Reportagem

"A arte ajuda a entender melhor a imperfeição humana"

Em temporada de peças no Teatro Santa Isabel, "O que só sabemos juntos", de 4 a 6 de abril, e "Eu de você", de 9 a 12, Denise Fraga sobre a trajetória, o sentido da arte e de ser artista

TEXTO Yuri Euzébio

02 de Abril de 2025

Foto Divulgação

Denise Fraga adora pessoas, conhecer gente, conversa com todo mundo, escuta pacientemente tudo o que você tem a dizer, fala bastante, mas é uma ouvinte atenta e curiosa. A atriz de 60 anos, é carioca, nasceu, foi criada, estudou e começou a carreira no Rio de Janeiro, mas São Paulo é o seu lar há trinta anos.

Foi em São Paulo que ela despontou para todo o Brasil, quando estrelou a comédia popular Trair e coçar é só começar, onde interpretava a empregada Olímpia, que conquistou os públicos de teatro por todo o país. Denise ficou 6 anos no elenco da peça, que foi um fenômeno de público tão arrebatador que entrou quatro vezes no Guinness, livro dos recordes mundiais, como a peça que ficou em cartaz por maior tempo no teatro, sem intervalos.

A atriz acredita no poder que as artes têm de restaurar o fascínio pela vida a partir da beleza, e apesar de todas as dores e falhas inerentes à existência humana. Depois de 10 minutos de conversa, não tem quem não se apaixone por essa pessoa gentil, doce e por essa atriz articulada, talentosa e consciente da sua importância. Denise é um caso raro de pessoa que fica inteira em uma conversa, não checa o celular em momento algum, nem finge interesse quando não tem e olha no olho.

No encontro com o cineasta paulista Luiz Villaça, com quem desenvolveu uma parceria de trabalho e de vida frutífera, nasceram inúmeros filmes, projetos na televisão e peças de teatro. Além de dois filhos, hoje adultos. A atriz está atualmente em cartaz com duas peças, Eu de Você, peça que concebeu e faz sozinha no palco, acompanhada de três instrumentistas que ficam nos cantinhos do palco e O que só sabemos juntos, em que está acompanhada do ícone nacional Tony Ramos, que fala de memórias afetivas e temas do nosso cotidiano. Esta produzida após o ator ter assistido Eu de Você no teatro.

Em uma conversa instigante por videochamada com a Continente, a atriz fala sobre o poder da arte na vida das pessoas, sua parceria com a família e com Tony Ramos, as artes cênicas no Brasil, seu fascínio pela crônica cotidiana e o processo de desenvolvimento de Eu de Você e de O que só sabemos juntos, que entram em cartaz a partir dessa sexta-feira (4), no Teatro de Santa Isabel, no Recife. A peça já passou por diversos estados do país, sempre lotando os espaços e emocionando o público com histórias reais, embelezadas com poesia, música e literatura.

CONTINENTE Para começar, você tem falado muito sobre arte e defendido ela como um direito humano, você escolheu essa bandeira para levantar e já a algum tempo vem carregando, queremos saber de você quais os benefícios que o contato com a arte traz para as pessoas?
DENISE FRAGA Eu sinto que hoje todo esse meu manifesto pela necessidade da arte na vida de alguém e pela importância que a arte pode ter na ampliação de uma pessoa, na transformação humana e eu digo não só pra fazer essa pessoa melhor e que ela amplie horizontes, mas é para que ela se sinta melhor, ela seja mais feliz. Então, na verdade, o que eu tento falar por aí é que: experimente arte! Se você vive longe da arte, ponha arte na sua vida, porque, dentro desse mundo tão complexo que a gente tá vivendo, eu sinto que a arte tem uma coisa, um princípio fundamental, ela ajuda você a entender melhor a imperfeição humana. Porque a matéria da arte é a própria imperfeição humana, é a nossa eterna bateção de cabeça, são os nossos eternos dilemas, inclusive, eu acho que os clássicos, tenho uma viagenzinha que fico pensando: O que faz um clássico ficar atual eternamente? É que essas obras, Tchekov, Shakespeare, o próprio Brecht, eles lidam com arquétipos dos nossos eternos dilemas: o ciúme, a ingratidão do irmão, um filho que é deserdado, coisas que nunca vamos resolver e, por isso, a impressão que eu tenho é que as obras tentam resolver coisas que a gente nunca vai resolver. Mas elas nunca serão resolvidas porque são dilemas, são imperfeições humanas, são coisas intrínsecas à vida humana na terra. A gente vai sempre buscar evolução e vamos evoluir, e sinto que estamos evoluindo não a passos largos, mas caminhando. Eu credito nessa ampliação dessa consciência e a transformação de uma pessoa através da arte.

CONTINENTE E isso aconteceu com você?
DENISE FRAGA Sim, isso aconteceu comigo. Eu acho que a arte tem uma importância fundamental na minha vida. Eu sou nascida em Lins de Vasconcelos, subúrbio do Rio, uma vida muito distante da arte. A minha família não vai muito ao teatro. Corriqueiramente, a minha mãe é uma pessoa que ia ao teatro e que, cedo na minha vida, me levou ao teatro, desde os 12 anos, porque tinha a ânsia da arte. Depois, ela entrou em um clube do livro e aí ela lia, mas era uma mulher que fez isso sozinha e me pegou pela mão muito cedo e me mostrou o teatro. Mas, eu achava que o teatro era uma coisa que não era pra mim, ser atriz era uma coisa impossível, porque era algo muito longe da minha realidade. Eu vejo hoje como você ter contato com arte, ir ao teatro, ao cinema, ler, como as pessoas que eu conheço que fazem isso, elas, no mínimo, têm mais capacidade de externar seus sentimentos, de tentar entender o que está acontecendo com elas. A dor continua, sofrer todos vamos, mas é algo que eu fico falando por aí, que eu acho que quem lê Dostoiévski, Fernando Pessoa, no mínimo, vai sofrer mais bonito. Quem vai ao teatro e ao cinema, vai sofrer mais bonito porque sofre com a cumplicidade dos poetas, sofre acompanhado daquele que conseguiu dar voz à sua angústia agora. Você vai ficar chorando, mas chorando e cantando aquela música do Chico, chorando e recitando aqueles versos do Drummond que, de alguma maneira, são uma tábua de salvação para o que você está sentindo naquela hora.

