Reportagem

Igreja de São Pedro, em Olinda, é reaberta pelo Iphan e Fundarpe

TEXTO Cleide Alves

30 de Junho de 2026

A partir desta terça-feira (30/06), fiéis e visitantes do Sítio Histórico de Olinda encontrarão de portas abertas a Igreja de São Pedro Mártir de Verona, localizada à Praça Conselheiro João Alfredo, no bairro do Carmo. O edifício religioso estava fechado desde setembro de 2015, à espera de obra de restauração, e agora exibe ao público uma novidade: o retábulo e o forro da capela primitiva da Igreja de Nossa Senhora da Conceição dos Militares, no Recife.

As duas peças são do século XVIII - como a Igreja de São Pedro -, foram encontradas em intervenções passadas na Igreja Conceição dos Militares e estavam em caixas no Museu de Arte Sacra de Olinda. “O forro e o retábulo, em estilo nacional português, têm temática mariana e a transferência para a capela-mor da Igreja de São Pedro teve autorização da Arquidiocese, do Iphan, da Fundarpe e do Conselho de Preservação”, afirma a presidente da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), Renata Borba.

Moradores de Olinda que acompanharam a reabertura do templo, às 10h, receberam a novidade com estranheza. “Uma pena a troca do altar, o outro tinha memória para a gente, passei minha adolescência toda frequentando a igreja”, lamenta a comerciária aposentada Íris Borba. “Aqui, na frente do outro altar, eu fiz minha Primeira Comunhão, fiz a Crisma e me casei, morei mais de 30 anos em Olinda”, relata. Atualmente, ela vive em Paulista, cidade vizinha, mas fez questão de participar da reabertura do prédio.

A dona de casa Susana Barros mora no Sítio Histórico há um ano e meio, numa casa próxima à Igreja de São Pedro Mártir, e também participou da solenidade, que teve música ambiente e a cerimônia da bênção do templo católico, realizada pelo arcebispo de Olinda e Recife, dom Paulo Jackson. “Todo dia eu olhava a igreja fechada e esperava o dia da reabertura, quero ser voluntária para ajudar na manutenção”, diz Susana Barros.

O retábulo da Igreja Conceição dos Militares, agora instalado na Igreja de São Pedro Mártir, é de madeira, com desenhos de figuras femininas, representando as virtudes, destaca Renata Borba. A Justiça tem um livro e um peso em cada mão, a Constância abraça uma coluna, a Fé é retratada por uma mulher de perna cruzada, a Caridade traz uma criança no colo e a Esperança segura uma âncora. “É uma arte expressiva e espontânea”, ressalta

Ele foi localizado nos anos 1970, numa obra realizada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. “Quem descobriu foi o arquiteto e historiador do Iphan, à época, Antônio Menezes, e a restauradora Rosália Menezes, também do Iphan”, informa a restauradora Débora Mendes. “O retábulo não podia ficar escondido”, diz Débora Mendes, que restaurou a peça em 2000 e defende a montagem na Igreja de São Pedro Mártir.

O antigo retábulo da Igreja de São Pedro Mártir, da segunda metade do século XX, não foi retirado do prédio. Está mantido no mesmo lugar, mas por trás da peça da Igreja da Conceição dos Militares. “É possível reverter a intervenção, se alguém quiser voltar ao que era antes”, declara Renata Borba. O Iphan vai completar a obra na igreja com a recuperação dos dois altares que, segundo a presidente da Fundarpe, dialogam com o forro porque têm temática mariana.

O forro da Conceição dos Militares é uma pintura sobre madeira - amarelo vinhático - com motivos florais, estava escondido pelo atual forro rococó e foi descoberto numa obra contratada pelo Iphan e realizada pela equipe técnica da conservadora-restauradora Pérside Omena, em 2004. No centro, há um medalhão com a imagem de Nossa Senhora da Conceição coroada. Mede 7,80 metros de comprimento por 7,05 metros de largura, sem autoria identificada.

Depois de resgatado, o forro foi exibido pela primeira vez na exposição “Guararapes, sob o imaginário da fé”, promovida pelo Instituto Ricardo Brennand, em 2014. Era uma  mostra para homenagear os 360 anos da Restauração Pernambucana, como é conhecido o movimento que resultou na expulsão dos holandeses do Nordeste brasileiro, em 1654, no século XVII.

“Com essa ação, é como se tivéssemos transformando a Igreja de São Pedro num museu, pretendemos trazer mais obras de arte sacra para cá”, adianta Renata Borba. “Ela é muito simples, praticamente sem obras de arte no interior, mas é uma igreja muito representativa para os moradores de Olinda, uma referência para a comunidade católica da cidade e muito procurada para casamentos e batizados antes de ser fechada, há 11 anos.”

A intervenção no prédio custou R$ 1,4 milhão, recursos do Iphan por meio do Programa de Aceleração do Crescimento, o Novo PAC, gerenciado pelo governo federal. O trabalho começou em outubro de 2025 e terminou em junho de 2026, com a manutenção da coberta do prédio, do piso e das esquadrias, pintura, recuperação da rede elétrica, nova iluminação, implantação de rampas e banheiros acessíveis. A igreja foi reaberta numa cerimônia realizada pelo Iphan, Fundarpe e Secretaria de Cultura de Pernambuco (Secult-PE).

Veja também matéria sobre a reabertura da  Igreja do Mosteiro de São Bento e do Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco, no Sítio Histórico de Olinda.

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