Reportagem

O começo do fim do mundo

Nos 50 anos do punk, um retrospecto do movimento que sacudiu o rock a partir de 1976, afetando também a moda, o comportamento e o mercado fonográfico

TEXTO Renato Lins

14 de Julho de 2026

Steve Jones, Sid Vicious, John Lydon (Johnny Rotten) e Paul Cook, integrantes dos Sex Pistols

Steve Jones, Sid Vicious, John Lydon (Johnny Rotten) e Paul Cook, integrantes dos Sex Pistols

Foto Divulgação

O Anticristo está entre nós! Pelo menos na cultura pop, o apocalipse já aconteceu. Como numa profecia milenarista, o anticristo, encarnado em um jovem inglês (de ascendência irlandesa), se materializou nas Ilhas Britânicas em 1976 proclamando, em um compacto de sucesso, ser um anarquista pronto a “destruir quem passar por mim”, interessado em “caos”. Passados 50 anos, é tempo de repensar o impacto do “Punk”, o  movimento que Joãozinho Podre (“Johnny Rotten”, codinome do nosso anticristo) ajudou a criar. Porque tudo, do Joy Division ao Mangue Beat, de Blade Runner a Asas do Desejo, de Nova Iguaçu ao Brooklyn, deve tributo àquelas semanas e meses do juízo final! 

Até essa hecatombe acontecer, “punk” era apenas uma gíria secular enterrada nos dicionários de Inglês, usada para depreciar jovens delinquentes, com raras aparições no teatro (Medida por medida, de Shakespeare) ou no cinema (Juventude transviada, de Nicholas Ray). Sua saída do anonimato linguístico se deveu a um casal de estilistas, Malcolm McLaren e Vivienne Westwood, ambos londrinos, loucos para experimentar suas ideias radicais sobre arte e política e ainda fazer dinheiro com isso.

Foram eles que tiraram o termo do anonimato para batizar o estranho mix de palavras de ordem do Maio de 68, artefactos sado-masoquistas, camisetas rasgadas da “Blank Generation” nova iorquina e moda retrô dos 1950, incorporado nas suas coleções de roupas e na imagem do Sex Pistols, a banda formada por frequentadores da loja que possuíam (a Sex), que tinha Johnny Rotten como vocalista e letrista. Numa Inglaterra decadente, onde o boom do pós-guerra era coisa do passado, com desemprego e racismo em alta e uma cena pop domesticada, dominada pelo virtuosismo estéril do chamado “rock progressivo”, o punk caiu como um míssil Oreshnik.

Essa explosão inicial se estendeu daquele 1976 dos primeiros shows e compactos do Sex Pistols até a dissolução da banda, em janeiro de 1978, após uma caótica excursão americana. Durante três anos delirantes, um terremoto sacudiu a Inglaterra. É difícil apontar uma área não afetada. A indústria do disco, por exemplo, viu surgir uma rede extensa de gravadoras independentes. Os jornais sofreram a concorrência de milhares de fanzines. A moda enterrou o que restava dos resquícios hippies. Coalizões de artistas contra o racismo e o fascismo foram formadas. As mulheres questionaram os papéis reservados a elas pela indústria cultural. A Tom Robinson Band alcançou sucesso com uma música cujo refrão proclamava “cante, se você é feliz por ser gay!”. E o Sex Pistols, durante os festejos pelos 25 anos de reinado de Elizabeth II, em 1977, lançou um compacto, banido pela BBC, mas que chegou ao topo das paradas, cujo refrão proclamava “Deus salve a rainha/e seu regime fascista/ Deus salve a rainha/ Ela não é um ser humano”.

Musicalmente, o punk não era exatamente revolucionário: quase uma derivação do Ramones com letras mais politizadas ou niilistas. Três acordes e pronto! O que, por outro lado, trazia duas vantagens: permitia a qualquer um montar uma banda e se contrapunha ao que se considerava o pecado maior do rock da época, as pretensões eruditas de grupos como Yes ou Pink Floyd. Mas a potência máxima do punk se materializava quando música e imagem se combinavam, formando uma estética que captava como nenhuma outra o “espírito da época”, mais duro, distante dos sonhos utópicos da década de 1960. Foi assim que o movimento inspirou a juventude descontente na Inglaterra e, cruzando mares, no resto do mundo. Incluindo o Brasil.

