Mamulengo, uma arte com raiz em Glória do Goitá
O Museu do Mamulengo está em atividade desde 2003 e funciona como espaço de preservação da história oral dos bonequeiros e mamulengueiros
TEXTO Cleide Alves
21 de Julho de 2026
De acordo com Mestre Bila, o teatro de mamulengo tem 660 personagens
Fotos Leopoldo Conrado Nunes/Cepe
Se você está em busca de passeios pela Zona da Mata Norte de Pernambuco inclua no seu roteiro uma visita ao Museu do Mamulengo, em Glória do Goitá. O prédio fica no Centro da cidade e não é um lugar apenas para exposição de fantoches. Lá, o público vai encontrar artesãos trabalhando e dispostos a explicar o processo de confecção dos bonecos, feitos de tronco de mulungu. Além disso, poderá acompanhar apresentações do teatro, com seus tradicionais improvisos, músicas, humor satírico e crítica social.
Inaugurado em 7 de maio de 2003, o Museu do Mamulengo funciona na antiga sede do Mercado Público, posteriormente ocupada pela fábrica de sandálias Dupé. Imagens e textos nas paredes apresentam personagens da brincadeira - Inspetor Peinha e Sargento, Caroquinha e Catirina, Pássaro e Véia, Bambu e Morte -, detalham a produção de um boneco, mostram a diferença entre os fantoches de fio, de luva, de vara e de escultura inteira e explicam as atividades que competem ao bonequeiro e ao mamulengueiro.

O teatro de mamulengo tem 660 personagens, diz José Edvan Ferreira de Lima, Mestre Bila (foto acima). Nas apresentações, os bonecos são manipulados dentro de uma torda, a casinha onde o espetáculo acontece. Duas tordas estão no museu, para as brincadeiras destinadas aos visitantes. Uma delas é da Escola Pernambucana de Mamulengo, fundada em 10 de outubro de 2020, em homenagem a Mestre Zé de Vina (José Severino dos Santos). Reconhecido nacional e internacionalmente, Zé de Vina faleceu aos 81 anos, em 2021.
“Cada apresentação, com o mesmo personagem, é diferente da outra, não temos um texto e não seguimos um roteiro, é tudo no improviso”, destaca Mestre Bila, um dos representantes da Associação Cultural dos Mamulengos. “O boneco brinca, fala com as pessoas, ele tem a magia de encantar o público”, comenta. É a associação, criada em 2000 por iniciativa dos mestres de Glória do Goitá, que administra o museu, por meio de projetos culturais. “O mamulengo atrai, recebemos muitos visitantes, chega a três mil pessoas por ano.”

O prédio do antigo mercado foi cedido à associação pela prefeitura e a árvore do mulungu - matéria-prima dos bonecos - é encontrada na zona rural de Glória do Goitá e de municípios próximos. “Só pegamos uma madeira quando ela cai”, diz Mestre Bila. Em um dia, ele confecciona 20 bonecos. “Com preguiça, faço 10.” A associação fez o plantio de 50 mudas de mulungu, espécie da Mata Atlântica, de madeira leve, mole e macia, com apoio do Serviço de Tecnologia Alternativa (Serta), uma organização com foco na agroecologia.
Numa conversa com os mestres, o visitante pode descobrir histórias do mamulengo. No passado, por exemplo, a brincadeira era restrita aos homens. Não havia mulher bonequeira (quem faz os bonecos) nem mamulengueira (quem manipula os fantoches). “Hoje, a mulher tem o espaço dela, tem até mulher fazendo o personagem Mateus”, diz Mestre Bila. O Flor do Mulungu, da mestra Titinha, é um grupo exclusivamente feminino. Elas produzem o boneco, manipulam e tocam as músicas, com triângulo, zabumba e ganzá.

Mestra Jaci (Jacilene Félix de Lira, foto acima) é a única Mateus mulher no mamulengo de Pernambuco e está sempre no museu. Num bate-papo, o visitante ficará sabendo que ela já entrou na brincadeira como Mateus, interagindo com o público. “Sou tímida e nunca me imaginei nesse personagem, bem na frente do espetáculo”, diz Jacilene Félix. “Esse é um boneco que fala besteiras para o pessoal, muito diferente de mim, mas tudo o que ele quiser falar, eu falo, entro no personagem, literalmente, não sou eu quem fala aquilo, é o Mateus”, afirma.
Ela brinca nos grupos Flor do Mamulengo, criado em 2020, Arte da Alegria (Mestre Bel), Teatro História do Mamulengo (Mestre Bila) e Nova Geração (Associação Cultural dos Mamulengueiros). “Já fui gangazeira e hoje sou triangueira, lá se vão 20 anos e não consigo ver minha vida sem ser no meio do mamulengo, é a minha terapia, a sede da associação, onde fica o museu, é a minha segunda casa”, comenta. “A associação é uma escola, nós repassamos as atividades em oficinas para alunos”, acrescenta Mestre Bila.

Um dos alunos já é bonequeiro e mamulengueiro, com grupo em atividade, formado por jovens. “Aos 12 anos, participei de duas oficinas Inventariando o Patrimônio, no museu, para aprender a fazer e a manipular o mamulengo tradicional”, diz Tiago Medeiros, 16 anos (foto acima). Logo em seguida, recebeu o convite do então presidente do centro cultural, Pablo Dantas, para criar um grupo infantil. O Risadinha, fundado em 12 de outubro de 2021, reúne cinco rapazes.
“Igor tem 21 anos e é rabequeiro, bonequeiro e Mateus; Vinicius, 18, é contramestre; Vitor, 17, e Eric,16, são tocadores; eu sou mamulengueiro e bonequeiro”, diz Mestre Tiago, que confecciona bonecos na sede do museu. “Nós brincamos de criança para criança”, destaca. “É assim que vamos dando continuidade à nossa arte, formando novas pessoas”, ressalta Mestre Bila. Vale a pena a visita ao museu, na Capital Estadual do Mamulengo.

Serviço
Museu do Mamulengo e Associação Cultural dos Mamulengos
Endereço: Rua Cleto Campelo, s/n, Centro, Glória do Goitá-PE
Horário: 9h às 17h (terça a sábado) e 14h às 17h (domingo)
Acesso: gratuito (taxa de R$ 5 por visitante para grupos a partir de 30 pessoas)
Distância para o Recife: 68 quilômetros