No século XVIII, em Olinda, a atual Rua 13 de Maio abrigava o Aljube da Diocese, uma prisão para homens e mulheres acusados de crimes contra a religião católica. Muitos anos depois, o prédio, que funcionou como Cadeia Pública da cidade no século XIX, foi transformado no Museu de Arte Contemporânea. O MAC-PE vai completar 60 anos de fundação em dezembro de 2026, mas estava fechado havia uma década para obras de restauro. Nesta terça-feira (30/6), às 12h, essa antiga história ganhou um novo capítulo com a reabertura do museu, agora num edifício em condições adequadas.
O prédio, localizado no Sítio Histórico, guarda duas mil obras de arte (gravuras, pinturas, desenhos, fotografias) e dois mil documentos (livros, manuscritos). Cerca de 200 peças - 10% das coleções artísticas - compõem as duas exposições montadas para a reabertura do MAC-PE. A mostra “MAC 60 Anos” ocupa as salas do andar térreo e do piso superior do prédio principal, com quadros de Bajado, Manuelzinho Araújo, Tereza Costa Rêgo, Guita Charifker, Maria Bonomi, Roberto Burle Marx, Tomie Ohtake, Vicente do Rêgo Monteiro, David Hockney e Chang-dai-Chien, entre outros.
A narrativa da exposição de longa duração, no térreo, contempla as figuras humanas, representadas em cenas de trabalho, festas populares e religiosas, retratos e autorretratos, informa a gestora do museu, Lúcia Padilha. Um dos quadros tem como título “Olaria” e foi doado pela artista Djanira da Motta e Silva, considerada a madrinha do MAC-PE. Há, também, xilogravuras de Wellington Virgolino e Corbiniano Lins com a temática de trabalhadores. Uma têmpera sobre madeira de Portinari destaca os pescadores. Um vídeo, com imagens de Ana Farache, presta homenagem ao ator de teatro Pernalonga.
Natureza, paisagem e arte abstrata ocupam o primeiro andar. “Das cinco litogravuras de David Hockney, falecido este mês, temos duas expostas, ele era comparado a Andy Warhol”, diz Lúcia Padilha. Ela chama a atenção para um quadro de Chang-dai-Chien, um artista considerado o Picasso da China. “Faz parte do acervo desde a inauguração do museu, foi uma doação de Assis Chateaubriand, e está sendo exposto pela primeira vez”, declara. O público verá a arte naïf de Chico da Silva, o modernismo de Tarsila do Amaral, a arte figurativa de Telles Júnior e a psicodelia de Lula Côrtes, ressalta Lúcia Padilha.
A segunda exposição, “Olinda é de Encantar”, é temporária, pode ser conferida no anexo do MAC-PE e é dedicada à cidade que acolhe o museu desde 23 de dezembro de 1966. Reúne uma representação de São Sebastião feita em bico de pena por Marcos Amorim, em 1971; fotografias do Carnaval na Rua do Amparo, em registros de Edmund Dansot, de 1984; uma paisagem de Olinda, em nanquim, de Marianne Peretti, de 1959; e xilogravuras de Luciano Pinheiro, de 1991, entre outros artistas. As obras registram diferentes épocas e linguagens, para interpretar Olinda.
“São duas mostras para contar a história da arte em Pernambuco e no Brasil”, afirma a presidente da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), Renata Borba. A obra de restauração do museu teve início em meados de 2025 e levou um ano para ficar pronta. Foram investidos cerca de R$ 4 milhões no prédio e R$ 370 mil na expografia. “Todos os recursos vieram do Governo do Estado”, informa Renata Borba.
Com a verba, e o novo projeto elaborado pela equipe técnica da Fundarpe, o governo providenciou a obra emergencial para dar estabilidade ao terreno, que estava cedendo. “Fortalecemos a fundação com a colocação de novas estacas e fizemos a manutenção do piso, da cantaria (as pedras de cantaria do Aljube da Diocese são provenientes dos arrecifes do litoral de Pernambuco) e da coberta do prédio, a chuva molhava a área interna do museu ”, diz Renata Borba. O quintal ganhou anfiteatro para atividades externas e paisagismo.
Um texto do arqueólogo Ulisses Pernambucano de Mello Neto, na mostra de longa duração, informa que o prédio do Aljube sofreu algumas modificações no passado - o projeto do aljube, de 1722, teve de ser adequado à função de Cadeia Pública, em 1874 - mas preserva a fachada colonial. O MAC-PE surgiu de uma iniciativa do jornalista Assis Chateaubriand. “Oito anos depois de ele criar o MASP, em 1957, ele lançou a Campanha Nacional de Museus Regionais para dar acesso à arte além do eixo Rio-São Paulo”, relata Lúcia Padilha.
A campanha teve início em 1965 e terminou em 1968, com a morte do jornalista. Nesse intervalo, nasceram o Museu Dona Beja (Araxá-MG, 1965), Galeria Brasiliana (Belo Horizonte-MG, 1966), Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco (Olinda, 1966), Museu Regional de Arte (Feira de Santana-BA, 1967), Galeria Ruben Berta (Porto Alegre-RS, 1967), Museu de Artes Assis Chateaubriand/Museu Pedro Américo (Campina Grande-PB, 1967). Leia também matéria sobre a reabertura das Igrejas do Mosteiro de São Bento e de São Pedro Mártir de Verona, no Sítio Histórico de Olinda.
“O acervo do MAC é precioso, são coleções de obras de arte dos melhores artistas de Pernambuco, do Brasil e do exterior. A reabertura do prédio significa mais um museu para Olinda, e para o Recife também, e a democratização do acesso a obras riquíssimas”, declara o artista visual e diretor do Museu do Estado de Pernambuco (Mepe), Rinaldo Carvalho.
Serviço
Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco
Endereço: Rua 13 de Maio, 149, Varadouro, Olinda-PE
Acesso: gratuito
Horário: 9h às 17h (terça a sexta) / 14h às 17h (sábado e domingo)