CONTINENTE Desde 2008, você vem se dedicando continuamente ao teatro, em um movimento muito próprio, existe algo que marque o teatro que você faz?
DENISE FRAGA Acho que tive também uma experiência com a forma como resolvi fazer teatro, que é essa proximidade com o público. Recebo o público na porta do teatro há muito tempo. Desde A Alma Boa de Setsuan, em 2008, que a gente recebe o público na entrada do teatro e tal, e aí eu acho que o fato dessa minha proximidade com o público. Tinha uma particularidade da peça que o camarim ficava em cena, os atores ficavam ali em cena se preparando e a ideia era aparecer o bastidor do teatro o tempo inteiro. Mas, aí a gente evoluiu nessa ideia, o Luiz até que sugeriu, era direção do Marco Antônio Brás, mas o Luiz falou: “Se vocês estão ali, o público está ali, porque vocês ficam ainda com a quarta parede? Recebe o público na porta”. Desde então, a gente recebe o público na porta e isso fez com que eu tivesse uma proximidade olho no olho com quem está na plateia que nunca a gente consegue ver tudo, mas assim de entender o público de cada lugar um pouco, de ver coisas, de testemunhar. E aí o que acontece também é que nessa peça Eu De Você, eu converso. Desde 2019, não só recebo na porta e faço aquela conversinha ali rápida, eu fico na plateia conversando com um, com outros, e é uma conversa mesmo: “Como é que você veio? Como chegou?”, querendo saber como aquela pessoa é, o que ela faz. E aí, o que acontece? Acho que esse vínculo criou um movimento que é o de que mais pessoas me esperavam no saguão do teatro e com esse movimento de conversa no início, experiência do teatro e o feedback. Na medida que eu vi, que eu faço esse teatro próximo do público, testemunhei o que aquilo causava nas pessoas e por isso a minha confiança redobrou na capacidade que o teatro tem, minimamente, naquela noite de transformar alguém. Eu vejo acontecer de verdade. Em pessoas que entram no teatro muito pra se divertir, né? Tem uma categoria que eu chamo de "os maridos arrastados de domingo", que são aqueles caras que vão ao teatro porque a mulher queria ir e ele fala “Tudo bem e tal”, mas ele vai já meio cansado. E eu vejo esse cara ser capturado por um bom texto, uma boa história e ele vir no final me falar coisas muito surpreendentes para ele.

CONTINENTE Em Eu de você, você costura histórias reais com literatura, poesia, música. Queríamos saber como surgiu a ideia da peça e se durante o desenvolvimento dela, você imaginava o sucesso estrondoso que ela faria?
DENISE FRAGA Eu de você é, talvez, a experiência mais linda da minha vida. A gente realmente não imaginava que fosse acontecer isso o que aconteceu, mas hoje, tentando pensar sobre essa trajetória, eu vejo muito melhor. Bom, a ideia inicial era a gente fazer uma peça flexível. A gente tinha feito vários espetáculos sempre com elenco muito grande e era difícil uma pela qual a gente pudesse parar e voltar. Porque cada volta com elenco de doze é uma nova produção, porque você tem que ensaiar tudo de novo. Muita gente não vai poder, enfim. A gente queria ter uma peça mais móvel, o Luiz tinha essa ideia de contar histórias reais que é uma coisa que nós sempre gostamos, a gente já fez o Retrato falado (2003-2007) nessa linha. Eu sempre tive isso na minha vida, a minha avó falava pra mim: “Você vai na padaria e volta com história”. Eu sempre adorei história cotidiana. Nunca fui aquela comediante piadista, as pessoas falavam assim “Ela é muito engraçada!”, e eu falo: “Eu não sou engraçada”. Eu não sou aquela amiga que a pessoa espera chegar na festa porque vai rir. Eu nunca fui. A comédia pra mim sempre foi uma coisa estudada, muito matemática. Mas, eu sempre fui uma contadora de histórias nas mesas, eu acho que sempre me cativou muito. Então, a história cotidiana é um negócio que eu sinto que sempre esteve em mim. O Retrato falado foi uma ideia do Luiz linda, que a gente fez durante quase 10 anos no Fantástico e que as pessoas da rua até hoje viram pra mim e falam “Nossa, tenho uma história pra aquele teu programa!”, e eu falo: “Aquele programa que terminou em 2007?”. Então, é muito louco como as pessoas vem até mim querendo contar histórias para aquele um programa que eu não tenho mais. A gente tinha essa ideia de fazer com histórias reais, mas no início eu achava desconfortável fazer uma peça que poderia parecer o Retrato falado no teatro, sabe? Mas, aí veio o pulo do gato, que foi essa ideia de a gente trançar com literatura, música, poesia e, aí, o primeiro vídeo que fiz para as redes e o texto do anúncio que nós publicamos no jornal que eu escrevi e falava "Minha próxima peça vai se chamar Eu de V[você, eu quero subir no palco para contar a sua história. Eu quero calçar os seus sapatos, trilhar o que você trilhou, eu quero olhar pelo seu olhar".

Eu acho que, no próprio texto, já tinha essa pegada de não ser uma história pitoresca como um causo engraçado, como era o Retrato falado. Esse texto já sugeria a nossa ideia. Lembro que eu falava: não precisa ser uma história inteira, pode ser uma noite, alguma coisa que você já viveu porque nós tínhamos essa ideia de trançar com literatura, música, teria uma banda em cena e eu cantaria. Isso foi a ideia, mas o que a gente não se deu conta, naquela época, era que essa ideia era completamente coerente com toda nossa trajetória, porque eu acho que, de alguma maneira, o que aconteceu foi que desde o A Alma Boa de Setsuan nós já tínhamos algo ali. Desde quando eu voltei para ro teatro depois de ficar sete anos sem fazer teatro. Quando eu tive filho, fiquei sete anos sem fazer peça, gravando o Retrato falado. E aí eu voltei para o teatro e tinha uma coisa que, quando eu li o Alma boa, aquilo inaugurou pra mim uma nova coisa: não era subir no palco só pra fazer um personagem ou uma peça que eu achava legal, era uma necessidade de dizer. O Alma boa talvez tenha sido um divisor de águas pra mim, porque, quando eu tinha lido a peça, aí eu li de novo e eu queria montar, a partir desse desejo, eu andava na rua e falava: “Olha, tá vendo, é por isso que eu tenho que montar o Alma boa. Olha isso! Por isso que eu tenho que montar o Alma boa”. Era quase uma necessidade de falar: Olha o que esse cara escreveu há quase 100 anos atrás que dá voz pra tua angústia hoje. Isso talvez tenha sido uma novidade na minha trajetória, com o Alma boa.