PÂNICO EM SP
O punk desembarcou nos Trópicos pelo Rio de Janeiro. No início de 1978, dois integrantes do Sex Pistols, o guitarrista Steve Jones e o baterista Paul Cook, vestiram seus shorts de praia e se reuniram nas areias de Copacabana com Ronald Biggs, bandido famoso refugiado no Brasil após participar de um assalto ao trem pagador na Inglaterra. Cenas desse encontro regado a cerveja apareceram depois no documentário A Grande Trapaça do Rock’n’Roll, espécie de Cidadão Kane do punk, dirigido por Derek Jarman.

Também dessa época datam as primeiras matérias na mídia local, quase sempre focadas no “chocante” visual punk. Uma reportagem, em especial, exibida para a imensa audiência do Fantástico, marcou época, apresentando a “nova onda” para inúmeros futuros integrantes do movimento. Caso do DJ Dolores que, numa sonolenta Aracaju, assistiu fascinado aqueles seres exóticos na tela da TV. “O que me chamou a atenção foi o visual, porque era bem diferente”, ele lembra 30 anos depois. “Aí eu vi uma matéria sobre a candidatura de Jello Biafra, do Dead Kennedys, à prefeitura de São Francisco, onde prometia que os parlamentares se vestiriam como palhaços. De repente, quando você ouve o som e olha ao redor, para os pais, os irmãos, você percebe que prefere ser punk do que ser como sua família”.

Apesar do pioneirismo carioca, a principal cena punk brasileira surgiu noutro cenário urbano, distópico, cinzento e industrializado. No início da década de 1980, São Paulo (e sua região metropolitana) abriga centenas de bandas que, já a partir do nome de batismo, proclamam suas intenções: Cólera, Olho Seco, Hino Mortal, Ratos de Porão, Garotos Podres…Um dos cérebros do movimento, Clemente, vocalista dos Inocentes, sintetizou seus propósitos numa declaração polêmica: “Nós estamos aqui para revolucionar a música brasileira; para pintar de negro a asa branca, atrasar o trem das onze, pisar sobre as flores de Geraldo Vandré, fazer da Amélia uma mulher qualquer”.

Com as bandas, vieram os fanzines, os discos e os festivais. O primeiro deles, “O Começo do Fim do Mundo”, realizado no SESC Pompeia em 1982, instalou o pânico na Pauliceia. A mídia e a intelectualidade oficial passaram a tratar o punk ora com horror, como degenerados saídos diretamente de uma cena de Laranja Mecânica, ora com desdém, caricaturizando a música e o visual, como no “Punk da Periferia”, de Gilberto Gil, ou no personagem Punk Frutuoso, de Jô Soares. Poucos perceberam o óbvio: por trás dos vocais gritados e dos cortes de cabelo moicano, estava o principal movimento de protesto da juventude periférica brasileira nos anos 1980.

HELLCIFE
Nem a repressão da ditadura, que ainda sufocava o Brasil, mesmo enfraquecida, nem o deboche da mídia impediram o punk de chegar a outras capitais. Caso de Brasília, onde os futuros Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude arriscaram os primeiros acordes inspirados no movimento. Ou Salvador, com o Camisa de Vênus desafiando o consenso em torno de uma definição quase folclórica de “baianidade”. Ou, no extremo sul, Porto Alegre, palco do humor sarcástico de Os Replicantes e Atahualpa y us Panquis.

Recife, “a quarta pior cidade do mundo”, também não ficou imune aos apelos de Johnny Rotten e Clemente. Quem andasse pelo centro da cidade corria o risco de esbarrar, naquele início da década de 1980, com uma figura vestindo coturnos remendados, óculos escuros, uma camiseta com os dizeres “Abaixo a Poesia” e uma pasta 007! Era o visual do então estudante de Jornalismo Fred Montenegro, ainda não rebatizado como o “Fred Zeroquatro” do Mangue Beat. Inspirado no disco Grito Suburbano, uma coletânea com bandas punks de São Paulo, ele ajudou a criar o primeiro núcleo do movimento em “Hellcife”, se juntando a jovens metalúrgicos recém-chegados do ABC paulista para publicar fanzines, grafitar contra o desemprego e formar bandas. No seu caso, a Serviço Sujo, precursora do Mundo Livre S/A.

