Meia-noite
Em ensaio fotográfico, Amanda Pietra reconstrói a ligação entre Mestre Meia-Noite e o filho Orun Santana
TEXTO Amanda Pietra
01 de Abril de 2026
Foto Amanda Pietra
O ensaio fotográfico se constrói como um território de símbolos, onde a ancestralidade é narrada através de elementos que carregam história, memória e permanência. Mais do que retratar um corpo específico, as imagens evocam um campo ancestral compartilhado, onde matéria, gesto e tempo se entrelaçam.
A cabaça aparece como matriz. Símbolo de origem, de gestação e de continuidade, ela guarda o princípio do acolhimento e da escuta. Instrumento e ventre ao mesmo tempo, a cabaça carrega o som do mundo e a memória dos que vieram antes, lembrando que todo movimento nasce de um espaço que protege e sustenta.
A farinha derramada no chão espalha o tempo. É rastro de trabalho, de sobrevivência e de coletividade. Ao se desfazer em pó, ela fala daquilo que atravessa gerações sem se fixar em um único ponto. A farinha marca o chão como lugar de passagem, onde histórias são pisadas, misturadas e transformadas, afirmando o cotidiano como fundamento ancestral.
A capoeira se manifesta como linguagem de transmissão. Não apenas uma luta ou uma dança, mas um sistema de conhecimento corporal que organiza o corpo em relação ao outro, ao espaço e ao risco. A ginga traduz uma filosofia de existência, ensinando flexibilidade, escuta e estratégia, revelando um corpo que aprende a sobreviver em constante movimento.
A cabeça de boi convoca a força primordial. Símbolo de resistência, trabalho e ligação profunda com a terra, ela evoca a memória dos que sustentaram caminhos com o próprio corpo. O boi representa o peso que não paralisa, mas ancora, protegendo e abrindo passagem para o que vem depois.
Neste ensaio, os elementos não ilustram uma narrativa linear. Eles se cruzam como camadas de tempo, ativando memórias coletivas da diáspora afro-brasileira. Cada imagem funciona como um gesto de semeadura, afirmando que a ancestralidade não é passado encerrado, mas presença viva, continuamente atualizada no corpo, no chão e na história.
Performance que remonta a relação do filho Orun Santana com seu pai, Mestre Meia-Noite, e sua ancestralidade.
AMANDA PIETRA
Formada em Fotografia pela Universidade Católica de Pernambuco, Amanda Pietra é multiartista e encontra na arte um campo vivo de diálogo com a própria existência e suas inquietações. Desde os 14 anos, desenvolve projetos autorais que amadureceram junto com seu olhar, revelando novas perspectivas sobre o corpo, a memória, a natureza e as formas possíveis de existir no mundo.
Sua pesquisa artística nasce do encontro. Amanda se interessa por diferentes comunidades, territórios e modos de vida, entendendo a fotografia como ferramenta de escuta, troca e compreensão de realidades que escapam aos modelos hegemônicos. Viajar, conviver e observar são partes centrais de seu processo criativo, que se constrói a partir da experiência direta e do afeto.
Sua primeira exposição fotográfica teve como ponto de partida a história de seu bisavô, explorando memória, ancestralidade e pertencimento. Ao longo de sua trajetória, desenvolveu projetos que abordam temas sensíveis e potentes, como a menstruação, o corpo feminino e seus ciclos, sempre buscando romper silêncios e ampliar narrativas. Em Elas em elos, ensaio dedicado à reconexão das mulheres com a natureza, Amanda investiga a relação entre corpo, território e espiritualidade, propondo imagens que evocam cuidado, força e coletividade.
Entre o documental e o poético, seu trabalho transita por uma estética sensível e intimista, onde a fotografia não apenas registra, mas cria pontes entre passado e presente, individual e coletivo, visível e sutil. Seus ensaios convidam o espectador a desacelerar o olhar e a se aproximar de outras maneiras de sentir, habitar e compreender a vida.
ORUN SANTANA
Formado no Daruê Malungo, Orun Santana é artista, bailarino, capoeirista e pesquisador. Em Meia-Noite, ele revisita memórias corporais e a herança do seu pai, que dá nome ao solo a partir de uma pesquisa do espetáculo criado pelo mestre no Balé Popular do Recife.