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Mirante

Nome aos bois

TEXTO Débora Nascimento

29 de Junho de 2021

Foto Reprodução

Há um certo tipo de discurso arriscado com relação à pandemia que, vez ou outra, sai da boca de algum especialista. Esse discurso, por ser extremamente sutil, pode passar despercebido pela maioria dos espectadores, mas deveria ser abolido, pois contrasta com a situação de necessária denúncia que deveria ser feita em todas as oportunidades de fala especializada nos meios de comunicação e pela maior quantidade de profissionais respeitáveis possível.

Um exemplo: numa entrevista na TV ou numa live, um médico ou acadêmico está falando sobre a pandemia do novo coronavírus. Em certo momento, diz, num tom de crítica: “Se a gente tivesse comprado a vacina, quando nos ofereceram em meados de 2020...”. Pode ser pontualmente eficaz e cordial aplicar esse recurso de abranger o coletivo quando se trata da ação de pessoas específicas. O intuito é evitar constrangimento, aborrecimento e conflito. Desta forma, tenta-se conscientizar o alvo da fala, abrangendo a mensagem a todos.

Isso pode ser efetivo e gentil em sala de aula (“Vocês precisam fazer silêncio”, quando cinco gatos pingados estão fazendo barulho dentro de um grupo de 40 pessoas), em gestão de grupos de trabalho (“É preciso que haja mais empenho da equipe”, quando apenas um ou poucos não estão cumprindo corretamente suas funções). Mas, com relação ao Brasil de hoje, um país em que, mais do que nunca, é preciso explicar, ser repetitivo e redundante na explicação (“Ah, esse coqueiro que dá coco”), faz-se obrigatório e urgente deixar tudo às claras. Como disse Nelson Rodrigues, “Muitas vezes esbarramos, tropeçamos no óbvio. Pedimos desculpas e passamos adiante, sem desconfiar de que o óbvio é o óbvio. Só o profeta, com sua espantosa vidência, olha o óbvio e diz: ‘Ali está o óbvio’”.

No contexto de uma pandemia em que erros gritantes vêm sendo cometidos pelo governo federal, capitaneado por Jair Messias Bolsonaro, desde o início e até agora, quando o país ultrapassou mais de meio milhão de pessoas mortas pela Covid-19, vir usar uma locução pronominal generalizante pode ser um artifício com embalagem frágil. Portanto, quem não tiver coragem de dar nomes aos bois responsáveis por essa tragédia, por favor, não use um ultrajante “a gente”! Toda vez que ouço, penso, com indignação: “Eu não!”. Os mais de 100 e-mails da Pfizer não chegaram na minha caixa de entrada. Não desmereci a Coronavac, chamando-a de a “Vacina do Dória” ou a “Vachina”. E, acima de tudo, não deixei de usar máscara nem provoquei ou me envolvi em qualquer aglomeração.

Esse tipo de discurso generalizante obviamente é dito por pessoas que não querem atrair haters bolsonaristas, que evitam, a qualquer custo, perder seguidores (mesmo que sejam bolsonaristas) nas redes sociais ou que têm receio de retaliação em seus trabalhos, a exemplo de servidores públicos. Estes vêm sendo perseguidos e perdendo cargos apenas porque ousam cumprir suas funções, que, porventura, em algum momento, entrem em conflito com os interesses do governo Bolsonaro.

Os funcionários públicos Ricardo Galvão (ex-diretor do Inpe) e Alexandre Saraiva (ex-superintendente da Polícia Federal no Amazonas) já passaram por isso. E recentemente, Luis Ricardo Miranda, chefe de importação do Ministério da Saúde, outro ilustre desconhecido que teve a má sorte de cruzar seu caminho de pacato servidor público com um desmando, uma falcatrua evitada de ser consumada, graças à sua competência e integridade. Ele agora passa a sofrer represálias. Virou personagem-chave do provável maior escândalo de desvio de dinheiro público dentro desse Ministério da Saúde, em meio à maior crise sanitária da história do país.

Deu pena ver o semblante desse homem na CPI da Covid, após um voo vindo dos Estados Unidos, para trazer mais vacinas ao Brasil (aquelas 3 milhões de doses da Janssen, doadas pelo presidente Joe Biden). Com cara de cansado e contrariado por estar ali, sob holofotes, comprando, sem querer, briga com pessoas que não têm o menor escrúpulo em destruir reputações e atacar opositores, mesmo que estes sejam apenas supostos. Ao lado, estava seu irmão, Luis Miranda, o deputado federal, que, ao saber do possível esquema de corrupção, avisou ao “PR”. E este respondeu: “Ali é foda, se eu mexo nisso aí, já viu a merda que vai dar. Isso é fulano, vocês sabem que é fulano, né?”

