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Mirante

Eles tornam nosso mundo menor

TEXTO Débora Nascimento

29 de Abril de 2022

Imagem Arte de Matheus Melo sobre foto do Wikemedia/Copyleft

Com atraso de três anos, assisti à minissérie Unbelievable (2019, Netflix), que, no Brasil, ganhou a tradução literal: Inacreditável. No país, a palavra pode significar uma expressão de surpresa diante de algo impensável, incrível, ou algo que não mereça crédito, não acreditável. O título em português dá uma dimensão semântica maior à história real da investigação de uma série de estupros cometidos por um mesmo criminoso nos Estados Unidos.

O título em questão refere-se à personagem que é fio condutor de toda a história, uma jovem órfã, Marie Adler, vítima de estupro, que, em meio à obrigação de dar tantos depoimentos a diversos policiais homens, e na falta de evidências do estupro (porque o criminoso tomou todas as precauções), acaba sendo desacreditada e é processada pelo município por falso testemunho.

No desfecho da série, uma das vítimas diz algo que acaba sendo muito simbólico. Ela afirma que o estuprador apequenou o mundo dela, porque ela deixou de fazer muitas das coisas de seu cotidiano, pelo medo e pela sensação de insegurança que o ataque gerou. Nesse momento, pensei: não seria exatamente isso o que os homens historicamente fazem ou, sendo mais específica, o que o machismo estrutural faz com as mulheres? Ele torna nosso mundo menor.

Quando penso sobre isso, a primeira coisa que me vem à cabeça não é o nosso mundo menor em oportunidades, opções, escolhas, ideias, objetivos, anseios, desejos. Não é o preconceito nas contratações de profissionais femininas, a desvalorização da presença das mulheres nas mais variadas profissões, os salários menores que os dos homens, a imposição de certos papéis, comportamentos e posições sociais às mulheres, mas, em primeiro lugar, me vem o medo imposto às mulheres ao andar pelas ruas de qualquer lugar do mundo, seja no seu próprio país, na sua própria cidade, no seu próprio bairro ou em um lugar estrangeiro.

O medo da violência e do feminicídio imposto às mulheres para que, inclusive, também se vistam de acordo com uma certa conduta social que não desperte a irrefreável libido masculina, que, uma vez despertada, precisa ser, no próprio imaginário masculino, consumada em nome de seu "sagrado" prazer, mesmo que seja através de um crime violento que vá gerar consequências incalculáveis sobre outras pessoas e até para ele mesmo. Mas eles sempre contam com a imensa janela de oportunidades de se safar que lhes dá o machismo estrutural. Essa lógica envolve a forma como a vítima será vista e tratada pela sociedade, como o crime será investigado, divulgado, julgado e punido.

Penso no que foi dito na minissérie Unbelievable e me lembro da primeira vez em que ouvi falar em estupro. Foi na infância. Eu tinha voltado de uma das casas da minha vizinhança. Estava brincando na rua e não lembro mais por que entrei naquela casa. Minha mãe não sabia onde eu estava. Na volta, ela disse que havia algo muito ruim que um homem podia fazer com uma mulher ou menina e isso era chamado de estupro e explicou o que era. Argumentou que na casa moravam muitos homens e o lugar vivia de portão aberto. E que aquele ambiente não seria seguro para mim, uma menina. A partir dali, meu mundo começou a se apequenar por causa do mundo masculino. Eu, que vivia sem medo de brincar nas ruas e de entrar nas casas dos vizinhos, pais de meus amigos e amigas, comecei a ser impactada pelas histórias de raptos de crianças praticados por homens, divulgados no noticiário ou pelas lendas urbanas.

Quando a adolescência começou e a mudança no corpo passou a ficar indisfarçável, enquanto eu ainda brincava e brigava com meninos, passei a ficar incomodada ao ir para a escola e ter que passar por um homem que morava em outra rua e sempre ficava plantado na calçada naquele horário, observando o tráfego de transeuntes, especialmente mulheres. Não gostava do olhar dele e do silêncio constrangedor ao caminhar por perto. Sentia uma ameaça assustadoramente natural, como um animal mais frágil deve sentir na presença de outro maior, de outra espécie, cujo ataque fatal vai depender da fome e da oportunidade que este tiver. Essa sensação espontânea e não racional de vulnerabilidade me incomodava bastante e eu queria me sentir diferente e indiferente à situação, mas o sentimento era mais forte que eu. Talvez fosse um dispositivo, até, intrínseco de sobrevivência da espécie, algo darwiniano e não somente acionado pelo alerta de minha mãe.