E aí, o Alma boa foi um grande sucesso. Nós ficamos dois anos e meio em cartaz, foram mais de 220 mil espectadores, com Brecht. Esse número não existe, é muito absurdo, ainda mais com um autor que as pessoas tem como hermético, e, na verdade, tudo o que ele queria era comunicar. Ele foi para os Estados Unidos fazer cinema, queria falar para muitos. Quando li Brecht, descobri uma identificação com aquele autor, aquele homem de teatro, que achava que através da sua arte ele tinha coisas pra dizer que transformaria as pessoas. Em Eu de você, de alguma maneira, ele junta o interlocutor, que é esse cara para o qual eu falei: “Olha o que esse autor falou há quase cem anos atrás que dá voz para a sua angústia hoje”, e fazemos ele o centro da peça, onde nós colocamos a história do Wagner com a história da mãe com Alzheimer ao lado do Drummond. Eu acho que o Eu de Você foi, intuitivamente, uma coroação e uma evolução desse teatro que é o que eu acredito, aquele que dá voz às nossas angústias. Onde eu pego um autor e me faço valer daquelas palavras para dizer o que eu quero dizer, eu me faço valer das palavras do autor para dizer o que eu quero dizer. A gente falava muito isso durante os ensaios: “Eu não quero fazer discurso, eu quero contar histórias”. Era o final de 2018, Bolsonaro tinha acabado de ser eleito, estávamos todos muito tristes, traumatizados até quando a gente recebeu as histórias, chegou uma amostra de histórias melancólicas, o que eu achei um pouco surpreendente porque eu achei que, pelo fato do Retrato Falado, só iam chegar histórias engraçadas. Mas, chegaram histórias engraçadas tanto que a peça tem esse misto de humor e drama, como a gente sempre trabalha com isso, e eu acho que nunca mais vou fazer algo que não tenha humor nenhum, porque é uma maneira de existência, quase. E quando chegaram essas histórias, as pessoas falavam assim: “Denise, é você que vai falar por mim? Você que vai me dar voz?” e eu fiquei muito responsabilizada por aquilo, e fiquei muito tocada com a confiança que as pessoas depositaram em mim para me confiar histórias que eram não-postáveis, que eram de delicadezas, de vulnerabilidades muito grandes.

Foi difícil de escolher, mas, no final, acabaram ficando as histórias que podiam acontecer com cada um de nós, as histórias menos pitorescas e eu acho que, talvez, essa seja uma das chaves, se é que existe chave e receita porque, se existisse receita, nós repetiríamos. Não existe receita. Mas, uma das coisas que eu acho que seja o motivo dessa comoção que não tem quem escape, alguém vai se identificar em algum ponto, nunca ninguém falou: “Ah, não me pegou! Não gostei”. Mesmo os meus amigos mais céticos, mais cabeçudos, mais não dispostos ao sentimento se pegaram com Eu de você, porque tem alguns lugares onde você vai entrar e que são esses lugares que a gente, na época, nesse país dividido, pensávamos: “Que lugar é esse que não tem lado? Que lugar é esse que pertence a todos nós? Do qua ninguém escapa?” Uma mãe com Alzheimer, como é a história do Wagner? Uma criança abusada na infância? Um aluno que uma professora não soube lidar com ele, lidou com violência e, anos mais tarde, ela pediu perdão? São histórias do Eu de você que ultrapassam lados, diferenças sociais. Hoje eu vejo na plateia duas pessoas que pensam diferente lado a lado, chorando ou rindo da mesma coisa. Então, é muito bonito e fortificante pra mim eu ter tido Eu de Você pra atravessar esses últimos tempos. Foi fundamental, por exemplo, estar fazendo Eu de você em 2022, ano eleitoral. Eu sinto que é uma peça que abre poros, sensibiliza, não pra lado nenhum, mas pra nossa humanidade, pro nosso resquício de humanidade. Para aquilo que nos fala direto ao coração. Eu tenho pensado muito nisso e eu acho que o teatro virou esse lugar onde você vai para recuperar o fascínio pela existência e a gente falava muito isso, não precisa ter final feliz, eu não gosto de final feliz, na verdade. A vida não é bela, a vida não é cor-de-rosa, a vida é muito dura, a gente vive em um país muito injusto, temos que fazer cara de paisagem para absurdos, mas a vida ainda é rica. A diversidade é rica, as possibilidades são de uma riqueza infinita, se você se debruçar, se você colocar a mão na massa da própria vida. Não precisa ter final feliz, mas precisa dar vontade de viver.

CONTINENTE Você já tinha trabalhado com o Tony Ramos na série A Mulher do prefeito, e depois no filme 45 do segundo tempo, como foi pra você receber esse pedido dele para desenvolverem uma peça juntos, depois de 20 anos que ele não faz uma peça, e dele ter assistido a Eu de você?
DENISE FRAGA Você imagine, né? Porque, na verdade, nós éramos amigos assim desses encontros. No filme, o Luiz e ele ficaram com uma ligação muito linda. O Tony é, e aqui eu vou chover um pouco no molhado, mas eu preciso fazer a minha parte, ele é inacreditável. Ele é uma pessoa única, porque ele é o artista que ele, com os recursos que ele tem, esse grande ator que ele é, reconhecido no Brasil inteiro pela sua arte, mas também um homem raro. Um homem muito gentil, ele é um princípe de gentileza, não tem quem conviva com o Tony que não fale da sua gentileza, que não fale da sua educação, da maneira com que ele trata as pessoas. É uma pessoa divertida, engraçada, eu fico feliz de ter o privilégio de ter esse convívio. E ao mesmo tempo, ele é um cara que é casado com uma companheira maravilhosa que é a Lidiane, eles são, os dois, um exemplo, não um exemplo porque parece que fica distante e hoje eu tenho a felicidade de ser amiga deles, mas eles são inspiradores. E tem essa coisa que é uma bondade, um cara bom de verdade. Então, a gente conhecia o Tony, mas ainda não tinha convivido tanto com ele, e aí você fica esperando o dia que ele vai estar de mau humor e não acontece, o que é muito maluco. Porque ele tem uma sabedoria qualquer ali, e aí quando ele vem com essa proposta primeiro, eu falei: “Não é possível!” porque o Eu de você foi um espetáculo criado numa sala de ensaio, foi a primeira vez que eu entrei numa sala de ensaio sem o texto. Tinha uma dor ali que era eu com aqueles criadores na sala, mas quem tinha que improvisar era eu, eu improvisava com a Kênia Dias, que fez a nossa direção de movimento, me provocando, com o Luiz me provocando, o Zé Maria, que é o nosso produtor, me fazendo provocação. A Fernanda Maia fazendo a direção musical, o Wagner Antônio fazendo a iluminação, o André Dib fez a parte visual, o Rafael Gomes chegou depois pra fazer a dramaturgia. Éramos juntos, mas eu tinha que improvisar, era um lugar de perigo.