Em Mundo Livre S/A - Do Punk ao Mangue, a biografia do Mundo Livre publicada pelo jornalista Pedro de Luna em 2024, Zeroquatro recorda esses tempos heróicos: “Eu usava corrente, cadeado, alfinete de fralda na boca e no cotovelo. Quando a gente saia na rua era um escândalo. Isso até minha mãe descobrir!”. Outro episódio lembrado no livro foi a matéria do jornalista e cineasta Geneton Moraes Neto sobre a cena punk do Recife exibida nos telejornais da Globo local. Editada como um curta-metragem experimental, permitiu ao “Rato” (apelido de Zeroquatro na época) e seus parceiros proclamarem candidamente que eram punks “para não dar um tiro na cabeça” e que “odiavam Olinda, a capital dos Hippies”. Foi uma hecatombe!

Se o punk tem um rosto por aqui, no entanto, é o de outro músico que, também, só despontaria para o grande público na Recife do Mangue Beat. Marconi de Souza Santos, morador do Alto José do Pinho, de codinome artístico Cannibal, se aproximou do movimento, conforme contou à Continente, através de um amigo com quem dividia com uma paixão pelo Skate: “Ele me disse que tinha uma rapaziada que se encontrava na pracinha da estação do metrô lá no centro, aquela com uma estátua de Luiz Gonzaga. Aí eu fui e quando cheguei deu pra notar que a galera era tudo de periferia e o som era bem diferente do heavy metal. E aí eu me identifiquei logo. Foi aí que eu comecei a andar com a galera do punk. Ainda não como banda, mas como ativista, como espectador. Eu era rato de ensaio do Câmbio Negro HC, do Moral Violenta e do SS 20. Nem sonhava em ter banda”.

Na segunda metade da década de 1980, uma cena punk já havia se espalhado pela periferia do Recife e cidades vizinhas. Bandas como as citadas Câmbio Negro HC e SS20 se apresentavam nos raros bares abertos aquele som sujo e agressivo ou nos centros sociais espalhados por bairros como Ibura ou Curado. São dessa época os lendários “encontros antinuclear”, reunindo músicos e ativistas. Cannibal, no entanto, só montou sua banda após assistir a uma apresentação do Inocentes: “Até então, as pessoas que via como frontman em cima do palco eram brancos, mesmo dentro do Punk. Quando eu vi Clemente ali na frente tocando guitarra, cantando em português e falando de problemas sociais que parecia que ele tava falando do Alto José do Pinho, esse cara virou meu ídolo! O Inocentes mudou minha vida!”.

A banda paulistana Inocentes, nos anos 1980. Foto: Divulgação

Com o Devotos do Ódio, abreviado em 1998 para Devotos, Cannibal se tornaria um dos principais nomes da cena musical que se formou estimulada pelo Mangue Beat. Lançou discos hoje considerados clássicos do (Punk) Rock brasileiro. E viajou por todo o país e pela Europa, ao lado de seus eternos parceiros de banda, o guitarrista Neílton e o baterista Cello. Mas as lembranças dos primeiros anos permanecem fortes. Como a repressão policial, por exemplo: “Quando a gente voltava pro Alto de madrugada no bacurau, o ônibus não subia o Alto, a gente subia andando e sempre no meio da ladeira tinha um carro da polícia e os caras mandavam a gente deitar no chão e abrir as pernas, dizia que os instrumentos eram roubados, que a gente não era músico. Cara, passou anos e anos acontecendo isso!”.

O Devotos ajudou, ainda, a inspirar novas gerações de bandas punks pernambucanas. Caso da Subversivos, criada em 1997 no Recife pelo vocalista Camilo Maia, que se aproximou do movimento inspirado em filmes como O Exterminador do Futuro e em bandas como Green Day e Offspring. Em paralelo à atuação como músico e ativista, ele consolidou uma carreira como designer, incorporando elementos da estética punk ao seu trabalho como artista gráfico: “A simplicidade, a economia de cores, a desconstrução do layout, a sujeira, tudo isso foi fundamental para eu começar a fazer coisas que eram minhas, capas de disco, fitas demo, cartazes de shows, fanzines, etc. A minha escola de design autoral, digamos assim, dependeu das minhas atividades punks”, contou para a Continente.

Tanto Camilo como Cannibal veem com otimismo o futuro do punk. “Hoje em dia tem muitos canais de revolta”, diz Camilo, “até mesmo por causa dessa profusão de meios tecnológicos, de acesso à informação. Depois da Pós-Modernidade, parece que muitas culturas se misturaram e aí você tem o punk em muitas coisas que, até então, não tinham o punk como influência”. Cannibal, por sua vez, chama atenção para as mudanças de gênero que se refletem sobre o movimento: “Hoje o punk é mais abrangente, tem a galera LGBT, tem a negritude, tem gente que luta contra a gordofobia. Quando entrei, era um movimento muito fechado, machista, homofóbico. O patriarcado era muito forte, era praticamente impossível você ver mulher em cima do palco. Hoje tem milhares de bandas punks só com mulheres!”.

