Reportagem

Burle Marx: o jardineiro que plantou paisagens no mundo

Em sua longa carreira, ele projetou os jardins como obra de arte e definia esses espaços de descanso como alimento para o espírito

TEXTO Cleide Alves

23 de Abril de 2026

Na Praça Euclides da Cunha, conhecida como o Cactário da Madalena, Burle Marx reproduziu a paisagem da caatinga

Na Praça Euclides da Cunha, conhecida como o Cactário da Madalena, Burle Marx reproduziu a paisagem da caatinga

Foto Leopoldo Conrado Nunes/Cepe

Ele nasceu em São Paulo, filho de um judeu alemão com uma pernambucana descendente de franceses, trabalhou no Recife no início da carreira e tem projetos de jardins públicos e privados no Brasil e no mundo. Ao longo da vida foi um artista múltiplo: designer de joias, tapeceiro, ceramista, escultor, pintor, desenhista, gravurista, cenógrafo e figurinista para teatro e ativista ambiental. Quando morreu, no Rio de Janeiro, era reconhecido nacional e internacionalmente como um dos principais paisagistas do século XX.

Essa é a tradicional mini bio de Roberto Burle Marx (1909-1994). Porém, em meio a tantos atributos, ele preferia ser chamado apenas de jardineiro, e definia o jardim como um alimento para o espírito. Burle Marx é autor de mais de 2 mil projetos de paisagismo no País e no exterior - cerca de 500 no Brasil e mais de 30 no Recife. De 1934 a 1937, dirigiu o Setor de Parques e Jardins da Diretoria de Arquitetura e Urbanismo da Secretaria de Viação e Obras de Pernambuco. Foi nesse período que ele criou as praças de Casa Forte, na Zona Norte do Recife, e Euclides da Cunha, na Madalena, Zona Oeste.

A Praça Euclides da Cunha, conhecida como o Cactário da Madalena, é um projeto de 1935 e serviu de estudo biológico e botânico para aclimatação de plantas, observa a arquiteta Ana Rita Sá Carneiro, fundadora do Laboratório da Paisagem da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). “Burle Marx trouxe espécies do bioma Caatinga para o Litoral, os pés de coroa-de-frade, facheiro e xique-xique reproduziam no Recife o cenário da região semiárida, é um pequeno jardim, porém grande pela simbologia”, declara a arquiteta.

A excursão de Burle Marx ao Sertão, para a coleta das plantas, teve o apoio do químico de visão positivista Paulo Carneiro, que atuou no Estado a convite do governador Carlos de Lima Cavalcanti, para introduzir novas técnicas de agricultura no interior. Essa primeira experiência de coleta de plantas foi decisiva na concepção da Praça Euclides da Cunha, destaca Ana Rita. E também serviu de base teórica e prática para Burle Marx realizar expedições semelhantes pelo interior do Brasil e de outros países da América Latina, com participação de botânicos, arquitetos e jardineiros, acrescenta. Correspondências que detalham as expedições botânicas e propostas paisagísticas podem ser conferidas no livro Folhas em Movimento - Cartas de Burle Marx (Editora Luste, 2022), com organização do arquiteto Guilherme Mazza Dourado.

De acordo com a arquiteta, o Cactário da Madalena (foto Leopoldo Conrado Nunes/Cepe), projetado por um jovem paisagista de 26 anos, revela o pensamento universal que Burle Marx iria imprimir em projetos de praças e jardins modernos, públicos e privados, na sua longa carreira profissional. “A Euclides da Cunha é um jardim revolucionário desde a origem e continua assim, nos primeiros anos da pandemia da covid-19, quando havia poucos carros circulando nas ruas, e a praça está numa rotatória, as plantas ficaram muito viçosas, era um símbolo de resistência e resiliência na cidade a nos dizer que é possível se retomar a vida, o jardim tem esse poder de proporcionar o bem-estar”,  afirma Ana Rita.

Pesquisadores do Laboratório da Paisagem da UFPE identificaram, no jardim xerófilo do Parque del Este, em Caracas, a mesma inspiração que deu origem ao Cactário da Madalena, no Recife. O parque foi construído de 1956 a 1961 e é um dos maiores projetos públicos do famoso paisagista. Assim como procedeu em Pernambuco, na década de 1930, Burle Marx realizou expedições na Venezuela, acompanhado de arquitetos parceiros, para coletar as xerófitas - plantas adaptadas ao clima árido e seco, como as bromélias e os cactos - usadas no paisagismo do Parque del Este (foto abaixo - Acervo Laboratório da Paisagem da UFPE).

Ana Rita chama atenção para outra característica dos projetos de Burle Marx: o respeito aos povos originários e a defesa de uma paisagem cultural brasileira. “No nosso caso, uma paisagem mestiça”, ressalta. Como exemplos, ela cita as esculturas de uma indígena e de um homem de tanga projetadas para as praças de Casa Forte e Euclides da Cunha. “A figura indigena nunca foi colocada na Praça de Casa Forte e o homem de tanga, que ficaria no centro do Cactário da Madalena, acabou sendo substituído depois pela escultura de um vaqueiro, com aprovação de Burle Marx, mas o registro ficou.”

Veja no aplicativo da revista Continente reportagem sobre jardins de Roberto Burle Max.


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