Quando o Tony nos falou: “A gente podia fazer alguma coisa juntos”, eu quase falei assim pra ele: “Será que você quer mesmo?”. Eu duvidava que o Tony se dispusesse àquele perigo, nessa altura da carreira, um homem de 76 anos, na época ele tinha 74, que ele se dispusesse ao desconhecido daquela forma. É um espetáculo que foi criado ali no ensaio. Eu tenho uma imagem muito boa: A gente pisava no terreno escuro e aí o terreno se iluminava, era como se você tivesse um caminho de pedras ali que você não visse, você pisava ali tentando ver se tinha uma pedra. E no fato de você pisar ali, você criava uma pedra e isso, essa coisa bamba, era pra criar uma coisa do nada porque no Eu de Você nós tínhamos as cartas e eu pensava comigo: “Será que ele terá essa disposição?”. Bom, pra encurtar a história: Se eu já admirava o Tony pelo artista que ele é, por tudo que todo o mundo admira, a minha admiração triplicou ao ver esse homem se jogar, se disponibilizar ao desconhecido e a peça O que só sabemos juntos, de alguma maneira, quando a gente pensava sobre o que queríamos falar, conversando e vimos que isso está na peça. O mote da peça é o próprio homem que precisa ir adiante, que precisa se rever. O Tony diz isso na peça: ”É preciso cultivar a dúvida”, a única certeza que nós temos nesses tempos é que tudo é móvel, tudo não para, e com a velocidade imposta pela vida digital, isso é mais evidente ainda. E isso fez com que eu admirasse muito por ele ter corrido perigo, porque ele podia ficar sentado ali em um pedestal, nesse lugar.

Agora também tem uma coisa, ele estava há 20 anos sem fazer teatro e, quando ele viu o Eu de você, ele mesmo fala essa palavra e eu adoro, ele fala que viu a peça e ficou perturbado. Eu adoro essa palavra porque tem uma frase de, eu não sei exatamente de quem é, que fala que "a arte serve para confortar os perturbados e perturbar os confortados". Eu acredito muito nisso, a arte tem essa faca de dois gumes, se você está ali no flow, no joguinho, tocando a sua vidinha acomodado, não que ele estivesse exatamente acomodado, mas ele tinha esse ímpeto de fazer teatro, ele mesmo falava, e nada pegava ele e o Eu de você fez ele realmente falar: “O que é isso? Eu quero viver esse negócio. O que esse lugar perigoso que a Denise está vivendo aí?”, porque cada espetáculo do Eu de você é um jogo com a plateia. Não é um espetáculo interativo, não gosto quando falam isso porque parece que a pessoa tem que participar e não participa exatamente, mas o tempo inteiro o espetáculo é surpreendente. Todo o mundo está ali vivendo aquela coisa junto, ninguém está ali sentadinho na cadeira, e aquilo ativa todos que estão ali a se colocarem no lugar daquelas pessoas que nos mandaram as cartas, e, portanto, viver aquilo tudo. Então, eu acho que o Tony foi tocado e aí veio O que só sabemos juntos, que é uma comoção também, a gente já coleciona histórias que são reportadas pra gente no saguão do teatro. Nós fazemos bate-papos com a plateia depois da peça e essa conversa já nos trouxe cada coisa que as pessoas falaram, teve uma moça em Porto Alegre, uma senhora falou algo e eu adoro, por causa do Tony, do ícone nacional que ele é, leva todos os públicos. E essa moça era alguém que parecia que assistia às peças mais tradicionais com um nome televisivo e ela levantou e falou assim: “Olha, eu vim ver uma peça e eu não sei o que eu vi. E eu queria tentar entender o que é que foi que eu vi que me tocou tanto”. Ela tentando elaborar, porque tanto o Eu de você, quanto O que só sabemos juntos são peças diferentes, não são peças que as pessoas perguntam “Sobre o que é a peça?” e não tem uma resposta assim, a peça é sobre todos nós, tem várias coisas, tem um casal, é sobre escuta. Nós falamos sobre várias coisas, falamos muito dessa escuta, não só sobre um homem e uma mulher, uma relação amorosa de parceiros. Falamos dessa falta de escuta, dessa necessidade da gente se disponibilizar ao outro também, mas também fala de crise ambiental, de um monte de coisa, isso tudo junto e divertido. Você pode achar que a peça é a relação de um casal que você ri e, ao mesmo tempo, se reconhece, tantas peças são assim, e também é. Então, tem um monte de coisa e o que eu acho que é a coisa mais linda é que tem humor, e o que eu mais fico feliz é que tanto uma peça quanto a outra me fazem ouvir do público a coisa que eu mais gosto de ouvir que é “Não sabia se eu ria ou se eu chorava” e eu acho esse lugar muito precioso, é um lugar muito fértil para afofar a terra humana, esse lugar onde você, através do riso, tem a capacidade de olhar de camarote para a sua própria vida e, ao mesmo tempo, você se emociona ali, em catarse com a questão colocada.

Tony Ramos, Luiz Villaça e Denise Fraga no ensaio de "O que só sabemos juntos". Foto Divulgação

CONTINENTE Você trabalha há 30 anos com o Luiz Villaça, que é o seu marido também, e recentemente seu filho Pedro estreou como diretor de curtas e já desenvolveu alguns trabalhos com você. Como é trabalhar em família, pra você?
DENISE FRAGA A gente viveu isso, primeiramente, na pandemia, porque nós fizemos aquele “Horas em Casa”, que foi feito por pura angústia. Foi um negócio que a gente fez pro YouTube e a gente não sabia o que fazer porque fechou tudo e, uma hora, falamos “Vamos fazer alguma coisa” e o Pedro estava em casa, ele tava se formando em Cinema na faculdade, na época. Aí, o Luiz dirigia, o Pedro fotografava, a gente fazia reunião de roteiro por Zoom com os roteiristas e criava esses programetes semanais de 10 minutos. Éramos nós três ali, a gente tem trabalhado em família algumas vezes. Quando o Pedro definiu o que ele queria fazer, e assim o Pedro sempre foi um cinéfilo e eu acho que a gente não regulava as telas do Pedro porque ele sempre estava assistindo coisas boas. O Pedro viu muita coisa, ele vai ao cinema sempre, assistir na sala escura e eu acho isso muito bonito. Eu me lembro dele pequenininho direto na televisão e, quando eu ia ver, ele estava assistindo Hitchcock, então eu deixava ele lá. Ele teve uma formação em cinema, mas ele também foi muito autodidata se formando, o curta de final de curso dele agora viajou o mundo em vários festivais e ele fez um outro curta agora que já está no festival de Porto Alegre. Ele tem uma assinatura, tem uma cara que é só dele, eu falo sempre “Só podia ser o Pedro”, ele é muito criativo. Então, eu não vou ficar aqui falando "ele é muito talentoso, ele é incrível", mas eu sou também uma mãe coruja. E, na verdade, o que eu queria falar é que quando ele falou que queria fazer cinema, eu fiquei muito feliz, porque sei o que foi, na minha vida, resolver ser atriz. Eu não acreditava que alguém pudesse pagar seu aluguel assim. Eu não acreditava que isso pudesse ser uma opção na minha condição, com a minha mãe professora, meu pai contador no subúrbio do Rio de Janeiro. Você ver o seu filho primeiro achar a coisa que mais gosta de fazer, eu já acho isso uma coisa difícil porque a maioria das pessoas não sabe qual é a coisa que mais gosta de fazer e você conseguir fazer da coisa que mais gosta de fazer na vida o seu ganha pão é uma receita de felicidade. Então, quando eu vi que o Pedro queria fazer do cinema uma profissão, eu fiquei muito feliz.

