Reportagem

A Música na Copa

Ao longo de 22 edições do campeonato mundial de futebol, composições embalam disputas e torcidas, algumas foram sucessos temporários outras vencendo o tempo e se tornaram clássicos

TEXTO José Teles

19 de Junho de 2026

Shakira no videoclipe de

Shakira no videoclipe de "Waka Waka", tema da Copa de 2010

Foto Reprodução

“O compositor Miguel Gustavo, que andava sumido, reapareceu com uma canção que será ouvida em todo o Brasil durante o mundial, antes e depois das transmissões de rádio e televisão. Miguel venceu uma parada de 95 candidatos”, afirma a notinha publicada na coluna Na Grande Área, de Armando Nogueira, no Jornal do Brasil (em abril de 1970). Referia-se à marchinha “Pra Frente Brasil”, vencedora de um concurso promovido pela Rede Globo para ser a música da emissora para a Copa do Mundo do México.

Não se tinha ideia do sucesso estrondoso que teria a marchinha. Nem mesmo Miguel Gustavo, publicitário de renome, e compositor inspirado, fornecedor de sambas se breque pra Moreira da Silva, sambas e marchinhas para ene intérpretes. Lançada num compacto simples, pelo coro de Joab Teixeira, massivamente executada nos programas esportivos, na TV Globo, disseminou-se pelo Brasil. Até os tempos atuais não foi superada entre as músicas compostas para um Mundial de Futebol.

“Pra Frente Brasil”, no entanto, foi vinculada à ditadura militar que, obviamente, a usou, assim como explorou a seu favor a vitória da Seleção no México. Se bem que Miguel Gustavo não pareceu contrariado com isso. Em 1970, compôs a marchinha ufanista “Brasil, eu adoro você”, lançada por Ângela Maria, e em 1972, aceitou a encomenda de escrever o Hino do Sesquicentenário, amplamente celebrado pelo regime militar. Também gravado por Ângela Maria, que, estranhamente, não foi alvo das patrulhas ideológicas. Em 1972, Elis Regina levou porradas mil da esquerda por ter cantado na III Olimpíada do Exército, realizada em Porto Alegre.

Na primeira Copa do Mundo, em 1930, no Uruguai, já teve música oficial, mas tendenciosamente para seleção celeste. Porém, não era uma canção inédita. Foi lançada em 1926, para celebrar a Copa América, realizada no Chile, e vencida pelos uruguaios. Originalmente, um poema de Omar Odriozola, adaptado ao tango La Brisa (Francisco Canaro/Juan Canaro/Juan Andrés Caruso).  Fez muito sucesso no carnaval de 1927, adaptada à música “Los Patos Cabreros” (um clássico uruguaio, composta provavelmente em 1910, nos créditos, constam vários autores, em épocas diferentes). A versão de 1930 deve ter sido bastante cantada no país, afinal os uruguaios fizeram jus ao título da canção. Foram os campeões.

FIFA
“Waka waka” é a mais bem-sucedida música oficial da Fifa, cantada por Shakira, para a Copa de 2010, transcendeu ao campeonato, e contabiliza mais de 4 bilhões de views nas plataformas. Os hinos oficiais da Fifa até então só emplacaram para valer quando tomaram por empréstimo um hit de artista ou banda badalada. Foi o que aconteceu, em 1994, com “We are the champions”, do Queen. A partir do início deste século, a Fifa caiu no pop. Shakira teve o primeiro hino oficial em 2006, com “Hips don't lie” (Shakira, Wyclef Jean, Jerry Duplessis, Omar Alfano, Luis Díaz, LaTravia Parker e Archie Pena).

A axezeira Cláudia Leitte emplacou uma faixa no álbum oficial da Fifa em 2010, “As Máscaras” (South Africa '10 to Brasil' 14), composta por um coletivo de autores, algo comum na “música pra pular baiana” (Cláudia Leite, Lira, Robson Nonato, Tenison Del Rey, Gerson Guimarães e Paulo Vasconcelos).

