Festa junina é a maior manifestação cultural do Nordeste
Um mês inteiro para a devoção de santos, saborear comidas de milho e dançar forró nas capitais e nas cidade do interior
TEXTO Cleide Alves
10 de Junho de 2026
Pamonha do Império das Canjicas é um sucesso na Zona Norte do Recife
Foto Leopoldo Conrado Nunes/Cepe
O mês de junho chegou e traz com ele uma das festas mais aguardadas do ano, com sabor de pamonha, canjica e pé-de-moleque, com som de forró, xote e baião e, claro, com homenagens a Santo Antônio, São João e São Pedro. Quem gosta da brincadeira já deve ter notado que São Pedro é o menos festejado entre os santos juninos. Logo ele, que é o mais simpático dos três e o mais parecido com a gente, de acordo com o frade franciscano Aloísio Fragoso.
“Ele é uma figura diferente de Santo Antônio e de São João. Cometeu mancadas, era atrevido e sempre o primeiro a dar respostas”, diz frei Aloísio. Na última ceia, ao ouvir Jesus falar que todos os apóstolos iriam abandoná-lo, foi logo abrindo a boca: eu não! Mas antes de o galo cantar, ao ser interpelado, teve medo e negou qualquer amizade com Cristo: nunca vi! Quando se deu conta do que havia feito, caiu no choro, arrependido.
A promessa não cumprida, o medo e o abandono, como verificamos em São Pedro, fazem parte das fraquezas humanas, destaca frei Aloísio. “Há muitas lendas sobre São Pedro, como ele ser o chaveiro ou o porteiro do céu, e muitas anedotas também. Mas segundo o Evangelho, ele era um homem de muita simplicidade e tinha muita camaradagem com Jesus Cristo.” Na festa junina, São Pedro é quase uma continuidade dos festejos de São João, observa o franciscano. “Ninguém dança quadrilha para São Pedro”, comenta.
O mais popular do trio, São João, na tradição bíblica, não tem semelhança com a imagem cultuada na festa junina. “O povo criou para ele uma vida bem diferente da real, são lendas populares. São João era muito austero, fez jejum e penitência no deserto, era um personagem severo demais”, destaca frei Aloísio. O São João do carneirinho, bonzinho, bonitinho e meigo só existe na música de Luiz Gonzaga e nas pinturas de Leonardo da Vinci e de Rafael, afirma.
“Essa imagem do São João bonzinho é a transformação da história bíblica, de um personagem que passou a vida pregando coisas muito fortes e duras, para o folguedo popular, o povo não quer um santo austero, provavelmente”, observa o frade. Assim como Pedro e João, Santo Antônio também tem a vida relatada no Evangelho e a vida criada nas ruas. Na versão real, ele era sério e não tinha nada de popular, no sentido de ser alegre e festeiro, destaca o franciscano. No ciclo junino, ele é o casamenteiro.

Não foi bem por festa, mas por necessidade de vida, que Santo Antônio virou casamenteiro, diz frei Aloísio. “Ele era o defensor do povo quando não havia ninguém para defender o povo, no século 13.” E tinha a língua afiada ao abrir a boca e pronunciar frases como estas, citadas pelo frade - muitas mãos que distribuem esmolas estão manchadas do sangue dos pobres e é pecado dar a outros o que pertence aos pobres e os bens da igreja pertencem aos pobres.
“Por fazer a defesa do povo, passou a ser considerado um santo poderoso diante de Deus, virou o padroeiro das necessidades maiores. Na Idade Média e no Renascimento, o casamento das filhas era difícil por causa dos dotes, e casamento é uma necessidade vital, mas com a ajuda de Santo Antônio, seria possível, e assim ele virou casamenteiro”, explica o franciscano.
A vida mítica dos santos juninos, na avaliação do frade, não faz mal a ninguém. “Do contrário, faz bem, é a parte festiva da vida, é o que o povo quer.” Mesmo não sendo a história real dos santos, não é mentira, ressalta o frade. “São lendas, uma tradição oral, é outra forma de biografia, a lenda é a expressão do que se deseja.” A Igreja Católica festeja o santo no dia da sua morte, por uma coincidência histórica, Antônio, João e Pedro faleceram em junho e são cultuados nos dias 13, 24 e 29.
Culinária
É da mistura do milho ameríndio, do leite de coco africano e do açúcar abrasileirado que nasceram as irresistíveis canjicas e pamonhas nordestinas para reverenciar Santo Antônio, São João e São Pedro. As comidas típicas das festas juninas, por mudanças no padrão social, pularam do espaço doméstico para as padarias e lojas especializadas. Antigamente, as casas maiores, as famílias mais numerosas e a mão de obra barata facilitavam o preparo das comidas no lar, observa o antropólogo de alimentação Bruno Albertim.

“Mesmo não fazendo mais em casa, as pessoas não deixam de comer a canjica, a pamonha, os bolos e o milho, elas compram os pratos prontos, pela força da tradição”, ressalta Bruno Albertim. Para ele, mesmo os ingredientes não sendo nativos (o coco é da Índia e a técnica do leite é africana), as comidas juninas são nordestinas. “Nada é nativo, as pessoas vão criando culturas, canjica e pamonha são receitas brasileiras de matriz portuguesa, os portugueses se apropriaram de receitas e adaptaram aos ingredientes disponíveis no Brasil.”
Comidas juninas (Fotos abaixo: bolo de milho e canjica da Pamonha do Inácio, de Bezerros), diz ele, são antigas e sem datações. “A mão portuguesa temperou o milho com leite de coco e com açúcar, e as receitas foram se disseminando, são as mesmas para todo o Nordeste, com pequenas variações no preparo, uns Estados colocam menos leite de coco e outros colocam mais, uns lugares adicionam mais açúcar e outro, menos.”

O antropólogo e pensador da comida e da alimentação, Raul Lody, não considera os quitutes de milho tipicamente nordestinos. “São comidas americanas, porque o milho é sul americano”, afirma. “E o coco é da Índia, ele chega ao Brasil com a diáspora portuguesa, dizer que o coco é de matriz africana é bobagem, isso não existe.”
O coco, acrescenta Raul Lody, está presente na culinária nordestina não só no ciclo junino, mas na Semana Santa. “Temos o nosso bredo ao coco, arroz de coco, camarão ao coco, feijão de coco, tudo ao coco”, cita. As comidas juninas, com seus preparos longos, ressalta o antropólogo, precisam de técnica, conhecimento e muita higiene, para evitar surpresas desagradáveis. Uma delas é aquele gosto de sabão na boca.

Esse gosto, segundo ele, vem da forma como se usa o leite de coco nos alimentos. “O leite de coco raspado deve ser colocado no fim do preparo, é importante que o coco não fique muito tempo no fogo. As pessoas que fazem canjica, que tem um preparo muito longo, sempre colocam o coco na finalização, como acontece com a moqueca de peixe, ele entra como arremate.”
Outra dica do antropólogo é dar preferência ao coco natural. Ralar o coco e tirar o leite dá trabalho, mas sem dúvida os pratos ficam mais saborosos. “Certamente os preparos artesanais são mais frescos, porque todos os produtos processados têm conservantes e outros elementos além da matéria prima original. Então é muito melhor se você puder fazer o seu leite de coco em casa, o sabor verdadeiramente muda”, afirma.
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