CONTINENTE Quem acompanha o seu trabalho nota que você se interessa muito pela crônica cotidiana, observar as pessoas e contar essas histórias. De onde surgiu esse fascínio?
DENISE FRAGA Isso até se deu muito quando nós fizemos o Retrato falado, porque nós estávamos em um programa jornalístico e antes não era no Fantástico, era no Zorra total. E quando chamaram a gente pro Fantástico, casava perfeitamente porque era um misto de jornalismo com arte, com drama e em uma época que não tinha reality show. Não tinha anônimo na TV, quando começamos o Retrato, não existia essa história da Cláudia estar na televisão, do João estar na televisão. Por isso que, na rua, as pessoas chegavam pra mim e falavam: “Eu tenho uma história pra te contar para aquele seu programa”, porque elas sabiam que elas poderiam estar ali, na medida que a Cláudia estava lá e isso era uma novidade. Eu acho que isso veio, eu te disse antes.

Desde pequena, eu tenho uma coisa com essa contação de história. Eu acho que hoje, talvez, eu seja o maior depositário das histórias da minha família porque eu lembro de todas. Eu era pequena, fingia que estava dormindo pra escutar as histórias que eu não podia escutar. Eu adorava saber a história do tio que tinha ido não sei onde, aquele filho que não era filho, que achava que era filho. Então, eu sempre tive essa alma de escritora, né? Porque o escritor tem essa coisa, né? Eu adoro essa imagem, essa coisa do Hemingway que fala sempre que ele ficava ali tomando uma coisinha numa mesa, esperando a vida acontecer para que chegasse a inspiração. Eu sou uma pessoa que anda muito na rua, eu até tenho uma esteira na minha casa pra me forçar a fazer exercício, mas eu saio porque eu quero andar na calçada, porque a vida te surpreende muito. Eu acho que a vida taí brotando, em movimento o tempo inteiro. Se você sair, ali na esquina, já é. Quando eu tive filho, eu também fiquei muito impressionada com a maternidade, com o que era ser mãe. Eu virei uma espécie de filósofa de boteco, porque um filho faz você pensar no mundo e como você apresenta esse mundo para aquela criança que você agora ajuda a trilhar o caminho. Se você é uma pessoa que não é existencialista, que nunca pensou no mundo, quando você tem filho, você fica um pouco, porque você vai saber como apresentar aquela novidade para aquele serzinho. Eu acho que isso me movimentou muito, porque aí eu comecei a dar as entrevistas das peças e dos filmes e eu acabava falando da maternidade, e das crianças e, aí me chamaram para escrever uma coluna na revista Crescer, isso em 2002, e eu falava “Eu não escrevo” e a editora falava “Mas você fala!! Você quer que a gente te ajude a escrever o que você fala nas entrevistas?” e eu lembro que eu não escrevia no teclado, eu escrevia a mão e dava pra alguém digitar, não sabia nem usar computador e foi assim que eu comecei a escrever na Revista Crescer, onde eu escrevo até hoje.

Os meninos já estão enormes, mas elas ficam me botando pilha e eu, de alguma maneira, só escrevo com a arma na cabeça e aquilo é um motivador pra, pelo menos, eu escrever uma crônica mensal. Foi através da Crescer que viram meus textos e me chamaram para escrever na Folha de S. Paulo e, durante seis anos, eu tive uma coluna na Folha sobre as crônicas cotidianas. Era aberto, não tinha tema, era sobre os dias. Eu sinto que, quando eu escrevo crônica, eu sinto que vem de uma história sempre. Eu posso até depois elaborar um pensamento, mas vem da história. Eu sinto que a história cotidiana tem muito poder de dizer coisas, as nossas próprias fábulas, as nossas próprias parábolas. Até o Eu de você criou, pra mim, um prêmio ainda maior, com esse negócio de conversar com a plateia no início, eu hoje fico com pena quando eu tenho que começar a peça, porque, geralmente, tem umas histórias que eu tive que deixar penduradas ali e que eu gostaria de saber mais, eu já dei meu WhatsApp pra um monte de gente na plateia. Só que eu não dou conta de tanta gente, de poder evoluir e saber como é aquele trabalho daquela professora de Libras do Recôncavo Baiano que foi fazer uma universidade, tudo é tão interessante. Eu acho que é um interesse genuíno e eu casei com o Luiz, que também tem um interesse pela história cotidiana, pela emoção cotidiana submersa que a gente tenta aplacar e eu acho que os filmes do Luiz são muito assim, de fazer brotar aquela emoção que muitas vezes a gente não tem coragem de tocar. Nós temos uma sintonia nesse sentido, das histórias cotidianas virarem a nossa matéria. A história cotidiana é a principal matéria da própria arte. Mas é essa coisa de fazer o que parece não ser interessante ser interessante é um vício. É engraçado que hoje eu vejo que todo o mundo tem alguma coisa, é só você ficar ali conversando que uma hora vai vir uma história inusitada. O Retrato falado mesmo, nós fizemos 176 retratos, aí fizemos outros programas ali dentro, mas, dentro desses 176, a gente ficava pensando que as histórias iriam se repetir. Não era fácil encontrar as histórias, quando o programa tava no ar, a gente recebia uma média de 600 a 800 cartas por semana, e, mesmo assim, não era fácil encontrar uma fácil que tivesse começo, meio e fim, que coubesse em 10 minutos porque nós tínhamos o princípio de não inventar, eram histórias reais. Não inventávamos um fim diferente, o máximo que fazíamos era romancear um pouco, fazer uma prima e uma amiga virarem a mesma pessoa e tinha uma coisa que eu acho que é um princípio de quando você lida com história cotidiana com humor e hoje a gente faz isso com o Eu de você, que é a gente tem que rir do que ela riu, não podemos rir dela, temos que rir com ela. Nós temos que o tempo inteiro homenegeá-la naquilo que ela conseguiu ver olhando de fora a sua vida, não somos analistas da vida do outro, nós somos um parceiro da própria análise do que ela viveu.