BRASIL
Os hinos oficiais da Fifa poucas vezes emplacaram mundo afora, certamente pela pouca duração dos campeonatos, depois porque cada país sede da Copa criava sua própria música. No Brasil, por exemplo, uma infinidade de astros da MPB, e até jogadores, lançaram discos pro Mundial. Isto desde a Copa de 1938, quando a indústria fonográfica atentou para o potencial do Mundial, sobretudo por ter uma seleção competitiva, de craques feito Domingos da Guia e Leônidas da Silva (artilheiro da Copa). Alberto Ribeiro e Alceu Pires Vermelho escreveram a marcha (com trechos de chanson e passo doble) “Paris”, lançada por Carmen Miranda, que não chegou a ser um sucesso, talvez pela letra de versos sofisticado e mordazes: "Paris, Paris, Jé t'aime/mas eu gosto mais do Leme".

Eis que veio a II Guerra Mundial, a Copa do Mundo só voltaria a ser realizada em 1950, e no Brasil. A CBD (atual CBF) encomendou a Lamartine Babo uma música oficial para o certame. Lalá, campeão do carnaval carioca, fez a “Marcha do scratch brasileiro”, gravada por Jorge Goulart, que não pegou. Assim como não pegou “O Brasil há de ganhar”, de Ary Barroso, com Linda Batista que, com esta escalação, tinha tudo pra dar certo, mas não deu.

O sucesso escreve por linhas de partituras tortas. Em 1938, Alberto Ribeiro e Braguinha venceram um concurso carnavalesco no Rio com "Touradas em Madri", lançada por Almirante. A vitória foi contestada sob a alegação de que não era uma marchinha, mas um passo doble, gênero musical espanhol. Mesmo assim foi um grande sucesso popular.

Na Copa de 50, no jogo Brasil e Espanha, a seleção canarinha estava com a corda toda, aplicava uma goleada fulminante no adversário, de repente, o público passou a cantar em coro: "Eu fui às touradas em Madri/e quase não volto mais aqui". Apenas um brasileiro presente ao Maracanã não participou do coro: Braguinha, coautor da música. Não conseguiu cantar e chorar ao mesmo tempo. No final da Copa todo mundo acompanhou Braguinha, e chorou com a derrota em pleno Maracanã para os uruguayos campeones.

No Mundial seguinte não se quis saber de música para a Seleção. Hino, só o Nacional. Em 1958, apesar de Pelé e Garrincha, a música para a Copa só surgiu com o time prestes a embarcar para a Suécia. “A taça do mundo é nossa” (Wagner Maugéri / Maugeri Sobrinho / Victor Dagô / Lauro Muller), com o grupo Titulares do Ritmo. Uma marchinha pra cima, otimista, que refletia o Brasil de JK, surgimento da indústria automobilística, da bossa nova, de uma espécie de renascimento na cultura geral brasileira. O eterno país do futuro tornava-se contemporâneo. A música foi sucesso nacional, virou clássico, e foi tocada na Copa seguinte, concorrendo com várias composições criadas para o bicampeonato em 1962. A música do bi acabou sendo o “Frevo do Bi", cantada por Jackson do Pandeiro, assinada por Braz Marque e George Bezerra

ROZENBLIT
Falando em frevo, a Rozenblit escreveu um capítulo especial na história das músicas feitas para a Copa do Mundo. Quando se constatou que a canarinha era séria candidata ao título, a gravadora da Estrada dos Remédios encomendou duas músicas a autores locais. Luiz Queiroga e Nelson Ferreira, fizeram “Escola de Feola”, enquanto Nelson Ferreira e Aldemar Paiva assinaram “Brasil Campeão do Mundo”.

O trauma de 50 ainda pairava no ar. Nada de cantar vitória antecipada. Os discos só foram para as prensas da gravadora em 29 de junho, dia da decisão do Mundial, e fabricados depois da confirmação da vitória, e da permanência da Seleção por algumas horas no Recife, confirmada por Rubem Moreira, presidente da Federação Pernambucana de Futebol.

