Brega à pernambucana
O gênero musical vem propagando-se pelos estados, assumindo o sotaque e personalidade locais, criando batidas, linguagem e estilo próprios
TEXTO José Teles
01 de Julho de 2026
Foto Hannah Carvalho/Secult-PE - FUNDARPE
“Risque meu nome do seu caderno/ pois não mereço o inferno/ do nosso amor fracassado”. Os versos poderiam estar em qualquer um melô brega. Porém, é o início da letra de “Risque”, um clássico da MPB, assinado por Ary Barroso (lançado por Aurora Miranda, em 1952). O passionalismo, as mortificações causadas pelos descaminhos do amor e das paixões são recorrentes na música brasileira desde a modinha, a nossa Bela alma (título de um álbum de Eliete Negreiros, cantora da vanguarda paulistana). Tampouco se circunscreve à determinada classe ou estrato social. Poucas canções bregas conseguem ser tão dolorosas, tão melodramáticas como “Atrás da porta”, de Chico Buarque e Francis Hime, que bem poderia ser entronizada, de direito, como marco zero da sofrência na MPB. Este trecho da letra ilustra bem a asserção:
“Quando olhaste bem nos olhos meus/ E o teu olhar era de adeus/ Juro que não acreditei/ Eu te estranhei/ Me debrucei/ Sobre teu corpo e duvidei/ E me arrastei e te arranhei/ E me agarrei nos teus cabelos/ Nos teus pelos/ Teu pijama/ Nos teus pés
Ao pé da cama/ Sem carinho, sem coberta/ No tapete atrás da porta/ Reclamei baixinho/ Dei pra maldizer o nosso lar/ Pra sujar teu nome, te humilhar/ E me vingar a qualquer preço/ Te adorando pelo avesso/ Pra mostrar que inda sou tua/ Só pra provar que inda sou tua”. Marília Mendonça não chegou a tanta sofrência.
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