CONTINENTE Qual é a sua relação com o Recife? Tem algo que torna a cidade especial para você?
DENISE FRAGA Nós temos viajado o Brasil muito nos últimos anos, continuamente. Eu acho que o que acontece é que nós temos uma continuidade e isso o Zé Maria, Luiz e eu que somos a Nia Teatro, isso é fundamental, essa provocação que fizemos uns nos outros pra gente não parar. Desde 2008, a gente vem, de dois em dois anos, estreando em São Paulo, faz uma temporada no Rio e viaja o Brasil, diga-se de passagem, porque tínhamos a Lei Rouanet, Eu de você levou tanto tempo pra chegar ao Nordeste, estamos com a peça desde 2019, porque a gente atravessou os anos de Bolsonaro em que não tivemos o certificado do Ministério da Cultura para poder circular. Porque é impossível, só o gasto com a passagem, não existe a possibilidade de você ir, ainda mais que a gente ia com elencos enormes, agora com essa peça móvel tem ainda uma banda incrível em cena e somos 10 viajando, então ainda é uma expedição e que é muito custosa, mas agora a gente tem patrocínio da Bradesco Seguros quando a gente conseguiu o certificado e vamos levar as duas peça para o Recife por causa disso. Recife sempre esteve no nosso trajeto inicial porque é essa cidade que é um lugar que nós respeitamos porque é esse celeiro de talentos que é, esse lugar que é um grande nascedouro da cultura nacional, porque muitas pessoas que nós admiramos da nossa cultura são pernambucanos. O Nordeste, de uma forma geral, é uma coisa muito louca, né? O que significa o Nordeste na produção cultural do Brasil? É uma coisa muito forte e o Recife é uma das cidades que a gente fala que tem o código poético em dia. É impressionante! Eu vou te falar uma coisa, de 2008 até hoje e se vão aí 17 anos, eu vi acontecer uma coisa com essa continuidade de viajar fazendo teatro e de estar muito perto do público, eu vi acontecer a decadência da sutileza, a decadência da metáfora, a decadência da capacidade de percepção de ironia. Como a gente tem o olho e o ouvido muito treinado para a comédia, a risada é uma voz que a gente escuta e eu sinto que hoje as pessoas têm menos capacidade de rir de piadas que tem uma ironia fina, isso é muito maluco porque, na verdade, nós estamos vivendo, sim, um empobrecimento subjetivo intelectual e poético. Um empobrecimento da nossa capacidade de abstração, de imaginação, empobrecimento da nossa capacidade de sonhar, e nós temos que cuidar disso urgentemente. Um dos meios de cuidar disso é através da literatura e da arte, porque a gente precisa exercitar a nossa imaginação, na medida em que a gente tem tantas imagens dadas em uma velocidade absurda e clipada. Tem públicos no Brasil que você vê que são pessoas que leem, que tem o consumo da arte como uma coisa corriqueira na sua vida e isso faz uma diferença enorme na plateia, de capacidade de percepção, de compactuar com coisas que você está trazendo. A nossa peça não é intelectualóide, uma das minhas preocupações é dar comunicação a ideias que podem parecer herméticas. Nos ensaios, tenho muita preocupação com a comunicação, eu sempre falo: “A gente não pode esquecer a Dona Maria”, o tempo inteiro você tem precisa estar de mãos dadas com aquela pessoa que, talvez, nunca tenha ido ao teatro, nunca tenha lido, nunca tenha visto nada, você precisa também capturar essa pessoa. Nós precisamos ter a generosidade de capturar todos para o teatro, não é fácil e eu falo assim que a gente não pode fazer o que o público quer, nós temos que fazer o que o público não sabe que gostaria e apresentar aquela novidade que deslumbre, mas você não pode desistir da sua fé de que aquilo vai capturar alguém que você pode até achar que não tem meios de compreender aquilo. E qual é a minha preocupação eterna: não precisa ser fácil, precisa ser claro. Qualquer ideia que você queira passar, lute pela clareza dela para que ela chegue ao maior número de pessoas possível. Enfim, voltando, Recife é um lugar que a gente respeita muito o público, a gente sempre respeita o público, mas, no Recife, a gente sente que é um público que vai ao teatro, vai ao cinema, que lê, que tem uma movimentação cultural fascinante e é uma cidade linda. Meu problema de viajar o país com as peças é que toda hora eu quero ficar nos lugares.

CONTINENTE No Eu de Você, você canta acompanhada por uma banda no palco e você também promove o Samba da Coxia no bairro do Bixiga e pouca gente sabe dessa sua habilidade. Desde quando você canta?
DENISE FRAGA Eu sempre cantei no chuveiro, sempre cantei lavando louça (risos). Mas, eu acho que, uma hora, eu tive mais coragem e eu sempre falo: “Eu não canto, eu só tenho coragem” porque, na verdade, como atriz, eu comecei a ter mais coragem pra cantar, eu também fui estudando, fiz aula de canto várias vezes. E a gente tem uma banda incrível no Eu de você, a Ana Rodrigues é a nossa pianista, a Priscila Briganti na bateria, a Clara Bastos no baixo e ela é uma das famosas orquídeas do Itamar Assumpção e a Ana faz comigo um trabalho vocal incrível, sabe? Um trabalho que eu nunca tinha feito, é um vocalize no pequenininho e ela foi fundamental, no Eu de você, para o meu fortalecimento como cantora. O Samba do Bixiga é um negócio que a gente fez no Alma Boa de Setsuan, lá atrás. Nós tínhamos um tambor em cena e fazia um sambinha antes da peça começar ali de brincadeira, porque eu nunca vi um elenco com tanta gente que soubesse letra de samba inteiro e começou a surgir essa história do samba na coxia. Porque depois da peça, ficávamos na coxia fazendo um sambinha e começamos a fazer na casa de um, na casa de outro esse tal de samba na coxia. Uma hora, uma das meninas que frequentava, que é a Batata, que foi maquiadora por anos do Retrato falado e é minha amiga, casou com um percussionista, que é o Binho, e ele falou: “Vamos regularizar esse negócio”. E eu tenho agora um lema, que é colocar o prazer na gente, mas o samba na coxia é meu playground. Eu vou lá pra me divertir com os meus amigos, nós não ensaiamos, não é show. Eu, como cantora, não sou uma profissional que faz show, eu canto em cena as músicas da peça, que são as músicas que eu ensaiei e eu continuo cantando lavando louça e nas rodas de samba que a gente faz.

