Museu do Trem volta aos trilhos após restauração
Com nova exposição e um antigo vagão recuperado, o museu é reaberto ao público depois de passar quatro anos fechado
TEXTO Cleide Alves
02 de Julho de 2026
A Estação Central Capiba - Museu do Trem é uma construção do século XIX
Fotos Leopoldo Conrado Nunes/Cepe
A agenda e o circuito cultural do Recife ganham mais uma opção de lazer, a partir desta quinta-feira (02/7), com a reabertura da Estação Central Capiba, onde funciona o Museu do Trem. Localizado em frente à Praça Barão de Mauá, no bairro de São José, Centro da cidade, o prédio estava fechado desde 2022 para obras de restauração. A intervenção chegou a ser iniciada, mas foi interrompida em agosto do mesmo ano. Só agora, o espaço retoma as atividades, com uma exposição de longa duração.
No Museu do Trem, o visitante vai encontrar locomotivas e peças originais utilizadas no cotidiano das estações, como sinos, faróis de máquinas e chaves para mudanças de vias. Além de equipamentos dos trabalhadores ferroviários - capacetes, quepes, bolsas -, troles manuais e a motor e guindastes. “É um equipamento cultural de preservação da memória ferroviária”, afirma o historiador e curador da mostra, André Cardoso.

A exposição tem como título Entre trilhos e memórias: os destinos do Patrimônio Ferroviário de Pernambuco e traz uma nova perspectiva para os objetos em exibição, diz André Cardoso. “É uma mostra que fala de memória e também de relações sociais, ela traduz como a implantação da ferrovia, no século XIX, transformou costumes na sociedade”, declara o historiador.
O assunto perpassa as 16 salas temáticas, nove delas foram reabertas nesta quinta-feira (02/7) e as demais serão liberadas nas próximas semanas. Mas aparece com ênfase em dois novos ambientes: Redes Ferroviárias - Conexões Sociais e Memória Ferroviária, que estarão em constante atualização. Fotografias, documentos, bilhetes de viagem e uma variedade de peças contarão histórias de ferroviários e vivências de passageiros.

Um dos destaques da exposição em cartaz são as máquinas expostas na antiga área de embarque e desembarque de passageiros. “Temos a primeira locomotiva a diesel que circulou em Pernambuco, um símbolo da transição do trem a vapor para o diesel, em 1954, e a segunda maior locomotiva que rodou no Brasil, um modelo articulado, movido a vapor, de 28 metros de comprimento e quase 150 toneladas de peso, de 1952”, detalha André Cardoso.
O vagão Insurreição, que funcionou como estação provisória no distrito homônimo, entre os municípios de Bezerros e Gravatá, na região Agreste de Pernambuco, foi recuperado com recursos do Funcultura pelo restaurador Ivan Gonçalves. Mantém as características originais e é mais um atrativo do centro cultural. O Museu do Trem, um dos mais antigos museus ferroviários do Brasil, foi inaugurado em 1972 e ocupa um prédio do século XIX.

O acervo do museu é formado por cerca de 700 peças, sendo 80 itens incorporados recentemente, num resgate feito pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit). Conserva, também, objetos que remetem à atuação da Great Western, empresa britânica responsável pela expansão ferroviária no Nordeste.
“Encontramos o museu com a obra de restauração paralisada, serviços pontuais inconclusos e que não seriam suficientes para garantir a reabertura do centro cultural e uma infestação muito grande de cupins comprometendo a coberta”, enumera a presidente da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), Renata Borba. A intervenção, retomada em outubro de 2025 e encerrada no fim de junho de 2026, recebeu investimentos de R$ 3,49 milhões provenientes do governo do Estado.
De acordo com Renata Borba, os recursos garantiram a obra emergencial na coberta, para evitar desabamentos, a conservação, a manutenção e a recuperação completa do edifício. As intervenções contemplam a climatização, o sistema de prevenção e combate a incêndio, a iluminação, os banheiros, o piso, os forros e os vitrais. Os projetos foram elaborados pela equipe técnica da Fundarpe.

Outra novidade no museu, destaca Renata Borba, é o Vagão das Crianças, pensado para aproximar o público infantil da história ferroviária por meio de experiências lúdicas e interativas. Também volta a funcionar a sala multiuso do centro cultural, voltada a oficinas, apresentações artísticas, atividades formativas, exibições de cineclubes, espetáculos de dança e teatro.
“Abrir o equipamento cultural era nossa prioridade, o Museu do Trem é um espaço importante para a história e preservação da memória do patrimônio ferroviário”, destaca Renata Borba. “Com a reabertura do museu, não estamos focados só no passado, a exposição levanta reflexões sobre a nossa mobilidade, no presente e no futuro, é uma contribuição para o debate sobre a importância da reativação do transporte sobre trilhos”, ressalta André Cardoso.
As conexões da malha ferroviária de Pernambuco, para o Nordeste e para outros destinos no Brasil, inclusive com possibilidade de chegar ao Rio Grande do Sul, estão representadas em mapas na parede de uma das salas. “Todas as estações das linhas férreas de Pernambuco foram identificadas, por meio de pesquisa, e estão assinaladas, também sinalizamos a malha remanescente na região metropolitana e a linha do metrô”, diz o curador da exposição.

“Cultura é preservação de patrimônio, e o governo de Pernambuco assumiu a decisão política de valorização dos lugares onde estão a nossa história, como o Museu do Trem”, disse a vice-governadora do Estado, Priscila Krause, durante a cerimônia de reabertura do museu, realizada à tarde. “Vamos desenvolver um plano de manutenção para não deixar os equipamentos culturais sob a nossa gestão chegarem ao estado de degradação em que os encontramos”, prometeu.
Na ocasião, Priscila Krause reafirmou o compromisso do governo de fazer a transferência, para o andar térreo do prédio anexo da Estação Central Capiba, do Anexo do Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano, hoje instalado num galpão na Rua Imperial, no bairro de São José. O pavimento superior do mesmo edifício reservado ao Arquivo será destinado à primeira Escola Técnica de Restauro de Pernambuco.
Serviço
Estação Cultural Capiba - Museu do Trem
Endereço: Rua Floriano Peixoto, s/n, São José, Centro do Recife
Acesso: gratuito
Horário: 9h às 17h (terça a sexta) e 10h às 14h (sábado e domingo)