Eu começava a aprender os códigos sociais que me indicavam, de alguma forma, como me proteger ou, melhor, me afastar de um possível ataque. Mas imagino como isso deva ser brutal, quando a figura feminina em questão é confrontada com o machismo estrutural de uma sociedade estranha a ela e essa figura é uma adolescente de 12 anos que simplesmente vive na floresta, sem roupa, entre os parentes de sua aldeia. Foi isso o que aconteceu, no mês em que se comemorava o Dia da Resistência Indígena, com uma garota yanomami atacada por garimpeiros em Roraima. Raptada, estuprada e morta em decorrência dessa violência. O caso foi denunciado em vídeo publicado nas redes sociais, no dia 25 de abril, por Júnior Hekurari Yanomami, líder indígena e presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami e Ye’kwana (Condisi-YY). Por conta da denúncia, o ativista está sendo ameaçado de morte por garimpeiros.

Dias depois, a Polícia Federal foi ao local de dificílimo acesso e, em seguida, comunicou à imprensa não ter encontrado indícios do crime de estupro (e também do desaparecimento de uma menina de 3 anos num rio), pois não havia um corpo. Ou seja, essa vítima de um crime hediondo está em situação muito pior do que a jovem retratada na minissérie: sua história não é somente desacreditada, mas, a menina não tem rosto, não tem nome, não tem passado e agora não tem futuro.

Segundo líderes indígenas, são poucas as denúncias de casos de mortes e violência que conseguem ser apuradas e concluídas. Dentre as barreiras para a investigação, estão o difícil acesso às Terras Indígenas (TIs), a dificuldade de comunicação através de tecnologia, o idioma distinto e a deslegitimação dos relatos dos indígenas. Enquanto isso, ocorrem casos de aliciamento, assédio a meninas e adolescentes, abuso sexual contra mulheres e crianças, e algumas são embriagadas.

Desde a invasão deste território pelos europeus nos 1500, indígenas vêm sendo estupradas e os povos originários, dizimados como um todo. Mas a documentação desse genocídio que ocorre há mais de 500 anos no país também carece de informações precisas. Ou seja, nem “estatística” os indígenas se tornavam. Hoje é mais fácil contabilizar e divulgar números. Porém, calcular o quantitativo da população que existia e da que foi assassinada desde a colonização no Brasil é algo baseado em hipóteses. “A população nativa no século XVI, segundo alguns autores, era estimada entre 2 e 4 milhões de pessoas distribuídas em 1 mil povos diferentes. Segundo Darcy Ribeiro, em O povo brasileiro (1995), só na primeira metade do século XX, a população total teria diminuído de 1 milhão para 200 mil pessoas, sendo dizimados mais de 80 povos indígenas”, pontuei na reportagem De como a ambição massacra um povo, publicada pela Continente em um especial de abril de 2017.

Destacou Darcy Ribeiro no mesmo livro: “A branquitude trazia da cárie dental à bexiga, à coqueluche, à tuberculose e ao sarampo. Desencadeia-se, ali, desde a primeira hora, uma guerra biológica implacável. De um lado, povos peneirados, nos séculos e milênios, por pestes a que sobreviveram e para as quais desenvolveram resistência. Do outro lado, povos indenes, indefesos, que começavam a morrer aos magotes. Assim é que a civilização se impõe, primeiro, como uma epidemia de pestes mortais. Depois, pela dizimação através de guerras de extermínio e da escravização. Entretanto, esses eram tão só os passos iniciais de uma escalada do calvário das dores inenarráveis do extermínio genocida e etnocida”.

Dentre as dores inenarráveis, podem ser elencadas as chantagens de garimpeiros que exigem sexo com meninas e mulheres indígenas em troca de comida – segundo alertou o relatório da Hutukara Associação Yanomami, no dia 11 de abril. Enquanto isso, brasileiros ignoram esses problemas e votaram em um presidente da República que não tem o mínimo respeito pelos povos indígenas, pelas suas terras e pela vida alheia. O presidente ou faz vista grossa ou incentiva a invasão das TIs, o desmatamento e o garimpo. Eleitores que, ao depositar sua confiança em um ser não confiável, argumentaram, “se fizer mxxxx, a gente tira”, estabelecendo uma comparação direta ao impeachment de Dilma Rousseff em 2016, ou são ignorantes ou desinformados ou ingênuos ou cínicos. Pois as consequências desastrosas de experimentar um aventureiro na presidência não recairá diretamente sobre eles.