CONTINENTE Como é viver de arte hoje? O que mudou e o que permanece nesses últimos 30 anos?
DENISE FRAGA Agora mesmo eu fui falar com os estudantes de Cênicas na Universidade de Natal e nunca foi fácil, nunca será fácil viver de arte no Brasil, primeiro enquanto a gente na escola não entender o quanto a arte é fundamental na vida de alguém, porque nós vivemos em um país em que as pessoas dão um valor em um tênis que elas jamais dariam em um ingresso de teatro. Muitas vezes essas mesmas pessoas são capazes de pagar esse valor para ver uma peça fora do Brasil, mas aqui talvez essas pessoas falam que não vão ao teatro, porque o teatro é caro. E não ir ao teatro porque o teatro é caro é uma balela, porque hoje, com a lei de incentivo, você precisa ter parte da plateia com preços acessíveis. Por exemplo, agora, em Natal, nós tínhamos meia a R$ 21. Nós fazemos uma coisa, o José Maria é um produtor que luta por isso, que é você democratizar o espetáculo. Fizemos um espetáculo gratuito com fila na porta, pra também só pegar esse ingresso gratuito quem vai fazer tudo pra ver aquela peça e não tem acesso de outra maneira. Nós fazemos com ingressos mais baratos em um lugar, ingressos mais caros em outros, então nós temos consciência dessa necessidade de ter ingressos de todos os preços, mas é muito impressionante que a arte ainda é tida como uma coisa que não é exatamente uma profissão, uma coisa supérflua. Como se fosse uma coisa que se agrega, tipo tudo bem, eu tenho aluguel, a comida, o médico, o guarda, né? A estrutura social não inclui o teatro, como é nos países mais desenvolvidos, e o teatro existe não é porque alguém lutou fazendo o que podia para criar o teatro da sua cidade, o teatro existe como necessidade. E eu sinto, andando pelas cidades pequenas, que muitas prefeituras e estruturas públicas criam o espaço, mas não cria estrutura para aquilo girar e fica aquele teatro fechado, mofando, não dá pauta para os artistas locais, aí o artista local faz no quintal da sua casa um sarauzinho, sua peça, e aquele teatro tá lá vazio.

Eu sinto que o Brasil tem uma força criativa muito grande, você vê o que acontece com o nosso cinema, porque, cada vez que o nosso cinema é incentivado, nós vamos pra todos os prêmios. O que acontece com o nosso teatro é impressionante, quando é incentivado, como agora quando recomeçou o Ministério da Cultura, as plateias estão lotadas. Quando você pergunta se é fácil viver de arte, eu falo não, porque as pessoas, quem consome e paga o teu ingresso, ainda têm no teatro essa ilusão de que o artista é um ser que existe por vontade própria, que ele quis fazer aquilo e olha lá que bonito, aí ele dá um troquinho pra pôr no chapéu. Ele não entende que aquele artista faz a vida dele melhor assim que nem o aluguel, o feijão com arroz e o tênis. O que os Estados Unidos fizeram com o seu cinema como uma voz para o mundo, você entender que o cinema de um país é a melhor relação internacional que esse país pode ter, porque, através do cinema, você faz a cultura do seu país voar para outras fronteiras, você exporta o que você tem de melhor. O teatro é uma cerimônia que junta as pessoas daquela cidade e faz aquelas pessoas viverem melhor, ficarem melhor dentro da sua potencialidade máxima. Então, é por isso que eu fico insistindo tanto, chata, falando toda hora por aí que é preciso colocar arte na sua vida. Agora eu estou fazendo uma campanha, dá vontade de fazer uma camiseta: arraste uma pessoa que nunca foi ao teatro para o teatro, ela não sabe o que está perdendo. Quando tem uma cadeira vazia na plateia, eu nunca acho que é uma pessoa que não quis me ver, e talvez eu tenha uma autoestima em um lugar assim, mas eu não acho, porque eu confio tanto naquilo que estamos fazendo, que eu acho que aquela cadeira está vazia porque alguém não soube e me instiga muito pensar como é que eu trago essa pessoa que ficaria feliz no final da peça para sentar ali e que ela não conseguiu chegar porque alguém não trouxe, porque ela não soube, porque ela acha que teatro não é pra ela, porque ela acha que teatro é chato e ela nunca foi. As pessoas têm uma ideia de teatro errada, elas talvez tenham tido uma experiência X ou Y e é, por isso, que eu acho que nós, como pessoas que amam a arte e o teatro, nós precisamos espalhar a fofoca do teatro, precisamos contagiar as pessoas com esse prazer que elas desconhecem. Ainda mais em uma momento que eu sinto que o teatro está virando um lugar, como no teatro é um lugar que você sugere que as pessoas desligue o celular e, não tem jeito, elas ligam, não tem problema, mas como tem aquela sugestão de que é melhor não ligar, você vê acontecer uma coisa que é aquela pessoa entrar em um lugar de captura, de mergulho, que ela não consegue mais entrar sozinha. Nós não conseguimos mais assistindo a um filme na nossa casa ou lendo um livro, nós estamos o tempo inteiro sendo estilhaçados, nossa atenção está sendo jogada pro lado e o que acontece? Quando você entra no teatro e te sugerem que desliguem o celular e se a peça é boa, e conte uma história que te leve, quando você vê você, entra em um lugar que há muito tempo você não habita, que esse lugar do mergulho e é um lugar extremamente prazeroso. Tem gente vindo no final da peça falar exatamente isso, me agradecer por isso, eu sinto que a pessoa não tem mais essa capacidade de chegar ali lendo um livro, vendo um filme sozinha, ela vai olhar no celular, vai ter vontade de tomar uma água, vai querer mudar a posição na cadeira. Eu tenho essa ilusão de que o teatro vai virar o lugar mais procurado, porque ele vai dar esse lugar onde você tem essa endorfina, essa serotonina do sonho, do mergulho e que nenhum lugar vai te deixar chegar.

CONTINENTE Fale dos seus próximos projetos, o filme “Sonhar com Leões” que está para ser lançado. Como foi filmar na Europa?
DENISE FRAGA Essa história de Portugal na minha vida foi muito louca porque, primeiro, foi o Índia, que é um filme do Telmo Churro que já foi lançado, e que foi uma experiência linda em 2021. E eu falava: “Porque eu? Como chegaram a mim?” e eles pesquisaram atrizes brasileiras e ele falou que viu várias coisas, mas o que foi fundamental no final para a escolha foi o Horas em casa, aquele programa que eu fiz durante a pandemia no YouTube. Aí vem o Sonhar com Leões, o Paolo vem pela minha agente, por outro meio e eu achei que um tinha me indicado para o outro e não, eles nem se conhecem. E, de novo, me chega um convite para um filme em Portugal. E o que foi fundamental na escolha foi o Horas em casa, você acredita? De novo, então é um programa que nós fizemos que achamos que não ia dar nada, que não tinha grana nenhuma, fizemos por pura angústia na pandemia. Esse filme é um roteiro muito interessante, eu falei: “Gente, quem escreveu esse roteiro?” e foi o Paolo Marinou-Blanco, que foi um dos diretores que eu mais amei trabalhar na minha vida. Ele é um excelente diretor de atores, é um roteirista original, autêntico, um cara que tem um timing cômico absurdo. Ele escreve uma comédia sobre a eutanásia, mas ele faz isso com um jeito cômico e é um filme muito único, muito original, é um filme que quem vê não esquece. Eu adoro o filme, ele foi agora para um festival na Estônia, que é um festival na Europa muito importante e estreou lá. A reação da plateia foi ótima, eu estou doida pra o filme chegar aqui e não sei ainda qual vai ser a data de estreia, mas talvez têm uma ideia de estar em Gramado, mas vai ser lançado até o final do ano.

