetas e urbanistas - Luisa Acioli dos Santos, Mirela Duarte, Lahys Barros, Ana Rita Sá Carneiro, Lúcia Veras e Onilda Bezerra - e do biólogo Joelmir Marques da Silva, pesquisador do laboratório. Os textos apresentam a paisagem em seus diversos aspectos: natureza, jardim, território, arte, patrimônio, cotidiano, caminho, espaço público, tempo, espírito do lugar e entre.

Sobre este último conceito, Lahys Barros e Mirela Duarte escrevem, no livro: “O geógrafo Augustin Berque explica que paisagem não é apenas aquilo que está fora de nós, como também não é apenas aquilo que criamos em nossa mente, mas sim a relação entre essas duas instâncias. Esta relação só existe na experiência sensível do mundo e, ao mesmo tempo, é o que dá sentido à nossa existência. O que somos senão as relações que preenchem o horizonte do nosso ser? E então, o que somos senão paisagens? Pensar em paisagem é pensar nessa instância do entre, entre o interior e o exterior, o ser e o mundo.”

Veja no aplicativo da revista Continente reportagem sobre jardins de Roberto Burle Max.


Baixe o aplicativo gratuitamente nas lojas Android e IoS do seu celular. Busque por revista Continente. Instale uma única vez o app e faça o download da edição 23| 04 | 2026. Veja, leia e curta. Toda semana, uma nova edição, gratuitamente para você.

veja também

Burle Marx: o jardineiro que plantou paisagens no mundo

Tanajuras e o cardápio nacional

Ações de prevenção em outros países