Luis Miranda relatou sua decepção ao constatar que o “PR”, o presidente da República, ao saber da denúncia, não fez nada. Depois disso, o deputado foi bloqueado no celular de contato com o chefe do executivo e, após a fatídica reunião (do dia 20 de março de 2021, data anteriormente mencionada no discurso de saída de Eduardo Pazuello, que insinuou tentativas de propina dentro do ministério) vir a público, passou a receber ameaças, inclusive de Onyx Lorenzoni, ministro da Secretaria-Geral da Presidência. Na CPI, o deputado passou sete horas para, enfim, ter coragem de dizer o nome do “fulano”, o deputado federal Ricardo Barros. Revelou, entre lágrimas, levando a entender que sofrerá represálias. “Eu vou ser perseguido (…) Eu sei o que vai acontecer comigo (…) Vocês não sabem o que eu vou passar”.

E é bastante simbólico do país em que vivemos hoje quando vimos Luis Miranda chegar para depor, no Congresso Nacional, usando um colete à prova de balas. O Brasil virou um filme de faroeste ou de mafioso, de quinta categoria. Sua desilusão (“Que presidente é esse, que tem medo de pressão de quem está fazendo algo errado, de quem desvia dinheiro público das pessoas morrendo?!”), transmitida ao vivo pela TV Senado, inspira a paródia de um dito popular: O amor bolsonarista é uma flor roxa que nasce no coração de um trouxa. Felizmente, ele aprendeu outra lição importante a partir dessa situação: afirmou, durante o depoimento na própria CPI, que mudou de opinião com relação à reforma administrativa, agora é a favor da manutenção da estabilidade dos funcionários públicos.

Essa impessoalidade do discurso “a gente”, quando o sujeito tem nome, sobrenome e endereço, dialoga muito bem com a falta de responsabilidade que circula hoje no país. Apesar de estar sem máscara, a gente não conhece a cara de quem não está usando. Afinal, ao contrário de outros países sérios, aqui não se multa quem não estiver usando o artefato, por uma série de razões (falta de vontade política, falta de confiança na vigilância e cobrança dessa multa, extrema desigualdade social que impede de saber quem não está usando por falta de dinheiro, ignorância, negligência ou deliberado apoio ao presidente).

O não uso de máscaras já provocou diversos tipos de conflitos diários na sociedade brasileira, desde abuso de poder até violência física, escancarando, mais uma vez, nossas desigualdades e impunidade. Vide a atendente de uma padaria que teve o braço quebrado ou o manobrista que foi agredido, ambos, em cidades diferentes, mas sempre por clientes que se recusam a colocar máscara. Recentemente, o presidente da República, ao ter uma criança colocada em seus braços, retirou a máscara dela. Isso não deveria ser considerado crime?

Essa impessoalidade está também no discurso de famosos, gente com conta bancária suficiente para três encarnações, mas, que, ao tentar descer do muro, tem medo de se arranhar publicamente. Ivete Sangalo talvez seja o maior exemplo disso. Mesmo sem falar no nome do agente do caos que ocupa a Presidência da República, aumenta a lista de celebridades que vêm se posicionando agora contra o governo.

Isso faz parte, também, do efeito manada, como tudo no Brasil. Ao ficar claro que existe uma maioria na opinião pública, a tendência é que mais pessoas comecem a seguir esse mesmo caminho. Outro exemplo é o post dos Titãs, feito no dia 25 de junho: “Chega de destruição! O atual governo ataca o meio ambiente, a cultura, a ciência, a tolerância, a diversidade, o bom senso e a democracia. Nos posicionamos com a maioria de brasileiros que desejam o fim imediato de tanta incompetência, descaso e desumanidade. Fora Bolsonaro!”

Algo que me incomoda nessa mensagem do trio remanescente da banda paulistana é o trecho: “Nos posicionamos com a maioria de brasileiros”. E aqui eis uma questão: os músicos só resolveram se posicionar depois que perceberam, através de pesquisas, protestos nas ruas, CPI, hashtags nas redes sociais, capas e editorais de jornais nacionais e internacionais, posts de famosos, que o correto a se fazer neste momento é divulgar o apoio à saída de Bolsonaro? E se fosse uma minoria sensata e informada diante do caos evidente? A política desastrosa em várias áreas, as falas, os gestos, as ações, já não eram suficientes? A catástrofe na saúde só foi digna de indignação quando despontou a palavrinha mágica “corrupção”? A tragédia só pesou para muitos após atingir o número de 500 mil mortos?