CONTINENTE Você é uma das atrizes que conseguem imprimir um estilo em todos os projetos que desenvolve, seja no teatro, cinema ou televisão. Você consegue manter um controle de carreira, escolhendo com cuidado os projetos em que participa, isso é muito difícil? É uma negociação muito cara pra você?
DENISE FRAGA Acho que resolvi em um momento da minha vida dizer não para aquilo que eu sentia que eu queria dizer, mas eu só pude dizer isso porque eu tinha o que eu chamo de dinheiro do não. Eu acho que o dinheiro precisa, na vida da gente, significar liberdade e não julgo. Eu acho que aconteceu comigo de me perguntar uma hora: “O que você quer com isso, Denise? O que você quer com essa comunicação que você tem, que a televisão te deu?” E aí, eu fui fazer Brecht, apesar das pessoas quererem que eu ficasse eternamente fazendo o Trair e Coçar é Só Começar, que foi uma peça que eu fiz durante anos e as pessoas queriam que eu ficasse ali porque era uma peça muito divertida, lotava os teatros e tal. Mas, eu saí dali chorando porque eu adorava mesmo fazer aquela peça, eu me divertia muito, era um sucesso popular, mas eu queria alçar outros voos. Acho que teve horas na minha carreira em que eu peguei as rédeas e fiz essa coisa que chamam de administração de carreira, eu fiz intuitivamente, fiz por desejo mesmo, por precisar fazer outras coisas. Aí veio o Luiz na minha vida, que nós nos alimentamos, nos provocamos, eu acho que um dos segredos da nossa relação é que nós atiçamos o melhor do outro e damos força um ao outro. Por exemplo, nós éramos contratados da TV Globo em 2011 e nós saímos praticamente juntos, e eu nunca estive contratada da televisão esperando o telefone tocar, para eles dizerem que novela eu ia fazer, mas isso foi uma felicidade minha. Eu entrei na televisão fazendo novela no início e aí eu fui fazer o TV Pirata que era um programa de muito requinte, que foi uma felicidade ter sido convidada para aquilo, fui convidada para projetos que eram muito bons. Mas, antes disso eu tinha negado projetos já novinha que eu achava que não faziam sentido. Eu acho que nós temos que ficar sempre de olho na nossa fidelidade à nós mesmos, porque, nessa vida que a gente inventou viver, que o que vale é o que rende, o que dá dinheiro, mesmo em uma profissão como a minha, que você briga com pai e mãe para fazer, você tá arriscado, atendendo às demandas, a se distanciar daquilo que te fez entrar na escola de teatro, se distanciar dessa essência, dessa força criativa que é o que faz de você artista e que, por causa disso, você não foi fazer o que o seu pai queria. Só que você, no meio do caminho, pode ir atendendo demandas e ficando mais ou menos feliz por ser ainda um ator, mas fazendo coisas que não te falam a alma e ao coração. Não dá para fazer toda hora coisa que fala a alma e ao coração, eu aprendi muito fazendo coisas que eu não queria fazer, aliás você se estica e se fortalece, você cria musculatura fazendo coisas que inicialmente você não queria fazer. O Trair e Coçar era uma peça que, quando me chamaram para fazer, eu tinha um grupo de teatro que a gente pesquisava Eugênia Barba e eu era metida, achava que aquele tipo de teatro comercial era uma coisa que me ultrajava. Mas, eu tinha um aluguel para pagar e, graças a isso, e estou acabando de desdizer o que eu acabei de dizer, às vezes o ganha pão faz você entrar em lugares. Eu entrei em Trair e coçar e, ali dentro, eu fiz uma pesquisa de commedia dell’arte, que eu já vinha fazendo e me aprofundei dentro daquele personagem, foi o que me manteve ali durante 6 anos. Fazer coisas que você, a princípio, não gostaria pode te dar uma outra capacidade que você não exercitaria se você só fizesse o que te fala a alma e ao coração. Mas, eu acho que quando você tem o dinheiro do não e a possibilidade de dizer não, porque você tem um dinheiro guardado ali para pagar o aluguel, faz com que você faça coisas, pegue na estante autores que dizem o que você quer dizer, que você acha necessário ser dito. E aí você realmente ganha uma coisa muito grande, que é subir em cena ou estar em um projeto para dizer coisas que você acha que precisam ser ditas te dá muito mais vontade de acordar de manhã, te dá muito mais gana. Mas eu acho também que quando eu pego um filme pra fazer, como foi o Sonhar com leões, por exemplo, eu queria logo falar com o diretor e saber o porquê dele escrever aquele roteiro e eu tento me imbuir daquela vontade de dizer aquilo, eu topo pra fazer aquele projeto incrível. Eu queria falar sobre eutanásia, aí falei com o Paolo muito sobre isso, li coisas e aí vira uma causa sua.

CONTINENTE O que o Eu de você e O que só sabemos juntos significam na sua vida?
DENISE FRAGA Primeiro, felicidade. E essas peças estabeleceram uma hora que eu parei de me chamar só de atriz, e eu acho que eu sou uma artista. Eu não tinha muita coragem de usar essa palavra artista, porque ou era uma palavra que as pessoas usavam pra menosprezar, tipo "ai ela é artista de televisão". Mas, eu acho que ser artista é você ter um potencial criador sobre o seu ofício como artista, como o meu na verdade é atriz, eu posso escrever um pouco, eu sou uma palpiteira profissional, mas eu sou artista. E o Eu de você e O que só Sabemos Juntos são peças de criação nossa, coletiva, que fizeram uma renovação na minha esperança no coletivo, na criação coletiva em como que pessoas criadoras, todas elas que estavam naquela sala, tinham seu trabalho com assinatura, quer dizer, poderiam estar sozinhas fazendo o seu trabalho dizendo como seria a cena, como seria feito, e elas estavam juntas ali e, juntas, elas abdicaram um pouco da sua vaidade, esse ingrediente que impede a roda da humanidade de girar muitas vezes, mas como pessoas criadoras, protagonistas de seus trabalhos, se juntam para serem todas ali coadjuvantes de si mesmas com direção do Luiz, que é um grande maestro, mas que dá muita voz para quem está com ele, que pergunta muito e ouve muito. Ele sabe o que ele ganha ao ouvir as pessoas e ele é um mestre nessa harmonização de talentos, ideias e diferenças naquela sala. Então, tanto O Que Só Sabemos e o Eu de Você representam um divisor de águas nesse sentido de uma nova maneira de fazer teatro, não que eu não vá fazer um texto tradicional porque eu acho que eu preciso agora voltar a um texto, mas esse potencial criativo foi catalisado por essas peças.

YURI EUZÉBIO, jornalista.

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