O presidente da República vem incentivando, em diversas falas, o garimpo ilegal, que polui e destrói rios, peixes e alimentos. Há provas de contaminação de mercúrio. Indígenas se veem obrigados a ingerir comida contaminada para não morrerem de fome. No ano passado, a imagem de uma criança yanomami doente, que era apenas pele e osso, deitada em uma rede, comoveu os que viram a foto e que tinham o mínimo de empatia.

Mesmo com o mundo conectado, essas “notícias da floresta” demoram a chegar, mas chegam e só não geram mais comoção porque não envolvem pessoas das áreas urbanas. Apenas durante a Comissão da Verdade, soubemos que mais de 8 mil indígenas foram mortos durante a construção de quatro rodovias pertencentes ao Plano Nacional de Integração (PIN), do governo Médici: a BR-174 (Manaus a Boa Vista); a BR-210, Perimetral Norte; a BR-163, que liga Cuiabá (MT) a Santarém (PA); e a BR-230, a Transamazônica. Mas antes falava-se somente dos 434 mortos e desaparecidos políticos, porque, convenhamos, eram, em sua maioria, de áreas urbanas, brancos e de formação universitária. Nós não seremos nunca, nunca, nunca um país civilizado enquanto permitirmos que canalhas possam cometer esse tipo de violência contra indígenas e saiam impunes, desconhecidos da Justiça.

A menina yanomami teve o corpo cremado como parte da tradição do povo. Inclusive, a comunidade, situada na aldeia Arakaçá, foi queimada e saíram do local 24 pessoas. De acordo com o site Amazônia Real, há uma explicação para isso, que pode responder à pergunta que circula nas redes sociais: “Cadê os Yanomami?”. Segundo líderes indígenas ouvidos pelo veículo de comunicação que trata dos temas relativos aos povos originários, essa é uma tradição dos Yanomami, após a morte de um ente querido: “Quando isso acontece, a comunidade é queimada e todos que ali residiam partem para um novo local”. Mas, em meio a isso, há a denúncia de que indígenas receberam cinco gramas de ouro para silenciar sobre o crime ocorrido. Segundo Júnior Hekurari, em depoimento à PF na quinta-feira (5/5), os indígenas desaparecidos foram encontrados.

O Território Yanomami, que está completando 30 anos de homologação, sofre hoje com a invasão de 20 mil garimpeiros, inclusive ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Houve um crescimento de 46% na atividade ilegal, em 2021.

Por conta de tudo que vem acontecendo na TI, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) entrou, na quinta (5/5), com uma petição no Supremo Tribunal Federal informando o descumprimento, por parte do governo federal, das medidas ordenadas pelo STF há exatamente um ano. Em um documento de 33 páginas, a Apib exige agora a retirada imediata dos invasores e elenca as ações urgentes e os prazos para que medidas sejam tomadas. Em maio de 2021, a Corte exigia medidas de proteção à vida, segurança e saúde dos Yanomami, a contenção e o isolamento dos garimpeiros em Roraima. Mas somente na última quinta (5/5), a Polícia Federal anunciou que vai instalar, até o final deste mês, uma base no local e que permanecerá por seis meses.

Nesse mesmo dia, a ex-ministra Damares Alves (que vai se candidatar ao Senado, mesmo após uma passagem desastrosa no Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos), finalmente se pronunciou e disse: “Lamento, mas acontece todo dia”. 

Menina yanomami de 12 anos, estuprada e morta por garimpeiros, você não tem nome na imprensa. Para o Brasil, você é apenas um número, diferentemente daqueles das imagens de Marcados, série de Claudia Andujar que ajudou a salvar esse mesmo povo. Para os homens que comandam a nação, você é um número que o Brasil perdeu a conta desde 1500, um número que o país ignora e com o qual não se importa. Você é um dos milhares de exterminados em um longo genocídio que não vai ganhar museu e nome próprio, como o Holocausto.

Meninas yanomami, este país desgraçado, hostil, miserável e canalha não merece suas existências inofensivas, indefesas, inocentes, protetoras da floresta amazônica. Existências que nos defendem do nosso próprio fim como humanidade. Não conhecemos seu rosto, menina. Nunca vamos conhecer. Quem era você? Quem você seria?

Os homens tornam não somente o mundo das mulheres menor; mas o mundo de todos se apequena em território, em diversidade, em beleza, em paz, em chance de sobrevivência como espécie. A luta deve ser para impedir essa redução populacional, intelectual, territorial e simbólica.

“Nos deram espelhos e vimos um mundo doente.”

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*As opiniões expressas pelos autores não representam
necessariamente a opinião da revista Continente.

 

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