Punk sempre foi um movimento cheio de contradições. Em 1977, por exemplo, Johnny Rotten berrava com convicção “no future for you!”. Mas, ainda assim, inúmeros garotos dos subúrbios partiram para formar bandas ou fanzines ou qualquer coisa onde podem se expressar criativamente. Talvez o segredo para esse apelo esteja no lema “Do It Yourself” (Faça Você Mesmo) tão importante para o punk. Como explica Cannibal, “essa é uma coisa que o periférico favelado já vive desde pequeno. A gente não tinha dinheiro pra comprar brinquedo, a gente inventava os nossos brinquedos. Então, inventar os instrumentos, por exemplo, era fichinha pra gente”.

Inventar instrumentos ou gravadoras ou filmes. Inventar outros mundos. Punk como uma paradoxal distopia inundada por desejos de dias melhores. Depois do apocalipse pop, quem sabe o que pode ser possível?

LIVROS SOBRE O PUNK
O QUE É PUNK - Antonio Bivar (Editora Brasiliense)
Um pequeno clássico de Antonio Bivar, escrito “no calor da hora”, em plena explosão do punk brasileiro.

MATE-ME POR FAVOR - Legs McNeil e Gillian McCain (L&PM)
Colagem de trechos de entrevistas, depoimentos e matérias de jornais e revistas. Uma aula de montagem!

MENINOS EM FÚRIA - Marcelo Rubens Paiva e Clemente Tadeu Nascimento (Companhia das Letras)
Um escritor famoso e uma lenda do punk brasileiro juntam forças para contar a história dos “Garotos do Subúrbio” da Paulicéia.

MÚSICA PARA O POVO QUE NÃO HOUVE - Cannibal (CEPE)
Letras de Cannibal e reproduções de cartazes, capas de discos, fanzines e outros itens ligados ao Devotos.

MUNDO LIVRE S/A - DO PUNK AO MANGUE - Pedro de Luna (Ilustre Editora)
A fusão improvável de Johnny Rotten e Jorge Ben.

FILMES SOBRE O PUNK

THE GREAT ROCK’N’ROLL SWINDLE - Julian Temple.
Documentário “fake” sobre o surgimento do Sex Pistols, centrado numa das figuras-chave do Punk, o empresário Malcolm McClaren

SID AND NANCY - Alex Cox
O Romeu e Julieta do Punk!

AMERICAN HARDCORE: A HISTÓRIA DO HARDCORE PUNK (Paulo Rachman)
As aventuras do Punk na terra do Tio Sam.

BOTINADA - A ORIGEM DO PUNK NO BRASIL - Gastão Moreira
Um mergulho precioso nos anos iniciais do Punk no Brasil.

NÃO É PERMITIDO: UM RECORTE DA CENSURA AO PUNK ROCK NO BRASIL - Fernando Calderan Pinto da Fonseca, Fernando Luiz Bovo, Matheus de Moraes e Renan Costa de Negri).

Curta-metragem sobre a perseguição da censura ao Punk na ditadura e no início da Nova República.

*Todos os filmes estão disponíveis no You Tube.

DISCOS IMPRESCINDÍVEIS DO PUNK

RAMONES - The Ramones (1976)
Canções cruas e minimalistas, mas com melodias ensolaradas tipo Beach Boys.

NEVER MIND THE BOLLOCKS - Sex Pistols (1977)
A produção soa convencional hoje. Mas o vocal e as letras ainda parecem saídos de um anticristo anarquista.

FRESH FRUIT FOR ROTTING VEGETABLES - Dead Kennedys (1980)
Guerrilha sonora contra o nazismo da era Reagan.

GRITO SUBURBANO - coletânea com Olho Seco, Inocentes e Cólera (1982)
Os garotos do subúrbio deixam São Paulo em pânico!

AGORA TÁ VALENDO - Devotos (1997) 
Punk rock hardcore é no Alto José do Pinho e é do caralho!

veja também

Fé e devoção na 330ª Festa do Carmo do Recife

Centro de Referência do Audiovisual é inaugurado no Cinema São Luiz

Museu do Trem volta aos trilhos após restauração