No texto Beto Rezende, único, publicado nesta coluna em agosto de 2020, falei sobre essa questão: “Os números, principalmente os redondos, motivam reportagens especiais. A imprensa já preparava os textos sobre essa terrível marca dos 100 mil, enquanto muitos doentes ainda lutavam para sobreviver. A atenção maior a esses algarismos fechados é uma forma involuntária de menosprezo ao número de mortos, enquanto eles estavam em 99, 73, 68, 41 mil. E agora, enquanto escrevo este texto, já são mais de 119 mil. Quando o jornalista pernambucano (nascido em Sergipe) Beto Rezende se foi, aos 60 anos, em 18 de agosto, a taxa de vítimas fatais da Covid-19 já passava de 110 mil e ele nem estava contabilizado oficialmente. Para o presidente da República, que não sabe administrar o país ou se comportar minimamente bem em público, e já demonstra estar em campanha para 2022, meu amigo querido, inteligente, criativo, ético, corajoso, combativo, intenso, generoso é apenas mais um número para engrossar uma inconveniente estatística que atrapalha seus planos de reeleição ou escalada autoritária.”

Agora, no subterrâneo das redes sociais fala-se que não devemos focar nos 500 mil mortos, mas, sim, nos milhões que sobreviveram. A ignorância ou o oportunismo no Brasil sempre surpreendem em criatividade. É preciso repetir o óbvio: desde o começo, foi informado que a Covid-19 mata um percentual menor de pessoas infectadas. Por isso, existe a necessidade de reduzir o quantitativo de infectados. Porque, lógico, menos pacientes morrerão e menor é a chance de desenvolvimento de novas variantes. Logo, a conclusão é: não importa, nessa equação, o número de sobreviventes, porque eles sobreviveriam, de qualquer forma, independentemente do governo federal, tomando cloroquina ou Toddynho.

Mas o percentual de mortos poderia ter sido reduzido se as vacinas tivessem chegado antes – foi o que confirmaram o epidemiologista Pedro Hallal e a médica Jurema Werneck, no dia 24 de junho, em depoimento à CPI. E mesmo antes da vacinação, o percentual de sobreviventes sempre foi maior que o de mortos. Porém, na lógica dos bolsonaristas ou dos novos isentões, o argumento do número de recuperados é válido, otimista, humano e gratiluz.

Talvez o número de mortos não importe tanto para essas pessoas porque, como confirmaram as estatísticas de Hallal, a maioria das vítimas fatais pela Covid-19 é de negros, pardos e indígenas. Vale destacar que o depoimento dele teve bem menos repercussão do que o da infectologista Luana Araújo, que, na prática, pouco acrescentou à CPI, mas foi impulsionado pelas suas frases de efeito somadas à beleza da médica, exaltada em posts, memes e comentários nas redes sociais e até na imprensa.

Esses novos isentões, os nem-nem (que incluem os bolsonaristas arrependidos), se acham o último copo de água gelada do deserto, se imaginam acima do bem e do mal, vide o discurso da atriz Juliana Paes. Dizem, com orgulho, “nem Bolsonaro nem Lula”. Esperam a Terceira Via como se fosse a Volta de Jesus Cristo. Não têm a menor ideia em quem vão votar. Ou se vão votar em alguém. O voto em branco ou nulo, para eles, é uma opção. Enquanto isso, o Capetão despacha na presidência. E, mesmo que Lula apresente, nas pesquisas atuais, chance de vencer no primeiro turno, o que seria, no mínimo, uma solução confiável para nos manter a democracia, nunca se duvide da capacidade do Brasil de surpreender para o pior.

Enquanto essas pessoas buscam desesperadamente uma justificativa para amenizar sua fatia de culpa nessa tragédia, por terem votado 17 em 2018, não há papel de jornal ou espaço na internet que dê conta de humanizar um número tão grande de mortos. Até chegar 2022, Bolsonaro já prepara o seu subterfúgio “voto impresso” para um golpe e esses nem-nem, seres puros e imaculados na política, reforçam a tese do editorial do Estadão de 2018, “uma escolha muito difícil”. Teremos um 2018 – parte 2? Para quem gosta de continuação ou remake, o pacote é completo.

Enquanto isso, o pedido de impeachment, para os recém-chegados ao #forabolsonaro, é uma doce conveniência. Não significa apenas instinto de sobrevivência, empatia, forma de evitar um golpe na democracia ou arroubo de consciência política aos 45 do segundo tempo do apocalipse brasileiro. A burguesia, percebendo que não consegue lidar civilizadamente com o bolsonarismo, quer descartá-lo do páreo para buscar uma alternativa, ela mesma, na disputa com Lula, o possível vencedor de 2022. E ser contra Bolsonaro agora é mais do que oportuno e vantajoso para a imagem pública nas redes sociais. Até lá, o que se passa(rá) no Brasil em todas as áreas só tem um nome: tragédia. 

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*As opiniões expressas pelos autores não representam
necessariamente a opinião da revista Continente.

 

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