Reportagem

Pintura do século XVIII é recuperada no Mosteiro de São Bento

TEXTO Cleide Alves

30 de Junho de 2026

Pintura do século XVIII recuperada na Basílica do Mosteiro de São Bento, em Olinda

Pintura do século XVIII recuperada na Basílica do Mosteiro de São Bento, em Olinda

Três monumentos do Sítio Histórico de Olinda, que estavam fechados para a realização de obras de restauro, foram reabertos ao público nesta terça-feira (30/6). Um deles, a Igreja de São Pedro Mártir de Verona, não recebia visitantes há 11 anos. O Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco (MAC-PE) havia suspendido as atividades em 2016, 10 anos atrás. A Basílica do Mosteiro de São Bento teve as funções religiosas interrompidas no fim de 2024.

A obra de restauração da Basílica Abacial do Mosteiro de São Bento trouxe de volta antigos desenhos coloridos do século XVIII que estavam cobertos por tinta branca, desde o fim do século XIX. Descoberta no forro do nártex, a pintura é composta por um guarda-corpo, numa sequência de balaústres com jarrões e guirlandas de flores, formando uma abertura para o céu, detalha a conservadora-restauradora Pérside Omena.

Três camadas de tinta industrializada escondiam os desenhos, que foram restaurados e passam a integrar o conjunto barroco da igreja. “Ninguém que viveu no século XX e nas primeiras décadas do século XXI, viu essas pinturas”, destaca a presidente da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), Renata Borba. Nártex é uma área localizada antes da nave principal, abaixo do coro, logo na entrada da igreja.

Duas colunas feitas de pedra, para sustentação da viga de madeira que segura a estrutura do coro, também estavam repintadas e tiveram as cores originais recuperadas. Os pilares, agora, exibem tons de vermelho e azul marmorizados, com frisos dourados. A nova feição da igreja foi apresentada nesta terça-feira (30/6), às 11h, em solenidade promovida pelo Iphan, Fundarpe e Secretaria de Cultura de Pernambuco (Secult-PE) para marcar a reabertura do templo dos monges beneditinos às atividades religiosas, como missas e casamentos.

A intervenção completa, orçada em R$ 15,3 milhões, teve início em dezembro de 2024 e só deve terminar em meados de 2027. A Fundarpe faz o gerenciamento da obra, realizada com recursos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), pelo Programa de Aceleração do Crescimento, o Novo PAC. O serviço é conduzido pela empresa Grifo Diagnóstico e Preservação de Bens Culturais Ltda, a quem coube identificar os danos, definir as soluções necessárias e executar o restauro.

Renata Borba informa que as ações na nave e na capela-mor, concluídas em junho de 2026, correspondem à primeira etapa do restauro da igreja dos monges beneditinos. O trabalho vai continuar na sacristia, na Capela Abacial, na Capela do Santíssimo e na Sala Capitular. De acordo com a presidente da Fundarpe, a segunda fase segue sem descontinuidade dos serviços e não impede o funcionamento do templo, localizado no bairro do Varadouro.

De dezembro de 2024 a junho de 2026, a equipe coordenada por Pérside Omena também fez intervenções no forro da nave (local onde os fiéis assistem à missa), que tem ao centro o Brasão da Ordem Beneditina. “A pintura atual, de caráter popular, é de 1949 a 1951, e segue a composição da pintura primitiva do século XVIII, estruturada por um guarda-corpo em balaustradas, com jarrões e guirlandas de flores nas extremidades”, explica. Do desenho original, mais antigo, restam apenas fragmentos.

“Não removemos a pintura feita no fim da década de 1940, a repintura só foi retirada na área de fundo, para restituir a leitura iconográfica da cena como abertura para o céu”, diz Pérside Omena. “Fizemos a recomposição do jaspeado (desenhos parecidos com a pedra jaspe) e do dourado nas cimalhas (moldura entre a parede e o teto), para deixar a leitura mais próxima do restante da nave.”

Na capela-mor, havia perdas e áreas em descolamento nas partes douradas, causadas pelo alto teor de umidade e de calor, urina de morcegos e excrementos de insetos. Assim como danos provocados por cupins de solo e de madeira nas cimalhas e desgastes na camada de pintura do forro - a cena principal retrata a morte de São Bento. Tudo foi recuperado.

Em 2001, o retábulo-mor da igreja, feito de madeira de cedro entalhada e dourada, com estrutura de sustentação em sucupira, passou três meses em exposição no Museu Guggenheim, de Nova Iorque (EUA). Num acervo de quase 400 peças, do Brasil colônia à arte contemporânea, o retábulo de 13 toneladas, esculpido no século 18, era o principal representante da arte barroca-rococó, na mostra Brasil: corpo e alma.

Em um ano e meio de obra, 43 profissionais - conservadores-restauradores e auxiliares, marceneiros e entalhadores - participaram das intervenções na nave e na capela-mor da igreja. O serviço inclui higienização, desinfecção e imunização. O Mosteiro de São Bento foi construído nos últimos anos do século XVI, destruído e reedificado no século XVII e passou por uma grande reforma no século XVIII. É tombado pelo Iphan desde 1938.

“Pernambuco é um dos Estados mais beneficiados pelo Novo PAC, com R$ 90 milhões para obras de restauração do patrimônio, é uma alegria devolver à sociedade a Igreja de São Pedro Mártir e a Basílica do Mosteiro de São Bento”, afirma o presidente do Iphan, Deyvesson Gusmão. Ele veio a Olinda para participar da reabertura dos dois templos católicos. “Olinda é um dos centros históricos mais importantes do Brasil”, destaca.

Ele acrescenta que, mais difícil do que fazer a obra de restauro é cuidar dos edifícios. “A conservação é importante para evitar que, daqui a 10 ou 15 anos, seja necessário fazer novamente uma restauração, e essa responsabilidade deve ser compartilhada entre os governos e a sociedade”, declara Deyvesson Gusmão. O arcebispo de Olinda e Recife, dom Paulo Jackson, aproveitou a solenidade para pedir a ajuda de empresários e empresárias na conservação e manutenção de bens tombados.

“A Igreja Católica detém uns 33% do patrimônio histórico brasileiro tombado, nossa responsabilidade é enorme, faço um apelo aos empresários e empresárias para nos ajudar, direcionando parte do Imposto de Renda devido para a preservação da nossa arte da nossa cultura”, sugere o arcebispo. Presente à solenidade, a governadora Raquel Lyra definiu o cuidado com o patrimônio histórico como uma missão. “Nós fazemos porque acreditamos que é nosso compromisso de vida”, ressalta Raquel Lyra. “Além dos R$ 90 milhões do Iphan, estamos investindo R$ 110 milhões do Governo do Estado na recuperação do patrimônio de Pernambuco.”

Veja também matéria sobre a reabertura da Igreja de São Pedro Mártir de Verona e do Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco, no Sítio Histórico de Olinda.

veja também

Igreja de São Pedro, em Olinda, é reaberta pelo Iphan e Fundarpe

Fechado há 10 anos, MAC-PE é reaberto com exposições

Os gols da música na Copa