“Escola de Feola”, gravada pelos Três Boêmios, e Brasil Campeão do mundo, por Claudionor Germano, teve uma edição de capinhas personalizadas com os nomes de atletas e componentes da comissão técnica e dos dirigentes da delegação. A entrega do disco quase não acontece. Estava tudo preparado no Recife para homenagem aos campeões do mundo, incluindo um almoço no Clube Internacional. No entanto, se esqueceram de combinar com os russos, ou melhor, com os brasileiros.

A intenção dos dirigentes da delegação era reabastecer o avião e, logo em seguida, voar para o Rio de Janeiro. Queriam. Mas o todo poderoso Rubão Moreira não permitiu. Voar só depois de desfilar pelas ruas da capital pernambucana. E assim aconteceu, em carro de bombeiro, e debaixo de chuva. Em 1994, um Pernambuco voltou a homenagear a seleção com um frevo. O compositor e saxofonista Rogério Andrade (ex-orquestra de Nelson Ferreira) aproveitou a passagem da Seleção pelo Recife, para enfrentar a Argentina, no Arrudão. Ele entregou ao goleiro Taffarel o compacto com os frevos “A Seleção no Recife” e “Viva a Seleção”. Ambos cantados pelo autor e seu irmão Romero Andrade. 

MPB
Em 1994, Tavito e Aldir Blanc foram responsáveis pela mais bem-sucedida música oficial para a Copa do Mundo, desde “Pra Frente Brasil”. “Coração Verde-Amarelo”, música oficial da Rede Globo, tocada até hoje nas transmissões de jogos da Seleção pela emissora. Na verdade, a música é um jingle, que começou a ser tocado na Globo em 1991, mas com outra letra. Com Tavito e Aldir tornou-se um hino, gravado originalmente pela Aerobanda.

Nomes badalados da MPB arriscaram emplacar pegando carona na seleção. Gal Costa na Copa de 86, foi de “70 Neles”, (Antônio Edgard Gianullo e Vicente de Paula Salvia). O desempenho do escrete ficou muito aquém do desempenho do time de 70. Já o meia Júnior, que tentou uma carreira paralela de sambista, em 1982, até que se deu bem “Voa Canarinho (Povo Feliz)”, de Memeco e Nonô. A extraordinária Seleção de 82 fez o povo feliz, até a desastrosa derrota para a Itália, por 3 a 2, em Barcelona, Espanha.

Este texto poderia se alongar por muito mais páginas tantas as canções feitas para as copas e para a Seleção Canarinha, E 2002, “Deixa a vida me levar” (Eri do Cais e Serginho Meriti) tornou-se hino da seleção, escolhida pelo próprio elenco, que também trouxe pro seu repertório “Festa” (Anderson Cunha), sucesso de Ivete Sangalo, dos versos (“O povo do gueto/mandou me avisar”). Fechamos pois com um dos maiores sucessos da história desse subgênero, dos mais inusitados.

Em 1962, sede da Copa do Mundo, numa época em que os desconhecidos Beatles lançavam o primeiro compacto, e o rock ainda era tido como um modismo musical passageiro para adolescentes, o hino oficial do mundial do Chile foi “El Rock del Mundial” (Jorge Rojas/Camilo Fernández), com o mais famoso conjunto de rock chileno The Ramblers. O maior hit do gênero no país. Vendeu dois milhões de discos, números até hoje não superados no rock chileno.

Um feito que Bate no Peito (Daniel Mendes), o hino oficial da Fifa para a Copa de 2026, supera no formato digital. Independente da performance da seleção no Mundial. Escrita por Papatinho, “Bate no Peito” é um funk carioca, com artistas populares na interpretação: Ludmilla, João Gomes, Zeca Pagodinho, Veigh, Samuel Rosa, com produção de Papatinho.

JOSÉ TELES, crítico musical, pesquisador e escritor

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